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Serve esta crónica para retratar e comentar um certo elemento que existe frequentemente em grupos masculinos e que responde pelo nome genérico de ‘Gordinha’. A Gordinha é aquela amigalhaça companheirona que desde o liceu cultivava o estilo maria-rapaz, era espertalhona e bem-disposta, cheia de energia e de ideias, sempre pronta para dizer asneiras e alinhar com a malta em programas. Ora acontece que a Gordinha é geralmente gorda e sem formas, tornando-se aos olhos masculinos pouco apetecível, a não ser em noites longas regadas a mais de sete vodkas, nas quais o desespero comanda o sistema hormonal, transformando qualquer bisonte numa mulher sexy, mesmo que seja uma peixeira com bigode do Mercado da Ribeira.
A Gordinha é porreira, é fixe, é divertida, quer sempre ir a todo o lado e está sempre bem-disposta, portanto a Gordinha torna-se uma espécie de mascote do grupo que todos protegem, porque, no fundo, todos têm um bocado de pena dela e alguns até uma grande dose de remorsos por já se terem metido com a mesma nas supracitadas funestas circunstâncias. E é assim que a Gordinha acaba por se tornar muito popular, até porque, como quase nunca consegue arranjar namorado, está sempre muito disponível para os mais variados programas, nem que seja ir comer um bife à Portugália e depois ao cinema.
À partida, não tenho nada contra as Gordinhas, mas irrita-me que gozem de um estatuto especial entre os homens. Às Gordinhas tudo é permitido: podem dizer palavrões, falar de sexo à mesa, apanhar grandes bebedeiras e consumir outras substâncias igualmente propícias a estados de euforia, podem inclusive fazer chichi de pernas abertas num beco do Bairro Alto porque como são ‘do grupo’ toda a gente acha muita graça e ninguém condena.
Agora vamos lá ver o que acontece se uma miúda gira faz alguma dessas coisas sem que surja logo um inquisidor de serviço a apontar o dedo para lhe chamar leviana, ordinária, desavergonhada e até mesmo porca. Uma miúda gira não tem direito a esse tipo de comportamentos porque não é one of the guys: é uma mulher e, consequentemente, deve comportar-se como tal. E o que mais me irrita é quando as Gordinhas apontam também elas o dedo às giras, quando estas se comportam de forma semelhante a elas.
Ser gira dá trabalho e requer alguma diplomacia. Que o digam as minhas amigas mais bonitas e boazonas que foram vendo a sua reputação ser sistematicamente denegrida por dois tipos de pessoas: os tipos que nunca as conseguiram levar para a cama e as gordas que teriam gostado de ter sido levadas para a cama por esses ou por outros. Uma mulher gira não pode falar alto nem dizer palavrões que lhe caem logo em cima. Já uma Gordinha pode dizer e fazer tudo o que lhe passar pela cabeça, porque conquistou um inexplicável estatuto de impunidade.
Porquê? Porque não é vista como uma mulher? Porque todos têm pena dela? E, já agora, porque é que quando uma mulher está/é gorda nunca ninguém lhe diz, mas quando está/é magra, ninguém se coíbe de comentar: «Estás tão magra!?»
Como dizia a Wallis Simpson: «Never too rich, never too slim». E quanto às Gordinhas, o melhor é arranjarem um namorado. Ou uma dieta. Ou as duas coisas.
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A seman foi dominada pelo processo Casa Pia a nível nacional e por uma curta-metragem de Pedro Varela nas redes sociais. Enquanto Fátima Campos Ferreira moderava arguidos, vítimas e advogados em horário nobre, corria célere no Facebook um delicioso filme sobre a importância do sexo oral para as mulheres, inspirado numa crónica de Ana Anes, autora de 7 Anos de Mau Sexo, livro já por mim aqui comentado.
As mulheres são bonitas, desinibidas, de diferentes idades e raças, e todas elas comentam a falta de habilidade comum a tantos machos no que respeita à prática do sexo oral. Além de nos fazer rir, não restam dúvidas de que o que estas mulheres ali afirmam contém uma elevada dose de informação didáctica; elas explicam como deve ser feito enquanto criticam com humor como não deve ser praticado. O filme é divertido, instrutivo e nada embaraçoso porque põe a nu esta questão delicada sem nunca se tornar pornográfico na sua linguagem. Elas são giras, normais, muito girl next door e tudo o que dizem faz sentido.
Mas voltemos um bocadinho atrás. Da mesma forma que os segredos para fazer sexo oral de qualidade a um homem não são um dado adquirido para todas as mulheres – até porque há muitas que nem sequer gostam e diz o bom senso que é praticamente impossível fazer uma coisa bem se não existe nem gosto nem prazer quando se faz –, o sexo oral de homem para mulher também requer rodagem, treino e alguns truques. E precisa de abertura cultural para ser praticado. O facto de um homem se dispor a proporcionar sexo oral a uma mulher começa por não ser óbvio numa sociedade ainda profundamente machista que vê muitas vezes a mulher como um objecto que está ali para ser usado, revirado e muitas vezes abusado, não raro também como saco de boxe.
A realidade é que em Portugal o sexo sempre foi mais do estilo ‘tumba, tumba, tumba’, já que o macho nacional em geral não só não é dado a grandes subtilezas como considera os chamados preliminares uma maçada e uma perda de tempo. O que ele quer é cobrir, dominar e sobretudo aliviar-se, daí que entre os vários nomes carinhosos dados ao sexo da mulher também conste ‘a perseguida’. E desta vez não estou a fazer ficção – ouvi de fonte segura e fidedigna da boca de uma senhora que não se importava que o marido fosse tratar do assunto com a vizinha só para não a massacrar.
Que me perdoem os cidadãos dedicados a esta causa, os que não só gostam de dar prazer a uma mulher como sabem fazê-lo – os quais, a bem da nação, espero que sejam muitos e desejo que venham a ser muitos mais –, mas o macho português podia aproveitar este momento para ver o filme até fixar a informação mais importante e encará-lo como um workshop gratuito, uma espécie de curso intensivo e ainda por cima grátis no sentido de se cultivar um pouco mais nesta área, da mesma forma que também já se interessa por puericultura quando é pai e participa nas reuniões escolares. Saber fazer bom sexo oral a uma mulher, de preferência a sua, deveria passar a constar da lista dos feitos masculinos dignos de nota, tal como ganhar um jogo de futebol com a equipa do bairro ou conseguir uma promoção. Sabem porquê? Porque nós queremos, gostamos e merecemos. E, em nome das mulheres portuguesas, a malta agradece.
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QUANDO amamos alguém, também amamos a pessoa na qual nos tornamos ao lado de quem amamos. Gostamos daqueles em quem nos revemos, mas também de quem nos estimula, nos desafia, nos ensina a olhar para o mundo de outra maneira. E depois, porque isso nos faz ficar mais atentos, mais lúcidos, mais qualquer coisa, gostamos de gostar daquela pessoa, sentimo-nos maiores e melhores do que pensávamos ser e é assim que se criam aqueles laços que fazem nós e que mais tarde acabam por se revelar difíceis de desfazer. Não há afecto sem apego, da mesma maneira que não há voo sem queda, nem luz sem sombra. O apego é um pau de dois bicos, tanto nos pode forrar a alma a papel de seda como dar-nos cabo dos dias se aqueles que amamos se afastam de nós.
NUMA ENTREVISTA antiga feita a Agustina Bessa Luís, ela citava o que o avô lhe ensinara: «Apoia-te sempre, nunca te agarres». Aprender a encontrar o equilíbrio entre o afecto e o apego é uma tarefa árdua e perpétua, porque queremos sempre agarrar aqueles que amamos, da mesma forma que os nossos filhos adormecem agarrados a nós ou deixamos que o cão se deite aos pés da cama. O apego é um vírus inteligente e poderoso que cresce e se multiplica de forma descontrolada, que entra em mutação para sobreviver, que se mascara de dedicação e de amizade, que raramente morre embora se possa neutralizar, correndo nas nossas veias sem cor nem forma, sempre em busca de uma circunstância favorável à materialização. E essa circunstância pode ser um olhar, um sorriso afável de alguém que nos chamou a atenção, que nos agradou e que de um momento para o outro queremos tornar próximo. São momentos de prazer difíceis de descrever quando olhamos para alguém e sentimos o sabor doce e morno do apego. Passar do apego à dependência é passar uma linha muito ténue, tão suave como a que separa a generosidade da estupidez. É preciso treinar o espírito e o coração para que o nosso afecto não se torne um peso tantas vezes insustentável para aqueles que amamos.
O problema é que precisamos dos outros para nos vermos. Sem aqueles que amamos por perto, tornamo-nos invisíveis. O amor leva-nos sempre a qualquer lado e situa-nos. Enquanto crianças procuramos instintivamente o amor e resistimos à indiferença com grande heroísmo. Depois, vivemos os primeiros amores da adolescência com todo o fervor e sem medos. A vida vai deixando as suas marcas, com umas aprendemos a amar melhor, com outras transformamos os nossos erros em hábitos.
E O APEGO cresce como uma erva daninha, quanto mais tempo passa, mais difícil se torna vermo-nos sem aquela pessoa ao nosso lado, não apenas porque a amamos e já criámos laços cheios de nós, mas porque o que somos hoje é já resultado do que vivemos, aprendemos e sentimos juntos.
Deve ser por isso que cortar laços é tão doloroso: além da perda do outro, também estamos a abdicar de um bocado de nós mesmos, daquela pessoa na qual já nos transformámos quando estamos com os que amamos. E também é disso que temos saudades.
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DEPOIS de alguns dias a passear pelo Algarve, descobri um lugar maravilhoso e constatei uma realidade incontornável. O lugar é a ilha da Barreta, ao largo de Olhão, inserida na bela Ria Formosa que muito jus faz a seu nome, com um areal a perder de vista e poucos veraneantes. A realidade incontornável, a poucos quilómetros dali, numa praia bem mais populosa, é que as portuguesas são em geral muito gordas.
A ver se me explico: elas não são cheiinhas, anafadas, bem nutridas, com uns quilos a mais. Nada disso, elas são mesmo muito gordas. E felizes com a sua gordura, porque é sem qualquer pudor que expõem os imensos peitos ao Sol e se munem de microscópicos biquinis que têm à frente o tamanho de uma folha de parra mirrada e atrás um triângulo, que não está ali para tapar carnes, mas sim para as exibir, com todo o esplendor. Ora estas senhoras que caminham lentamente para a água, não raro com um rebento nu pendurado por um braço, parecem não se importar com a sua gordura, até porque os cônjuges que as acompanham também não lhes ficam atrás, exibindo panças gigantescas, por vezes maiores do que barrigas de aluguer de trigémeos na quadragésima oitava semana.
OQUE se passa com este país? Porque é que há tanta gente anormalmente gorda? Não acredito que todos tenham distúrbios hormonais – e recordo uma personagem mítica do clássico Crónica de uma Morte Anunciada, Maria Alejandrina Cervantes, a facilitadora de serviços sexuais da aldeia, para quem comer sem medida sempre foi o seu único modo de chorar. Maria Alejandrina comia costeletas de vitela, lombo de porco e galinha ao pequeno-almoço, tudo isto acompanhado de banana e legumes, à turca, deitada em cima da cama, lânguida e sempre pronta para amar. «Senti o cheiro perigoso do animal do amor atrás de mim e senti que me afundava nas delícias das areias movediças da sua ternura» – escreve o autor, fazendo-me pensar que os gordos possuem encantos sexuais que desconheço.
O que é certo é que as senhoras gordas que vejo na praia me parecem mais sorridentes e felizes do que as poucas magras que por ali se estendem ao Sol e que exibem curvas mais suaves e harmoniosas com muito menos garbo. Talvez o ditado que reza «gordura é formosura» – ao qual eu sempre respondo com «magreza é beleza» – vença no território nacional.
COMER não é só uma necessidade: com a idade transforma-se em prazer, em vício, em obsessão. Conheci uma família de gordos que passava as refeições a relatar outros almoços e jantares de carácter histórico pelas inesquecíveis iguarias que deglutiram. Era uma família feliz, com excepção de um elemento – a minha amiga, da mesma idade que eu, desgraçadamente magra, como eu, e como tal, dada a tristezas e nostalgias.
Ser gordo não será um defeito, nem certamente um pecado – embora a gula faça parte da lista negra dos sete – e terá, admito reconhecer, encantos escondidos que não consigo alcançar. Deusas e mulheres da Antiguidade retratadas em estátuas e frescos tinham sempre o seu quê de carnes e do Renascimento a Botero a gordura impera. Será que ao transmitirem segurança, conforto, capacidade de procriação e sentido de protecção, por isso mesmo se tornam sexualmente atraentes, ganhando encantos próprios que arrumam as magras a um canto?
I wonder, I wonder.
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Depois de ter dedicado uma crónica a Dean Martin, pus-me a pensar porque é que as mulheres se sentem fatalmente atraídas por malandros. Afinal, once malandro, always malandro, o que quer dizer que um malandro acaba sempre por dar problemas. Há mais de dez anos, quando tropecei propositadamente num malandro encartado e me dei bastante mal, o meu primo Pedro Granger, a quem reconheço a rara qualidade da lucidez aliada ao senso comum disse-me que não está nas nossas mãos mudar a natureza das pessoas. Nunca mais esqueci tão sábia frase e a partir daí passei a andar mentalmente munida de um detector de malandros, até mais para as minhas amigas do que para mim, porque como o meu modelo familiar é de um homem fiel e eternamente apaixonado pela sua mulher, nem sequer me encanto particularmente com o género. Acredito que os padrões desempenham um papel fundamental nas nossas escolhas, daí que aprecie o género homem-bonito-discreto-fiel-e-calmo-com-vocação-para-a-bricolage em detrimento do engatatão-sedutor-da-noite.
MAS há malandros e malandros. Um malandro parvo, mentiroso e polígamo não assumido é uma coisa; um malandro inteligente, denso e confuso é outra. Um malandro não tem necessariamente de ser um mau tipo; pode ser um bom tipo numa fase má, ou um tipo confuso que não quer ser mau, mas que de vez em quando mete a pata na poça. Ou seja, um bom malandro. A expressão remete-me para um dos mais divertidos romances da história da literatura portuguesa, a Crónica dos Bons Malandros de Mário Zambujal, em grande parte responsável pelo meu gosto pela escrita e pelo meu estilo tantas vezes desbragado. O livro é encantador, da mesma forma que o é o autor, também ele um bom malandro, porque todos os malandros com bom coração merecem se não a nossa paciência, pelo menos a nossa complacência.
PARECE-ME que o Dean Martin era isso mesmo, um bom malandro, porque a verdade é que pintou a manta, mas quem lhe foi próximo fala dele com uma enorme ternura, ao contrário do que acontece com outras lendas de Hollywood. Marlon Brando, por exemplo, partiu corações em barda e com tal violência que pelo menos uma das suas apaixonadas optou pelo suicídio. Brando, que não devia nada ao nome, era belo, poderoso, atormentado e um actor ímpar, mas não possuía aquela bonomia do bom malandro, enquanto que Dean a tinha toda, no sorriso, na voz de veludo, e na forma irresistível como olhava para as mulheres.
Quando um homem olha assim para nós, o mundo pode parar de girar, que nós nem percebemos. O petróleo pode acabar que nós não nos importamos. E as Maldivas podem desaparecer, mas nós não temos pena de nunca lá ter ido, porque quando uma homem olha para nós daquela maneira, estamos, no céu, no Olimpo, num paraíso qualquer, que tanto pode ser debaixo de uma palmeira como numa varanda do um segundo andar. Uma mulher não precisa só de ser amada. Ela precisa, quer e gosta de ser desejada. E um bom malandro sabe lançar-lhe esse olhar, esse feitiço, e jogar com esse poder, mesmo que ande a trabalhar em outros tabuleiros.
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Há músicas – e músicos – que possuem o poder de me dispor bem automaticamente, como Billie Holiday, Stacey Kent, ou, ainda e sempre, antes e depois e acima de todos os outros, Dean Martin. Dean Martin, que alinhou com Frank Sinatra e Sammy Davis Jr. no lendário The Rat Pack, depois de ter conquistado a América em parelha hilariante com Jerry Lewis, era o que se levava menos a sério, na época de ouro do standards americanos; frequentemente, actuava com elevados níveis de alcoolemia no sangue, tropeçando nos próprios pés e esquecendo-se das letras, pequenos pormenores que só contribuíam para reforçar a sua aura de bon vivant inconsequente.
Como qualquer rapaz de sucesso do seu tempo, era casado com uma loira curvilínea e pai de uma extensa prole, sete rebentos em escadinha, e fazia questão de jantar todas as noites com a mulher e sua prole, embora, como se diz em português corrente, o que ele gostava mesmo era de copos e de paródia com os seus amigos de palco, que também o eram da vida. A biografia politicamente correcta difere em muito das outras, que o retratam como um grande malandro, o que é aliás compreensível num tempo em que a infidelidade masculina era uma espécie de must curricular, numa época em que não existia nem o medo da sida nem do julgamento da opinião pública.
Dean, que se chamava Dino e foi boxeur durante a juventude, começou a cantar por brincadeira e mesmo quando dominava as audiências com mais de 30 milhões de espectadores, nunca deixou de ser ele mesmo. Respeitado, estimado e amado pelos seus congéneres, nunca teve a ambição de Frank Sinatra e, ao contrário deste, sempre preservou com grande mestria e discrição as suas aventuras. Abordado pela imprensa sobre a inusitada presença de Shirley MacLaine no seio dos irredutíveis três machos que formaram o trio mais famoso da história da música americana, Dean respondeu com o seu sorriso irresistível, she’s just one of the boys e arrumou o assunto. Era bonito, sedutor, talentoso, possuía um físico invejável e uma inimitável voz de veludo, actuou ao lado de Marlon Brando e de Montgomery Clift, lendas consagradas quando eram ainda vivas, sem nunca se aperceber que também era já uma lenda, amada ainda hoje pela América e pelo mundo, quando entrou em Ocean’s Eleven. A sua capacidade de conquistar as audiências parece nunca lhe ter subido à cabeça e, no entanto, sempre que o revemos, sentimos aquele frio na barriga que só se manifesta perante os talentos únicos.
Mas acima do performer, do actor e do cantor extraordinário, Dean era terrivelmente sexy, hot, como se diz nas terras do tio Sam. Sempre que o oiço cantar You belong to me, Everybody loves Somebody, You’re Nobody till Somebody Loves You ou o inesquecível Sway, apetece-me entrar na máquina imaginária do tempo, viajar até Los Angeles, esconder-me no seu camarim e ter uma aventura inconsequente com ele, regada a copos e risota, hot and tender, wild and sweet. Ele é o irresistível malandro da minha vida e quem me dera ter vivido debaixo da pele da Shirley McLaine quando ela foi just one of the boys.
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Há mulheres que se apaixonam por gays? Sim. E gays que se apaixonam por mulheres? Também. Talvez tal realidade provoque no típico macho latino estranheza, perplexidade e, por que não dizê-lo, um certo nojo, mas é um facto que há histórias de amor profundo e duradouro entre gays e mulheres heterossexuais. O interesse de uma mulher por um gay pode ter a ver com padrões estéticos, mas passa também por um grau de entendimento intenso e completo, já que os gays muitas vezes percebem as mulheres melhor do que os homens, mesmo entre os que percebem de mulheres, porque uma coisa é saber como elas são e outra bem diferente é entendê-las intuitivamente. Um gay que goste de mulheres – com ou sem interesse sexual por elas – sabe naturalmente ler-lhes a alma. Ele possui uma facilidade nata para as perceber, enquanto um heterossexual nem sempre consegue o mesmo. «Há muitos anos que deixei de tentar perceber as mulheres, sei apenas que preciso muito delas», dizem-me com frequência os heterossexuais. Ora a diferença reside exactamente aqui: um heterossexual aceita ainda que não entenda, já um gay entende quase sempre uma mulher. Mas há ainda outra questão: se é comum dizer que o amor não escolhe idade, por que não assumir que o amor também pode escolher o sexo? E por que precisamos de classificar tudo? Os rótulos trazem-nos segurança porque nos balizam e representam o conjunto de valores com os quais nos identificamos. Porém, a vida é profícua em trazer-nos surpresas: uma pessoa pode encantar-se, envolver-se, enrolar-se e até mesmo apaixonar-se por uma pessoa do mesmo sexo ou por uma pessoa que tendencialmente não se interessa pelo nosso. O que condiciona ou impede estes impulsos tem muito mais a ver com a dita escala de valores e de princípios com base nos quais actuamos, do que com os nossos próprios instintos. Em período de férias, com sabor a viagens e a liberdade, os contornos de tais valores para uns, ou apenas preconceitos para outros, suavizam-se ao sol, com o álcool e ainda com o gosto pela aventura. As regras da atracção podem mudar ao sabor das marés, sem que se consiga estabelecer um padrão lógico. Mas o que torna tudo isto ainda mais complicado é a tendência quase automática de misturar amor com sexo e pensar que são a mesma coisa. Às vezes são, mas às vezes não. Por isso talvez seja mais importante saber separar este trigo deste joio: atracção, interesse, carinho, tesão, envolvimento, carência, amizade e amor são sentimentos todos diferentes e convém usar da lucidez para os saber separar, sob o risco de criar grande equívocos. No fundo, não são as regras que nos fazem felizes, mas a sabedoria de entendermos o que realmente queremos e o que conseguimos oferecer, sem julgar os outros, nem nos deixarmos julgar pelo próximo ou por nós mesmos. A regra que nunca pode falhar é a da integridade.
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Eis uma das frases mais divertidas e sábias que ouvi nos últimos tempos, proferida em jeito de desabafo por uma amiga minha, gira, solteira, boa rapariga e bem na vida, com razoável grau de independência, que reúne tudo o que é preciso para encontrar um par à altura, embora tal circunstância não se tenha ainda proporcionado: «A minha vida é um circo, entra palhaço, sai palhaço».
Quanto rigor e concisão em tão poucas palavras. De facto, se há denominação que tem variadas nuances e um leque interessante de significados, é a palavra palhaço, até porque em linguagem corrente, e dado o seu enorme índice de popularidade, tanto pode ser substantivo como adjectivo, Quando dizemos ‘o meu filho tem medo de palhaços’ – o que não é tão pouco comum quanto se pensa –, é uma coisa. Quando comentamos ‘fulano tal é um palhaço’, já é outra coisa. E o mercado está cheio deles, tanto no campo dos solteiros /divorciados, como no campo dos casados.
Há palhaços por todo o lado, embora, paradoxalmente, o bicho homem tenha imenso medo de fazer figura de palhaço. O problema que se coloca amiúde é que fazem mais vezes do que pensam; quando enganam, mentem ou contam meias verdades, quando se gabam aos amigos das suas proezas sexuais, quando fingem que são bestiais e que somos o centro da vida deles e depois vimos a descobrir, hélas, que afinal haviam mais duas ou três. E um tipo também é palhaço quando é mal educado, quando diz inconveniências, quando chega atrasado, quando se esquece do nosso dia de anos. Na verdade ele nem sequer precisa de ser um grande artista para ser um palhaço, embora alguns actores tenham especial talento, mas não é caso para alarme, pois trata-se apenas de um clássico caso de deformação profissional.
E depois existem vários tipos de palhaços, tal e qual como no circo: o palhaço rico, o palhaço pobre, o palhaço feliz, o palhaço triste, os palhaço que sabe dançar e fazer piruetas, o palhaço sofisticado do Cirque du Soleil, o palhaço sazonal, talvez aquele a que se refere Ney Matogrosso quando canta ‘Mas quem sou eu nessa vida tão louca/mais um palhaço no seu carnaval’, no triste Tema de Amor de Gabriela. Ora um tipo que se sente mais um palhaço no carnaval na vida de uma mulher é o equivalente ao que tantas vezes as mulheres se sentem depois de uma desilusão amorosa; elas sabem que foram apenas mais uma e nenhuma mulher gosta de ser mais um dígito a acrescentar a uma estatística, da mesma forma que nenhum homem gosta de pensar, ou pior ainda, que os outros pensem que foi um palhaço.
POR ISSO, caro leitor, a solução está à vista, se não quer ser tratado como um palhaço, não se comporte como tal. Excepção honrosa e carinhosa a toda a equipa da Operação Nariz Vermelho que anima os serviços de Pediatria dos hospitais com dedicação, profissionalismo e enorme espírito de missão, merecendo por isso todo nosso respeito e apoio. Quanto aos outros, o melhor é que saiam de cena rapidamente, de preferência pela porta do cavalo, para dar lugar a quem merece.
Entra palhaço, sai palhaço. E siga a marinha.
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Pais a tempo inteiro Caro Ronaldo, venho por este meio dar-te os parabéns pelo teu lindo rebento. Estamos a entrar em plena silly season e graças à tua inesperada paternidade os meios de comunicação já têm com que se entreter. Não se fala de outra coisa, por isso receio que o teu filho venha a ser uma criança quase tão mediática quanto a pequena Suri Cruise, que parece gostar ainda mais do estrelato do que o pai. Escrevo-te porque sou mãe e é bom saber que andas cá para dar o exemplo. Nos teus comentários, não importa o assunto, assumes habitualmente um discurso equilibrado e politicamente correcto sem soar a falso, portanto tenho-te em boa conta, não apenas como futebolista de excepcional talento, bem como proprietário de um ‘eight pack’ de igual calibre. Parece que o sucesso não te desconcentrou nem da bola nem do bom senso, o que, como sabes, é muito fácil de acontecer à rapaziada nova. E agora que és pai, ficaste ainda com mais charme, porque um homem para ser homem, tem de escrever um livro, plantar uma árvore e ter filho. Ora como não te imagino amarrado a uma secretária todos os dias durante meses a fio – não queiras esta vida, porque isto ou é para doidos ou para quem lá caminha – e enquanto não plantas outra coisa, pelo menos já presenteaste o mundo com um herdeiro, o que, além da tua fama universal, é uma bonita forma de tocar a eternidade. Vi-te recentemente do lado de dentro do portão da casa onde estás a passar férias com a tua extensa família na tentativa vã de descansar depois de tanta emoção junta em tão pouco tempo, e estavas quase de cabeça perdida, a pedir privacidade e sossego aos paparazzi que rondam o portão dia e noite, quais lobos famintos. Não te iludas jovem pai, porque tu não alimentas apenas a máquina do futebol mundial, tu alimentas a imprensa nacional, ávida de não assuntos, como por exemplo, este. Mas há outra razão pela qual te escrevo, a única importante: ao assumires a guarda exclusiva do teu filho estás a mostrar aos homens portugueses que eles podem fazer o mesmo, ou seja, que se podem tornar melhores pais. Mas atenção, nem todos têm o teu poder, os teus meios, nem um séquito de mulheres na família para ajudar a criar e a educar uma criança. Esperemos que o teu exemplo resulte numa chamada de atenção para que os pais de Portugal se tornem mais activos, porque já estou farta de ver as mães deste país a arcarem com as tarefas familiares e domésticas quase na sua totalidade. O português viaja pouco – embora esteja convencido de que é muito viajado porque aceita ser despejado em resorts tipo hiper – e por isso não se passeia pelas cidades da Europa, como Amesterdão ou Londres, onde é comum ver pais dedicados. Aqui no território, cruzo-me com eles no McDonald’s às quartas e aos fins-de-semana, a olhar para os seus descendentes com a apreensão colada à cara de quem se interroga: «E agora como é que me vou safar nas próximas 48 horas?». Em Portugal, salvo uma minoria notável de homens, ser pai ainda é um part-time job, por isso conto com a tua prestação de bom cidadão para mostrares que não o vais ser. E boa sorte com os biberões, com as fraldas e com o resto.
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Um homem pode ser alto ou baixo, gordo ou magro, atlético ou barrigudo, careca ou de cabeleira farta, divertido ou sério, desportista ou indolente, forcado ou sofisticado, solteiro, casado, viúvo ou divorciado, pode ter um rancho de filhos ou nenhum, adorar cães ou peixes, pode passar o fim-de-semana na pesca ou a fazer surf, mas há duas coisas que não lhe devem faltar: uma é carácter e a outra é a que todos sabemos, porque é com o carácter dele que contamos e porque é com ele que dormimos.
Ser um bom tipo não é ser um pau mandado, é fazer a coisa certa no momento certo. Um bom tipo é aquele que toma conta de nós e nos sabe mimar com conta, peso e medida. Um tipo com carácter até pode escorregar, mas não cai, ele cobiça discretamente o território alheio, mas não avança, porque ele veste a nossa camisola quando joga na nossa equipa. E vestir a camisola significa estar lá para o que der e vier, ou, como canta a maravilhosa Teresa Salgueiro, ‘haja o que houver’. Se for preciso, ajuda-nos a negociar o aumento no emprego e discute com o chefe da oficina o preço da revisão do nosso carro. Um tipo às direitas é alguém em quem se pode confiar. E a confiança não tem preço.
Ser um bom tipo não é difícil, o que é difícil é ser um bom tipo todos os dias. É certo que quase ninguém consegue, mas vale a pena tentar. Já o padre Américo, fundador da Casa do Gaiato, dizia que não há rapazes maus. É claro que todos sabemos que há um ou outro, mas quero acreditar que há mais bons do que maus. E mais tipos com bom coração do que se pensa. Porém, o coração não é tudo, se este não for sustentado por uma espinha dorsal decente, e é aí que entra o carácter. Porque pior do que um homem com mau carácter, é um homem sem carácter.
Um ‘sem-carácter’ não olha de frente, olha de lado, não diz nem ‘sim’ nem ‘não’, diz muitas vezes ‘talvez’ e ‘se calhar’. É aquele género que gosta de todas e não ama nenhuma, operando em tabuleiros paralelos, armado em campeão de xadrez. Não raro tem dois ou três telemóveis e vários endereços de e-mail. É um artista de circo altamente treinado em acrobacias emocionais, capaz de grandes piruetas e quedas à gato, sempre com os pés no chão, com ou sem rede. Nem sequer é uma espécie, porque como não tem categoria nenhuma, é mais uma subespécie, meio homem, meio verme, já que possui sangue frio e lhe falta espinha dorsal.
E não se iludam os que acreditam que um tipo pode ser íntegro em casa e corrupto no trabalho, ou honesto nos negócios e bandido no lar. Um bandalho é sempre um bom bandalho, seja à mesa de reuniões ou à mesa de jantar. E por fim, no corolário da canalhice, existe ainda o tipo sem carácter que finge que é bestial e se faz sério, de bom amigo, de bom chefe, de bom irmão e de bom marido. E esses, infelizmente, proliferam na sociedade portuguesa. São a versão masculina das mulheres que se fazem de pudicas e depois enganam o marido com o cunhado, o caixa do banco, o professor de ténis e o jovem musculado que faz a manutenção da piscina do condomínio. Mas essas ficam para outra crónica.
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É mais fácil amar alguém que é parecido connosco? Acredito que sim. Sejam parecenças a nível físico ou nas atitudes, valores e traços de personalidade, o factor espelho funciona ao mesmo tempo como um catalisador e uma fronteira dentro da qual gostamos de nos ver. Faz sentido. E também faz sentido que o amor opere numa base egoísta e narcísica, pelo menos no início de uma história amorosa, quando andamos à procura de alguém como nós, que nos entenda quando nos ouve, que nos ajude a querer ser melhores, que nos ponha num pedestal de dois lugares com amplas vistas para um futuro no qual tudo é possível.
Depois vem a parte mais difícil. A pose vai-se desfazendo com o tempo, ao mesmo ritmo que a convivência transforma em serotonina e em conforto o que antes foi risco e adrenalina. E então reparamos que o outro afinal tem um bocadinho de barriga, que ressona, que deixa sempre as meias no chão, que se esquece de fazer um favor que lhe pedimos, que nem todos os dias olha para nós com paixão. É quando começamos a ver o outro como ele era antes de o conhecermos, uma pessoa, autónoma, separada de nós. Em boa verdade sempre o foi, mas na fase do enamoramento entrámos no delírio da fusão e toda a gente sabe que a paixão é a mais dura das drogas e, consequentemente, a que nos rouba da realidade com mais eficácia. Parece que o LSD provoca alucinações maravilhosas, mas a droga do amor também já me pôs a viajar pela galáxia com asas brancas algumas vezes, via láctea incluída, por isso aprendi a ter algum cuidado de cada vez que me apetece levantar voo e dar a volta ao Universo qual ser alado e alienado da terra que piso.
No entanto, o que nos fez aproximarmo-nos daquela pessoa e apaixonarmo-nos por ela prevalece. São as tais afinidades que nos fizeram sentir em casa desde o início; o interesse pelas mesma artes, o amor aos mesmos livros, o mesmo gosto musical, ou episódios tão pueris como os dois terem tido muitas otites quando eram crianças. Também pode ser apenas a cor dos olhos, o tamanho das mãos, o léxico comum, o mesmo sentido de humor. Eu seria incapaz de me apaixonar por um homem que dissesse «mamã» e desse «a papinha com chichinha à bebé». Ou que usasse a expressão ‘o comer’ em vez de almoço. Ou que gostasse de passar férias na Cova do Vapor. Ou que ouvisse Leandro e Leonardo. Ou que não gostasse de Monty Phyton. Ou que usasse brincos pretos e bonés de pala virados ao contrário. Qualquer destes pequenos nadas seriam um turn off, como se o reflexo que tanto desejo de repente se transformasse num daqueles espelhos da feira popular onde nos vemos disformes, ridículos e grotescos.
A alegoria do espelho no Harry Potter é sábia e maravilhosa, porque o espelho nos mostra o que queremos ver. Da mesma forma que é apenas normal virarmos a cara e as costas a imagens destorcidas de nós próprios e dos outros. Nesse caso, mais vale escolher com critério e ser rigoroso, não vá o Diabo tecê-las e, num momento de maior paixão, saltar uma nota dissonante a estragar o idílio.
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Era uma vez uma empresa portuguesa na qual foi necessário fazer uma reestruturação, o que em bom português implica uma redução de pessoal.
Era uma vez um departamento dentro da empresa no qual o chefe do mesmo recebeu instruções para dispensar uma pessoa. E eram uma vez duas mulheres que trabalhavam nesse departamento.
Vamos inventar nomes: Cláudia, 20 e tal anos, alta, gira e boazona, solteira e com um segundo emprego como bartender numa discoteca da moda. E Isabel, discreta, organizada e competente, casada, perto dos 40 anos, com dois filhos pequenos e um marido com uma deficiência que se encontrava desempregado há alguns meses.

O chefe hesita, até porque Cláudia falta muitas vezes, enquanto Isabel cumpre escrupulosamente tanto o seu horário como a sua função. É natural, Cláudia vive numa agitação de noitadas e de namorados, Isabel vive preocupada em pagar a renda e em alimentar a sua família. Mas o chefe gosta de mulheres bonitas, vistosas, por isso chama Isabel ao seu gabinete e explica-lhe que é Cláudia quem vai ficar porque lhe faz «bem à vista». Tal e qual, ipsis verbis, «bem à vista».
O chefe pensa com as duas cabeças que a Natureza lhe deu, ou talvez só com a mais pequena, e mais, ele ainda tem a lata de usar a arma da sinceridade para se ilibar; ele revela a Isabel a verdadeira razão da sua escolha. E Isabel fica sem emprego, apesar de ter mais experiência, apesar de ser mais competente, apesar de tudo.
Este chefe não ponderou nem os factores decisivos para este tipo de situações, como a competência, a antiguidade, o empenho e o sentido de responsabilidade, da mesma forma que também não avaliou o enquadramento socioeconómico da sua subalterna. Nada disso, o importante é ele poder chegar ao seu local de trabalho e ver alguém que lhe faça bem à vista, isso sim é que é fundamental; ver uma mulher bonita, de formas generosas, que lhe encha a imaginação e lhe preencha as fantasias de macho. As vistas dele é que decidem.
Esta história não é das que a Isabel pode contar aos seus filhos antes de adormecerem, porque não tem um final feliz. Aqui, o dragão não pode ser vencido por um príncipe garboso montado num cavalo branco, a não ser que alguém faça uma fotocópia desta minha coluna e a entregue em mão, devidamente contextualizada, a quem de direito na dita empresa, para que o fim da história não seja este, porque infelizmente esta história não é inventada, aconteceu esta semana e, arrisco-me a dizer, acontece todas as semanas em milhares de empresas pelo mundo.
É uma vergonha que alguns homens pensem e ainda se sintam à -vontade para agir de forma tão abjecta e ignóbil. É uma vergonha para uma empresa deixar passar este tipo de situações. E é por estas e outras histórias de misoginia, de descriminação e de injustiça em relação ao género que agradeço ao meu querido jornal SOL o privilégio de me dar este espaço de opinião.
Fosse eu administradora desta empresa e teria já uma solução, digamos assim, também à vista, usando a expressão do chefe idiota: ele é que era despedido e aproveitava o momento para promover Isabel para o lugar dele. E assim o chefe já podia ir para casa lavar as vistas em sites de pornografia, que são grátis e não empatam a vida a ninguém, enquanto Isabel dirige o departamento. Pensando bem, não era nada mal visto.
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«HOJE vou variar», dizia uma certa menina de um anúncio de televisão que nunca se perdeu na minha memória e que tento localizar, com grande margem de erro, em meados dos anos 90. «Hoje – concluía triunfal – vou fazer maionese de gambas». Já não me lembro se o spot publicitário era a uma maionese, o importante era a conceito. E o conceito era variar, neste caso para melhor. Uma maionese de gambas em alternativa a uma posta de pescada cozida com batata e cenoura tornou-se para mim um símbolo do que pode ser um upgrade numa relação amorosa.
TODOS conhecemos os efeitos nefastos da rotina. Não resisto a citar uma amiga minha, divorciada, quando outra lhe perguntou se não tinha saudades da vida de casada. A minha amiga respondeu com o olhar vago e seráfico: «Sim, aquele senhor que estava sempre a dormitar no sofá e que pagava as contas todas, de facto dava imenso jeito». Há muitos factores que fazem com que um casamento sobreviva, como os filhos, os projectos em comum, a mesma visão da existência, hábitos de vida coincidentes, o bem-estar inerente ao convívio, etc. Um casamento até pode aguentar-se porque dá jeito, mas quando o outro se transforma numa pessoa de família e deixa de ter sex appeal, então é porque a rotina venceu. Ora o sex appeal é um bocado como a escrita: até pode ser uma facilidade nata, mas cresce e evolui como uma dificuldade adquirida. É preciso treino, concentração e dedicação. E não basta manter a linha, ter a depilação em dia e usar saltos altos. É, sobretudo, uma questão de atitude, acima da beleza a para lá do tamanho da cintura. É necessário inovar dentro da própria relação.
Por exemplo, se o caro leitor em vários anos de casado nunca fez uma massagem à sua cara-metade, então saiba que nunca é tarde para a surpreender. Em primeiro lugar, vai perceber que afinal até tem jeito para a coisa e, em segundo, ela vai ficar tão surpreendida que terá vontade de lhe retribuir o gesto com o conceito da maionese de gambas. Se ela anda cansada, leve-a a jantar fora a um restaurante novo do qual toda a gente fala, ou se ela for do estilo mais hippie ou desportivo, convide-a para ir comer um gelado à beira-mar numa noite de Verão. Os pequenos prazeres podem ser, afinal, os maiores. Às vezes, basta uma pequena mudança na rotina, um gesto, uma palavra, para a outra parte mudar o registo e se animar. Porém, é preciso tomar a iniciativa e avançar sem medo.
NUMA RELAÇÃO, há sempre o timoneiro que vai ao leme, mas nem sempre tem de ser o timoneiro a decidir tudo. O mais importante é que estejam os dois em sintonia durante a viagem, para chegar a bom porto, até porque se é uma viagem perpétua que se deseja, há que distribuir esforços e motivações ao longo do tempo. Outra amiga minha diz que um ano de casamento corresponde a um ano canino: sete anos de vida. Um casamento é uma empresa que requer vigilância e manutenção, na qual os critérios de eficiência têm muito mais a ver com a tolerância do que com o rigor e com a alegria do que com a produtividade.
Conseguir fazer uma maionese de gambas de vez em quando é uma boa receita. Na verdade, mais vale comer gambas do que pescada cozida. Além disso, está cientificamente provado que o marisco é um poderoso antidepressivo. E viva a maionese de gambas.
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Charlotte, Miranda, Samantha, Carrie e o inefável Mr. Big regressaram ao grande ecrã para cumprir a parte II de Sexo e a Cidade, o filme. Exageros de guarda-roupa aparte, voltei a encontrar as quatro amigas que tanto fizeram pelo pós-feminismo e pela solidariedade possível entre as mulheres em boa forma, embora já com as rugas e as olheiras dos 40.
Passaram 12 anos desde que a primeira temporada estreou, num tempo em que nenhuma das quatro era rica, sofisticada e casada. Agora, apenas uma resistiu a esse monstro/mito/pilar da sociedade americana que é o casamento. A única solteira do grupo combate furiosamente a menopausa e escolhe vestidos que são mais adequados a mulheres com um terço da sua idade. Samantha continua magra e provocadora, sem falhar o alvo quando seduz. Já as outras travam uma luta bem mais complexa, a de gerir cada uma o seu casamento. Charlotte e Miranda estão com as crianças pelos cabelos, enquanto Carrie vê o romantismo ser roubado por um LCD no quarto. Para onde vai o romantismo depois do casamento, questiona-se Carrie. Como evitar o terror provocado por uma babysitter nova, bela e bem apetrechada, atormenta-se Charlotte. Como conciliar a vida familiar com uma carreira, interroga-se Miranda.
Os fantasmas da vida de casada desfilam como numa passagem de modelos. Porém, o mais interessante é que estas personagens, altamente estereotipadas, mantêm-se fiéis à sua natureza: Carrie continua a pôr tudo em causa, Charlotte continua a ser a boazinha insegura, Miranda mantém a sua pose cáustica e eficiente e Samantha conserva o espírito aventureiro e sedutor. Ou seja, elas estão iguais e si mesmas, da mesma forma que nós, personagens da vida real, também mudamos muito pouco.
Podemos amadurecer, podemos aprender a fazer escolhas acertadas, podemos até desenvolver mecanismos de defesa contra os nossas fraquezas, mas a nossa natureza irá sempre prevalecer. Talvez por isso os estereótipos do filme sejam tão simpáticos para as mulheres e tão irritantes para os homens. É que nós somos mesmo assim: insatisfeitas, inseguras, angustiadas e sedutoras.
Ao longo de quase quatro anos de vida desta coluna tenho defendido a previsibilidade nos homens e imprevisibilidade nas mulheres, mas hoje estou aqui para dar a mão à palmatória e reconhecer que nós também somos muito parecidas e algo previsíveis: todas tememos o efeito devastador da rotina instalada, todas invejamos secretamente a pele luminosa de uma babysitter com metade da nossa idade, muitas de nós se angustiam em conciliar o trabalho com a casa e, em algum momento, já todas desejámos ser livres e inconsequentes. Todas acabamos por ter, quer o admitamos ou não, traços de cada uma das quatro, pela simples razão de que somos mulheres.
A parada de clichés a que se assiste no filme é boa por isso mesmo, por assumir que os clichés fazem parte da nossa vida. Mais vale ser um cliché do que uma aberração. E para a maior parte das mulheres, mais vale ter uma relação estável que nos dê trabalho do que uma existência emocional errante. É como ir à Feira Popular; andar na montanha russa pode ser muito excitante, mas se fossemos obrigados a dar uma volta todos os dias, dava-nos cabo dos nervos e da saúde.
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Acredito que o facto de ser filha de um biólogo e de uma psicóloga tenha condicionado desde muito cedo a minha forma de observar o mundo.
Quando era miúda não perdia um documentário sobre a vida na selva e foi ainda antes da adolescência que desenvolvi a propensão para observar os humanos e tentar perceber os seus comportamentos. Habituei-me a comparar pessoas a animais, nem sempre de forma pejorativa, embora por vezes não escapassem ao meu afiado e impiedoso sentido crítico. Por exemplo, a minha avó paterna era, sem dúvida, uma leoa, apesar da sua pequena estatura, que facilmente se podia transformar numa serpente, o meu avô paterno era um castor aplicado e trabalhador, e por aí fora.
Ainda hoje a biologia exerce um enorme fascínio sobre mim: gosto de observar nos meus cães os jogos de sedução e de poder que exercem um sobre o outro. Sem querer fantasiar demasiado, parece-me que a minha cadela é um sedutora nata, pois não dispensa uma visita relâmpago aos cães do jardim vizinho de cada vez que apanha o portão aberto, o que muito irrita o meu cão, que lhe rosna e lhe morde as orelhas, obrigando-a a deitar-se debaixo dele. Como boa fêmea ela aceita o castigo, fazendo de morta, enquanto espera que a fúria passe ao macho.
É evidente que isto pode ser fruto da minha imaginação, mas é um facto que ela corre atrás de tudo o que mexe, seja carro, cão ou pessoa, e que ele é do tipo desconfiado, aproximando-se apenas de quem gosta. Ela é sociável, alegre e oferecida, ele é reservado e dado à nostalgia. E como manda a natureza, é ele que comanda as operações no jardim: é o primeiro a dar o sinal de alerta e a patrulhar o portão e ela faz tudo o que ele faz, como uma sombra viva.
Na Natureza, é fácil identificar o macho alfa de um grupo de animais. Porém, entre os humanos, muitas vezes o alfa de uma família é a mulher, embora ela tenha, na maior parte dos casos, a capacidade de convencer o marido de que é ele quem manda. Quando olho à minha volta e observo as mulheres que são claramente do tipo alfa, verifico que optaram por não ter um companheiro a partir de certa idade. Apenas as que souberam – ou quiseram negociar – a partilha do comando continuam casadas. As outras, ou não aguentaram um homem ao lado ou o homem que tinham ao lado não as aguentou. Em conversa com algumas delas para tentar perceber o que aconteceu, a hipótese de eventuais ciúmes por causa de outros homens nem sequer se levanta. O que sobressai sempre é a questão da competição e da guerra de egos. Argumentos como ‘eu ganhava mais do que ele’, ‘ele não aguentava o meu protagonismo’, ‘ele queria fazer de mim uma criada em casa’, ‘ele não perdia uma oportunidade para me tentar ridicularizar ou desvalorizar o meu trabalho’ surgem invariavelmente. Parece-_-me que estas mulheres, umas mais bélicas do que outras, tiveram todas de lutar para ter o seu lugar ao sol dentro de casa depois de o terem conquistado publicamente.
Gabriel García Márquez escreveu que é do aplauso que nasce o amor. Talvez estes homens não tenham sido capazes de admirar as mulheres que pensavam amar. A luz deixa de ser bela quando nos ofusca, estas mulheres brilhavam demais para o que eles eram capazes de suportar. A verdade é que durante uma discussão elas nunca fizeram de mortas, dando-lhes a ilusão do domínio que tanto satisfaz um alfa.