De homem para mulher
A seman foi dominada pelo processo Casa Pia a nível nacional e por uma curta-metragem de Pedro Varela nas redes sociais. Enquanto Fátima Campos Ferreira moderava arguidos, vítimas e advogados em horário nobre, corria célere no Facebook um delicioso filme sobre a importância do sexo oral para as mulheres, inspirado numa crónica de Ana Anes, autora de 7 Anos de Mau Sexo, livro já por mim aqui comentado.
As mulheres são bonitas, desinibidas, de diferentes idades e raças, e todas elas comentam a falta de habilidade comum a tantos machos no que respeita à prática do sexo oral. Além de nos fazer rir, não restam dúvidas de que o que estas mulheres ali afirmam contém uma elevada dose de informação didáctica; elas explicam como deve ser feito enquanto criticam com humor como não deve ser praticado. O filme é divertido, instrutivo e nada embaraçoso porque põe a nu esta questão delicada sem nunca se tornar pornográfico na sua linguagem. Elas são giras, normais, muito girl next door e tudo o que dizem faz sentido.
Mas voltemos um bocadinho atrás. Da mesma forma que os segredos para fazer sexo oral de qualidade a um homem não são um dado adquirido para todas as mulheres – até porque há muitas que nem sequer gostam e diz o bom senso que é praticamente impossível fazer uma coisa bem se não existe nem gosto nem prazer quando se faz –, o sexo oral de homem para mulher também requer rodagem, treino e alguns truques. E precisa de abertura cultural para ser praticado. O facto de um homem se dispor a proporcionar sexo oral a uma mulher começa por não ser óbvio numa sociedade ainda profundamente machista que vê muitas vezes a mulher como um objecto que está ali para ser usado, revirado e muitas vezes abusado, não raro também como saco de boxe.
A realidade é que em Portugal o sexo sempre foi mais do estilo ‘tumba, tumba, tumba’, já que o macho nacional em geral não só não é dado a grandes subtilezas como considera os chamados preliminares uma maçada e uma perda de tempo. O que ele quer é cobrir, dominar e sobretudo aliviar-se, daí que entre os vários nomes carinhosos dados ao sexo da mulher também conste ‘a perseguida’. E desta vez não estou a fazer ficção – ouvi de fonte segura e fidedigna da boca de uma senhora que não se importava que o marido fosse tratar do assunto com a vizinha só para não a massacrar.
Que me perdoem os cidadãos dedicados a esta causa, os que não só gostam de dar prazer a uma mulher como sabem fazê-lo – os quais, a bem da nação, espero que sejam muitos e desejo que venham a ser muitos mais –, mas o macho português podia aproveitar este momento para ver o filme até fixar a informação mais importante e encará-lo como um workshop gratuito, uma espécie de curso intensivo e ainda por cima grátis no sentido de se cultivar um pouco mais nesta área, da mesma forma que também já se interessa por puericultura quando é pai e participa nas reuniões escolares. Saber fazer bom sexo oral a uma mulher, de preferência a sua, deveria passar a constar da lista dos feitos masculinos dignos de nota, tal como ganhar um jogo de futebol com a equipa do bairro ou conseguir uma promoção. Sabem porquê? Porque nós queremos, gostamos e merecemos. E, em nome das mulheres portuguesas, a malta agradece.