Um lençol ao fim da cama
- Quando penso naquilo ainda me arrepio – disse Marta, entregando um copo de whisky a Miguel, que permanecia afundado no sofá a ouvi-la deliciadamente. – Podia ter sido o meu fim, aquilo ainda era alto.
- Em lugar de termos um corpo passámos a ter dois, um dois em um.
- Engraçadinho! – retorquiu Marta, enquanto se sentava também no sofá, com uma taça de vinho branco.
- Claro que eram dois corpos diferentes. Um putrefacto, o outro belo e sedutor.
- Isso é um elogio?
- É uma verdade.
Olharam-se. Brindaram com os seus copos, com líquidos diferentes. Houve algum silêncio.
- Tens um lindo apartamento – comentou Miguel.
- Quer dizer, uma linda sala, ainda não passaste daqui.
- Sim, mas imagino o resto.
- Não imagines muito, que ainda te desiludes.
- Não creio. Tenho uma boa imaginação, mas por certo a realidade não me deixará contradizer. E a imaginação é sempre o rastilho para se fazer realidade.
- Bom, vou ver como está o assado, que estás a ficar muito atrevido.
Os corpos, nus, estão entrelaçados um no outro, conjuntamente com os lençóis. Marta, com a cabeça no ombro de Miguel, brinca com os poucos pêlos do peito que ele tem.
- Nunca me imaginei na cama com um polícia.
- Não? Para tudo há uma primeira vez. E que tal, somos competentes?
- Sim, mas já tive melhor – Marta ri-se.
Miguel apanha uma almofada e sufoca-a, na brincadeira. Riem-se ambos. Ele agarra-lhe na cara e dá-lhe um beijo bem forte, com alguma violência até.
- Ok, não me precisa demonstrar que é um polícia bruto.
- Aleijei-te?
- Não, estou a brincar. Mas quando quiser engolir a minha boca, avise-me primeiro para não sufocar.
- Sabes, tenho estado aqui a pensar. Naquela filmagem pode estar a chave de todo o mistério.
- Eu não acredito, eu não acredito! – barafusta Marta, saindo da cama envolta no lençol, como se tivesse numa cena de um filme em que, como uma grande actriz, não queria mostrar a sua nudez. – Estive aqui envolvida intensamente com este tipo e ele esteve a pensar no serviço.
- Não é isso – responde Miguel, virando-se para baixo, para desta forma ocultar a sua nudez frontal, surgida com o roubo do lençol por Marta, revelando assim a falta de intimidade que ainda existia entre eles. – Claro que não pensei nisso enquanto estivemos envolvidos. Foi só agora, quando estavas calada a brincar no meu peito.
- Fala então – diz Marta já dentro da casa de banho.
- Se ele filmou o tal Pedro, sem se esconder, é porque ele o conhece.
- E porque ia o outro deixar que ele filmasse o local onde escondeu o corpo.
- Não sei, poderá ter uma câmara dissimulada num objecto qualquer, que lhe permitisse filmar sem as pessoas se aperceberem. Já o caso Mérito parece-me ter também algo de semelhante, ele entrou lá em casa e deixou ficar algum objecto que filmasse.
- Não sei, pode ser que tenhas alguma razão. É tudo muito esquisito.
Marta aparece junto da porta da casa de banho, já vestida com uma T-shirt comprida. Miguel olha-a fixamente. Mesmo com uma simples t-shirt não deixa de estar bonita. Aliás, aquela peça única de roupa, branca e amarrotada, acabava por realçar as suas belas pernas, a única parte nua agora disponível para o olhar de Miguel. Ela agarra-se à moldura exterior da porta, levanta uma perna, empurra a cabeça e os seus longos cabelos castanhos-claros para trás, imitando assim uma velha pose sexy cinematográfica.
- Sinto-me uma autêntica Mata-Hari. Não há nada como ter um homem na cama par o pôr a falar. O senhor inspector, nos poucos encontros que tivemos quase nada falou, sigilo profissional, deontologia, policia e jornalistas não combinam, etc. Dá uma quequinha comigo e ei-lo, já a falar do caso e das suas suposições. Os homens são todos iguais. Deus ao sétimo dia estava mesmo cansado e com preguiça. Fez uma única forma e zás, toca a fazê-los em série.
Miguel voltou a agarrar a almofada e atirou-a à cara de Marta. Como não era muito jeitoso de mãos acabou por mandá-la com força de demais e com o botão virado para fora, o que fez com que Marta desse um ai bem forte.
- Bruto! Aleijaste-me – gritou Marta agarrada ao olho.
Miguel levantou-se prontamente e foi até ela. Pegou-lhe na cara e soprou-lhe o olho, numa tentativa de lhe aliviar a dor.
- Desculpa, foi sem querer.
- Ok, já está a passar.
- Pronto, eu sei que sou um pouco desastrado, só queria brincar contigo – desculpou-se Miguel, encostando a cabeça de Marta ao seu peito.
- Tá desculpado. Vá, agora vá-se vestir, senão ainda é preso por atentado ao pudor.
Miguel ficou embaraçado com o comentário. Depressa procurou a roupa espalhada no chão, ao fundo da cama, para se começar a vestir. Sentiu que Marta o observava e isso ainda o deixou mais embaraçado. Não percebia porquê, já tinha estado, noutras ocasiões, nu após o sexo em frente a uma parceira, com a qual não tinha ainda grande afinidade, por vezes era só um conhecimento daquela noite, e nunca se sentiu constrangido com essa situação. Com Marta era diferente.
- Não procure um ginásio, não! Um menino que nem trinta anos tem e já anda aí com um pneuzito a querer romper.
Nu, completamente nu numa praça cheia de gente. Foi assim que Miguel se sentiu quando ouviu o comentário de Marta, apesar já ter os boxers e meia camisa vestida. Talvez percebendo o seu embaraço, ela aproximou-se dele e abraçou-o.
- Estou a brincar, meu tolo.
- Estou assim tão mal?
- Não, estás muito bem.
- Então porque disseste aquilo?
- Porque eu tenho um olho clínico para estas coisas. Tens um bom físico, mas sem trabalho nenhum. Como daqui uns tempos a lei da gravidade muscular começa a fazer das suas, vais ganhar volume naquilo que tiveres mais flácido – dizendo isto, Marta abriu-lhe a camisa, ainda não abotoada, e tocou-lhe barriga. – Vês isto aqui um bocadinho mole? Vai ser pneu daqui a algum tempo, e é pena. Ouve o que eu te digo.
- Ao ouvir-te falar assim, a tão longo prazo, até parece que está interessada em mim daqui a algum tempo?
Nesse momento foi Marta que ficou embaraçada. No entanto, disfarçou, rodopiando pelo quarto e cantarolando uma velha canção.
- Que será, será? I will be, will be?