?Liberdade, Liberdade, tem cuidado que te matam.?
Quarenta e um anos de Estado Novo, em Portugal, foram como que uma câmara de gás para a liberdade. Tal como os Judeus, que morreram e viram extinguir as suas ideias ou qualquer tipo de manifestações, a liberdade também sofreu um verdadeiro asfixiamento e repressão. 
Foram quarenta e um anos sem se poder fazer nada que se opusesse às ideias do regime. Compor músicas, escrever e editar livros, artigos ou textos ou até mesmo pronunciar as palavras “não concordo”, foram actos completamente aniquilados por aqueles que não concordavam com a extensão da palavra liberdade.
Mas quem pensa que o pior foi isto, está enganado! O pior é que o povo português evoluiu sem perceber o verdadeiro sentido do termo LIBERDADE, e tal como quando soltam um animal que está preso há muito tempo, o nosso povo também correu muito, correu esbaforido à procura de nada; e quando se apercebeu, já tinha ultrapassado uma série de limites fundamentais ao uso da Liberdade.
Ensinam-nos na escola, que a liberdade é a capacidade de fazermos aquilo que achamos certo e que verdadeiramente queremos, mas para isso, é preciso que não afectemos negativamente os outros, pois a nossa liberdade acaba, quando a do próximo começa. Aprendemos também que não vivemos sem os outros.
E foi aqui que as coisas começaram a correr mal. Após o 25 de Abril a vontade de dizer tudo, de fazer tudo e de querer tudo, tornou-se obsessiva e em vez de cultivarmos a liberdade como um bem essencial, denegrimos o verdadeiro significado desta dádiva.
Passámos a pensaar que podíamos fazer tudo o que nos apetece, mentir, manipular e vigarizar os outros, enganar o Estado… e esquecemo-nos do respeito pelos limites, olvidámos a velha máxima, “ a tua liberdade acaba, quando a do outro começa”.
Então, a liberdade começou a ser usada como pretexto para fazer tudo o que as pessoas ambicionavam. Tal como diz o poema “Cantiga de Maio” de Jorge de Sena, “Muitos correndo apressados/querem ter-te só p´ra si;/ e gritam tão de esganados/ só por tachos cobiçados/ e não por amos de ti”. Estes versos espelham o uso que é feito da capacidade de agirmos livremente, pois a maioria das pessoas age numa ganância de querer chegar a tudo, a todo o custo e usando qualquer método. E nem os fins nem os meios de tais comportamentos dizem a liberdade que podemos ser. Não se ama a liberdade no nosso país. E é triste. Para muitos a liberdade é a expressão do “deixa andar”, típico de tanta gente. Mas será que não há forma de travar esta atitude e estes abusos a que assistimos? 
Obviamente que há, chama-se Justiça e em pleno funcionamento assegura o viver em plenitude da Liberdade. Ou tenta assegurá-la.
Porém, tal como Clara Ferreira Alves refere num dos seus artigos, “ A justiça portuguesa não é apenas cega. É surda, muda, coxa e marreca.” E é verdade. A justiça portuguesa permite que haja uma vergonhosa descredibilização do valor da liberdade, pois quem no nosso país infringe os limites normais impostos pela educação, pelas leis e por qualquer outro tipo de norma, consegue passar muitas vezes impune, ou então, assistimos a um escândalo ainda maior, que é o facto de essas pessoas nem irem a julgamento e os crimes prescreverem.
Com esta cultura de desresponsabilização das pessoas, deste típico “banho-maria” em que andam mergulhados os nossos valores, estamos perante a maior crise valorativa de sempre; e a situação tende a piorar.
Para quem andou de cravos postos em armas, fazendo uma Revolução que pretendia viver a Liberdade no sentido melhor da palavra, 35 anos depois, vimos que nos afastámos muito desse objectivo. E recordando novamente dois versos do poema “Cantiga de Maio” de Jorge de Sena, podemos perceber o quão frágil está a nossa LIBERDADE: “ Liberdade, liberdade,/ tem cuidado que te matam.”
Francisco da Fonseca Chambel, 12º B