“Não, minha mãe. Não era ali que estava. Talvez noutra gaveta. Noutro quarto.(…)” © Manuel Cardoso, 2009 Ainda é difícil escrever-se com total objectividade sobre José Carlos Ary dos Santos. Por várias razões. Uma delas tem a ver com o facto de ser uma figura pública que há pouco tempo desapareceu de entre nós, estando ainda vivos, felizmente, muitos dos seus companheiros e amigos. Morreu precocemente, quando contava 47 anos de idade (se fosse vivo teria hoje 72 anos, feitos em Dezembro, pois nasceu em 7 de Dezembro de 1936). Assim, a perspectiva está ainda muito desfocada pelo pouco tempo que nos separa desse 18 de Janeiro de 1984 na Rua da Saudade, em Lisboa. Outra, tem a ver com o forte ruído ideológico (para o qual concorreram diversos factores) sobre o José Carlos, tanto sobre o que foi a sua vida, vista de diante para trás, como sobre o que é a sua memória. Finalmente, há a dificuldade nascida dos anticorpos que, um pouco por todo o lado, geraram o seu comportamento e a sua conduta. Algumas pessoas, das contactadas para sobre ele falarem (das muitas que com ele conviveram e para lá das do costume que sobre ele discorrem…), mostram-se reservadas ou, pura e simplesmente, não querem que seja tornado público o seu testemunho, numa atitude em que essa reserva tem, precisamente, que ver com um determinado parti pris em relação ao homem e ao poeta ou com uma má experiência no seu convívio. Não era uma pessoa fácil, em muitos aspectos. Para o definir com três palavras e de acordo com os testemunhos ouvidos, foi um homem inteligente, vaidoso (muito vaidoso) e só (muitíssimo só). A inteligência acompanhou-o a vida toda; a vaidade, prejudicou-o a vida toda e a solidão acabou com ele. A inteligência nunca lhe deixou ver disfarçado o vazio, o fosso que se foi cavando à sua volta ao longo dos anos e que o foi afastando de todos os seus afectos. Pelo contrário, a inteligência dava-lhe dia a dia um certíssimo quinhão de sofrimento pela consciência de que esse vazio existia e de que cada vez aumentava mais com o passar dos anos. A vaidade, amarfanhadíssima pelo silêncio que sobre si faziam quase todos os poetas do stablishment e seus contemporâneos, foi corroendo a sua capacidade de resistir à degradação dos valores em que se educara, opostos ao culto da sua imagem. Como fuga e compensação, aceitava o populismo que à sua volta crescia, passou a ceder à glória fácil de ter o aplauso dos que diante de si se babavam sem o compreender. Em nome da vaidade cometeu actos de irreverência que muitos confundiram (ou justificaram) com génio (que o tinha também). A solidão, nascida de um episódio familiar abrupto que o tomou de choque e o marcou para toda a vida, veio estender um céu de chumbo cujo peso imenso, em muitos momentos, lhe deu a insuportabilidade de tudo não crer e nada querer. Um Zé Carlos incongruente com tudo e todos foi-se formando ano após ano. De tal modo que, hoje, há os que o idolatram e vangloriam sem o conhecer; os que o conheceram e sobre ele tudo dizem sem dizer nada e os que sobre ele mais não fazem do que inventar, intangível que lhes é como pessoa e incompreensível como artista, autor de letras de canções, poeta. Há, assim, um outro Zé Carlos para além daquele que nos tem sido dado a conhecer. É o mesmo, claro. Está nos mesmíssimos versos, nas mesmíssimas atitudes e brincadeiras, nos mesmíssimos sítios com a força, a veemência, o génio, os palavrões, a impertinência, a truculência desconcertante e o humor sulfúrico. Mas é outro também, ao mesmo tempo, talvez visto ao espelho. Basta saber vê-lo. Sempre esteve e tem estado por aí. Talvez não tenhamos, mas é, reparado que sempre tem estado por aí. 1- O primeiro livro Quase todas as notas biográficas, publicadas em jornais, revistas e livros ou disponíveis na net, referem as datas do nascimento (por sinal enganando-se sucessivamente: nasceu em 1936 e não em 1937!) e morte, as origens “aristocrático-burguesas”, a “saída de casa”, o “génio literário-artístico”, o êxito profissional, o sucesso mediático das suas letras para cantigas, o espírito truculento e inconformista, o passado antifascista, a homossexualidade, a militância comunista e o seu primeiro livro, Liturgia do Sangue. Contudo, acontece que o seu primeiro livro não foi Liturgia do Sangue mas, sim, Asas, que foi publicado muito antes da Liturgia do Sangue[ii]; a sua militância comunista, muitíssimo repetida por muitos biógrafos (e protagonizada pelo próprio em numerosos comícios e sessões do PCP), é uma colaboração com o PCP mas sobre o qual há dúvidas de que tenha, algum dia, sido militante filiado no partido ou que, pelo menos, o tenha sido ininterruptamente[iii]; a sua “homossexualidade assumida” não era uma bandeira da sua vida mas até, nalgumas ocasiões, desabafada como uma fatalidade infeliz[iv]. Foi abundantemente bandeirada por outros. E terá sido a razão para que, durante um longo período – senão sempre – lhe tenha sido vedada a filiação no PCP[v]. Daí que, com estas contradições entre a verdade oficial e verdade autêntica de si próprio (se é que se pode falar de verdade autêntica de alguém que criou imensos cenários de verdade aparente) se possa inferir que a maioria dos retratos com que é apresentado carecem ainda de muita da mesma verdade. O Zé Carlos tinha qualidades humanas para lá dos rótulos com que têm sido embrulhados o seu carácter e a sua personalidade. Qualidades onde perpassam sentimentos de solidariedade pelos outros. Sob a superfície, em que o vemos num permanente desfrute, oferecimento e conflito, como era a sua postura perante a sociedade e o mundo, como se estivesse constantemente perante uma plateia e a divertir-se com ela, sob a superfície, diga-se, havia uma serenidade insuspeita para muitos, em que a tal solidão imensa deixava um vazio medonho. Ele tinha um terrível medo de estar sozinho. Medo que entrava em erupção terminal nos seus momentos de catarsis, normalmente com um derradeiro confidente no fim de noitadas ou de etapas de várias noitadas em que se misturavam o cansaço, o gin e o excesso. Um medo que lhe vinha desde o dia em que sentiu que tinham sido traídas as dedicatórias que tinha escrito no seu primeiro livro, Asas, já que, a partir de então, tentou, para o bem e para o mal, apagar esse livro e o seu significado, como se o criador quisesse fugir à criatura. A sua vocação poética foi exibida quando era ainda muito novo e há testemunhos de, em S.Martinho do Porto, onde ia para a praia com o grupo familiar, declamar na “Rua dos Cafés”, inflamados versos a uma rapariga, menina-de-família, alvo da sua paixão[vi]. Que não terá sido a única. Foi nesta esteira que foram escritos os poemas de Asas e, provavelmente, muitos mais que terão ficado por publicar. Os versos deste primeiro livro tiveram e têm um mérito reconhecido e auguraram tudo de bom para si, com um acolhimento favorável nos círculos das suas amizades e fora deles. Asas foi publicado em 1952[vii]. ZCAS tinha apenas 15 anos de idade. Dedicou o livro “À saudade de minha Mãe, os meus primeiros versos, que nasceram da infinita dor de a ter perdido. À presença de meu Pai, o meu primeiro livro pelo tanto que lhe quero e que lhe devo”. Desde o primeiro verso do primeiro soneto “Dispo a tristeza inútil que me invade.” – que é uma afirmação de um acto – que está ali o José Carlos de sempre. Não está parado (ele dificilmente conseguia estar parado), está a agir, a despir-se. De quê? Da tristeza – a tristeza que foi uma das suas fobias – e não de uma tristeza qualquer, não daquela tristeza poética, inspiradora da melancolia dos poetas, não! Da “tristeza inútil”. Uma tristeza que não servia para nada, a não ser para o pôr triste. E esse soneto termina com uma outra afirmação que profetiza o seu modo de encarar toda a vida: “Que todo o mundo é meu e eu vou partir à conquista dos reinos da poesia!”[viii]. É um imperativo, um projecto de futuro. Ler Asas é ler o prefácio da vida de José Carlos, como se o resto da vida não fosse mais do que capítulos no seguimento desse prefácio, o executar, secreta empreitada!, de um caderno de encargos. Está ali tudo sobre si, em Asas, como num caleidoscópio que lhe antecipasse a vida e a obra: “Homens famintos, ébrios de vingança; Crianças que se matam e se odeiam; A morte a amortalhar a esperança; Os pobres, os mendigos e os ladrões”[ix]. “Caminho? Eu sei lá qual é o Caminho! Talvez por uma estrada de impossíveis para o país longínquo dos meus sonhos!”[x]. O seu tom excessivo e rasgado, transgressor, a roçar o libertário, está já na inspiração dum poema intitulado, algo profeticamente, Libertação: “Rasgou minha alma um grito agudo/ De libertação./ E eu desdobrei as asas nos espaços,/ Sem peias, sem pudor e sem razão,/ Abrindo os braços,/ Como um irmão,/ Ao mar e ao céu!”. Em Incógnita, há um expressar da consciência da dualidade dentro de si, talvez involuntário, talvez demasiado explícito para ter sido reflectido mas, por isso mesmo, autêntico e franco: “Mais para além de mim/ Havia outro./ Um outro que não via,/ Nem falava.”... Este outro acompanhou-o toda a vida, mudo mas nem por isso menos presente. A figura da Mãe, a saudade da Mãe, que motiva a dedicatória desta primeira obra do autor, vai ser alvo de recorrentes versos que vão sendo escritos ao longo da vida. É como se, de vez em quando (para não dizer sempre) a presença (ou omnipresença) da Mãe fosse invocada em momentos de extrema necessidade de companhia e carência de ternura. De tal modo que, no derradeiro momento da vida, 32 anos depois de Asas, na solidão da casa, já no seu leito de morte, o seu pensamento vai para a Mãe uma vez mais e compõe um último soneto, talvez dos mais sentidos e belos que escreveu, que é, simultaneamente, o fechar de um ciclo, o retorno ao regaço, um desejo (desabafo, talvez) uterino de descanso: “Talvez que a tua voz que ainda me fala.../ ...o meu berço enfeitado a buganvília.../ Tenho tantas saudades, minha mãe!”[xi]. Depois de Asas, o Zé Carlos sai de casa. E sai de casa, ao que tudo e todos indicam, em ruptura com o pai. Uma ruptura que terá sido dilacerante e dramática[xii]. A saída é, até, mais do que isso. É uma fuga, um pânico sem retorno. Sem transigências nem condições. Deu-se em 1953, tinha 16 anos. Embora isso não tivesse representado um voltar de costas a toda a família. Continuou a dar-se, nomeadamente, com as suas irmãs. Mudou-se para um quarto alugado na Rua do Alecrim, onde permaneceria durante anos, bem dentro do raio de acção protector da sua avó paterna, Maria Guilhermina de Pina Manique Pereira, que vivia na Travessa da Espera, a escassos trezentos metros, e a cujos jantares de clã comparecia. Em 1954 alguns dos seus poemas já publicados foram incluídos na Antologia do Prémio Almeida Garrett. Este reconhecimento público viria a ser importante por um pormenor que se prende com a sua ruptura familiar e com um aspecto patente da sua personalidade: é que nada melhor para o seu amor-próprio, num momento de grande carência, do que sentir um apoio como foi esse – apesar do desdém com que muito mais tarde ignorou toda esta fase ou o “revisionismo” que sobre ela fez cair… 2- A mãezinha, a Tia Fernanda ou a génese do Tempo da Lenda das Amendoeiras Um dia, em 1963, o Alexandre Ribeirinho, director do Teatro Universitário, apresentou José Carlos a Fernanda de Castro. A empatia entre os dois foi imediata e desde logo surgiu o tratamento de mãezinha e de Tia Fernanda que passou a adoptar para com a grande senhora: “24 horas depois de me ter conhecido queria que eu fosse a mãe que ele já não tinha”[xiii]. Esse primeiro encontro deu-se no Algarve, em Alporchinhos, onde a escritora e autora tinha casa. José Carlos declamou o seu poema dramático Azul Existe, que hoje está incrível e misteriosamente eclipsado. Mesmo o ZCAS poucas vezes o mencionava e não o incluiu, nem excertos, em qualquer uma das suas colectâneas ou antologias. Também não consta da sua obra postumamente publicada. Mas então, nesse encontro com Fernanda de Castro, foi o clic definitivo para um período fecundo. Uma roda de novas relações, de que fazia parte Natália Correia e muitos outros, abriu-lhe horizontes e possibilidades que vieram a ser mais alargadas ainda com a frequência dos serões em casa de Fernanda de Castro, na Calçada dos Caetanos, ao Bairro Alto. José Carlos e o seu irmão Diogo fizeram parte da trupe e da plêiade que, sob a direcção de Fernanda de Castro, com a coordenação e montagem de Alexandre Ribeirinho, José Francisco Azevedo, Mário Cardoso Pereira, Jorge Cenáculo e Edith Arvelos, incluía Manuela Machado, Catarina Avelar, Norberto Barroca e Maria Germana Tânger, tendo-se constituído como Teatro de Câmara António Ferro! Fernanda de Castro é reveladora, ao referir-se a um ensaio para um dos serões seguintes, em que Zé Carlos tinha de declamar uns versos dela: “Desfolha-se em badaladas/ o velho sino de bronze./ As senhoras abastadas/ vão sempre á missa das onze/ (D.Aurora de mantilha,/ D.Francisca de véu,/ D.Gertrudes e a filha,/ de luvas e de chapéu.)”(…). Ao vê-lo, Fernanda de Castro desatou a rir e a cena resultou indelével na sua memória: “Jamais poderei esquecer a cara, os gestos, os ademanes, os olhares marotos e o riso contagioso do José Carlos ao falar da D.Aurora de mantilha, da D.Francisca de véu, da D.Gertrudes e a filha de luvas e de chapéu. Contado isto não tem talvez graça nenhuma, mas quem conheceu o Zé Carlos, tinha então 24 anos[xiv], compreende perfeitamente o que eu quero dizer e o efeito hilariante da sua recitação”[xv]. O próximo espectáculo deste Teatro de Câmara António Ferro já não pôde ser na Calçada dos Caetanos por falta de espaço, embora aí tenham decorrido numerosas sessões de ensaio, a que assistia um público variado e interessado de intelectuais e artistas. Foi realizado no Tivoli. É importante notar que este, como o anterior e os seguintes, sendo espectáculos de poesia em que o mote era dado por Fernanda de Castro, muito terão influído em muitos dos vincos da obra, tanto no campo puramente poético como no campo das letras para canções, de José Carlos. Repare-se neste poema: “Se os poetas dessem as mãos/ e fechassem o Mundo/ no grande abraço da Poesia,/ cairiam as grades das prisões/ que nos tolhem os passos,/ os arames farpados/ que nos rasgam os sonhos,/ os muros de silêncio,/ as muralhas da cólera e do ódio,/ as barreiras do medo,/ e o dia, como um pássaro liberto,/ desdobraria enfim as asas/ sobre a noite dos Homens./ Se os Poetas dessem as mãos/ e fechassem o Mundo/ no grande abraço da Poesia.”. Trata-se de um poema de… Fernanda de Castro![xvi] Difícil será não reconhecer, nos versos de José Carlos Ary dos Santos, muitas ressonâncias recorrentes destes mesmos versos. Neste Teatro de Câmara, no seu segundo espectáculo, o poema dramático Azul Existe foi encenado por Pedro d’Orey e foram seus intérpretes Heloísa Cid, Águeda Sena, Rogério Ferreira, Vasco Wallenkampf, Alexandre Ribeirinho e o próprio José Carlos Ary dos Santos, com a Edith Arvelos a ter a seu cargo os efeitos musicais.[xvii] Houve ainda mais dois espectáculos deste Teatro de Câmara António Ferro, em Junho de 1964, e da trupe chegou a fazer parte Eládio Clímaco. Seguiu-se o I Festival do Algarve, Verão de 1964. Foi um momento a desabrochar em esplendor para o José Carlos. O contacto com o exotismo, Larbi Jacoubi e os príncipes Ouazani, a comunhão vivida com os participantes e actores, a proximidade ganha com Amália Rodrigues. Sobretudo, a consagração do seu poema Tempo da Lenda das Amendoeiras, apresentado pela primeira vez no Castelo de Silves em 12 de Agosto, dedicado a Fernanda de Castro, que iria ainda editar nesse mesmo ano como edição de autor, impresso em Lisboa, na Tipografia Americana. No ano seguinte, acontece o II Festival do Algarve. Fados, folclore, poesia popular e erudita. Mais uma vez o Tempo da Lenda das Amendoeiras, dedicado a Fernanda de Castro. Este poema transforma-se num trampolim oportuno, até então a obra de maior fôlego de José Carlos Ary dos Santos. A partir daí e até ao fim da vida manteve-se a amizade e, mesmo, cumplicidade, entre os dois escritores. O suicídio do Diogo, seu irmão, em 11 de Março de 1965, tinha 21 anos, foi um momento de débacle.[xviii] ZCAS tinha-lhe dedicado “A Liturgia do Sangue”. Acompanhavam-se em trabalho e em noitadas, Diogo tinha participado também no Teatro de Câmara António Ferro. Irmão solidário e irmão-cúmplice, este desgosto ficar-lhe-ia indelével. Foi uma sombra, feita de profundo remorso e auto culpabilização, que nunca mais havia de o abandonar na vida. E que, sempre que pegava num gin, de algum modo evocava. Sigamos Fernanda de Castro: “O José Carlos Ary dos Santos era um amigo tão íntimo da casa que, durante certos períodos, como por exemplo o do Teatro de Câmara António Ferro, que ele viu nascer na década de 60, e mais tarde nos dois períodos que antecederam os dois Festivais do Algarve, foi um dos meus mais eficientes colaboradores, chegando a passar alguns meses na minha casa de Alporchinhos com o meu irmão Francisco, a Inês Guerreiro e a Edith Arvelos, a equipa que tão entusiasticamente me ajudou a levar a cabo estes empreendimentos.” “Foi um colaborador precioso, honestíssimo trabalhador e ainda por cima alegre, entusiasta e cheio de força criadora. Era um bonito rapaz, afectuoso, que me dizia muitas vezes: - Depois da morte do Diogo, a Tia Fernanda é a pessoa de quem eu mais gosto no mundo.” “Nessa altura ainda o José Carlos não bebia, ou, pelo menos, bebia normalmente, como qualquer rapaz. Creio que foi o enorme desgosto que teve com a morte do irmão que o levou ao desespero, começando assim, sem talvez se aperceber, a vida dolorosa, triste e, sobretudo, estúpida que pouco a pouco inutilizou, deturpou ou corrompeu o que nele havia de melhor e era muito, muitíssimo”[xix]. Para ilustrar este “nele havia de melhor”, Fernanda de Castro cita dois exemplos reveladores. O de uma velhinha sem abrigo a quem ele encontrou e a quem durante anos vestiu e pagou um quarto e comida e o de que, todos os anos, no aniversário de uma sua senhoria de quarto, a vestia como uma dama, levava a jantar e ao teatro. Questionado por Fernanda sobre esta sua atitude, respondeu: “Porque cada vez que eu tinha gripe ou anginas ela punha-me papas de linhaça e levava-me chá de limão à cama.” - Só por isso? – perguntou Fernanda. - Só?! Se soubesse como é importante, quando se vive sozinho, um chazinho de limão, uma conversinha amiga, um cobertor suplementar!...” “Este era o Zé Carlos verdadeiro, o que me fez perdoar-lhe, durante anos, o gin, as palavras irreverentes, os extremismos, a incoerência de muitas das suas atitudes. Não se passava uma semana sem me convidar para jantar. (…).[xx] 3- 1969 ou o charco da pedrada Para muitos e para o próprio, 1969 foi um ano fulcral. Não o foi por acaso, inserido na vida do país e com a efervescência que quase todos os sectores então atravessavam, na aurora da Primavera marcelista. A sua aura de poeta tinha vindo sempre em ascensão e o seu nome era assumido em quase todos os círculos da capital. Mesmo no fim do ano anterior, um serão em casa de Amália Rodrigues tinha-o juntado com Vinicius de Moraes, Natália Correia, David Mourão-Ferreira, Alain Oulman e Hugo Ribeiro, tendo sido feito e editado um disco de vinil com as poesias, fados e guitarradas dessa noitada que ficava como uma antevisão do frenesi de 1969. Foi o ano da militância política na CDE, Comissão Democrática Eleitoral, e o ano da vitória da Desfolhada no Festival RTP da Canção. Este último facto foi importantíssimo e decisivo. Experimentou uma euforia que lhe demoraria anos a passar, um certo sentir-se ébrio com a projecção e, até, o poder, que, de repente, lhe deu esse triunfo. Parecia que todas as facetas da sua vida lhe estavam a sorrir. Na poesia, na publicidade, na política. A sua criatividade e produção estavam num expoente[xxi]. Mas nem por isso se libertava de uma persistente ingenuidade, duma certa deriva que toda esta euforia lhe veio fazer, ofuscando o sentido de profundidade. Natália Correia notou-o bem e passou a ter para com José Carlos uma pendência de diferença de pontos de vista que duraria toda a vida – mas sem pôr em causa a amizade entre os dois, assanhadíssimos a discutir em numerosas ocasiões!... Para Natália Correia, o poeta estava a sacrificar a poesia, calcada sob o género mais superficial das canções[xxii]. Contudo, se não tivesse sido a projecção que lhe foi dada pela “Desfolhada” e toda a fase vertiginosa que iria viver a par da fama de Simone de Oliveira e do grupo “dos festivais”, dificilmente a sua vida teria sido como foi. Nunca seria como foi. 4- A revolução ou o fim da qualidade Com o golpe do 25 de Abril e no período revolucionário que se lhe seguiu, Zé Carlos enveredou decididamente pela militância política e abandonou, ou pelo menos arrefeceu, algumas das suas anteriores amizades. Foi o caso de Fernanda de Castro, com quem, apesar de tudo, haveria de fazer uma reconciliação já na década de 80, e ainda o de Amália Rodrigues, que desabafa: “(...) Dávamo-nos muito bem os dois. De repente, dá-se o 25 de Abril e nunca mais aparece. Telefonou umas três vêzes a perguntar se eu precisava de alguma coisa. Mais nada. Fiquei um bocado zangada com ele. Era um amigo de todas as noites, de uma convivência quotidiana, não tinha nenhuma razão para ter aquela atitude.”[xxiii] Surpreendentemente ou talvez não, durante o Prec e depois dele manteve a mesma postura elitista do seu modo de vida, sapatos de marca italiana, camisa e fatos de seda, a ponto de um dia ter sido interpelado por um camarada de partido que lhe reprovava o traje e a sua casa burguesa e a quem terá respondido que “o meu comunismo vem-me por via Czarista”![xxiv] Certa vez, Fernanda de Castro questionou-o sobre a sua razão de ser comunista. A resposta pronta teve como contraponto da escritora que o que ele tinha era um fundo cristão e que aquele “comunismo” já tinha uma idade de dois mil anos e chamava-se cristianismo... De facto, apesar do show off, da militância e das suas proclamações veementes, José Carlos não esconde, na sua poesia, nas suas letras de canções e nos seus gestos de solidariedade para com o próximo, um sentido espiritual, na concepção, e de amor, na concretização, de que nunca se afastou – ou de que nunca se quis separar. Num dos últimos sonetos que escreveu, “Poesia-Orgasmo”, há um verso revelador: “que transporte do humano ao infinito”, e também no “Soneto de Inês” há “amor que torna os homens imortais”[xxv]. Ora, o infinito e a imortalidade escapam ao cânone do materialismo dialéctico marxista... José Carlos Ary dos Santos nasceu em Dezembro e morreu em Janeiro. Foi como se tivesse escolhido um ano velho para aparecer e um ano novo para desaparecer. “Escolhido” está mal dito. Porque o Ary raramente terá escolhido fosse o que fosse de decisivo ao longo da sua vida. Alguma vez os poetas escolhem seja o que for? Não são, antes, eles os escolhidos pela vida, pela sorte, pelas musas, pelo génio, para nos verter em palavras traduzidas o que a nossa vida nos põe à frente e nós, tantas vezes, não vemos? 5- Uma forma de fim Não houve inocência na vida do Zé Carlos. Nem houve inocentes na vida do Zé Carlos. Parece-me que esta poderá ser a característica mais marcante que fica deste pequeno esboço sobre o poeta e o homem, uma primeira aproximação sobre poder haver “um outro olhar sobre a vida de José Carlos Ary dos Santos”. Como se pudesse ter havido um fenómeno de contágio de uma não-inocência. Ele, aliás, convidou a isso com o célebre “falem de mim, bem ou mal, mas falem!” repetidas vezes proferido. Não admitia uma atitude neutra, uma atitude tolerante. Este estado de espírito fê-lo antecipar a ideia e a encenação da sua morte. Morte, aqui, em sentido literal, com toda a coreografia imaginada e desejada como algo de fantástico e teatral. Chegou a confidenciar a ideia de que o seu enterro fosse marcante pelo espectacular. Mas com o fim da sua vida, que não chegou serenamente com uma velhice madura mas de modo súbito com a mesma violência com que ele passou pela vida – a começar pelas violências sobre si próprio –, algumas atitudes e frases, alguns versos e gestos de quem está para abandonar um palco, fazem pensar ou, pelo menos, deixam espaço para isso, que pela Rua da Saudade passava uma aragem de verdadeira saudade da inocência perdida. Quando? É uma pena não ter ficado terminada, ou em vias disso, a autobiografia romanceada em que trabalhava, “Da Estrada da Luz à Rua da Saudade”. A morte que se lhe fizera anunciar como uma presença solitária num período em que alguns dos seus mais chegados o abandonavam, não lhe deu tempo a concluir os projectos que já sabia serem os últimos. Contudo, ironia de poeta, havia de morrer precisamente nessa Rua da Saudade a viver da saudade. Forma de morrer tão portuguesa! E não de uma saudade qualquer. Nem da saudade da cidade que amava, nem saudade do país que tratava com uma certa distância: “Será possível que depois de Abril/ ainda adormeçamos acordados/ neste país-raiz de sofrimento?”[xxvi]. Não. A sua vida acaba depois de voltar à infância, com muitas saudades: "Tenho tantas saudades, minha mãe!" [xxvii]. Pois tinha. Notas
José Carlos Ary dos Santos, Infância,VIII sonetos, in Obra Poética. Edições Avante!, 1994
[ii] A fotobiografia, que sobre José Carlos Ary dos Santos foi escrita e elaborada por Alberto Benfeita –Alberto Benfeita, Ary dos Santos, o Homem, o Poeta, o Publicitário, Fotobiografia. Editorial Caminho, Lisboa, 2003. – vai um pouco mais longe e é um livro bem estruturado e com episódios, fotos e documentos importantes e reveladores. Faz referência ao Asas, embora omita completamente alguns períodos e factos importantes da vida de José Carlos Ary dos Santos. Citando o autor a partir de uma entrevista, nela é referida a desvalorização que ZCAS fazia, a posteriori, deste seu primeiro livro e da poesia nele versada. Seria por causa da dedicatória ao pai que o abria? Seria o querer apagar, ao seu jeito iconoclasta, toda e qualquer imagem do pai da sua memória? [iii] Provavelmente, o Zé Carlos terá sido filiado episodicamente no PCP em 1969 e posteriormente expulso. Eduardo Pitta, Blog da Literatura, na entrada “Ary dos Santos”, publicada também em livro, Intriga de Família, Edições Quasi, Lisboa, 2005, afirma mesmo que ZCAS nunca foi militante filiado do PCP por oposição da direcção deste partido, avesso a homossexuais, e apenas terá sido inscrito no MDP-CDE. Durante um determinado período, soube-se no inner circle do poeta que não estava inscrito no partido. A sua colaboração era equivalente à de um compagnon de route e foi mais a seguir ao 25 de Abril que a sua colagem ao PCP foi pública e notória. Nas pessoas ficou a ideia de declarações públicas do desejo do poeta, feitas pelo próprio “de ser comunista” e da vontade de “ser do partido comunista”, sendo que nenhuma das quais atesta a sua efectiva filiação. É evidente que agora, a posteriori, ainda por cima tendo sido herdeiro de ZCAS, o PCP terá todas as razões para afirmar algo diferente. [iv] “(...)A única coisa que me falta é um filho, mas tal como sou, acho que não teria sido um pai suficientemente atencioso e não poderia dedicar ao meu filho toda a atenção necessária”, Jorge Figueiredo , “Ary dos Santos – Assumir a solidão acompanhado”, Revista Gente, 11-1-1984, citada por Alberto Benfeita in obra citada, pág. 115. [v] Segundo Zita Seabra, in Foi Assim, Editora Aletheia, Lisboa, 2007, pág. 35, terá sido com o pretexto da homossexualidade que Júlio Fogaça, “principal teórico e dirigente do Partido” foi suspenso e expulso do PCP. Não cremos que tenha sido aberta uma excepção para ZCAS, a menos que tenha havido um especial acordo para o facto e mesmo este só tardiamente, após o 25 de Abril, dado que o poeta veio a fazer testamento da quase totalidade dos seus bens ao partido. Uma outra hipótese é a de ZCAS ter sido encarado como um dos “desvios de direita do PCP”, dados os seus antecedentes familiares e a sua postura social. [vii] O livro foi impresso “nas oficinas da Sociedade Industrial Castor, Lda.” com um prefácio de Ramiro Guedes de Campos. in José Carlos Ary dos Santos, Obra Poética, Edições Avante!, 1994, sendo que nesta edição as poesias de Asas estão relegadas para o fim, fora da ordem cronológica, e escritas num tipo mais pequeno de letra!... [viii] Conquista, Asas, in Obra Poética. [ix] Poema sem Nome, Asas, in Obra Poética. [x] Escuridão, Asas, in Obra Poética. [xi] Infância, VIII sonetos, in Obra Poética. Segundo a nota de Francisco Melo da página 392 desta edição, citando Manuel Gusmão, este soneto poderá ter sido escrito precisamente no dia da morte de Zé Carlos. [xii] “Que a terra lhe seja pesada./ Que lhe apodreça o corpo e os olhos fiquem vivos, ...”, In Memoriam, A Liturgia do Sangue, in Obra Poética. [xiii] Fernanda de Castro, in Ao Fim da Memória, II Volume, pág. 184, Ed. Verbo, Lisboa, Abril de 1988. [xiv] Na verdade tinha 27 anos dado que este episódio se passou em 1963 mas o José Carlos foi quase sempre muito ilusivo quanto à sua idade… [xv] Fernanda de Castro, obra citada, págs. 209 e 210. [xvi] Fernanda de Castro, obra citada, pág. 211. [xvii] Fernanda de Castro, obra citada, pág. 212. [xviii] Ocorrida em casa de família na Travessa da Espera, 8, 3ºandar, em Lisboa. [xix] Fernanda de Castro, obra citada, págs. 310 e 311. [xxi] Foi nesta época que terá aparecido na televisão a célebre frase de segundo sentido “Pescadinhas de todos os mares, uni-vos!”, um paralelismo irónico com o lema parafraseado de Marx, “Proletários de todos os países, uni-vos!”. Segundo Zita Seabra, in Foi Assim, Editora Aletheia, Lisboa, 2007, pág. 22. Contudo, esta versão inicial de Zita Seabra terá sido posteriormente e pela própria tornada mais exacta, tal como me foi transmitido pela minha amiga Drª. Isabel Lopes: «E, já agora, a tal frase célebre, a Zita Seabra cita-a mal, já o reconheceu numa entrevista; era assim: «Peixes de todos os mares, congelai-vos»; inspirada em «proletários de todos os países, uni-vos», e foi utilizada numa campanha para divulgar as vantagens do peixe congelado, indústria que as frotas pesqueiras do Henrique Tenreiro começavam a explorar, e a graça da história era essa! ». [xxii] Natália Correia tinha incluído poemas de José Carlos na sua Antologia da Poesia Portuguesa Erótica e Satírica, editada no Rio de Janeiro em 1965. Defendeu esta inclusão em numerosas ocasiões e foruns. Sentiu-se algo traída quando posteriormente assistiu à cedência do escritor perante a facilidade comercial da poesia das letras para canções e mesmo de alguma “poesia militante” que considerou menor e algo indigna do vate. Ficaram célebres as discussões entre os dois, nomeadamente as provocadas pelo José Carlos, que não perdia a oportunidade de uma provocação e de um protagonismo do género. Tal como sucedeu no Casino de Afife, num recital, e em muitos outros momentos. Natália Correia havia de dizer um dia “(...).Confesso que fui excessivamente dura com ele quando o vi desviar-se do caminho que então considerei a via nobre da sua poesia e que continuo a assinalar no seu livro Adereços, Endereços, para enveredar por aquilo que na altura lhe verberei como publicismo poético”.(...), in Natália Correia, “Ary: um poeta da comoção até ao grito”, Jornal de Letras, 24-1-1984. [xxiii] Vítor Pavão dos Santos, Amália. Uma Biografia. Lisboa, contexto, 1987. [xxiv] Este episódio é referido com o mesmo sentido mas contado de maneira um pouco diferente por Benfeita, obra citada, pág. 114. [xxv] Vide VIII sonetos, in Obra Poética, já citada. [xxvi] Insónia, in VIII sonetos, in Obra Poética, já citada. [xxvii] José Carlos Ary dos Santos, Infância,VIII sonetos, in Obra Poética. Edições Avante!, 1994
...afinal sempre há quem pense e não vá atrás, pura e simplesmente, das ideias feitas que nos são servidas a tentar manipular-nos! Não resisto a deixar a sugestão de se ler n'O Público o artigo da Helena Matos: http://o-povo.blogspot.com/2009/01/livro-de-estilo-para-referir-israel.html E deixo aqui outra vez o meu breve apontamento de há dias: Em Agosto do ano passado, um grupo de cerca de 200 palestinianos da Fatah fugiu para Israel depois de confrontos com o Hamas de que resultou uma dezena de mortos. A cena da entrada dos da Fatah no estado Hebraico foi noticiadíssima porque estes, para demonstrar não transportarem bombas consigo, despiram-se de motu proprio antes de atravessar a fronteira e nesse transe foram ajudados pelas tropas de Israel, que os ampararam e levaram para hospitais. Os membros da Fatah que então permaneceram na Faixa de Gaza foram detidos pelo Hamas. Há umas semanas, o Hamas declarou unilateralmente que a trégua com Israel estava terminada. A partir desse momento começou a disparar mísseis sobre Israel, dezenas por dia (os “rockets”, como lhes chama a comunicação social que gosta de eufemizar a linguagem quando se refere ao Hamas, são mísseis). Tal situação, fizeram notar os israelitas, era intolerável. Não se ouviu, então, ninguém na nossa praça condenar o Hamas por tais actos… mas agora, toda a miríade de organizações esquerdófilas vem condenar Israel. São os membros do coro do costume. Só vêem o que lhes convém ver e só falam do que lhes convém falar. É pena. Enfim.
Em Agosto do ano passado, um grupo de cerca de 200 palestinianos da Fatah fugiu para Israel depois de confrontos com o Hamas de que resultou uma dezena de mortos. A cena da entrada dos da Fatah no estado Hebraico foi noticiadíssima porque estes, para demonstrar não transportarem bombas consigo, despiram-se de motu proprio antes de atravessar a fronteira e nesse transe foram ajudados pelas tropas de Israel, que os ampararam e levaram para hospitais. Os membros da Fatah que então permaneceram na Faixa de Gaza foram detidos pelo Hamas. Há umas semanas, o Hamas declarou unilateralmente que a trégua com Israel estava terminada. A partir desse momento começou a disparar mísseis sobre Israel, dezenas por dia (os “rockets”, como lhes chama a comunicação social que gosta de eufemizar a linguagem quando se refere ao Hamas, são mísseis). Tal situação, fizeram notar os israelitas, era intolerável. Não se ouviu, então, ninguém na nossa praça condenar o Hamas por tais actos… mas agora, toda a miríade de organizações esquerdófilas vem condenar Israel. São os membros do coro do costume. Só vêem o que lhes convém ver e só falam do que lhes convém falar. É pena. Enfim.
Bom dia! Há que tempos que não vinha apanhar Sol! Há que tempos, também, que não era espicaçado a fazê-lo como me senti ontem, andando nos últimos tempos enroladíssimo e raladíssimo com a gestão da crise de todos nós (bem, quer dizer, ando a gerir a minha e só isso já não é fácil! Penso que cada um ande com a sua… a sua crise, claro!). Devo milhões de desculpas a todos, claro, também. Pela ausência. Ora, e por que carga de água – valha-nos Deus! Água, agora e para já, não! Sol! – terei hoje feito como os caracóis? Caracol, caracol… sabem o resto, não sabem? Foi porque desde ontem que ando intrigado com uma grande coincidência! Uma coincidência que junta na mesma equação a Luísa Castel-Branco, o Alma e os mistérios da vida, o seu novo romance e o nosso (da comunidade, uma vez que foi adoptado genericamente) Um Tiro na Bruma. Nem mais. Para se ver a coincidência pode dar-se um giro a www.adriveinmycountry.blogspot.com , já que sou um aselha a por fotos neste blog e não consegui fazer a inclusão neste texto e a coincidência está nas fotos (não, não se trata de uma coincidência entre o meu penteado e o dela, garanto!...). BOM DIA DE SOL A TODOS! Manuel Cardoso
Desde o início dos anos cinquenta, a Estalagem do Caçador, em Macedo de Cavaleiros tem constituído um símbolo do turismo de qualidade em Trás-os-Montes. Construída para satisfazer uma procura sofisticada de caçadores que vinham até ao centro de Trás-os-Montes a convite e ao desafio dos industriais e mecenas Pinto de Azevedo, foi inicialmente um edifício construído de raiz, de arquitectura confortável e exótica, na zona nobre de Macedo de Cavaleiros. Nela pernoitaram escritores, artistas, jornalistas, presidentes da república, ministros, embaixadores, príncipes e princesas, capitalistas, funcionários, turistas nacionais e estrangeiros, foragidos políticos, tantos outros! Caçadores, claro, não fosse esse o seu nome de fundação e não tenha sido sempre essa toda a temática da sua decoração. Com a exigência das novas normas para manter o estatuto de cinco estrelas, nos anos oitenta mudou-se para um edifício civil do fontismo do século XIX, defronte do anterior, um velho casarão com história, já que nele funcionaram os Paços do Concelho até arder em 1943. Desde há mais de vinte e cinco anos aqui tem acolhido, com estilo peculiar, num ambiente que faz jus ao nome e intenção do fundador, a plêiade de hóspedes que lhe reconheceram o mérito. Ora, acontece que, neste momento, a Estalagem do Caçador está à venda. Épocas. Se um dia lá esteve ou lá ficou, quer deixar aqui um seu apontamento?
- Não pode ser! Não pode ser! – o rei andava de um lado para o outro no aposento, não admitia que o desespero tomasse conta da situação. Os conselheiros afastavam-se para um dos lados conforme ele dava passos apressados de ir a lado nenhum. Parou por momentos a olhar para o candeeiro suspenso no meio do salão de audiências. O candeeiro estava apagado, tal como estavam todas as lâmpadas do reino. - Mas como foi isto possível? Porque é que ninguém me avisou a tempo de tomarmos providências? – e recomeçava com o vaivém. Desde manhã que a situação entrara em completa precariedade. Ao acordar, tinha levado a mão à mesinha de cabeceira e não havia luz. Não havia electricidade! Perguntado um camareiro pelo sucedido, ele disse com ar um tanto aflito: - Nem vai haver mais, majestade. - Não vai haver mais? - Não. Esgotou definitivamente. Está o mundo todo parado. Nem da Rússia, nem da China, nem de lado nenhum. Pura e simplesmente acabou-se. - Acabou-se? Como? E os painéis solares? - Nada, majestade. Nem um electrãozinho… Físicos! Onde estavam os físicos? Então os que tinham descoberto e provado todas aquelas equações que, no século XXI, tinham aberto essa possibilidade insuspeita até então, a de a electricidade ser um recurso escasso e finito, não tinham sido absolutamente refutados em todos os debates? - Quero vê-los! Quero que venham já aqui e ouvir e ver o que terão para me dizer! - Estamos com dificuldades, majestade. - Dificuldades? - É que não há nada a funcionar: nem telecomunicações, nem computadores… não há net… - Ah!.................... Abriu-se a porta do fundo da sala. Vinham a rainha e as princesas. Silêncio de todos. Basbaque de todos. A rainha continuava um traço e uma elegância em botas altas e então as princesas, vestidas sempre como se fossem para uma passerelle e a dar os bons dias a todos com aqueles olhares pestanudos… - Olá, pai! - Olá, pai! - Olá, meu marido! Dados os beijos de cumprimento, uma delas estendeu-lhe uma caixa com um laço farfalhante: - Vá, abra! - Não vêem que estou no meio de uma crise?! - Crise?! Está no meio de nós! Não somos uma crise!!!!! - Vá, abra! Ele abriu e estava um pequeno cubo com um interruptor. - Ah, um interruptor! Para quê? Não há electricidade! Não sabem? Nada funciona! - Vá, pai, carregue lá! Esqueceu-se que hoje é Dia do Pai e que tínhamos que ter algo para lhe dar? - Sim, mas, poderá… Estava a carregar no botão quando uma voz surgiu de cima: - Ok, tudo ok! O ensaio fica por aqui! Estiveram todos muito bem!
Bom dia! Bom ano! Bom tudo o que quiserem – desde que não queiram coisas menos boas! No nosso tempo da Índia ou do Brasil ou de África – refiro-me ao período século XV – século XIX, as cartas demoravam meses e anos a fazer uma torna viagem. Isso tinha desvantagens e vantagens. Uma das vantagens foi a invenção do vinho da Madeira… Outra era a de tudo ir amadurecendo a pouco e pouco, as pessoas também, ganhando nessa maturidade um âmago que as tornava cheias de autenticidade e de experiência de vida. As ausências e as distâncias são cheias de momentos desse amadurecimento. Melhoram a perspectiva. Fazem com que se consiga distinguir melhor o essencial do acessório. Deixam mais tempo para repensar o que se vive, ver o que se vive, em vez de se estar constantemente na emoção do que se vive, cego por ela. É muito bom hoje vir aqui e ter vontade de aqui escrever, de aqui deixar votos de um bom dia e de um bom ano, e de voltar a visitar, com calma, o caleidoscópio que é esta comunidade Sol, com os seus pontos brilhantes e com os seus pontos negros. Bom dia, SOL!
Cheguei de Lisboa às duas e tal da manhã onde fui fazer um curso intensivo de actualização sobre HACCP. Durante a minha curta ausência, de pouco mais de dois dias (fica, assim, justificada tb a minha quase ausência daqui d’O Sol durante dias…), houve algo na nossa casa que mudou muito: ao pé da lareira, no chão, está cuidadosamente feito um Presépio. Com as figurinhas de sempre, musgo, cavacos, até uma quase estrada delimitada por nozes onde os Magos irão passar, um rebanho de gordinhos borregos e ovelhas em pose. Está um belo Presépio. Simples. Pequeno. Essencial. Como os da minha infância: sem nada de tecnológico. Não gasta electricidade em luzes, não tem nada de plástico, muito ecológico. Disseram-me: este ano não vamos ter árvore de Natal. Nem foi preciso explicarem-me porquê. Imagino que a construção daquele microcosmos simbólico e em que está todo um universo (O Universo), ali no chão com madeira, cavacos e amor extraordinário, veio tornar supérfluo seja mais o que for. Este ano não vamos à mata cortar uma pernada de pinheiro ou, até, um pinheiro jovem nascido nalgum sítio mais ínvio. Fica logo o mundo a lucrar, só por isso. Também não vamos acender aquelas luzes de pisca-pisca. Fica o mundo ainda a lucrar mais, também por isso. Vamos concentrar-nos mais no Presépio. Já estamos todos a lucrar ainda incalculavelmente, só por isso. Boa Semana para todos! E BOAS FESTAS!
(continuação: não leia sem ter lido os posts anteriores!) A Maria João respirou duas vezes antes de abrir a porta. Meteu a chave, rodou. Ao mesmo tempo que a luz do hall a atingiu, este encheu-se. O António e os filhos envolveram-na num abraço e olhavam-na com espanto e incredulidade. - Estávamos preocupados. A tua mãe deve estar a ligar para tudo o que é hospital! - E ligou para a polícia! - Até os primos não param de telefonar a saber se já tinhas aparecido! Que aconteceu? - Onde foi, mãe? Ela fez um sorriso de que não se lembrava desde o colégio. Fitou-os um a um como se fosse uma primeira vez, sentiu que o seu brilho no olhar podia ir longe de mais para o que queria e disse logo, sem mais delongas, as frases que resumiam o estar ali: - Estou aqui sã e salva, não estou? Olhem, estou aqui como se fosse o vosso presente de Natal! Eu quero mesmo ser o vosso presente de Natal! Deixam-me ser? No dia seguinte, à saída da missa, multidão de cumprimentos, beijos cheios de pressupostos e naturalidade aparente. Corria um ventinho que a fez voltar-se por causa do cabelo não lhe ir para a cara. Deu de frente com as árvores do jardim, cheio de sol, folhas a atravessar as grades, a virem para o passeio e a rua. Reconheceu aquele vento e aquela luz. “Apetece-me tomar um café! Vou só ali à bica”. Foi dando alguns passos, o grupo estava ainda nos cumprimentos, foi andando pelo passeio, as vozes foram ficando para trás, o barulho do trânsito, apesar de raro, meteu-se entre si e o da porta da basílica. Olhando para o empedrado, deixou de contar os passos. Foi simplesmente andando, andando, atravessando ruas, descendo as calçadas. Será que iria conseguir que a deixassem ser um presente de Natal?
(continuação) Ao fim de uma hora de cabeças lavadas já estava tu-cá-tu-lá com as clientes. Duas, ao sair, meteram-lhe uma moeda de euro no bolso da bata. Tudo tão diferente! Nem era desagradável, aquela sensação dos dedos nos cabelos delas, massajar, passar o shampoo, passar a água, estar sempre com atenção à temperatura, escorrer, envolver com a toalha, satisfação de mais uma tarefa cumprida! Conversa mole de revistas baratas, apartes de antecipações de saídas nessa noite, observações picantes sobre homens reais ou imaginários. Ria-se imenso com as bocas, outro tanto com as que lhe eram directamente dirigidas: - Olhe, sabe que mais? Se se viu livre dele, não queira outro! Arranje vários, querida! - Sim, que ainda está boa prás curvas, filha! Olhe, homens, só se forem às paletes que é para não ter que se ficar com nenhum! - Pois a mim bastava-me um! – suspirava uma matrona ao fundo, sentada numa poltrona ao lado de uma begónia, unhas mergulhadas na tina da manicure, arfando o peito para cima e para baixo – Nem tinha que fazer nada! Tratava-o ali nas palminhas, garanto! - Ó dona Márcia, não venha para aqui com esse enguiço! Credo, mulher, para que os queremos? Olhe, bem, se for assim para uma noite… Maria João ria-se daqueles argumentos delas, fazia a todas um ar de neutralidade e divertimento, espiavam-na e mediam-lhe cada olhar, cada gesto, na esperança de uma denúncia. Tinha tido que apanhar o cabelo com um elástico atrás, estava só a cair-lhe e a perturbar-lhe os movimentos da cabeça, ficava-lhe colado ao pé dos olhos e não a deixava ver bem o que fazia e o resto da sala. Sentia-se a transpirar. Sabia-lhe bem, estar a transpirar por fazer aquele trabalho! O salão parecia não esvaziar, entrava ainda mais uma cliente por cada uma que saía. Era sempre cumprimentada: - Temos cá uma cara nova!... Hm… não é aqui da Ajuda, pois não?... Um medo fugaz de ser reconhecida assaltava-a mas logo passava, hipótese recôndita que afogava com o chuveiro a fazer escorrer a espuma do amaciador. Só depois das dez é que saiu a última das clientes. Uma rapariga varria o chão, ela aproveitava para fumar um cigarro, ofereceu outros às colegas. Foi aí que a dona Dina disse: - Bem, meninas, venham os cafés e vamos à nossa vez! Uma delas foi buscar um tabuleiro de bicas quentes à Flor das Natas, sentaram-se por momentos e depois, cortinas corridas, desligado o néon cor-de-rosa e azul que intermitentemente piscava Salão Beleza, arranjaram os penteados umas às outras, experimentaram maquilhagens. Uma delas, com uma pinça, deu um jeitinho a uma das sobrancelhas onde tinha um pelo rebelde. - Sábado à noite é sempre assim! A nossa semana acaba hoje! Juntaram e dividiram as gorjetas e depois despediram-se. - Sabe, Maria João, se quiser volte na segunda-feira mas ainda à experiência. Isto anda mal para todo o mundo mas qualquer coisa… veremos se se arranja. - Também ainda vou pensar mas um muito obrigado, dona Dina, por esta tarde… - Olhe, e agora, vai para onde? Que eu não tenho nada com isso… - Ah, não se preocupe, tenho sempre onde ficar! Saíram, apagaram as luzes. Andou umas dezenas de metros, deixou que as colegas desaparecessem, desceu as ruas até à Junqueira, mandou parar um táxi. (continua)
(continuação) Hesitou um instante. Voltou atrás, entrou de novo na Flor das Natas – estranho, parecer-lhe familiar tão imediatamente aquela luz, aquele espelho, aquelas pessoas – e pediu um café ao balcão. Voltou a fumar outro cigarro. Depois saiu, desviou-se de algumas pessoas que circulavam na mesma nesga de passeio, andou a meia dúzia de metros até à porta de vidro embaciado, empurrou-a e entrou. Estava quente, abafado, ruidoso, cheio de luz e de vozes, todas elas se voltaram para si e mediram-na de alto a baixo. Uma aproximou-se e perguntou “tem marcação?”. Com uma curiosidade e um atrevimento que lhe saiu com um prazer inédito, respondeu-lhe: - Não, não tenho. Também não vim cá para isso. É que vi ali o papel a pedirem uma empregada e estou aqui eu, pensei… A outra olhava para ela sem desfitar o olhar, incrédula, mais ainda, embasbacada. - Dona Dina! – chamou uma mulher ainda nova que estava de secador na mão apontado a uma das clientes – Está aqui esta… senhora, a perguntar… é melhor a dona Dina vir aqui… - Sim, faz favor? – aproximou-se a dona Dina, direita, despachada, bata com uma pinça de dentes largos presa no bolso, aproveitando para puxar para trás uma madeixa ao mesmo tempo que lhe estendia a mão. - Eu venho aqui por causa do pedido ali da montra de uma empregada… - Como?! - Sim, é que ia a passar e li o papel… Ouviam-se os secadores, o som de uma televisão ao fundo, todas elas estavam mudas e a observar a cena. - Bem, se é por isso… - a dona Dina não se conteve de a examinar outra vez da cabeça aos pés, não lhe escapava aquele casaco, toda a toillette, os sapatos que valiam um ordenado, a carteira que valia dois – Mas, desculpe, acho que deve haver aqui um enga… - Não há, acredite-me. Queria muito que me deixasse trabalhar aqui. Não discuto o ordenado que me pague e não estou a brincar. Ponha-me a fazer qualquer coisa! A dona Dina fixou-lhe o olhar por momentos, uns olhos onde lia imenso, ela sabia ler aqueles olhares todos nas clientes e este não lhe escapava. - Alzira! – chamou uma das ajudantes. Traz aí uma bata para esta… nossa colega… - Maria João. - …Maria João. Mas, olhe, vai estragar as unhas, de certeza! - Corto-as! - Está bem! Está bem! Sabe lavar cabelos? Aposto que sim! - Sei! - Então, olhe, pode começar! – voltou-se de costas e dirigiu-se como que a um auditório: Que é que estão a olhar para mim?! Vamos a despachar, que é sábado e não há que estar paradas! - E em voz mais baixa, para uma cliente da há anos: Está a ver isto? Não é só nas novelas da televisão! Aqui no salão Beleza também acontecem coisas, às vezes! - E pelo espelho, ambas exprimiram a concordância da sua surpresa. Uma empregada mais nova explicava à Maria João onde estavam as toalhas e como era a sequência dos shampoos e amaciadores. Ainda lhe perguntou: - Não quer por umas chinelas de feltro em vez de estar com esses sapatos? Daqui a bocado não se aguenta de pé! - Agora já não me aguento de pé! Riram-se as duas. Foi o seu primeiro riso de cumplicidade. (continua)
(continuação) A Maria João saiu da casa de banho da pastelaria, onde se dirigira logo que entrara, com a resignação decidida de que iria enfrentar qualquer adversidade. A começar pelo cheiro da lixívia forte que se exalava naquele aposento escuro. Não que fosse um mundo novo mas que era uma situação de muitas com as quais queria aprender a lidar. O papel era asperíssimo, tinha tido que usar uma folha para conseguir segurar com menos nojo na pega de acccionar o autoclismo e a torneira da água (só havia de água fria) estava longe de reluzir limpeza num cromado que já há muito deixava ver o metal amarelo com verdetes. Não usara a toalha, nem lhe tocara, havia ao lado um dispenser de toalhetes de papel mas estava vazio. Sacudira as mãos, agitava-as ainda quando se sentou numa mesa de canto. Notou perfeitamente que as quatro ou cinco pessoas que estavam ali, dois homens de idade que jogavam ao dominó e três mulheres que momentaneamente desviaram a cabeça da televisão, convergiam os olhares na sua direcção. Um homem que estava ao balcão dirigiu-se-lhe “ora boa tarde, se faz favor” e ela pediu um galão e uma torrada. Lá fora passavam carros numa rua de empedrado irregular e começava o escurecer de fim de tarde. Pessoas cruzavam-se diante da porta, todas encasacadas, todas desconhecidas, no passeio estreito. Do lado direito da porta havia uma máquina de cigarros com uma cena colorida de um amolador a arranjar o salto alto de uma bota de uma rapariga que esperava. “Também está sozinha, aquela ali da bota”, pensou. Levantou-se e foi buscar um maço. Voltou a sentar-se, abriu-o e acendeu um cigarro. Nesse momento o homem pousou-lhe o galão na mesa “a torrada vem já!”. Ela agarrou no copo com as duas mãos, aquecendo os dedos e a palma no calor do copo. Pôs-lhe o açúcar. Mexeu. O homem pousou a torrada mas ela preferiu acabar o cigarro, primeiro. Deu uns golos no galão. Estava agradável, muito agradável. Sentiu-se melhor. Sentou-se melhor na cadeira metálica, esticou a perna esquerda, cruzou a direita por cima, respirou fundo e apoiou o queixo na mão, cotovelo na mesa. Deu uma última passa. Apagou o morrão num cinzeiro de alumínio amolgado. A parede ao lado era toda ela um espelho, um espelho acastanhado que fazia a pequena pastelaria parecer muito maior. Aqui e ali havia autocolantes, uns inteiros e outros rasgados, já antigos. Viu-se no espelho. Estava com ar cansado, lá isso estava, talvez com ar de frio, de certeza com ar de frio. Mas tinha uma expressão de desafio. Desafio de si própria. Um olhar exultante – como podia ter aquele olhar exultante? O homem pousava agora o estojo dos guardanapos de papel. - Como se chama, esta pastelaria? - A Flor das Natas. - E esta rua? Que bairro é este? - A senhora está perdida? - Perdida, eu?! – sorriu, sorriu por dentro e por fora, diante daquela ideia de estar perdida. - Não, que ideia! Tenho andado a passear, só isso. O homem disse-lhe o nome da rua e o do bairro. Ela não fazia a menor ideia de onde era nem uma coisa nem outra. “Ora”, pensou, “também na vida não fazemos a menor ideia dos momentos que nos esperam”. Comeu a torrada, acabou o galão, ao pagar viu que tinha quase cem euros na carteira. Deu as boas tardes, saiu com um obrigado. Tinha andado meia dúzia de metros quando viu numa montra um papel “precisa-se de empregada”. Parou e leu outra vez. Espreitou para dentro pelo vidro embaciado. (continua)
A Maria João alinhou melhor um dos talheres de sobremesa, passou a ponta do algodão a limpar uma dedada que tinha ficado no Christofle. Suspirou. Olhou lá para fora pela janela, a cúpula da Basílica a brilhar ao sol frio desta manhã de Novembro, por outra o vermelho e amarelo das árvores do jardim da Estrela, o trânsito menos intenso de um sábado. Os filhos tinham saído e deviam estar a regressar para o almoço, o António também, tinha ido só comprar o Expresso, e depois seria a vez dos convidados, uns amigos e colegas da empresa. Era o último sábado com compromissos atrasados, depois viria a lufa-lufa do Natal, começara mesmo a fazer uma lista de que desistira com um sentimento de “ainda não, terei tempo, não vale a pena já”. Acumulava-se à sua frente um montão de tempo. De tempo aflito de pressas e vazio de vontade. Seria preciso algo mais para o desalento? Na semana passada, na missa, encerrara-se o ano litúrgico, dissera o prior, estava-se na semana de início de um novo. Para si, de início de tudo outra vez, do fastio de existir, vontade de fugir sem querer ser covarde, mas presa a tanta coisa de que queria desistir. Esta coisa dos miúdos – quais miúdos? Na idade deles já estava casada! – não lhe saírem de casa nem assumirem um compromisso para a vida, a sua sensação de solidão permanente já desabafada com o António – Isso é a meia-idade, vais ver que logo passa! – , o ter de estar pronta para tudo e sempre, para toda a família, para os primos, para as tias, para os… farta, farta, farta! E não sentir vontade de nada, nem prazer em nada. Sobretudo, perder a alegria de ter prazer. Seja em quê. Aquela sensação de leveza ao dar um presente que alegrasse alguém, a euforia suave que lhe ficava depois de uma noite de amor, a excitação de dar uma boa notícia a esta a àquela, tudo isso se apagara nos dias solitários – ela achava solitários – , nas manhãs lentas de despertar para uma monotonia que a corroía, a desfazia para lá das lágrimas que disfarçava com make-up e para lá de todo o cinzento com que via toda a casa, os móveis, as pessoas e a sua alma. Olhou outra vez pelas janelas. Devem estar quase a chegar. O meu casaco? A minha carteira? Abriu a porta, desceu as escadas, saiu para a rua. Pôs-se a andar olhando só para o empedrado. E andou, andou, andou até se cansar, era já meio da tarde quando parou. Braços caídos. Levantou o queixo, sentia fome e frio. Olhou à volta, entrou na primeira pastelaria que viu. (continua)
Hoje é 25 de Novembro. Em 1975, 25 de Novembro foi o fim do Prec, oficialmente... embora o Prec ainda tenha continuado por algum tempo em determinadas regiões... e sobretudo em determinadas mentalidades, agarradas ao passado. Tal como hoje. Gente agarrada ao passado. Gente que não gosta da liberdade de expressão, que adora controlar tudo, sobretudo o que diga respeito ao seu passado, para que ninguém o saiba... e que adora falar e ouvir-se falar. Ainda bem que houve o 25 de Novembro. Quanto aos que só falam, falam, por qué no se callan?
Hoje, o politicamente correcto é dizer mal dos Estados Unidos da América e dos Americanos! Sobretudo para a esquerda, os americanos são a fonte do mal no mundo: "usam e abusam da pena de morte, perseguem pessoas, têm-nas presas sem culpa formada, submetem-nas a torturas, espancam-nas, abatem-nas, condenam-nas à pobreza!... Usam a força com uma unilateral indiferença pelos direitos de soberania dos povos"... Há um pouco de tudo isto pela imprensa e pelos debates, entrevistas e artigos de opinião cuja assinatura rosa ou encarnada não deixa por mãos alheias a subscrição de tão elevadas preocupações e condenações. Há bem pouco tempo, um desses nossos opinion-makers arengava o mesmo rosário argumentativo com os adjectivos anti-Bush do costume. Estava a ouvi-lo na rádio com a minha carapaça de indiferença perante a incultura com que me costumo defender, nestes casos, para conservar – o que não é fácil – a minha querida lucidez (vaidade minha!, permitam-me!), quando o dito cujo, e sem contraditório, rematou um raciocínio vulgar com "os estúpidos americanos!". Aí, fiquei com vontade de pegar no telefone e dizer duas ao sujeitinho mas, como nem sabia o número do programa nem sequer se estaríamos em directo, fiquei-me pela indignação interior e pela decisão de redigir estas linhas para os meus leitores e amigos. Não sou cônsul da América em Trás-os-Montes, nem cidadão americano, nem recebo quaisquer rendimentos do lado de lá do Atlântico. Mas tenho que dizer algo: se não fossem eles, os americanos, hoje poderíamos ser nazis! Ou comunistas! Ou não ser nem uma nem outra coisa porque se o Hitler tivesse vencido a guerra ou se o Estaline ou os seus sucessores tivessem levado a deles avante, teriam acabado a liberdade de expressão e a vida de muitos de nós. Se não fossem os americanos, a Europa de hoje não existiria tal como a conhecemos, com muitos defeitos, talvez, mas com imensas virtudes. O mesmo se passa com os Estados Unidos da América. Cometem erros? Pois cometem – nós não? São ricos? Ainda bem! Porque não há país em dificuldades que não receba de lá empréstimos, subsídios, ajudas directas. São militarmente muito poderosos? Ainda bem! Se não fosse o seu poderio militar há muito que uma horda de bárbaros já nos teria varrido do Ocidente! São culturalmente fortes? Cada vez mais. Começaram a amadurecer neste campo. Desde a geração que entre as guerras se instalou em Paris, nunca mais parou uma torrente fecunda que hoje em dia torna superior uma cultura que muitos quereriam ver apenas subsidiária da europeia. Quer na arte, quer na literatura, quer na música. E há um pormenor que é sintomático deste estado de coisas. É que por mais que eu tenha tentado descobrir em qualquer artigo do Washington Post ou do New York Times, em caso algum li uma expressão que chamasse estúpidos aos portugueses ou aos europeus. Será porque o não somos? Talvez sim! Mas também porque os americanos o não são, a ponto de no-lo chamarem. Alguns de cá serão, a ponto de o chamarem a eles...
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