Take 1: The Reader
O significado de alfabetização é mais que, utilizando-a, uma palavra formada, que espelha a própria prática. Do puzzle alfabético que construímos e aperfeiçoamos desde (e para) sempre, nascem valores e direitos que todo o ser pensador deve ter direito a proclamar. Nos espaços e entre linhas de cada composição escrita ou lida vagueiam a liberdade a segurança, tão discretas, moldando a existência de quem as sente.
Dessa liberdade e segurança nascem, impressas em volumes de páginas, ideias alfabetizadas, num ciclo de conhecimento que começa no fim de cada ideia e termina no inicio de cada página.
Convertidas em frames per second, tais obras são projectadas nas grandes telas.
Vemos todo este enredo, numa perspectiva contrária, onde a vergonha e o segredo são protagonistas, no “O Leitor”. Com o pós-guerra como pano de fundo, numa introspectiva ao próprio conceito, a alfabetização é o grande ponto de toda a história. Uma vida esculpida de oportunidades perdidas e mentiras contadas. Numa paixão, à partida por interesse, são encontrados os valores quese perdem ao não saber representar por letras o pensamento, nem ler os de outrem.
A omissão de tal facto foi levada ao limite, num acumular de consequências que despoletam, no final, a condenação perpétua, não ao mundo odiento atrás das barras proibitivas da prisão, que nada são, comparadas à privação que a analfabetismo carrega, mas à secreta e eterna mágoa e vergonha, que com a força da paixão que, se antes por interesse, agora por saudade, se desvanecem nas primeiras e ultimas linhas escritas por uma mulher que acabou livre.
Vanda Paixão