SOL

ZÉ CHIBEIRO

 

 

José Laureano

 

JOSÉ LAUREANO. Este é o seu nome, mas toda a gente o conhece pelo “Zé Chibeiro”.

Hoje dia 24 de Abril de 2008, apanhei-o ao sol, junto a sua casa, pois é meu vizinho e fui meter conversa, pois há longos anos que somos amigos e conversamos. Levei o digital voice recorder, mas este não quis gravar. Tive que tomar notas. Aí vão em género de história.

 

Ó Sr. Zé. Porque é que lhe chamam Chibeiro?

É que a minha mãe quando veio para Águeda, era eu garoto, andava a guardar cabras. Embora eu nunca tenha ido com as cabras, passei a ter essa alcunha. Portanto há mais de oitenta anos que esse é o meu nome.

 

Quando é que nasceu?

Isso é uma história…eu vim a este mundo dentro da cadeia de Ponte de Lima, pois a minha mãe era hospede daquela instituição de vez em quando. Foi no dia 14 de Setembro de 1913. A minha mãe chamava-se Felicidade da Conceição. O nome do meu pai, nunca o soube, só conheci a minha mãe e os meus quatro irmãos. Três eram raparigas. Eu era o mais novo. O meu irmão António morreu aqui em Águeda, das minhas irmãs nunca mais soube nada.

A minha mãe veio para aqui, para Águeda em 1925 e trouxe os rapazes.

Em 1934, fui para Aveiro para a tropa. Estive na Cavalaria 8.

Como eu tinha ido de Águeda e era do Recreio, o Aspirante tinha-me raiva, pois ele era todo Beira-Mar, pois naquela altura havia uma grande rivalidade entre Águeda e Aveiro. Deram-me o pior cavalo e no picadeiro o Aspirante vergastava-me.

Em 15-12-1935, foi a inauguração do Quartel dos Bombeiros, na EN1, onde hoje é a “Palhota”. Também foi quando veio o “carro Fargo”. Neca Carneiro era o Comandante. Pouco tempo depois já em 1936, alistei-me como Voluntário.

Hoje faço parte do “QUADRO DE HONRA” e sou o mais velho Bombeiro do Distrito de Aveiro.

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A minha mulher chamava-se Maria Justina e era três anos mais velha do que eu. Já faleceu há 36 anos.

Tivemos 10 filhos, mas já não me lembro quantos rapazes eram. O mais velho, que tinha o meu nome, mas que era conhecido pela alcunha de “Raça”, foi GNR e chegou a chefe. Foi muito estimado.

Vivo com a minha mais nova, Maria José Canário, que já tem 62/63 anos e dois netos dela, o Alexandre de 11 e o Eduardo de 4, dois reguilas.

Nunca pensei vir a viver aqui, onde eram só as “Quintas de São Pedro”.

 

Uma vez…estávamos no tempo da Guerra (II), eu era um dos Mordomos da Festa de S. Sebastião. O Henrique Ramos, também era (Ti Henrique) e disse que ia á Câmara arranjar uma licença, pois era proibido botar foguetes.

Estava eu a botar um, quando aparece o seu primo Dr. Fausto que era o Presidente da Câmara e vinha acompanhado do Fiscal Martins – que era de S. João do Monte e tinha casado em Macinhata – deram-me ordem de prisão e a GNR lá me levou para a prisão, que era defronte da Marcenaria do seu tio Armando.

Alguém foi ter com o Padre Amílcar e lá me safei.

Fez-se a Festa sem foguetes.

 

Quando é que casou?

Ai, já não sei o ano. Eu morava numa casita na Venda Nova e já tinha 4 filhos. Mas nunca se falou em casamento. Um dia, apareceu lá a Mariazinha Amaral (mãe da escritora Emília Amaral) e que eu tinha de casar e mais não sei quê. Eu trato de tudo, pois tenho que mandar vir uma certidão de nascimento e outros papéis. Eu pago tudo, disse ela. Também foi ela que falou com o Padre Balacum que era de Óis da Ribeira.

Arranjaram os padrinhos e tudo. Foram o Ribeiro e Melo dos Canários e sua mulher Eugénia.

O casamento foi na Igreja de Águeda às sete e meia da manhã. Depois fomos para casa, para a boda. Foi uma garrafa de Vinho do Porto e um pacote de bolachas.

Quando terminou a mulher saiu de casa para ir trabalhar e eu fiz o mesmo.

Fui com o Gastão, que na altura era o meu patrão. Fomos à Arrancada, carregar a camioneta de lenha, que depois fomos descarregar a Ílhavo á Vista Alegre.

De regresso trouxemos uma carrada de sal, que fomos levar ao Coutinho da Arrancada. Ele deu-me o pano para eu mandar fazer uma camisa. Foi a minha prenda de casamento.

Eu como andava por aqui e por ali em trabalho, ia-me safando e portanto nunca passei fome, mas lá em casa, os filhos, passaram-na muitas das vezes.

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Com o passar do tempo, só três filhas aqui ficaram.

Do Gastão, passei para o seu parente Figueira. Aí fartei-me de andar, pois ele tinha transportes para todos os lados.

Depois saí e fui para a Serração do Baldaia, ali mesmo á frente. Trabalhava com a Caldeira, pois as máquinas trabalhavam a vapor.

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Este é o retrato de um homem simples, que é muito respeitado por todos e que faz o favor de ser meu amigo.

 

Recardenense (Humberto Almeida)

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Um homem de sete ofícios, sempre voltado para a rádio, cinema e escrita

 

 

António Jorge Courinha e Ramos

 

Tudo começou quando em 1949, comecei a aprender e a estudar para técnico de rádios. Um dia ao regressar a casa, passando junto á Fábrica de Cerveja DICCA, na Av. Paiva Manso, vejo na porta ao lado e pertencendo á mesma Organização, um homem que estava a reparar um aparelho receptor de rádio. Eram os agentes dos rádios MURPHY. Com aquela curiosidade dos meus quinze anos, comecei a falar com o indivíduo, e ali nasceu uma amizade que perdurou para sempre e que marcou a minha vida e digamos que moldou a minha vida para sempre.

 

Esse homem era o António Jorge COURINHA E RAMOS.

Homem de sete ofícios, sempre voltado para a rádio, cinema e escrita. E quando falo em rádio, já não falo só em rádio reparações, mas sim na RÁDIO.

Ao princípio, sob sua orientação, construí para ele, o primeiro Estúdio de Gravação, em Moçambique. Deu-lhe o nome de PRODUÇÕES ONDA.

Na altura tinha acabado de comprar uma máquina de filmar de 16 m/m, mas em 1952, já tinha uma máquina profissional de 35 m/m, uma Arriflex.

Foi nessa altura, que deixei os Caminhos de Ferro e fui trabalhar para a PHILIPS (Zuid) e para ele.

 

Este homem, que durante a minha estadia em Moçambique sempre foi como um irmão mais velho, e que até foi o meu padrinho de casamento, sempre foi o homem mais desleixado, sem pressas, e deixa para amanhã, que eu conheci. Capaz de estar no meio do fogo, á espera que alguém chamasse os bombeiros.

A esposa, Maria Cecília de Sabóia Delgado Malaquias de Lemos Courinha e Ramos, via-se doida com ele, pois se a máquina encravasse, ele logo se sentava, cruzava as pernas e vai de desmanchar, só que nunca reparava se o chão estava limpo ou sujo, podia ter água ou óleo, que o resultado era sempre o mesmo, ficava todo porco. Para ele tudo estava bem.

Após o 25 de Abril de 74, cada um teve que orientar a sua vida e cada um teve destino diferente, eu estou em Águeda e ele estava em Lisboa. Foi ele que me safou, quando eu em vésperas do Natal de 77, regressei de Milão e na Estação de Santa Apolónia, vi que me tinham gamado a carteira. Telefonei-lhe e ele lá foi levar-me 500$00, para o Foguete, até Aveiro.

Uma dúzia de anos mais tarde, veio aqui a Águeda, acompanhado do Beja, das Produções Beja, pois trabalharam os dois em conjunto. O próprio Ramos, tinha nessa altura, umas reportagens na RTP 1, sobre Municípios.

 

Em Março de 2002, depois de várias tentativas, consegui falar com a Ana e com a minha madrinha e fiquei a saber que ele morreu em Novembro de 2000. Como não podia deixar de ser, disseram-me, que não sofreu, pois que estava sentado e que se ficou. Posteriormente estive lá em casa na Parede.

Este homem era de fino trato, pois teve uma educação esmerada. Era o homem dos charutos e dos cachimbos. Tinha uma colecção fantástica de cachimbos. Foi estudante em Lisboa de Engenharia Electrotécnica, mas as farras e o Casino do Estoril, fizeram com que não terminasse a licenciatura. Foi soldado raso, pois chumbou nos cursos. Na altura, já fumador de charuto, o seu comandante de Batalhão, fumava mata-ratos. Isto era a sua piada. Além disso o motorista, ia levar à “porta de armas”, o almoço ao menino.

O pai tinha sido Comerciante de Ferragens em Lourenço Marques, e foi assassinado por um sócio. Uma vez fomos a essa firma buscar umas coisas e um sócio diz: andei muitas vezes consigo ao colo. A mãe era uma senhora de fino trato e de muita cultura. O padrasto, o Sr. Oliveira, era sócio-gerente da Fábrica de Cervejas Reunidas, de onde saía a célebre Laurentina. O Courinha teve lá diversos postos, pois foi até o responsável da publicidade.

 

Lembro-me quando em 06.06.53, lhe nasceram, as filhas gémeas. A Anabela e a Ana Maria, esta, Técnica de Montagem na RTP. Se aquele carro novo, um SKODA, descapotável, falasse. Aquele carro andava por cima de toda a folha.

Uma vez, fomos á Palmeira. Esta terra ficava pouco depois da Vila da Manhiça. Ele foi filmar, eu gravar. No regresso, ao jantar, comemos o tradicional bife com batatas fritas, só que ali no Castro da Manhiça, aquilo era descomunal. Quando dali saímos já era noite. Ainda não tínhamos andado dez quilómetros e parte-se a alavanca das mudanças, que eram no volante. Tivemos que vir até a Marracuene engatados em primeira, pois era a velocidade que estava engatada. Da Manhiça a Vila Luiza, eram 50 quilómetros, não havia asfalto, mas sim duas estreitas faixas de pavimento de cimento e lateralmente aquilo era areia solta. Tivemos muita sorte em não haver trânsito algum e de ter começado a chover, pois de vez em quando, tínhamos que pôr água no radiador. Só chegamos a Vila Luiza (Marracuene) já era dia.

 

Quando se fez ”O MACHIMBOMBO DAS OITO E MEIA“, começou no Teatro Varietá, onde se colocou um autocarro em tamanho natural, mas feito em madeira, emprestado pelos Caminhos de Ferro, e que estava guardado num armazém, pois tinha sido feito para um desfile alegórico, aquando da visita do Presidente da República, ÓSCAR CARMONA, em 1939.

Os artistas principais, foram durante muito tempo o JOSÉ BANDEIRA e a MILÚ DOS ANJOS. Cada espectáculo tinha sempre dezenas de artistas no seu elenco, pois era um género de Revista á Portuguesa, mas também tinha concursos. Todas as segundas-feiras, era lotação esgotada. Mais tarde passou para o Teatro Manuel Rodrigues, pois este tinha capacidade de 1.500 espectadores, mais do dobro do que o Varietá.

Não foi novidade nenhuma, quando a Rádio Clube de Moçambique, me foi buscar à Zuid- Afrikan Handershuis, em finais de 1953. Naquela altura o RCM, tinha acabado de sair do primeiro andar, onde se situava a Zuid. Se eu já não passava sem o Courinha, ou seria ele que já não passava sem mim? Maior passou a ser a nossa convivência, pois eu fazia parte da Central Técnica. Ele escrevia muitos textos para o “Teatro em sua Casa”, orientado pela Sara Pinto Coelho, mãe do antigo locutor da RTP, Pinto Coelho.

 

Entretanto, já tinha construído, no 5º. Andar do Prédio Paulino dos Santos Gil, para o Courinha Ramos, o novo Estúdio e que se passou a chamar “PRODUÇÕES SOMAR”, (Ramos, lido ao contrário). Ali já havia um bocado de técnica, pois os tempos já eram outros e já haviam mais recursos. Só agora rememoro, que a mesa foi construída pelo meu pai. Toda a parte técnica, foi totalmente feita por mim.

Lembro-me uma ocasião, em que o cantor de modinhas brasileiras, Horácio Reinaldo, deu uns espectáculos em L. Marques e o Courinha o contratou para fazer uma série de programas publicitários sobre o Leite Condensado “ BÉBÉ HOLANDÊS “, que ali era produzido. Então, fiquei até às seis da manhã a gravar este cantor, que apanhou uma grande esfrega, pois que interpretou umas dezenas de modinhas. Lembro-me de uma que dizia: e lá para as tantas da manhã - (dava umas palmadas no violão)... Pum – pum.

 

Quando, andávamos tesos, e lhe pedíamos dinheiro (andava permanentemente atrasado nos pagamentos), lá fazia sair uma nota de “VINTE” do bolso. Hoje quer-me parecer que ele deveria trazer sempre uma nota de “vinte” em cada bolso.

O seu aspecto, era do género Vasco Santana, um bocadinho, quase nada, mais magro, mas sempre dependurado do cachimbo ou do charuto. Usava óculos, de armação muito leve, como os actuais em voga. Bebidas, nada, a não ser uma dúzia de cafés por dia, e até aos anos 60, quando ainda se usava o açucareiro, aquilo só estavam doce, depois de o café estar todo no pires. Mas um dia começou a bebe-lo sem açúcar e nunca mais utilizou qualquer adoçante.

Quando chegava ao Café Manuel Rodrigues, que era o nosso preferido, e que foi o primeiro em Moçambique a ter uma máquina de tirar cafés “CIMBALINO”, dizia logo alto e em bom som: “onde está o meu café… que eu pedi á meia hora “. Um dia, (na brincadeira) lixaram-no. Quando chegou ao balcão, depois de á porta, ter pronunciado as palavras habituais, colocaram-lhe á sua frente, a chávena do café, só que este estava frio.

- “Então vocês., servem-me o café frio?”

- “Você já o pediu á meia hora.”

Foi gargalhada geral.

 

Aquele homem, se não tivesse nascido, teria que ser inventado, pois às vezes dizia: “Esta semana vou emagrecer cinco quilos, por isso, vou fazer dieta”. Muitas das vezes o vi pesar-se e passada uma semana, ou pouco mais, lá estava ele sem os tais cinco quilos. O mal dele é que era muito lambareiro.

Ainda eu estava no RCM, e a Somar, lança o PROGRAMA DA MANHÃ. Gravado nos estúdios privativos e transmitido pelo RCM das 9.00 às 10.00 da manhã. Todo o trabalho técnico era meu e a locução era do ANTÓNIO LUIS RAFAEL.

Ao longo de cerca de vinte anos, tive tempo suficiente para apreciar todas as nuances dele, tanto na Rádio como no Cinema, e até naquilo que escrevia, tanto a sério como em sátira como era o caso da GARGALHADA, revista humorística, semanal das Produções Somar.

 

Havia as grandes companhias de variedades, que periodicamente iam em digressão pelo Ultramar. Por exemplo lembro-me de mais do que uma ida da Companhia de Vasco Morgado.

Mas também haviam grupos menos numerosos, já não falando dos casos individuais. Por exemplo a Maria Adalgisa, fazia parte dum grupo onde também estavam o Jimmy (irmão do MAX), o Acordeonista, David Pantoja e mais alguns. Estes três ficaram por aquelas paragens durante muitos anos, e todos trabalharam com o Courinha.

Outro colaborador, que esteve muitos anos ligado ao Ramos, foi o António Luís Rafael (também era um faz tudo). Igualmente o Agostinho Caramelo. Já era escritor, pois aqui na Metrópole já tinha publicado uma Trilogia, MARIA. Lá entre outros escreveu O FOGO.

 

No Cinema, o Courinha, lá ia fazendo uns documentários publicitários e pouco mais. Todos os serviços de Laboratório, eram feitos em Joanesburgo, pois em Moçambique não havia nada. Depois de revelado e munido com uma cópia de montagem, numa mesa de montagem, por nós engendrada, lá se visionava, controlava quanto tempo tinha cada assunto, fazia-se a parte musical de fundo, e depois o Courinha lá se metia no carro ou no combóio, levando o Rafael e lá iam um dia para os Estúdios da African Films em Killarny – Johannesburg. Quando em 57, regressei aos CFM e comecei a ir semanalmente a Joanesburgo, passei eu a fazer esse serviço, pois passava lá o dia inteiro.

Também para ele trabalhou o operador Alfredo Moreira, que nos anos 40, foi o operador de câmara, de muitos filmes aqui em Portugal.

O Ramos como cada vez tivesse mais trabalhos, resolve criar a FILMLAB.

Desloca-se a Joanesburgo e consegue comprar uma máquina de revelação, que estava parada e de origem italiana e que até já revelava a cores.

 

Alugou uma moradia, na rua J.Serrão e fizemos um pequeno estúdio de projecção. Foi uma máquina que já estava na sucata, que nós recuperámos. De uns tantos carretos, arranjados no ferro velho, de outros mandados fazer, inventávamos uma máquina. Foi o que aconteceu com a máquina de copiar, ou o caso da máquina de gravação magnética, em fita perfurada. A sincronia do som com a imagem. A gravação de som óptico (em filme). Naqueles tempos tudo era difícil por dois lados. Primeiro não havia dinheiro, segundo os técnicos eram poucos, pois que praticamente fomos pioneiros no caso, por aquelas terras.

Mas foi assim, que quinzenalmente apareceu no cinema o “ VISOR MOÇAMBICANO”, que focava as principais actualidades, sob o patrocínio de certas empresas locais. Posteriormente também apareceu, e também quinzenalmente, mas desfasado, o “ VISOR DESPORTIVO “, este patrocinado integralmente pela cerveja 2 M, portanto todas as semanas havia um documentário de cerca de 10 minutos de duração.

 

Foi daqui, que também saiu o primeiro filme Moçambicano, O ZÉ DO BURRO, com esse grande (em tudo, menos em altura) artista JOSÉ BANDEIRA. Segui-se o EXPLICADOR DE MATEMÁTICA, com o Diniz, que na altura era o gerente do Cinema Avenida.

O último foi o DEIXEM-ME SUBIR Às PALMEIRAS, que já não foi exibido em Moçambique, porque a P.I.D.E. não o autorizou. Já se estava nos anos 70.

Só quem esteve por dentro disto, é que hoje, com todas as técnicas que há, olha para trás e diz: as nossas dificuldades foram de tal envergadura, que comparando, parece que andámos nas Naus das Descobertas e hoje andam nos Luxuosos Transatlânticos de Cruzeiros, tanto na rádio como no cinema.

 

Recardenense (Humberto Almeida)

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Um dente que gerou uma amizade duradoura

 

 

Ruy de Lacerda

 

Eu estava a cumprir o Serviço Militar, Obrigatório, no Batalhão de Engenharia, em Lourenço Marques, quando sou fulminado com dores na boca. Estávamos em pleno Janeiro de 1956. Procurei um médico dentista e aconselharam-me um que há pouco tempo tinha chegado e que dava consultas no Prédio African Life no segundo andar, mesmo ao lado do Cinema Gil Vicente.

 

Ali chegado, entrei para a sala de espera. Estava lá uma senhora e pouco depois abriu-se a porta do consultório. Saiu um homem e apareceu o médico. Era um homem bastante alto e já de cabelos brancos. Disse-lhe que estava com muitas dores. Ele pediu licença à senhora e mandou-me entrar. Esteve a analisar a minha boca e disse-me: Vou-te dar uma carta para entregares na tua Unidade, toma já este comprimido e amanhã de manhã, vais ter comigo ao Hospital.

 

Quando cheguei ao Hospital Miguel Bombarda, perguntei por ele na Portaria. Ligaram para ele e fui acompanhado por um servente a onde ele estava. Acompanhava-o o Dr. Pais, médico-chefe da Estomatologia. Fizeram-me radiografias e disseram-me que eu teria que ser operado, às gengivas. Marcaram-me para dois dias depois e deram-me uma carta para apresentar no Quartel e que eu lá estivesse às sete da manhã e em jejum.

 

Quando ali, fui com uma guia, soube que o médico tinha tido um desastre de viação na véspera e que seria o Dr. Pais que me iria operar. Eram onze da manhã, acordei num corredor, deitado numa maca. Sai dali, passei a Portaria, destranquei a motorizada e arranquei. Duzentos metros, mais adiante, a luz dos semáforos encadeou-me e estatelei-me, pois eu ainda estava com os efeitos da anestesia geral. Alguém me apanhou, meteu-me numa carrinha de caixa aberta e com a motorizada e levou-me à Engenharia, pois reconheceu o emblema das transmissões.

 

Depois fui internado, pois tinha dois golpes nos joelhos. O Comandante da Unidade, Tenente-coronel, Albano Moreira, ainda quis processar o Hospital, porque me abandonaram, quando eu estava à guarda desse hospital. Soube mais tarde que houve grandes pedidos ao Comandante para que ele não levasse avante o problema. Aquele comandante era um homem recto, muito respeitado por todos os Oficiais e que o diga o então Comandante da Companhia, Capitão Almeida Pina, que haveria de ser o Ministro das Obras Públicas do Primeiro Governo, após a Revolução dos Cravos. Depois fui ver o Dr. Lacerda ao quarto onde estava internado.

 

Assim nasceu uma amizade, duradoura, tendo-me franquiado a sua casa e família. Ele levou para ali um dos primeiros carros “Ford Taunus”. Como tinha o volante à esquerda, foi uma distracção dele, que provocou o desastre, onde teve fractura duma perna e várias escoriações.

 

Na sua secretária do consultório, tinha uma foto de duas belas mulheres jovens. Eram suas filhas do primeiro casamento. Deste seu novo casamento, tinha duas meninas. Quando casei, estiveram no meu casamento e tanto aparecia-mos na sua casa, como eles iam á minha. Ambas as filhas queriam ser madrinhas da minha filha. Resolvemos que uma seria madrinha no Civil e a outra na Igreja. Só que quando fomos registar, a Irene, não podia, por ser menor. Acabou por ser a mãe, que também se chamava Irene. Fui das primeiras pessoas em L. Marques a ter uma placa esquelética. Foi feita no Largo do Carmo, em Lisboa, com molde que ele tirou

 

O Dr. Ruy de Lacerda, era um homem bastante alto e robusto. Não era de muitas borgas e não tinha muitos relacionamentos, mas era duma gentileza fantástica. Tinha um vício. Filmar em 8 m/m, a natureza. Muito especialmente os animais selvagens. Todos os bocadinhos que tinha, aí estava ele e família a caminho do Kruger Park. Foi das primeiras pessoas do mundo, que consegui filmar o acto sexual de um casal de leões.

Dizia-me ele: “Olha…só há dois animais de que tenho medo. São as cobras e as mulheres.”

 

Tinha alguns segredos que nunca quis compartilhar. Também nunca me interessou. Não gostava de falar da vida passada e que tinha ido para África para esquecer. Dizia-me: “Sabes, eu só sou Estomatologista há pouco tempo, um dia talvez te conte.” Um dia, sua mulher, disse-me: “Olha Humberto. Ele perdeu na sala de operações, o filho dum grande amigo. Tudo porque o Hospital, onde prestava serviço, não tinha a ferramenta necessária. Jurou a si mesmo que nunca mais.”

 

O Dr. Lacerda era uma pessoa com muitas ideias viradas para a igualdade de tudo e de todos (esquerda). Uma coisa que o afligia era o Apartheid.

Quando começou a guerrilha, ele embora não o dissesse abertamente, era todo Frelimo. Ele era pela Independência de Moçambique, pois Lisboa era um atraso na maioria das coisas e em Portugal, não se via ao longe. Só que por ironia do destino, teve que fugir com a família, através da Africa do Sul, pois de contrário deixaria ali a sua cabeça. Ele desapareceu e como lá fiquei um ano após a Independência, o nosso elo de ligação, acabou.

 

Um dia, ia eu no comboio na Linha do Norte e oiço uma pequena conversa, entre duas senhoras de Santarém. Uma dizia para outra: “E o que te disse o Dr. Ruy de Lacerda?” Os meus ouvidos pareciam ter ouvido música celestial. Perguntei se era um homem alto e de cabelos brancos. Que sim. Dava consulta na Caixa. Saí em Santarém e fui á sua procura. Estava de férias, mas deram-me o número do seu telefone.

 

Ninguém atendeu. Depois de algumas tentativas, durante algum tempo, um dia atendeu-me a minha comadre Irene. Foi uma festa. Passámos a falar de vez em quando, mas nunca chegámos a estar juntos. Até que um dia o telefone toca. Era o Dr. Ruy. Estava nas termas de São Pedro do Sul. Perguntava se eu lhe dava asilo por uma noite. O tempo que queira, disse eu. Então conta connosco, eu e a Irene amanhã para o almoço. Antes de sair telefono. Apareceram era quase meio-dia, vindo de táxi.

 

Nesse dia fechei a minha Perfumaria, pois já não haveria nada para ninguém. Estavam velhotes. A Irene muito mal das pernas, embora fosse muito mais nova do que ele. O Dr. estava com 94 anos de idade. Isto aconteceu, há uma dúzia de anos. Já não preciso, mas foi antes de eu ter acabado com a Perfumaria em 1998. Pus o meu quarto á disposição deles. Almoçámos, falámos, falámos e então, abriu uma pasta e começou a mostrar-me documentos, a maior parte com os selos de Universidades e outros documentos em papel selado.

 

Ele tinha sido o Assistente do PROFESSOR DOUTOR EGAS MONIZ. Esse era um dos seu segredos tantos anos guardado. Pediu-me para o levar a Avanca, à Casa-Museu do seu MESTRE. Foi um momento, que me tocou muito fundo, ao ver um homem, que metia respeito, a chorar como uma criança. Passaram aqui a noite e depois levei-os de carro a Aveiro, onde apanharam o comboio. Telefonou-me, já de casa, a agradecer tudo e a pedir desculpa, de me ter tantos anos ocultado o caso.

 

Ele tinha um nome muito comprido, mas é daquelas coisas, que sendo amigos, não interessa. A mulher, sei agora ao ver o acento da minha filha, chamava-se Irene Lucinda Brames de Lacerda. Depois disso falámos algumas vezes. Um dia telefono e nada. NUNCA MAIS SOUBE NADA DELE.

 

Já depois de escrever, este pequeno tributo aquele grande homem, somente devido a ter estado a digitar fotos antigas, consultei o Wikipédia. Muitos Ruy de Lacerda. Nada sobre o meu amigo. Lembrei-me de consulta, Egas Moniz. Lá está o Dr. Ruy de Lacerda, como colaborador, mas nada mais diz.

 

 

Recardenense (Humberto Almeida)

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A nossa vida dá muitas voltas

 

 

Henrique Estrela da Cunha

 

Realmente a nossa vida, dá muitas voltas.

Conheci-o nos últimos dias de Abril de 1949, quando entrei para Aprendiz de Electricista, dos Serviços de Electricidade dos Caminhos-de-ferro de Moçambique. Ele era o Electricista Principal, ou seja o Chefe.

Era um homem muito rectilíneo e tinha 29 anos de idade, na altura, ainda era solteiro.

Calhou, ambos termo-nos inscrito na Escola Industrial, no curso nocturno e calharmos os dois na mesma carteira, pois ambos tínhamos nomes começados por H.

 

Depois em 1952, houve uma separação e nosso convívio era fortuito, pois cada um tinha a vida diversificada.

 

Em 1964 ele é transferido para a Beira, onde eu já estava há um ano como maquinista de guindastes, portanto ambos pertencendo ao mesmo Serviço de Electricidade.

Tivemos vários episódios juntos e tínhamos uma certa amizade.

Em 65,regresso à base, ou seja a Lourenço Marques e ele ali fica. Depois em 68 sou colocado em Quelimane e no ano seguinte vou à Cidade da Beira prestar provas para Primeiro-oficial. Um dos Membros do Júri era ele.

Não o tornei a ver, pois em 70, tomo posse e regresso a Lourenço Marques.

Dá-se o 25 de Abril, a Exemplar Descolonização e eu fico um ano como Cooperante.

 

Em 1976 regresso e fixo-me na minha terra natal.

Um dia dou de caras com o Henrique. Que raio, está você aqui a fazer?

Eu sou natural daqui, mas você é Laurentino de gema, é Coca-Cola.

Moro aqui perto no Beco-Macinhata do Vouga, pois a minha mulher que também é Laurentina, é filha de pessoas que eram daqui.

Se já tínhamos uma certa amizade, esta foi aumentada e começámos a tratar-nos por tu, embora ele fosse 15 anos mais velho do que eu.

Quando comecei a fazer instalações eléctricas em fábricas, diz-me ele: “olha que agora já não sou chefe. Quando precisares dum ajudante é só dizeres.”

Aquele homem tinha umas mãos preciosas. Tudo o que saía das suas mãos era perfeito. Aliás no meu tempo de aprendiz, lembro-me de ele dizer: Quando se faz bem feito, só se faz uma vez. Era muito rígido na perfeição.

Depois, aquando da construção, comprou um apartamento no Prédio Cohabita, mesmo defronte do meu.

 

Sou amigo do seu genro, José Sérgio, antes de saber o que os ligava. Conhecia a filha Isabel, mas, digamos de vista. Eles moram nas redondezas.

A sua esposa Irene é pessoa de fino trato.

Hoje conheci o seu filho Henrique e família. Moram em Lisboa.

Aliás só hoje soube que ele era um dos dez irmãos. Estive com alguns.

Era bom homem. Que tenha o merecido descanso em paz.

 

 

Recardenense (Humberto Almeida)

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Já nos enviou uma história? não? porquê?

Se não conhece o "Entardecer", fica o convite à leitura dos documentos Apresentação do Projecto, Regras de Publicação e Como participar.

Depois, leia algumas das histórias que aqui foram publicadas.

Por fim, fazemos a pergunta: "Não tem uma história para nos enviar?"

 

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A minha avó Dade

 

 

 

 

Maria Trindade Roças

 

Nascida a 2 de Junho de 1897, filha de Francisco Pascoal Mira e de Trindade Alexandrina, na pequena aldeia de Valongo, concelho de Alter do Chão, a minha avó Dade dedicou a sua vida aos filhos e ao legado agrícola deixado pelo meu avô Artur, que o tinha herdado do meu bisavô e homónimo António Manuel. Com mais proximidade ao concelho de Ponte de Sor e também a uma melhor diversidade de actividades a que uma mulher se podia dedicar no início do século XX, concretamente a servir para uma senhora da vila, conhece o seu futuro marido por volta de 1917. O meu avô era um dos grandes agricultores da região, com uma área de cultivo de cerca de 200 hectares, entre montado de sobro, azinho, pinhal, olival, culturas de regadio e sequeiro, arrozal; também algumas cabeças de gado bovino e ovino.

 

Tiveram sete filhos: Jaime e Henrique (gémeos) em 1919, Vitalina em 1921, António em 1923, José em 1929 (no mesmo dia que os gémeos), Maria Augusta (a minha mãe) em 1933 e Maria Manuela (a minha madrinha) em 1935. Desde cedo que todos se foram integrando na labuta diária, não descurando a escola, que ficava a quatro quilómetros, estrada fora, a pé ou de bicicleta, quando a havia, não indo muito além da 4.ª classe, numa casa que se transformou em mercearia e que hoje está em ruínas

 

Devido á sua fraca saúde e a exageros de negócios de taberna, o meu avô faleceu em 1941, ainda antes de completar 50 anos, vítima de úlcera no estômago, á qual não quis ser operado, ficando a minha avó sozinha com os 7 filhos, 5 dos quais ainda menores, e a braços com toda uma complexa e árdua tarefa de gerir o sustento da família, administrando a propriedade, de que dependiam muitas pessoas da zona. Ganhões, pastores, rendeiros, madeireiros, suas mulheres e filhos, alguns morando perto das zonas de cultivo ou de pastorícia, outros em casas modestas, cedidas por outro proprietário dali.

 

Não faltou quem se tentasse aproveitar da viuvez precoce da minha avó, que aos 42 anos se viu a braços com a gestão de toda a propriedade e a educação que conseguiu dar aos filhos, já que era pessoa analfabeta, mas honesta e defensora da sua família numerosa. O seu espírito lutador e perspicácia para a manutenção daquilo que o marido tinha criado e apurado ao seu jeito de lavrador rude e dinâmico, levou-a a não ceder a pressões, profetas da desgraça, ou outras tempestades de Verão ou de Inverno. E, ajudada pelos filhos, manteve a sustentabilidade e produtividade de todas as culturas e animais, até ao final da década de 60, quando um AVC a deixou numa cadeira de rodas, paralisada e sem fala.

 

Apesar da minha pouca idade e de pouco me lembrar dela, ficou-me na memória o seu olhar doce quando eu subia para os apoios dos pés na cadeira e ia á boleia pelo corredor da casa, levada pela minha mãe, para que a minha avó apanhasse um pouco de sol na varanda. A sua devoção á família ficou para mim demonstrada num pequeno episódio em que fui protagonista: do alto dos meus cinco, seis anos e querendo chegar a algo que estava em cima do guarda-louças e não o conseguindo, encostei uma cadeira ao mesmo e subi para melhor lhe chegar; já que, ainda assim, o braço era curto, pendurei-me na borda e, com o meu peso, a parte superior do guarda-louça desabou e o estrondo foi enorme, ajudado pelo quebrar da pouca louça existente. Eu escapei sem um arranhão. A minha avó apercebeu-se na varanda que só podia ter sido eu, que tinha ficado sozinho com ela em casa, e na sua aflição salvadora conseguiu articular um grito de auxílio, bem audível. Só sossegou quando eu apareci perto dela, lançado como uma seta pelo corredor. Não havia lágrimas no rosto dela, apenas o seu olhar que tanto me encantava.

 

Acho que foi a primeira lição de vida que aprendi. Da minha avó numa cadeira de rodas, da qual não me lembro de ouvir uma palavra. Um abraço para ti Avó Dade, onde quer que estejas.

 

Tozzola

 

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Antiga figura típica de Águeda - Júlio

Júlio Alípio Batista dos Santos

Não há uma certeza de quando apareceu por Águeda, mas deve ter sido em meados dos anos quarenta.

Soube que foi o meu primo Joaquim de Oliveira, que trouxe, para a sua Garagem, um irmão mais velho, que era um bom mecânico. Este, alguns tempos depois acabou por trazer o Júlio e ainda uma irmã de nome Carmencita. Esta que esteve muitos anos em casa da Senhora Dona Maria Joana.

Como fui muito novo para Moçambique, ele passou-me ao lado e portanto só o comecei a conhecer já numa fase bastante tardia da sua vida, ou seja nos últimos seis anos de vida.

Segundo o proprietário da Livraria Rino, Sr. Fernando Gomes, que em 1951 a comprou ao meu tio António, o Júlio era uma espécie de empregado. Isto nas palavras do próprio Júlio. Conta-se que um dia o Sr. Lino Coelho, pai do actual, lhe deu uma certa importância, para ele ir levantar uma encomenda à Estação da CP. O Júlio lá pega no seu táxi, ou seja no seu velho carro de mão e quando chega à Estação, dizem-lhe que a encomenda ainda não tinha chegado, portanto que lá fosse no dia seguinte de manhã.

Como habitualmente, foi-se chegando para o seu canto na Fábrica de Telhas do Guerra & Cruz, que ficava logo ali, um pouco mais acima. Dormiam lá muitos homens e até alguma mulher, pois ali junto à fornalha estava-se bem. Por ditos ou que vissem, o certo é que durante a noite, roubaram o dinheiro ao Júlio. Quando acordou, encaminhou-se para a Estação e quando vai para pagar, vê que não tem dinheiro. Aflição das aflições. Sim que o Júlio era muito honesto.

Vai à Rino ter com o Gomes e conta-lhe tudo. Este diz-lhe: ‘olha agora vais
ter com o Sr. Lino e dizes-lhe isso, pois tudo se há-de resolver’. O Júlio lá foi, mas não chegou a entrar. Deu uma volta, atirou com o boné ao chão, e tornou a dar outra volta. O Sr. Lino, que tinha vindo à porta, pergunta:
- ‘Então ó Júlio! A minha encomenda?’
– ‘Ainda não chegou…Sr. Lino’
mas de cara baixa. Então contou-lhe o que lhe tinham feito. Foi-lhe dado novo dinheiro e lá vai ele todo satisfeito, buscar a encomenda.

Um dia à noite ele passa na livraria e diz: ‘Sabe! Hoje vou dormir uma noite
descansada. Sabe porquê? É que não tenho um tostão no bolso’. Parecia uma frase simples, mas afinal, tinha um significado bastante abrangente, vindo da boca de quem proferiu tais palavras.

Uma vez, perguntaram-lhe se queria ir ver o seu Benfica ao Porto. Ficou todo radiante.
- Mas há uma condição! Tu não podes ir assim, pois tens de tomar banho e mudar de roupa.
Nisso é que ele já não estava lá muito de acordo, mas aquilo de poder ir ver o GLORIOSO, fez milagres. Diz o Gomes:
- Ó Almeida, eu nunca tinha visto tanta porcaria junta. Fui eu, mais o João Lemos, que lhe demos banho. O lixo já fazia crosta.
Lá lhe arranjámos roupa e lá foi ele todo satisfeito, sentado na caixa da camioneta, ver nas Antas o seu Benfica. Depois ele era metediço, e se aquele comerciante era do Sporting e este tinha perdido, ele da porta, começava a piar.

Outra vez, o Gomes foi aos CTT, buscar o maço das revistas, e quando vinha para sair, começa a cair cá uma senhora carga de água. Também ali apareceu o BIBI, que era um outro personagem típico de Águeda (teso como um barrote), mas que gostava de vestir à Tyrone, jogava o bilhar e estavam a conversar a ver se a chuva passava. Chega o Júlio, com a sua gabardina, feita de um saco cumprimenta o Gomes e diz: ‘A Vida está má, para os pobres’. O Bibi, responde: ‘Até p’ra gente’. Dizem que este Bibi, foi para o Brasil e nunca mais se soube dele.

Aqui em Águeda há um poeta muito conceituado e de quem sou amigo. É o Fernando Braz. Levou-me a sua casa e emprestou-me um livro, onde relata, em verso, a vida em Águeda nos anos cinquenta. É uma Edição de 1999, da Associação dos Naturais e Amigos de Águeda, e é prefaciado por Manuel Alegre. A foto é retirada desse livro, bem assim os versos que se seguem:

O nosso amigo Júlio
Sem ordenado nem rendas
P’ra ganhar a sua vida
Acarretava encomendas

Trabalhava sem parar
Ao Domingo e à semana
Mas bebia o seu marquês
Na tasca da Ti’Joana

Ele gostava do Faísca
Na loja de Augusto Zica
E da sande habitual
Que tão barata lhe fica

Quando ia ao «piolho»
A ver os filmes de pé
Bebia ao intervalo
Refresco de capilé

De pesquisa em pesquisa, indagando este e aquele, pessoas já de certa idade, que nunca daqui saíram, pouco ou nada me sabiam dizer e aquilo que uma sabia, por norma todos sabiam.

Foi no local habitual de dormida, ou seja na Guerra & Cruz, que um dia não se levantou. Tinha morrido durante a noite.

FOI DAS FIGURAS MAIS TÍPICAS DE TODOS OS TEMPOS EM ÁGUEDA


Recardenense (Humberto Almeida)

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Ti Henrique

 

 

Henrique Morais Ramos

 

O seu B.I., passado em Lisboa em 16-10-1969, diz: Fiscal de Impostos da Câmara Municipal de Águeda - Aposentado.

Era filho de Elisiário Morais e de Benvinda Ramos.

Este homem nasceu a 14 de Abril de 1910. É verdade, …ainda nasceu no tempo da monarquia, é já uma “lenda viva” de Águeda, pois prestes a fazer os seus 97 anos de idade, é senhor de todas as suas faculdades, desde as motoras até às intelectuais e estas são um bocado acima da média e tem uma memória fantástica.

 

Eu não o conhecia, pois como era de Recardães e fui muito jovem para Moçambique, nunca tinha ouvido falar dele, até regressar a Portugal em 1976.

Quis o destino, que no último dia do ano de 1977, viesse ocupar o 11º.D, de um prédio a estrear e que o inquilino, do 1ºD, fosse o Ti Henrique e esposa Virgínia.

Num prédio com 48 apartamentos e em que o proprietário, neste caso o Estado, estava longe, logo uns tantos se movimentaram a tentar pôr um mínimo de ordem. O Ti Henrique estava nesse lote.

Foi o meu primeiro contacto a sério com o Ti Henrique.

Tornámo-nos amigos, visitas e confidentes.

 

A falecida Virgínia da Conceição Rodrigues dos Santos, sua segunda mulher, foi na sua juventude, uma das estrelas do Rancho Folclórico de Recardães, ainda do tempo do “grande Neca Carneiro”, falecido em19-12-1944, dia em que todo o Concelho de Águeda parou e o sino da Capela de N. Senhora das Dôres, em Recardães, tocou a rebate.  

Quando eu comecei a visitar a sua casa, em dias festivos e em que a família se reunia, eu já conhecia alguns familiares dele, com quem tinha alguma confiança, mas sem saber pormenores íntimos.

 

Sabia que ele tinha quatro filhas e um filho da primeira mulher, Maria Manuela de Carvalho e pouco mais.

Pois a primeira vez que estivemos todos juntos, eu parece que fiquei gá-gá.

- Ó cunhado!...passa aí a salada.

- Ó filha, não vês, que o teu sogro, gosta assim?

Isto, eram palavras do Ti Henrique para o marido de uma filha e eram palavras da Virgínia para a filha.

 

Eu dava-me bem com o Rui Silva que era electricista dos SMAE e sabia que a mulher era filha do Sr. Henrique e que se chamava Luísa. Também conhecia o Manuel Gonçalves, fotografo e sabia que a mulher também era filha do Ti Henrique, era a mais velha, a Maria Edite. Igualmente conhecia a Benilde e sabia que era solteirona e que era filha do Henrique Morais. Sabia também, que tinha um filho, José Henrique, que eu conhecia de vista, assim como a esposa, Maria Helena. Igualmente, sabia que havia outra filha, Maria Margarida, casada com o Jorge Nobre, mas com quem não tinha confiança.

 

Ora a Virgínia, quando casou com o Henrique, tinha uma filha e era irmã do Rui Silva.

Como o José Henrique, filho do Ti Henrique, casou com a Maria Helena Santos, filha da Virgínia, o Ti Henrique, passou a ser pai e sogro do filho.

Por outro lado como o cunhado Rui, casou com a sua filha Luísa Augusta, este passou a ser também genro. Infelizmente o Rui morreu muito jovem.

No outro dia disse-me:

- O meu neto, sobrinho e afilhado, o Rui, que é engenheiro….

 

O pai do Ti Henrique foi polícia e também “carcereiro”.

Em 1967, reformou-se, quando a sua mulher Virgínia, foi internada em Palhavã (Lisboa), pois veio a saber-se que era cancerosa. Faleceu em 2000.

Foi nessa altura, 67, que o Ti Henrique, ficou ligado à Liga Portuguesa Contra o Cancro. Desde essa altura até à presente data, todos os anos, pelo “Peditório Anual”, altura de Todos os Santos, é o Maior Pedinte no Concelho, pois os seus mealheiros, são sempre a fatia maior do Concelho.

Desde rapazote que é Irmão da “Irmandade de Senhor Jesus dos Passos.

Há mais de meio século, que é dirigente do Clube de Campismo e Caravanismo de Águeda.

 

É Benfiquista de todos os costados.

Nunca foi bombeiro, mas desde a sua fundação, nos recuados anos trinta, que no “Dia dos Bombeiros”, a bandeira desta Instituição Humanitária, é sempre hasteada, pelo Ti Henrique.

Cantou no Orfeão de Águeda, durante “OITENTA ANOS”. Já lhe fizeram essa homenagem. A própria Autarquia se associou ao evento.

Disse-me:

- Uma vez fomos cantar ao Aveirense. O Ensaiador era o Sr. Armando Castela – tesoureiro das finanças –e também grande jornalista-escritor e homem do folclore. O espectáculo era de beneficência. Há hora marcada, o Sr. Castela, manda abrir o pano e deparou-se que só havia cadeiras. Nem uma pessoa estava na sala. Pois deu início ao programa. Depois as pessoas lá começaram a aparecer. (que pena hoje não haver aqui em Águeda um Castela).

 

Na missa dominical, aqui na Igreja Matriz, há a chamada Missa das crianças, que é às dez da manhã. Tem um coro próprio. O maestro é o José Henriques e os trinta e tal elementos, na sua maioria, são a família Morais Ramos. Pois é o Ti Henrique, as filhas as netas e as bisnetas. Às vezes até cantam em alguns casamentos.

Ainda se lembra de ir ajudar o meu tio António Rino na livraria, aos domingos muito especialmente, quando para cá veio a Escola Central de Sargentos.

 

Quando foi para a Câmara, era presidente o Quim de Melo. Foi ganhar 100$00, por mês.

Quando lhe perguntei qual tinha sido o melhor presidente de câmara, disse-me:

- Olha, não é por seres parente, mas sem dúvida, o melhor Presidente da Câmara Municipal de Águeda, foi o Dr. Fausto Luís de Oliveira.

 

Este homem o Sr. Henrique, ainda hoje, quando é preciso arranja uma calças, pois era alfaiate de profissão e especializou-se mais em fatos para mulher, trabalhou ainda para o Teixeira e Balreira. Fora das horas de serviço camarário, fez muitas calças.

Percorria todo o Concelho de Águeda, na cobrança de impostos. O seu meio de transporte distribuído, era uma velha bicicleta.

 

Vou terminar, mas quero dizer, que o Ti Henrique é um fora de série. Fui já por mais de uma vez, administrador deste Condómino e fui também o seu primeiro administrador, numa altura em que ainda não havia a legislação que hoje há ao dispor. Ele também já o foi e nas mesas de assembleia, por norma é o presidente da mesa, mas mesmo não sendo dá sempre uma ajuda nos papéis.

 

Finalizo a dizer, que deve ter sido UM GRANDE PAI, pois os filhos, netos e bisnetos, não sabem o que mais lhe hão-de fazer.

 

 

Recardenense (Humberto Almeida)

 

 

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Avós Paternos

 

 

Manuel Gaudêncio de Almeida

Margarida de Jesus

 

Do primeiro casamento do Francisco Rodrigues de Almeida Rino com Maria Rosário Ferreira das Neves, além do Cristóvão, também nasceu o Manuel Rodrigues de Almeida Rino e ISABEL FERREIRA DAS NEVES, que viria a casar com o José Gaudêncio de Almeida, filho de Gaudêncio de Almeida, natural de Aguada de Cima e de Ana Maria Duarte de Jesus. Deste casamento nasceram nove filhos. O quinto a nascer, em 1869, foi o meu avô, MANUEL GAUDÊNCIO DE ALMEIDA, mais conhecido por Manuel Caldinho. Herdou essa alcunha do pai e transmitiu-a a dois dos seus oito filhos, ao Joaquim e Manuel. Não conheci, este avô, pois ele morreu, meses antes do meu nascimento.

 

Já agora vou divulgar o cognome de “caldinho”. O meu bisavô, transportava vinhos da Bairrada, para vários locais, incluindo Recardães, pois no sitio dos Carvalhos, as águas do Rio Águeda, eram mais profundas e ali vinham “Mercantéis”, que são barcos da Ria de Aveiro de maior calado do que os moliceiros. Ora quando o meu antepassado ia carregar, davam sempre comida, que naquele tempo ou eram rojões, chanfana, presunto, acompanhado de azeitonas e bom tinto. Ora quando estavam atestados, diziam: “Ó Sr. Gaudêncio! Não vai mais nada?

Ao que ele respondia: “Ai!... Agora só se fosse um CALDINHO.

Com tantos netos, pois ninguém tem uma foto do meu avô.

 

A minha avó MARGARIDA DE JESUS, filha de Alexandre Francisco de Oliveira e de Ana Maria de Jesus (RINA), que eu conheci e que morreu quando eu tinha nove anos, era conhecida por “Rina”, no entanto, isso vinha dos seus avós que também eram Rino, embora nada tivessem a ver com o nome Rino do meu avô materno.

Era a tal coisa de as filhas não irem ao nome do pai.

 

Também houve um irmão do meu avô Gaudêncio, de nome Abílio, nascido em 1875, que foi solteiro para o Brasil e nunca ninguém, mais soube dele. No entanto há uns anos veio do Rio um homem daqui de Águeda, muito mais velho do que eu (já faleceu) e que lá viveu desde rapazote e disse que no Rio de Janeiro, havia vários Gaudêncios.

 

Dois irmãos da minha avó Margarida, eles eram oito irmãos – cinco raparigas e três rapazes. A minha avó (1869) foi a sétima e o último foi o António em 1875, (que seria o pai de vários filhos e onde estava o Joaquim Francisco de Oliveira, que teve os autocarros de carreira Porto-Leiria). Os dois mais velhos, Thomaz, 1859 e o Joaquim, 1864, foram para o Brasil e nunca mais ninguém soube deles, até que um dia, já depois da minha mãe falecer, andando eu, diariamente a vasculhar arquivos, me telefonam do Aeroporto do Porto.

Era uma senhora brasileira, que estava à espera do avião, que tinha atrasado e que em conversa soube que eu era da família Oliveira, que tinha tido carreiras de ónibus. Seria que eu teria alguma coisa a ver com os seus antepassados, pois o pai de seu avô, Alexandre Francisco de Oliveira e de nome Tomás, era natural de Recardães.

 

Depois, pelo correio, mandou-me foto de seu avô, falecido em 1947 (cara chapada) para ver se era parecido e fotocópias de acentos do casamento do Thomaz, falecimento do mesmo e também do Joaquim. Temos tido contacto postal e muito especialmente pela Internet e já têm lá toda a história. A “Marli”, cinco anos mais nova do que eu, disse-me que há duas gerações, que se mudaram de Rio Grande (cidade germinada com Águeda), para a capital, Porto Alegre.

Nunca pensou que a família fosse tão grande e além disso tem toda a história desde o Século XVI.

 

Se era tradição, irem para o Brasil, às vezes, pergunto-me a mim mesmo: Mas porque raio, o meu pai foi para África, se ninguém da família para lá tinha ido.

 

Bom a família Gaudêncio está espalhada, por Aveiro, Mafra, Lisboa, Oeiras, Setúbal, Porto, mas dos vivos e mesmos dos mortos recentes não me interessa falar.

 

Para finalizar, quero acrescentar que o nome de RINO, começou há várias gerações, de uma alcunha. O nome de Gaudêncio, começou de um nome próprio, que se transformou numa praga de famílias.

 

 

Recardenense (Humberto Almeida)

 

 

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A Minha Avó Bina

 

 

Nobélia Ribeiro

 

Mulher de garra, sábia da cultura popular, habituada às lides do campo e ao conservadorismo da sua época, a minha avó Bina também sabe ser uma avó carinhosa. Relembro com saudade os meus tempos de infância, os carinhos, as festinhas na cara...a minha avó acanhada pelos pudores do campo, da enxada e da terra plantada aos quilómetros, coibida pelos contratempos que não foram poucos, que abalaram o passado e se fazem sentir no presente, pois na idade da avó Bina o tempo passa em corrida.

 

A minha avó Bina sempre de preto, mostra de negro solitário e injusto. Porque a vida não é justa. Não é justo que se vá embora quem nos completa, nos acompanha e nos ajuda a vida. A minha avó sabe o tamanho da tragédia duma negligência médica com o avô Domingos.

 

No Inverno, raramente brincávamos, éramos as duas muito ocupadas, eu com o infantário e ela com o seu ganha-pão. Mas como eram bons aqueles momentos em que éramos duas vizinhas! Nesses dias de férias soalheiras, eu vivia quase despida, no meu à vontade de criança que tratava por tu a ‘torrina’ do verão alentejano. Éramos vizinhas de brincadeira e eu vivia no anexo da avó enquanto ela habitava a sua própria casa. O engraçado é que ela levava-me a sério, batia na minha porta e vinha pedir-me os legumes que tínhamos apanhado uns momentos antes. Depois, enquanto fazia o almoço ou o jantar, eu andava por ali a chafurdar, encantada da vida. A minha avó enchia uns alguidares de água, punha-os no chão e eu “lavava a loiça”. A loiça da minha avó! Que em tempos fora pouca e agora sobrava a criar pó nos armários fechados. E a casa ficava uma chafurdice pegada. E nunca a avó Bina se importou.

 

Mas a minha avó não é bem aquela senhora de falinhas mansas e doces. Nada! Fui-me habituando às solturas da língua, ao palavreado estranho que usava, a um certo tom áspero que vinha ao de cima mal se chateava. A avó Bina não é muito paciente. Por isso, apesar de brincarmos as duas, não havia paciência que chegasse para as birras da menina Carolina. É que ela ficava mesmo chateada comigo.

 

E à hora das refeições? Bom...como eu era um bocadinho aborrecida, ela inventava uma “entretenga” qualquer, para me fazer comer sem fome. E eu comia sem dar por isso.

 

Hoje a avó Bina vem de vez em quando a minha casa passar uns dias. Está doente, porque a idade não perdoa. Todos os dias penso nela. Penso quão próximo pode estar o seu fim ou princípio. E o que quer que seja, vai afastar-nos de certeza. Mas também sei que está marcada na minha memória e no meu coração. Sei que posso contar com ela e que embora grite muitas vezes (não é paciente, lembram-se?) é a melhor amiga que se pode ter, porque me ajuda antes de todos e há-de ser a última a castigar-me.

 

Às vezes penso que a minha avó Bina só grita comigo porque fica atrapalhada com o amor que sente e como não consegue dizê-lo de outra maneira, grita-me.

 

Eu sei que entendo a minha avó Bina.

 

 

Cabecinha Pensadora - Carolina Ezequiel

 

 

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Avós Maternos

 

 

Manuel Maria Rodrigues de Almeida Rino

Maria Augusta Silva de Jesus

 

Tenho muita pena, de não ter tido o contacto, com nenhum dos meus avós, após a meninice, pois quando se é muito jovem, não temos capacidade, para entender tudo o que nos querem transmitir.

 

MANUEL MARIA RODRIGUES DE ALMEIDA RINO, o meu avô materno, nasceu em Recardães, em 1869 e era filho de Francisco Rodrigues de Almeida Rino, também natural de Recardães e da sua segunda mulher, Thereza Ferreira de Jesus, natural de Assequins.

MARIA AUGUSTA SILVA DE JESUS, nasceu na Trofa, em 1880, filha de António Duarte Silva, conhecido pelo António do Bico, natural do Outeiro-Valongo e de Ana do Espírito Santo, da Trofa, todos do Concelho de Águeda.

 

Em 2-3-1901, casam na Cidade de Rio Grande-Brasil, pois foi ali que se conheceram. O meu avô, para ali tinha emigrado e a minha avó tinha sido levada pelos pais.

O meu tio Armando, primeiro filho, ainda nasceu naquela cidade gaúcha, em 1902, razão porque ele dizia: “Já estive no Brasil, no entanto nunca lá fui”.

Pouco tempo depois, da chegada a Recardães nasce a minha mãe, 1903 e em 1905 o meu tio António.

 

O meu avô mancava, pois uma vez, caiu do canastreiro que estava na eira. Esta era a dois ou três metros de altura da rua. Esta ruela sem saída, servia as traseiras, da casa dos meus avós e das casas da rua principal, que vai de S. Romão até ao Cruzeiro.

 

A casa do meu avô, era das maiores e a parte de baixo, era só adega. Tinha uma porta muito larga. Tinha um tonel, que um homem lá dentro, pouco passava do meio. A seguir era a porta principal do prédio. Lá dentro, havia uma porta lateral para a adega e depois eram escadas a direito. Lá em cima, por cima da adega era o Salão, onde estava no meio um vazo, que era do tamanho dum barril e onde havia uma planta que dava a volta a tudo. Aquela sala era enorme. Tinha duas janelas, que davam para o Largo e para a Capela de Nossa Senhora das Dôres. As janelas tinham lateralmente uma espécie de bancos em pedra.

Da sala, havia uma porta. Era o quarto da criada, ficava por cima das escadas.

 

Depois haviam mais dois quartos. Aquela cozinha era grandiosa. Como o avô esteve no Brasil trouxe de lá hábitos e um quarto mais pequeno, tinha um móvel que servia de retrete, uma tina muito grande em zinco, para lavagem geral, como ele dizia e o habitual lavatório com balde.

Logo a seguir à casa, havia um grande portão. Era por onde entravam os carros de bois. Ali havia arrumações, para lenha e para mato e também para as alfaias agrícolas e também os currais do gado. Dali saía, uma grande escada de pedra, que dava para o pátio, antes da cozinha. Por cima, tudo eram parreiras, que no verão dava frescura. Entre a casa e a eira, o meu avô mandou fazer uns anexos modernos, logo por cima dos currais e era ali que dormia o meu tio Armando, que já casou quarentão. Depois foi transformado em arrecadações.

 

Uma vez abri um baú. Estava cheio de papéis. Peguei num e perguntei ao avô o que era aquilo, pois tinha um comboio. Eram “Títulos” lá do Brasil, mas que já não prestavam para nada.

Era naquele local que o meu avô guardava os melhores cachos moscatéis, dependurados num cordel e também as melhores maçãs. Eu e a minha prima Odete, de vez em quando, apanhávamos o avô a dormitar e com os pés ao sol, lá íamos fanar um cacho ou uma maçã, pois essas coisas, só sabiam bem, quando já não as havia.

 

Era a casa onde nasceu. Mais tarde, vim a saber que quase todas aquelas casas, incluindo aquela onde nasci, tinham pertencido ao seu pai, pois aquelas pessoas que ali viviam, ou os donos, eram quase todos sobrinhos do meu avô.

Também naquelas redondezas era a única casa, que tinha luz eléctrica. Eram uns interruptores de porcelana, que se tinham de rodar. Também era o único rádio, lá do sítio. Foi ali que pela primeira vez ouvi falar do Fernando Pessa, pessoa com quem, mais de meio século depois, aqui em Águeda, tive o privilégio de falar.

 

Nos princípios de Setembro, é a Festa de Nª. Sª.das Dôres. Por vezes o Bispo ia almoçar a casa do meu avô, pois o irmão mais velho, (do anterior casamento, do meu bisavô) tinha sido Padre e professor na Universidade de Coimbra: Cristóvão Rodrigues de Almeida Rino.

Como antigamente, as filhas por norma, não iam ao nome do pai, perdiam-se os nomes das famílias. A minha própria mãe é Dôres por ter nascido junto à capela e Silva da parte da sua mãe.

A propósito da mãe da minha mãe. Um dia perguntei-lhe.

Ó mãe, como é que se chamava a avó: Ó rapaz, então! Era “ MARQUINHAS DA TROFA”.

 

Em Recardães, ninguém a conhecera por outro nome. Mas o que tem mais piada, é que os meus primos, por parte da minha mãe, todos professores, um deles, universitário, também não sabiam. Só quando eu pedi uma certidão de óbito, é que eles souberam o nome dela e ainda por cima, quem fez a declaração foi o padre, que era de Barrô e embora a minha avó tivesse terminado os seus dias em casa dos meus pais, está na certidão: desconhecida. Dizem que nos anos 60, era assim pois que ela era de outra freguesia e tinha casado no estrangeiro.

 

Uma vez a minha disse-me: sabes, aquelas tias que eu tenho da Trofa, são do segundo casamento do meu avô. E contou: Os meus avós regressaram a Portugal. Depois a minha tia Ana e o meu tio Joaquim, regressaram ao Brasil e nunca mais se soube deles. A minha avó adoeceu e então falámos aqui em Recardães com uma mulher que já tinha dois filhos e que vivia sozinha, miseravelmente, se ela queria ir lá para a Trofa tratar dos velhotes e viver lá com os filhos. Já eu era casada e, a um Domingo, a tua avó, eu a Maria da Corga e os filhos, metemo-nos todos numa carroça puxada por dois cavalos e lá fomos para a Trofa. A minha avó não durou muito. O meu avô meteu-se com a Maria e esta teve uma menina. Então casou com ela e ainda vieram mais duas meninas. São essas as minhas tias da Trofa. Uma casou e foi para Lisboa e já faleceu e as outras, também casadas, há anos moram em Alquerubim.

Temos boas relações, a Clélia (1927) e a São (1930).

 

Quando em 1981, foi o funeral do meu tio Armando, como o seu filho fosse Doutorado e professor universitário, lá em casa não cabia tanta gente.

Até que vieram duas mulheres com os seus xailes pretos. Chorando, diziam: coitadinho do nosso sobrinho. Dois cavalheiros, colegas do meu primo dizem um para o outro: “coitadas das velhotas…passaram-se, pois em vez de dizerem, coitado do nosso tio…dizem, sobrinho”.

Sorri…e disse-lhes: “é verdade”. Depois identifiquei-me.

 

 

Recardenense (Humberto Almeida)

 

 

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A Senhora Minha Avó

Luta contra o Cancro da Mama 

 

Luísa Lança

 

A minha avó Luísa era simplesmente a melhor pessoa do mundo...amável, dócil, amiga...tudo isto e muito mais...Uma Mãe...

 

Há pouco mais de seis anos, a Luísa, minha avó, descobriu que tinha uma doença grave, que infelizmente mata milhares de mulheres, cancro da mama.

 

Durante os últimos cinco anos de vida, a sua rotina foi quase sempre a mesma...quimioterapia, hospitais, o cabelo a cair, a crescer e a voltar a cair, para depois voltar a crescer.

 

Recordo-me que uma das últimas vezes que estive com ela, foi na Páscoa do ano de 2005. Já mal falava...mal respirava...mas ainda conseguia sorrir, com o mesmo sorriso que sempre teve...Passada uma semana, morreu com falta de ar, na cama do hospital. E tinha um sorriso nos lábios.

 

Nessa altura, eu era uma simples criança, mas a vida fez-me crescer e ensinou-me que há momentos maus. Aprendi que nem tudo é cor-de-rosa.

 

Recordo com saudade os bons momentos que passámos juntas. Desses momentos únicos, guardo especialmente aqueles verões em que vestíamos uma t-shirt velha e gasta, umas calças simples, e íamos para a cozinha fazer queijo fresco. Sentávamo-nos num banquinho e brincávamos aproveitando o momento. E deixava de haver avó e neta, éramos só duas garotas a divertirem-se.

 

Apesar da saudade que sinto, sei que a minha avó está sempre junto a mim, no meu coração...

 

Ainda hoje consigo ver o sorriso e sentir o perfume da mãe Li.

 

 

Cabecinha Pensadora - Maria Inês Lança

 

 

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O Serafim dos foguetes

 

 

Serafim

 

Vale côncavo, pequena aldeia com poucas casas, festa rija com muita gente. Os que tinham ido de fora eram vinte vêzes mais do que os que lá viviam e, por isso, a alegria dos moradores era muito maior, empenho a sério em receber bem as visitas. Mas a aldeia, pequenina em tamanho e em rendimentos, recomendava sempre moderação nos gastos dos mordomos. Havia música, comida à farta, bebida demais. Foguetes eram poucos. Havia que cortar nalguma coisa.

 

Eram poucos e dos baratos. Uma dezena de morteiros, quatro dúzias de canas de girândolas para que se ouvisse nos povos vizinhos e se celebrasse a santa, pois claro. Para tão pouco não vinha fogueteiro. Pagava-se qualquer coisa ao Serafim, deixava-se- lhe beber uns canecos por conta e pronto, resolvia-se assim o assunto. E desde a alva até à noite, muito a espaços, lá subia um de ao pé do ribeiro para que a cana caísse ao pé das hortas. A tia Maria não gostava muito: os garotos pisavam-lhe as batatas e partiam-lhe os feijões no rebuliço das correrias para apanhar os restos fumegantes dos estouros que ecoavam pelas encostas.

 

Mas junto à horta da tia Maria era o sítio mais seguro. Tudo verde e fresco das regas enquanto que os montes à volta, calor gordo de Agosto, eram rastilhos à espera de uma acendalha. Passava-se um quarto de hora e, à sombra de uma nogueira rente ao muro do pequeno açude, o Serafim soprava o morrão, encostava-o à mecha e fffffffffT! com um silvo subia acima um rasto e BUM!

- Mais um! – dizia com alívio olhando o céu num relance rápido porque logo se virava para baixo franzindo a testa e ajeitando o boné, sorrindo quase com carinho:

- E vamos lá a mais outro!

 

Enquanto a garotada se precipitava saltando pelos renques de couves, o Serafim estendia a mão, puxava um fio que ia até à água e mergulhava até à asa de um garrafão. De cada vez um trago, cada foguete seu golo não como quem quer ficar sem sede – mas como quem quer apagar um fogo! Mais um quarto de hora repetia-se a cena. Subia um foguete fffffffffT! “mais um” e subia o garrafão, “mais outro”.

 

Tantos foguetes subiram e tantas vezes o garrafão foi içado que, a certa altura, um deles saiu com a direcção enviesada e foi estourar muito baixo, fazendo voar as folhas de uma macieira. Outro, logo a seguir, abriu caminho com custo pela copa da nogueira e foi tal o estardalhaço que algumas pessoas deram por ela apesar da música estridente da festa. Prevenido um dos mordomos, foi ver o que se passava. Ainda ia na ladeira para o ribeiro e mais outro foi bater direito como uma flecha no muro da horta, resfolegou no chão, estourou surdo e atirou para o ar as ramagens das batateiras tardegas. Os miúdos, meio assustados, puseram-se atrás do muro da nora e ouviam o mordomo que corria aos brados:

- Serafim, ó Serafim! Pára, pára!

 

O Serafim esforçava-se por desatar mais um molho de foguetes mas estava já a cair para o lado. Tentava falar mas não se lhe entendia patavina. Num gesto repetitivo e já sem tino, dirigiu a mão para um fio que se estendia para o ribeiro. Para lá deixou cair a molhada de foguetes.

 

No ano seguinte ficou acordado: nada de pinga a mais enquanto houvesse foguetes. Um dos mordomos ficou mesmo encarregue de lhe medir as cervejas, só cervejas e espaçadas, muito espaçadas, ele que as fizesse render. E teve montes de recomendações. Nada de disparos baixos para as batatas da tia Maria nem para dentro das árvores. Que se algum saísse mal nem o deixavam dar mais um golo. E que não tentasse beber às escondidas: zurzi-lo-iam a bom zurzir e não lhe pagavam a jeira.

 

Prometeu cumprir. Lá que era um beberolas todos sabiam e ele concordava. Mas era homem. E comprometeu-se. Nada de grão na asa até se estourarem todos os foguetes. Todos. Antes disso, juizinho e cabeça fresca.

Foi um dia especialmente quente, daqueles em que se abre o bar com uma cervejinha logo de manhã e em que apetece não parar mas o Serafim – nada! Um exemplo! Pareciam-lhe horas entre cada estrondo, aliás, entre cada cerveja. Ele bem olhava para a ladeira a ver se alguém vinha de garrafa na mão. Nada. Ninguém. E aquele sol, aquela água a correr ali em fio num murmúrio de sugestões!

 

Como de costume, ali estavam apenas meia dúzia de molhos para lançar e meia dúzia de morteiros para atroar. De tempos a tempos “lá vai um” fffffffffT, BUM. Olhava para a ladeira, ninguém. Nem os garotos andavam por ali. Apareceram só depois da missa, dois açuladotes que, num virote, apanharam as canas e nem dele fizeram grande caso. Mas deram-lhe uma excelente ideia só de olhar para eles e de os ver a arrumar logo duas grandes molhadas debaixo do braço. Um lampejo passou-lhe pela cabeça:

- Eh! Garotos! Ele o senhor padre já vai com o pálio?

- Ele vai sim senhor!

 

Ora pois claro. Quem mereceria mais foguetes senão a santinha no andor e o senhor padre com o Senhor debaixo do pálio?!

Os mordomos bem ouviam mas iam a pegar nas varas do dossel. O céu coalhava de fumarada e os estrondos ininterruptos, um a seguir ao outro, faziam pensar estar-se numa aldeia grande em festa rica de brasileiros. FffffffffT, BUM. FffffffffT, BUM. FffffffffT, BUM. Até que se fez silêncio e não se ouviram mais. Dada a bênção e arrumados os andores, correram ao ribeiro. Dos foguetes restava ali apenas o cheiro da pólvora e do Serafim, nem pó. Que teria acontecido àquele lampantim?

 

Foram dar com ele na tenda do Zé António, copo na mão, boné já em deslize, cara corada e equilíbrio incerto. Quando os viu, disse entusiasmado:

- Saíram todos direitos! Não houve azar! Todos direitos!

Cara de dupla satisfação, acrescentou ainda como uma sentença definitiva a lavrar no copo que estendia:

- Ó Zé António: mais outro!

 

 

mcardoso

 

 

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O Fantasma do Destino

 

 

João Rodrigues

 

Desde pequeno que tenho um grande afecto pela minha avó Guilhermina. Ela não é verdadeiramente minha avó. Quando os meus avós paternos morreram, foi ela que criou e educou o meu pai e desde pequeno que me habituei a chamá-la de avó.

 

Lembro-me de tempos sem fim, sentado a olhar para ela, enquanto fazia os trabalhos domésticos. Não sei se queria aprender alguma coisa com ela ou se só a via a cirandar para cá e para lá. Para que eu não me aborrecesse, a avó Guilhermina costumava contar-me a história do seu pai, meu bisavô, e do fantasma. Eu adorava aquela história e ficava deliciado a ouvi-la. É fantástico o efeito que a palavra ‘fantasma’ tem sobre as pessoas, hipnotiza-as e faz parte do seu imaginário. Era o que acontecia comigo.

 

A história contava um dos namoros do meu bisavô, que era um pinga-amor. Nessa altura, namorava uma bela moça que tinha o inconveniente de viver numa quinta de pastores, isolada de todos. Normalmente, ia acompanhado de um amigo que visitava a namorada noutra herdade, e faziam parte do caminho juntos. Depois do namoro, os dois amigos voltavam a encontrar-se no cruzamento entre as herdades. O caminho era escuso e só alguns tinham coragem para o fazer durante a noite. É claro que no meio dos campos não havia outra luz que a da lua.

 

Certa noite, talvez animado pelo amor, o meu bisavô armou-se em bom e disse ao amigo que nada lhe metia medo. E o amigo ficou logo a pensar pô-lo à prova. Mas não disse nada.

 

Na noite em que o meu bisavô foi namorar, o amigo vestiu-se de fantasma com um lençol branco e pôs-se no centro do cruzamento, à espera.

 

Quando o meu bisavô vinha a passar viu a estranha aparição e assustou-se com este ser do oculto. Ficou um bocadinho parado a ver se ele saia do caminho ou se desfazia no ar, mas ele... nada. Desesperado e sem caminhos alternativos, voltou para trás, mas em casa da namorada já todos dormiam. Sem saber o que fazer e com vergonha de ter tido medo, sentou-se à porta da casa até ao amanhecer. Regressou depois, sem dizer a ninguém, por caminhos no meio do mato e de arvoredos, apenas conhecidos pelos pastores da região, evitando o cruzamento onde a coragem o tinha abandonado.

 

No fim dessa tarde, o amigo visitou-o e contou-lhe que era tudo uma partida. O meu bisavô riu da sua atitude medrosa e talvez tenha ganho mais coragem. Digo talvez, porque o certo é que não voltou a passar nesse cruzamento e nunca mais fez o caminho para a dita namorada. Teria receio de possíveis represálias de outros fantasmas.

 

A seguir, não sei o que aconteceu, mas o que sei é que ele casou com a minha bisavó.

 

Porque será que o meu bisavô desistiu?

Terá sido o destino que fez com que ele casasse com a minha bisavó?

E que, desse amor, nascesse a minha avó para educar o meu pai e me educar?

Ou terá sido tudo uma feliz coincidência?

 

 

Cabecinha Pensadora - Sérgio Casimiro

 

 

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A minha Mãe

 

 

Rosa das Dores da Silva

 

Não haja dúvidas, que MÃE, há só uma. Não sei se mamei muito tempo ou pouco. Não sei, muitas coisas da minha infância, até aos meus cinco, seis anos.

Lembra-me vagamente. Como era o mais novo, lá ir de vez em quando agarrado às suas saias, para aqui e para ali, mas tudo muito distante.

 

Como o meu pai estava para África e como nós vivêssemos junto à casa dos meus avós maternos, passava muito do tempo ali. Por vezes até lá dormia na cama da criada. Tanto na casa dos meus avós, como na nossa, sempre, conheci criadas e gatos. Felizmente a última criada, ainda é viva e eu considero-a, como uma irmã mais velha.

 

Antigamente o Mercado em Águeda, era ao Domingo, (agora é ao sábado e já não é mercado, aquilo é uma feira, onde tudo se vende). Lembro-me que muitas das vezes que ia, a minha mãe, deixava-me na casa do meu tio António, seu irmão mais novo, que morava mesmo ali, na rua Vasco da Gama, mais conhecida pela Rua de Baixo, e onde eu ficava a brincar com a minha prima Odete, que tinha um ano e tal mais do que eu. Foi ali que anos mais, tarde teria os meus oito ou nove anos, conheci o Manuel Alegre, que estava em casa dos avós, que era mesmo defronte. Algumas vezes fomos fanar berlindes no capacho de arame que estava na entrada principal do Hospital Asylo Conde de Sucena.

 

Este irmão da minha mãe tinha a Papelaria-livraria Rino na rua Luís de Camões, mais conhecida pela Rua de Cima e também tinha um Quiosque, junto ao Cais das Laranjeiras, na Praça da Boa Morte, que era onde se realizava o mercado semanal.

Às vezes, no tempo de Férias do Natal, ficava vários dias em casa dos meus tios, muitas das vezes porque os campos alagavam e as pessoas para voltarem para Recardães, tinham que ir pela Corga, até à Póvoa da Igreja, e depois descerem para o então centro da freguesia.

 

Quando eu andava na escola, lembro-me perfeitamente, que a minha mãe, saía de casa muito cedo, acompanhada da criada e muitas das vezes com um homem a dias, pois como tínhamos várias propriedades agrícolas, tudo era feito por elas.

A minha mãe era de estatura média e escorreita.

 

O meu irmão mais velho foi em 1943, para África, tinha 17 anos, o Neca andava a estudar na Escola Comercial e Industrial, o Arsénio idem.

Não foi tarefa fácil, uma mulher tratar de quatro rapazes.

Apanhei várias vezes, por me ter sujado, pois a minha mãe tinha muito prazer em que sempre andássemos num brinco. Era cada carrego de roupa, que ela levava á cabeça até ao rio. Quantas vezes tinha ordens para depois das aulas ir tomar conta da vaca taurina, que andava a pastar na Cambôa e olhar pela roupa. Outras vezes o recado de levar a merenda, broa, azeitonas e vinho.

 

Uma vez, o meu pai mandou dinheiro a minha mãe, estávamos ainda no tempo da guerra. O meu pai, dizia: Rosa, esses mil escudos, são para mandares fazer no Galhano alfaiate, um fato para cada filho e outro para ti. Cada fato feito por medida e com tudo custava 200$00. A minha mãe, vai e compra uma bicicleta Rudge, para o Manuel, que estava a completar o quinto ano da Industrial e à noite ainda frequentava o Comercial. Lá se foram os fatos. Recordo-me que à noite em casa do meu avô Rino, a minha mãe disse que tinha dado “oito notas”, por uma bicicleta e o meu avô todo agastado disse: *** rraio! (ele arrastava os erres), então ainda há dias comprei uma vaca na Feira da Palhaça e só me custou “seis notas”.

 

A minha mãe, soube mais tarde, só andou até á segunda classe na escola. Escrevia, mas dava bastantes erros. Lembro-me que lhe escrevi algumas cartas para o meu pai. Mas dizia sempre …olha que no fim quero meia dúzia de linhas para eu escrever. Fazia o envelope e era ela que depois o fechava.

Já quando ficou viúva, outro galo cantou, pois era ela que escrevia tudo. Com erros, mas percebia-se tudo.

Em Moçambique, também não teve vida fácil, pois o meu pai dizia que aquilo já não era a África que ele conhecera. E no entanto só esteve ausente pouco mais de dois anos.

Não havia casas para alugar e aquelas que havia eram por um dinheirão. Quase sempre que vivi com eles era em parte de casa, mesmo assim era um terço do seu ordenado.

 

Com a morte do meu pai, em reunião com os meus irmãos, resolvemos que ela fosse viver comigo.

Vendeu e deu tudo. Desde mobílias até ferramentas e lá a fomos esperar ao aeroporto.

Muito pouco depois, sou transferido para Quelimane e insistiu que não ia. Ficou em casa do meu irmão Arsénio, mas depressa se cansou e quis regressar a Portugal.

Todos os meses, lhe mandávamos mil escudos, que naquele tempo era dinheiro.

Aqui se arranjou, os irmãos deram-lhe alguns tarecos, foi comprando outros e quando aqui vim em 72 de férias, tinha uma casa muito bem arranjada.

 

Como nunca pensei regressar a Portugal, pois tinha a vida consolidada em Lourenço Marques, eis que se dá a Descolonização (exemplar), e tudo volta à parvónia. Eu fui o último, pois por infelicidade minha, fiquei lá um ano como cooperante, resultante dum acordo entre os dois governos, Portugal e Moçambique, pois eu era funcionário público.

 

Mais uma vez, coube-me a mim tratar da minha querida mãe. Embora convivesse com o meu irmão Manuel e família, na mesma casa, era eu que tinha de tratar de todos os assuntos. Também não queria sair da sua casa.

 

Foi quando soube a maioria das coisas sobre a família. Era raro o Domingo em que não a fosse visitar. Depois eu é que a levava ao médico, lhe levava os medicamentos, a levava a Aveiro para passar uma semana ou duas com o irmão mais novo, a quem ela dizia que ele tinha sido para ela como um pai. Aliás, os três irmãos, Armando, Rosa e António, eram todos muito amigos. O último a casar foi o Armando e eu lembro-me de ter ido ao casamento. Esse meu tio, marceneiro, junto à antiga Câmara de Águeda, dizia: eu já estive no Brasil e no entanto nunca lá fui. Era verdade, pois nasceu um ano antes da minha mãe em Rio Grande. Também foi o primeiro a morrer em 1981, no entanto quem durou mais foi a minha mãe pois só faleceu em 1999, pois o tio António morreu em 1992.

 

A minha mãe esteve trinta e um anos viúva.

Tinha uma memória fantástica. O que ela me contou, naquelas tardes de domingo em que estava adoentada.

Só nessa altura, já muito perto de ela perder o norte, é que eu vim a saber e tomei apontamentos para começar a minha árvore genealógica.

Sabes que o teu pai teve que ir aprender a profissão, se não, não tinha casado comigo?” É que o meu pai não me deixava casar com um lavrador. Ora na casa do teu avô Gaudêncio, que era sobrinho do meu pai, os filhos eram todos lavradores.

Sabes que eu tenho tias, irmãs da minha mãe, que são da tua idade. O teu irmão Neca até quis namorar a mais nova, ainda andava a estudar, antes de irmos para África, mas eu não deixei, porque senão teria que chamar tio ao meu próprio filho.

Enquanto esteve só, valeu-lhe o seu primo direito, Fausto de Oliveira, que tinha casa ao lado e que foi muitos anos Presidente da Câmara de Águeda.

 

Foi sempre uma mulher voluntariosa e teimosa.

Lembro-me do dia em fez 80 anos. Fizemos-lhes uma grande festa.

Toda a família e amigos e ela diz: “referia-se às quatro noras – hoje a vida é uma maravilha, para as mulheres, até para mim. Fazer a comida é só acender o fogão a gás. Temos o frigorífico para guardar as coisas. Temos o aquecedor eléctrico para aquecer a casa. Temos o esquentador para ter água quente. Temos a máquina de lavar e o ferro eléctrico para passar. Há fraldas descartáveis. Eu sei lá. Ai no meu tempo? E ainda havia aquelas que levavam porrada do marido

 

Teve uma vida cheia de tudo. Mesmo no tempo da II Grande Guerra, em nossa casa a comida nunca faltou. Mas também foi uma mulher que até aos 94 anos de idade, a maior parte desses anos ela foi a dona e senhora de tudo.

Dos últimos dois anos de vida, tento não me recordar muito, pois aquele corpo, já não era a minha querida mãe, pois eu para ela, já era um amigo. Era esta a resposta, quando eu perguntava quem era.

 

Comecei a escrever esta estória no dia 3 de Fevereiro, dia que completou OITO ANOS, em que se foi juntar ao marido e aos pais, na mesma cova.

Em Recardães, era conhecida pela ROSA MELRINHA.

 

 

Recardenense (Humberto Almeida)

 

 

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