Pelos Caminhos de Portugal... - Lisboa
LISBOA, MENINA E MOÇA
Em Lisboa tudo me encanta. Encantam-me os mármores, encantam-me as pessoas, encantam-me as ruas, os eléctricos, as bandeiras e o castelo. Lisboa é tudo, é fulgor e é vida. Surge-nos, tantas e tantas vezes, a ideia de uma Lisboa barulhenta, embrenhada numa caótica força de viver, na pressa e no cansaço. De facto, durante o dia a população de Lisboa chega a triplicar. Cidade de coração desértico, sempre foi – e provavelmente será – a principal porta de entrada de Portugal. E que entrada!
No Castelo deslumbro a cidade, as colinas envolventes, a multidão que desce a Rua Augusta, avisto além de Monsanto, a margem Sul, uma cidade que tem, em cada esquina, uma história. De lendas e factos, Lisboa traçou irremediavelmente o nosso destino comum. A sua história é indissociável da História de Portugal. Se há justificação para a capitalidade de Lisboa, essa justificação está na grandiosidade do passado, na certidão do presente e nas perspectivas do futuro.
Em Alfama tudo se compõem num vistoso quadro característico. O Bairro Alto vive sobre as populares ruelas apinhadas de gente no calor da noite lisboeta. Encalhada no meio destas duas colinas vive a Baixa. Ortogonal, a Baixa mostra a Lisboa grandiosa, magnânima dos tempos áureos do passado. O arco da Rua Augusta impõe-se na moldura da Praça do Comércio e olha, juntamente com D. José, o Tejo. Tejo esse que é o sangue de Lisboa. Toda a sua história se deve àquele rio. Subimos as ruas da Baixa e entramos no Rossio. A estação, o Teatro Nacional, toda aquela beleza passa indiferente aos olhos dos lisboetas. Apressados no entra e sai do autocarro, mal têm tempo de olhar para os Restauradores, ou para as belezas da Avenida da Liberdade. Visto do alto do Parque Eduardo VIII, Lisboa é um mosaico arquitectónico. Olha-se o Rio, por entre o Marquês e o Rossio. Vê-se a modernidade das Amoreiras e espreita-se o Rato.
No Vale de Alcântara somos engolidos pelo Aqueduto das Águas Livres e dirigimo-nos, sob o olhar altivo da Ponte 25 de Abril, para o local onde a História se fez: Belém. O calcário esbranquiça o horizonte. Num silêncio, respeitosamente guardado pela multidão, vela-se Camões e Vasco da Gama. Aquele que cantou e o que foi cantado descansam, eternamente, no Mosteiro dos Jerónimos. A Pátria lhes presta homenagem, assim como cada português. Na Torre de Belém, construção manuelina e antiga, ou no Padrão dos Descobrimentos, resto da Exposição do Império nos anos 40, debruçamo-nos, mais uma vez, sobre o rio. O Império Português não morreu nem nunca morrerá porque enquanto por esse mundo fora se falar Português, o Império viverá. Afinal que fomos nós senão meros exportadores da nossa cultura? E sobre o olhar da bandeira, e bem perto do chefe do Estado Português, abandonamos Belém rumo a Norte.
No pulmão de Lisboa respiramos bem fundo. Passado Monsanto chegamos a Benfica, um característico e afamado bairro lisboeta. Seja o Estádio da Luz seja o Colombo, a verdade é que em Benfica muito se passa. Lisboa não se resume à Baixa ou, no máximo, à cidade interior à Segunda Circular, Lisboa é tudo, não tem centro. Passado o Campo Grande e o Estádio José Alvalade, ficamos no Aeroporto – com os dias contados é certo mas que durante anos permitiu o desenvolvimento da capital – e chegamos à nova Lisboa. A cidade renasceu ali, no Parque das Nações.
Por tudo o que Lisboa é e por tudo o que os lisboetas são, este texto é uma insignificante descrição da cidade.
Em Lisboa tudo me encanta!
Valentino Cunha