Inveja q.b.
Se é português e está a ler isto, peço desde já desculpas. Desculpas pelo que penso e acho deste povo que sendo meu, não me é reconhecível. O povo português é um povo invejoso. Pena, sinto eu, ao dizer isto. Mas digo-o, e reafirmo tantas vezes quantas necessárias para clarificar a minha mensagem: O POVO PORTUGUÊS É INVEJOSO.
Mas criticar sem argumentar não é criticar, é falar. Proponho-me, desculpas aceites penso, a explicar o meu julgamento.
Hoje andava eu a passear-me nos jornais online e quando cheguei ao Sol deparei-me com um dos muitos artigos sobre o conhecido processo “Face Oculta”. Este processo tem, aliás, dominado os telejornais e os jornais do nosso país. Li o artigo para ver que ramo do nosso Estado os senhores jornalistas tinham acabado de condenar: EDP. E lanço aqui o primeiro aviso: se é socialista e empresário e obteve recentemente licença para construir a sua moradia, é bem provável que dentro de umas semanas seja referido pelo jornal Sol. E permitam-me que faça aqui já uma declaração de interesses muito clara: sou socialista! Sou-o, e sempre serei, por acreditar nos ideias socialistas, na combinação harmoniosa da iniciativa económica privada e pública, na igualdade e na liberdade, na democracia e na dignidade humana. Mas acredito que acabei de condenar a minha pessoa, e estou condenado por ser socialista, e aqui está uma inveja portuguesa. Se o governo faz algo bem, ninguém reconhece, mas, se pelo contrário, erra, cai o Carmo e a Trindade.
Falava há dias, com alguém, que em Portugal as pessoas competentes que queiram trabalhar mais do que o normal são imediatamente rotuladas de “lambe-botas”, “graxista” e de outros adjectivos desagradáveis. A resignação portuguesa envergonha-me enquanto cidadão e insulta-me. Insulta-me porque recebo o rótulo de outros tantos, porque sou inserido num povo, que tendo imensas virtudes, só faz sobressair os defeitos.
Voltando um pouco atrás, no referido artigo do Sol, li um comentário de uma senhora que falava acerca da contratação de um psicólogo para a sua escola, onde ela fazia serviço voluntário. Em acréscimo, disse que o referido psicólogo era filho da ministra da Saúde, Dr.ª Ana Jorge. Inveja. Dói-me, seriamente, a alma sempre que oiço alguém insinuar que a contratação de algum filho de um qualquer governante nunca é honesta. Suponhamos que eu sou filho de um ministro e que passei dezasseis anos a estudar para Economia. É-me vedado, permanentemente, o acesso a instituições públicas de forma honesta? Deixo de ser merecedor que um qualquer cargo? Perco o mérito? Triste povo este que não tendo, inveja quem tem.
O meu pai é electricista e a minha mãe sopeira, tenho mais mérito por isto?
Mais abaixo, nos comentários, uma senhora, no seu português trapalhão, criticava o jeito português de tratar os doutores por “Doutor” e os engenheiros por “Engenheiro”. Inveja. Pergunto, a mim, a todos e em especial àquela senhora, se não é o dito engenheiro merecedor do título que ostenta? Não deve, o referido Senhor Doutor, ser assim tratado? Tratar-se-á o Senhor Doutor da mesma forma que se trata uma secretária de escritório (sem ofensa)? Serão iguais aqueles que se distinguem pelo mérito? Voltamos à velha mania portuguesa de invejar o mérito alheio. E, parafraseando Felizmente há Luar, um país onde não se trate um presidente igual a um cantoneiro, não é um país onde em queira viver. Acima de tudo, fala-se em respeito. Critica-se o mau estado da educação mas olhemos para como o título de “Professor” tem perdido importância. Ainda acreditam que a culpa é só dos alunos? Quer a sociedade continuar a culpabilizar as mais novas gerações? Aquelas que aprendem com os maus vícios da sociedade dita “adulta”?
Sim, fala um reles estudante, um comum português, mas perdoe-me a outra senhora, um dia serei “Doutor” e merecerei esse título porque me esforcei para obter. Não serei mais nem menos digno que outros portugueses, não terei mais nem menos direitos, mas não farão do meu título, ou do título de qualquer um, uma razão de chacota. Triste povo este…
Os meus objectivos são claros, e expresso-os perante todos: um dia quero ser primeiro-ministro. Que se lixe o dinheiro (ganharia decerto mais numa empresa privada), que se lixe o prestígio (muitos PM não saem com boa imagem) e que se lixe a reforma vitalícia (mais importante que o futuro é o presente). Um dia serei primeiro-ministro, não por isto que eu quero que se lixe, mas por tudo aquilo que está mal e quero mudar. Uma frase que me marcou muito li-a eu no blog do contracorrente e era mais ou menos o seguinte: “Quem manda dá ordens; quem comanda dá o exemplo”. Eu quero comandar!
Acabo, este pequeno desabafo. Talvez leia e lhe passe. Talvez possa pensar na sua atitude. Será que é também um dos muitos invejosos que destrói, dia após dia, este povo corajoso e bravo? Ou é a esperança de que o amanhã seja nada mais que uma vitória sobre as trevas passadas enfim, uma vitória do que é realmente o ser português?
Peço desculpa por algumas incoerências mas, quando se escreve o que realmente se sente, é difícil fazer emendas.
Valentino Salgado Cunha, 12.ºB