A Cortina do Segredo
Ana fora convidada para participar na busca à casa do Nuno Azevedo Mascaranhas. A operação destinava-se a apanhar Guilherme Mascaranhas, filho de Nuno, em flagrante delito. Uma informação, de fonte segura, dizia que ele tinha recebido uma remessa de droga proveniente do Brasil e que a tinha escondido na sua casa, um velho casarão para os lados do Restelo. Como Ana estava na altura a investigar um caso de falência fraudulenta numa empresa onde Nuno Mascaranhas era sócio, foi-lhe sugerido para acompanhar a busca pois podia encontrar alguma informação relevante para o seu processo. Um pouco contrariada, porque sabia que qualquer coisa que encontrasse não poderia servir como prova, Ana acabou por acompanhar os seus colegas. Estes quase não puderam conter o riso, quando a viram aproximar-se do carro que eles iriam levar. Ana, como sempre, apareceu muito bem vestida, como se a seguir à busca tivesse que ir a uma pequena recepção informal, aquelas festas onde toda a gente finge ir com uma roupa simples, mas no fundo, todos levam um guarda-roupa de excelência, embora discreto.
Quando chegaram, Guilherme apareceu ainda com cara de sono. Estava só. Nuno e a mulher encontravam-se ausentes no Brasil. Havia rumores que já não deviam voltar. Aquela, que já fora uma das grandes famílias lisboetas, encontrava-se na altura num mau momento, após uma série de negócios mal sucedidos. Não se sabe se pelo efeito do ressaca da noite anterior, se por já esperar uma intervenção daquele tipo, Guilherme quase não reagiu à entrada da policia. Limitou-se a ficar sentado no sofá da sala, a dizer que não tinha nada em casa, que não iam encontrar nada.
A busca estava quase no fim e não tinham encontrado nada. Não havia rasto de droga e não tinha sido recolhida nenhuma informação interessante para o processo de Ana. Esta, um pouco cansada com toda aquela agitação, acabou por se sentar no sofá, enquanto os outros três colegas seus revolviam o resto das coisas que ainda estavam em ordem. Observou atentamente a sala, agora já bastante desarrumada.
- É pena, a Clara Brito de Almeida tinha feito aqui um trabalho tão bom – lamentou Ana ao observar o estado actual da sala.
- Como sabe que foi a tia Clarinha que decorou a sala? – perguntou Guilherme, um pouco surpreendido com a observação.
- O seu estilo é inconfundível.
- A mãe adorava esta sala, se a visse agora desmaiava.
- Uma boa empregada põe isto direito. Aconselho-o a tratar disso antes da mãe voltar, ela não merece isso.
- Voltar! Quando é que isso vai acontecer? Quando é que vai tudo voltar ao normal nesta família?! – lamuriou Guilherme, pondo as mãos na cabeça.
- Não pense nisso, é só um mau momento. Todas as famílias têm os seus. Não deve é dar mais desgostos à mãe, ela não merece.
- Conhece-a?
- Não, só de vista, do meio social – disse Ana mentindo, pois já várias vezes se tinha cruzado com a Mariazinha Azevedo Mascaranhas, nomeadamente nuns chás de umas amigas comuns.
- É uma grande senhora, com uma vida tão linda, mas o pai tinha que estragar tudo. Sempre a sua eterna mania que sabia tudo, nunca ouvia os conselhos de ninguém. Agora anda como um foragido, a esconder-se para não lhe tirarem o pouco que ainda temos. Sabe, como eles não voltam tão depressa vou ter que começar a vender coisas, as começar por aqui, com alguns objectos trazidos pela tia Clarinha.
Ana voltou a olhar melhor a sala, talvez a ver se realmente haveria alguns objectos que pudessem ser ainda valiosos.
- Não pode ser! – comentou ela, num tom um pouco mais alto do que era seu habitual. – Não pode ser!
- O que foi? – perguntou um seu colega, aproximando-se de Ana, que entretanto já se tinha posto a pé ao pé da janela.
- Estes cortinados, estão a aqui a mais. A Clarinha jamais escolheria uns cortinados como estes. Além de não se integrarem na decoração da sala, são horríveis. Ah, peço imensa desculpa! Não queria ser desagradável – disse Ana, voltando-se para Guilherme.
- Mas o que está para aí dizer? Ainda não percebi nada – insistiu o colega.
- Ó meu caro, ainda não reparou que estes cortinados não fazem parte da decoração inicial desta sala, que tem a assinatura de uma grande decoradora, Clara Brito de Almeida. Não conhece?
-Conheço lá agora – respondeu o colega, um pouco farto dos comentários refinados de Ana. – Está-me a dizer que isto foi posto aqui recentemente?
- Isso não sei, mas que não devia estar aqui antes da Mariazinha Mascarenhas ter ido embora, não devia.
- Malta! – com este grito os outros dois colegas juntaram-se a ele. – Só pode estar aqui.
- Vejam o contrapeso da bainha – sugeriu Ana, ao ver que todos começaram a apalpar o tecido dos cortinados. Não foi preciso muito tempo. A droga estava mesmo escondida na bainha do cortinado, substituindo o peso que por vezes se põe para manter o cortinado direito.
No carro, a caminho das instalações policiais, o ambiente foi trespassado por um longo silêncio. Não porque levavam detido o alvo da acção ali no carro, mas sim porque havia um travo amargo naquela vitória da noite. O objectivo fora alcançado, é certo, mas tinha sido a colega mais chique, mais distinta e mais apelidada de Barbie de toda a corporação a ser grande heroína do dia. Não só determinou o local exacto da droga, com o seu olhar conhecedor de decorações, como, numa simples conversa de sofá, conseguiu saber o que realmente se estava a passar com Nuno Mascaranhas e que o seu regresso não ia ser para tão breve. Ana levava um grande sorriso discreto nos lábios.