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Dom Quixote de la Mancha

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PURO ENGENHO LUSITANO

As noticias de prêmios científicos a investigadores nacionais são cada vez mais freqüentes. Mas pouca gente sabe que, apesar de todas as dificuldades econômicas e culturais do país, há muito que inovamos. Quem sabe, por exemplo, que o funcionamento da televisão foi antecipado pelas experiências de um português? Ou que o aproveitamento de energias alternativas, como a solar e a das ondas, já tinha sido pensado e experimentado em finais do século XIX? Da botânica à astronomia, passando pela matemática e pela tecnologia, aqui se retratam cinco portugueses à frente do seu tempo.

A primeira frase dita ao telefone deveria ser solene, à medida da grandeza de um momento histórico. Mas o que se disse foi ‘o cavalo não come salada de pepino’. Poucos o sabem, mas o primeiro aparelho a que se pode chamar telefone foi inventado por um alemão de origem portuguesa, Johann Philipp Reis, que tentava encontrar uma solução para os problemas de audição da avó. Estávamos em 1861 na altura da primeira experiência.

Mas, origens á parte, retratamos aqui alguns dos investigadores nacionais esquecidos pela fama ou cujo trabalho ficou preso nas malhas da memória. Um deles, há pouco redescoberto, é Manuel António Gomes, o padre Himalaya, que deixou um sem numero de projectos e experiências tão á frente do seu tempo que só actualmente estão a ser testadas. Himalaya era um defensor das energias alternativas e desenvolveu o primeiro aparelho de captação de energia solar, com que pretendia obter azotados da atmosfera para produzir fertilizantes para a agricultura.

Também diz pouco o nome de Adriano de Paiva que, no século XIX, sugeriu o uso de um elemento químico fotocondutor que permitisse transmitir à distancia imagens de objectos. Por outras palavras, anteviu o que seria a televisão.

Nesta pequena galeria cabe também o médico oftalmologista Antonio Plácido da Costa, cuja actividade na terapia de problemas dos olhos deu origem a um invento que ainda hoje é conhecido como disco de Plácido e que facilitou o diagnostico e tratamento de doenças da córnea.

Entre os ‘conhecidos’ estão Garcia de Orta e Pedro Nunes, que revolucionaram v´rios campos da ciência no seu tempo, no auge da era dos Descobrimentos. O primeiro fez um trabalho sobre plantas medicinais e doenças dos trópicos, fruto de várias décadas de trabalho em Goa. O segundo juntou a matemática e a astronomia numa aliança perfeita para a arte de navegar. Com ou sem caravelas, os portugueses abriram novos mundos ao mundo.

Padre Himalaya

Verde antes de tempo

‘Criou o aproveitamento da energia solar’

A multidão agitava-se no recinto da feira. O programa anunciava a demonstração de uma ‘maravilha’ inventada por um desconhecido padre português. Era o pireliofero, uma estranha máquina capaz de captar e armazenar o calor do sol. E, ao mesmo tempo, fornecer energia. A cena passou-se em 1904 e a feira era a Exposição Universal de St. Louis, nos EUA realizada em Abril.

O inventor já tinha larga experiência cientifica, apesar de a sua nacionalidade ser exótica naquele cenário. Respondia pelo nome de Padre Himalaya e era possível conferir pelo bilhete de identidade que o nome não se tratava de uma alcunha sem sentido. Nascido Manuel António Gomes em 9 de Dezembro de 1868 em Cendufe (Arcos de Valdevez), o padre juntou Himalaya ao nome porque os colegas do seminário e tratavam assim, por ser muito alto.

O êxito estrondoso daquele aparelho com nome complicado resultou de anos de experiências em diversas áreas cientificas. Mas nada indicava que esse padre – de origem humilde, crescido num clima de curandeirismo e de superstições – se revelasse um visionário d ciência, um ecologista muito antes do seu tempo, capaz de antever algumas técnicas que só recentemente começaram a ser exploradas.

O pireliófero foi apenas uma das suas invenções mais famosas. Himalaya pretendia usar a energia solar de modo a obter temperaturas dos seis mil a sete mil graus. Em St. Louis, conseguiu chegar aos quatro mil. Mas, perante as atribuições que teve com os seus financiadores, que queriam resultados demasiado rápido, o seu aparelho acabou por ficar apenas uma atracção da feira.

Apesar de Himalaya ter desenvolvido a sua máquina ao longo do tempo, não foi só esta técnica que lhe ocupou o espírito. Toda a sua actividade tinha como objetivo ‘instaurar uma alternativa tecnológica nova, baseada na organização territorial e social, assente em energias renováveis’. Este discurso parece um clichê da actualidade, mas foi escrito nos primeiros anos do século XX. Entre a Academia das Ciências de Lisboa, Paris e os EUA, foi  incans´vel. Estudou plantas medicinais e fabricou ungentos e pomadas que fornecia às populações mais pobres enquanto exercia o sacerdócio, sempre em paralelo com as actividades cientificas. Desenvolveu, também, a pólvora sem fumo, chamada ‘himalayite’, que foi testada em arsenais militares e na agricultura. Foi o primeiro a falar do aproveitamento da energia das ondas e a defender as energias das ondas e a defender as energias alternativas para as culturas agrícolas.

O espírito empreendedor e cientifico de Himalaya era incansável. Em duas conferencias proferidas na Academia das Ciências em 1909 traçou todo um plano de aproveitamento energético renováveis. Chegou, numa dessas conferencias, a prever o esgotamento dos combustíveis fósseis. Como era seu timbre, foi mais além, ao sugerir, ainda, um conjunto de ‘meios eficazes de promover o robustecimento da raça’, ‘exercícios energéticos ao ar livre e à luz’ e uma melhoria na alimentação, de uma vez que, ele próprio – mais uma vez, muito à frente do seu tempo – era vegetariano.

Adriano de Paiva

O selênio que mudou o mundo

‘Paiva antecipou a chegada da televisão ao sugerir o uso de um elemento químico para transmitir imagens’

Quando abrimos qualquer enciclopédia internacional, a entrada ‘televisão’ vai dizer quase sempre o mesmo: a nova tecnologia foi possível graças ao esforço de muitos e a um invento conhecido por disco de Nipkow, criado pelo inventor alemão com esse nome em 1884. Mas é altura de reciclar estas enciclopédias, modificando a estrada sobre a caixa que mudou o mundo. Sete anos antes, em Março de 1878, um certo Adriano de Paiva, português de Braga e professor de Física na Academia Politécnica do Porto teve uma idéia. De um modo simples, Paiva sugeria que se usasse um elemento químico, o selênio, como sensor num sistema electrico que permitisse transmitir à distancia imagens de objectos.

Alguns investigadores contemporâneos de Paiva também apresentaram aparelhos baseados na aplicação do selênio para observar objectos longínquos. Mas, defendem os historiadores de ciência, o português foi o primeiro a publicar a idéia, na revista ‘O Instituto’ da academia dos ‘lentes’ de Coimbra.

Inspirado pelo último grito da tecnologia da época, o telefone, não lhe foi difícil passar do que chama ´telégrafo falante’ para um parelho que permitisse, também, ver á distancia: ‘Com estes dois maravilhosos instrumentos (o telefone e a televisão, ainda sem esse nome), fixo em um ponto do globo, o homem estenderá a todo ele as faculdades visuais e auditiva. A ubiqüidade deixará de ser uma utopia para tornar-se perfeita realidade’, escreveu no seu artigo.

O selênio, com propriedades ópticas nessa altura já conhecidas, parecia ideal para permitir a reprodução das imagens registadas e para tornar real a utopia de Paiva. Embora ele nunca tenha construído um protótipo, o selênio foi usado em alguns aparelhos experimentais – na altura conhecidos como telectroscópios e não como televisores – que foram os antepassados dos caixas que hoje são banais em qualquer lar do mundo.

Nascido em Braga em 1847, Adriano de Paiva cursou Matemática e Filosofia na Universidade de Coimbra e leccionou sempre no Porto, tendo falecido em Gaia. Além de membro do Instituto de Coimbra foi sócio da Academia de Ciências de Lisboa e um dos fundadores da Société des Électriciens de Paris (França).  A sua invenção ficou, porém, relegada ao esquecimento, limitada às páginas de uma publicação pouco conhecida, tal como aconteceu com outros portugueses, cujo anonimato foi tão grande quanto as intuições cientificas de que foram capazes.

Antonio Plácido da Costa

Olhos nos olhos

‘Médico, oftalmologista e violinista, criou um aparelho para o tratamento de doenças da córnea’

Do seminário à musica, passando pela investigação da peste bubônica que então assolava o Porto, a vida de Antonio Plácido da Costa é tão rica quanto desconhecida. Nascido na Covilhã a 1 de Setembro de 1848, cedo se percebeu nele uma variedade de interesses que mereciam melhor recordação da posteridade.

Contudo, não foi por nenhuma dessas actividades que Plácido inscreveu o seu nome na historia da ciência e da técnica. Dedicou-se desde cedo à investigação médica, de inicio na Escola Médico-Cirurgica do Porto. Porém, foi a atracção pelos olhos dos outros que o tornou famoso. Em dois anos apenas publicou uma serie de artigos com importantes descobertas de técnicas oftalmológicas. Este período coincidiu com a sua ida para Lisboa, onde foi medico oculista no consultório de Van der Laan, um dos mais importantes da capital na altura. Numa serie de dez artigos. Plácido divulgou quatro inventos de grande precisão para avaliar problemas nos olhos. O primeiro, um instrumento de exploração da córnea, revolucionou técnicas de diagnóstico e tratamento desta componente dos nossos olhos. O cientista baptizou-o astigmatoscópio explorador, e hoje é conhecido pelo nome de queratoscópio de Plácido. Ou, de uma forma mais simples, disco de Plácido.

Outros, não menos importantes – mas talvez menos decisivos para tornar conhecido o então jovem cientista – permitiam corrigir o estrabismo, entre outras terapias oculares.

Alheio à popularidade, criticava-a como algo que era estranho ao universo da razão, esse simples ‘metro da verdade’ que faz parte do ‘museu métrico da inteligência’ como escreveu num dos seus artigos.

Plácido deixou de publicar cedo, aos 35 anos, talvez por falta de tempo. O desenvolvimento dos seus inventos e a prática clinica absorveram-no por completo nos anos seguintes. Ainda aperfeiçoou, em paralelo nos anos seguintes. Ainda aperfeiçoou, em paralelo, um telescópio – de acordo com alguns autores, o primeiro idealizado e feito de raiz em Portugal. O tempo livre era para ele um conceito estranho, gozando o pouco que tinha, tal como Einstein, a tocar violino. Com alguma mestria, segundo rezam as crônicas.          

Garcia de Orta

O médico dos trópicos

‘Com Colóquios dos Simples. Orta fundou a medicina tropical’

Viveu tempos difíceis. Ao mesmo tempo em que abriam ‘novos mundos os mundo’ os portugueses abriram também a porta ao Santo Oficio – vulgo Inquisição – iniciaram uma perseguição aos judeus que, na época, eram parte importante da elite nacional.

Garcia de Orta foi um dos judeus convertidos, ou cristãos-novos que, embora não sofrendo pessoalmente a acção inquisidora acabou por ser ‘apagado’ da nossa memória colectiva durante séculos. E por ‘apagado’ entenda-se sentenciado à fogueira após a morte. A Inquisição exumou os ossos de Orta para cumprir a sentença.

Orta nasceu em Castelo de Vide em 1501 ou 1502. foi para Espanha diplomar-se em medicina em Salamanca e em Alcalá de Henares. Em 1523 está de volta  Portugal onde exerce pratica clinica e lecciona. Conhece alguns ilustres nomes da ciência portuguesa, como Pedro Nunes que é, como ele, um cristão-novo. Talvez em fuga aos tempos conturbados que se viviam no reino, partiu com a família para Goa, juntamente com o amigo Mrtim Afonso de Souza, que tinha sido nomeado vice-rei da Índia.

É lá que conhece um mundo novo, muito diferente do mundo descrito pela sua ciência de médico. Em Goa conhece médicos árabes e hindus e aprende outras terapias. Sobretudo, porque muitas doenças são diferentes das que conhece. Participa na primeira autópsia realizada em Goa. O cadáver era de uma das vitimas da epidemia de cólera que assolava a colônia naquela altura. Garcia de Orta é, assim, o primeiro europeu a observar não só esta doença como várias outras maleitas dos trópicos.

Ao mesmo tempo, era medico dos vice-reis da colônia, bem como de alguns rajás indianos. Com a experiência acumulada, passou da prática clínica para a investigação. Plantou um horto com ervas medicinais que estudou a fundo. O resultado destas experiências de três décadas deu origem a um clássico da medicina tropical. Colóquios dos simples e drogas da Índia, publicado em Goa a 10 de Abril de 1563. contém o que se pode chamar ‘invenções farmacêuticas’.

Estruturado em forma de diálogo, Orta dividiu-o em 59 colóquios, em que ele próprio – encarnando um médico europeu – conversa com um alter-ego versando em medicina tropical a quem chama Ruano. Dispostas em ordem alfabética, as conversas entre os dois no se limitam a um elenco da botânica dos trópicos. O autor disserta sobre crenças indianas, o jogo de xadrez e até um hospital para aves.

O livro foi escrito em português, uma espécie de ‘heresia’ numa época em que a língua franca entre os eruditos era o latim. Garcia de Orta faz parte de um grupo de ‘subversivos’ da época, que tentou que a sua obra chegasse às classes alfabetizadas. O mesmo que Lutero havia feito na Alemanha quando escreveu uma versão da Bíblia na sua língua natal, dando origem a movimentos de cisão com a Igreja católica. Mas esta é uma outra historia...

`Colóquios dos Simples’ teve várias versões noutras línguas. E foi um livro proscrito em Portugal, onde só conheceu a segunda edição em 1872 e a terceira em 1891.

Pedro Nunes

Navegar é preciso

‘Criou o nónio, uma escala para aperfeiçoar as medidas e facilitar a navegação’

Calcular para navegar poderia ser o mote deste multifacetado cientista. Pedro Nunes viveu na era dos Descobrimentos, tendo contribuído em muito para a saga portuguesa no mundo. Nascido em Alcácer do Sal em 1502 de uma família de judeus portugueses, foi contemporâneo de Garcia de Orta e, tal como ele, estudou Medicina em Salamanca.

Mas foi bastante além destes estudos. Era versado em matemática, Astronomia e Geometria, o que lhe permitiu leccionar em Lisboa e Coimbra as bases teóricas das técnicas de navegação. Aproveitou para isso alguns dos saberes antigos, integrando conhecimentos ancestrais com demonstrações práticas novas. Conseguiu demonstrar práticas novas. Conseguiu demonstrar, por exemplo, que uma boa maneira de navegar entre dois pontos seria através de um percurso em espiral. Desenvolveu técnicas que permitiram melhorar os instrumentos de navegação – o nónio, que inventou (uma múltipla escala para melhorar as medidas), serviu para apefeiçoar as leituras do astrolábio. A arte de navegar portuguesa progrediu, uma vez que se podiam medir distancias com maior precisão e planear viagens com menores margens de erro.

No ‘Tratado em Defensão da Carta de Marear’ Nunes iniva a cartografia, definindo nas cartas de navegação circunferências paralelas e meridianos. Publicou também o `Tratado da Esfera’ 81537), uma versão portuguesa de um tratado composto em latim no século XIII por um monge inglês. João de Sacrobosco. E, destacando-se na sua vasta obra, deixou ‘De Crepusculis’, com o seu estudo da variação dos crepúsculos em diferentes partes do globo.

Foi cosmógrafo-real e cosmógrafo-mor do reino. A confiança que lhe foi votada pelo rei D.João III permitiu que fosse preceptor dos seus filhos D. Henrique e D. Luis, e do seu neto, o futuro rei D. Sebastião.

Da sua vida sabe-se pouco, na proporção inversa da sua obra cientifica, que conheceu numerosos seguidores entre os astrônomos e matemáticos europeus. Por exemplo, o astrônomo do Vaticano Cristovão Clavius, que elaborou a reforma do calendário, citou várias vezes o sábio português, cuja influencia recebeu quando estudou na Universidade de Coimbra

Ricardo Nabais’

Publicação: segunda-feira, 13 de Outubro de 2008 22:24 por massapinaopiniontotal

Comentários

# re: PURO ENGENHO LUSITANO @ terça-feira, 14 de Outubro de 2008 12:24

Para além destes ilustres, quantos mais lusitanos inventores povoam e povoaram o Mundo? Muitos mais, sem contar com os muitos que ainda estão por descobrir, e já se tornaram fundamentais para o bens estar social do Mundo...

massapinaopiniontotal

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