Cena 1: Interior. Estúdio do Programa MM - Manhãs da Margarida
O cenário é composto por um enorme sofá em L, tendo como pano de fundo um pequeno palco com banda e um ecran gigante onde vão passando imagens não só das reportagens, como também dos diferentes convidados que passam por cada programa.
Margarida entrevista Rosa. O ecran gigante mostra um grande plano de Rosa, que tem uma cara muito preocupada.
Margarida: Olá, estamos de volta. Relembro que antes do intervalo D. Rosa deixava ficar aqui o seu testemunho emocionado de uma mulher que quase paralítica, devido a uma doença rara, foi salva por uma santa que achou no campo há mais de 20 anos. Diga-me D. Rosa, quando começou a perceber que a fé na sua santinha estava a melhorá-la dia a dia?
Rosa: Sabe Senhora Dona Margarida, eu sempre fui uma mulher de fé. Logo naquele dia, em que vi a cara linda da minha santa, enterrada no meio do campo das cebolas, eu percebi que ia mudar a minha vida. A gente sabe essas coisas. A gente vê a força da fé a vir.
Margarida: Sim, mas quando é que viu que essa fé estava a curar o seu mal?
Rosa: Senhora Dona Margarida, o meu mal era terrível, eu já estava despedida dos médicos. Dia para dia, eu ficava cada vez pior. Ultimamente já não me conseguia levantar da cama. Não tinha forças para nada. Andava de doutor para doutor e nada, cada vez pior.
Margarida: Mas quando foi que a sua santa mudou tudo isso, a fez levantar? Foi dum momento para o outro?
Rosa: Foi Dona Margarida, foi do dia para a noite. Claro que não me levantei logo a correr. Mas senti logo que estava a melhorar
Margarida: Mas D. Rosa, se já lá tinha a santa há tanto tempo, como é que ela, de um momento para outro, fez com que ficasse boa?
Rosa: Então, eu estava mesmo perdida. Despedida dos médicos. Um dia deitada, olhei para a minha santinha, em cima da cómoda, e pedi que ma trouxessem. Agarrei-me a ela e gritei, minha nossa senhora linda, ajuda-me! Não me vou separar mais de ti, se com quem este mal me queres levar, leva-me, que eu vou contigo. E dito isto nunca mais separei dela, estava sempre ao meu lado. Até para a casa de banho a levava.
Margarida: Mas não ficou boa logo no dia seguinte, pois não?
Rosa: Assim dessa maneira não, mas que comecei logo a ganhar forças, comecei. Numa semana já andava novamente, devagarinho mas já andava. Um autêntico milagre. As pessoas faziam bicha para me ir ver, ninguém acreditava. Até os doutores queriam ver o que tinha acontecido, nem eles acreditavam. Olhe, o doutor Broega, uma excelente pessoa, chegou mesmo a dizer, D. Rosa foi mesmo um milagre. Eu disse-lhe, eu sei senhor doutor, eu sei, foi a minha santa protectora, que eu desenterrei em tempos para me vir salvar.
Margarida: D. Rosa, não quer compartilhar connosco a imagem da sua protectora?
Rosa pega na imagem que tem no seu colo e eleva-a. Grande plano da imagem de uma santa de pequena estatura.
Rosa: Não é linda?
Margarida: É muito bonita, mas a maior beleza é força que ela transmite ao interior de cada um. Palmas para a D. Rosa e a sua protectora.
O público aplaude.
Margarida: Muito obrigada D. Rosa, pelo seu testemunho, ficamos muito emocionados (mais aplausos). Passemos agora à nossa rubrica do Quem disse o quê? Uma análise corrosiva e bem disposta do que diversas personalidades publicas foram dizendo aí pela nossa imprensa cor-de-rosa. Para isso contamos com a presença dos nossos colaboradores habituais… (uma pausa, Margarida segura melhor o auricular). Afinal não contamos nada. Vamos fazer uma ligação à redacção para um especial de informação. Já voltamos. Até já.
Cena 2: Interior. Estúdio de Informação Diária. Bloco Noticioso.
O pivot (não habitual no serviços informativos) está sentado por detrás de uma secretária multicolorida e à frente de um painel de monitores.
Pivot: Bom dia. Abrimos aqui este especial para dar conta da notícia da potencial descoberta do corpo do empresário espanhol Pablo Obregon, que há desapareceu há cerca de um ano. Depois da denúncia do autarca José Mérito pelo blogue A Fúria de Deus, o Mensageiro volta a atacar, desta vez revelando o destino trágico do empresário e o local do seu corpo. Segundo essa fonte, Pablo Obregon foi assassinado por um familiar de uma alta funcionária da empresa e atirado para um buraco na Serra da Arrábida. (Começa a passar o vídeo anexo do blogue) As imagens que estamos a ver fazem parte de um vídeo inserido na página de Internet e pretende mostrar o local que onde o presumível autor do crime terá depositado o corpo com ajuda de 2 cúmplices. Conjuntamente com a publicação no blogue, o cyber denunciante fez circular mails a avisar da sua edição, à semelhança do que fez na vez anterior. Perante isto, várias autoridades estão neste momento numa autêntica busca ao corpo. No local temos a nossa repórter Luísa Mello, que acompanha as diligências no terreno. Marta, já temos novidades?
Cena3: Exterior. Serra da Arrábida. Directo Noticioso.
Marta: Bom dia, Rui. Até ao momento não podemos adiantar muito. As autoridades estão neste momento a iniciar a descida ao buraco conhecido como a Garganta do Diabo, mas ainda não comunicaram nada. (Plano global de todo o espaço, enquanto Luísa Fala). Depois de uma autêntica odisseia para se descobrir o local indicado no blogue, pois não é muito conhecido, a não ser por algumas pessoas mais antigas das redondezas, as diversas autoridades estão agora em conjunto fazer uma busca. A propósito Rui, posso-te dizer que fomos nós os primeiros a chegar ao local, inclusive ajudamos o governo civil a chegar aqui… A cratera onde supostamente está o corpo de Pablo Obregon é um local muito desconhecido. Ninguém aqui presente tem um verdadeiro conhecimento da profundidade. Daí alguma demora na operação…Vemos que esticam mais uma corda lá para dentro. Vários bombeiros e a GNR debruçados sobre o buraco… Fazem um sinal… Não sei o que quer dizer, provavelmente a pedir qualquer coisa…Vamos falar aqui com este senhor, que tem estado aqui… (aproxima-se de um senhor de costas) Um antigo bombeiro, acho eu… Bom dia, podia-me dizer o que está a passar?
Antigo Bombeiro: Não sei. Não me deixam lá chegar
Marta: Mas é bombeiro, ou pelo menos foi?
Antigo Bombeiro: Sim, mas como já não estou no activo, não me é permitido ir até ao local. Ouvi nas notícias o caso e vim atrás dos bombeiros.
Marta: Mas como especialista, o que acha que se está a passar?
Antigo Bombeiro: Eu acho que já encontraram qualquer coisa. Primeiro porque já lá estão a algum tempo e já desceu também uma autoridade que não é dos bombeiros, logo é para reconhecer algo. Depois as cordas novas que lançaram é porque querem içar alguma coisa.
Marta: Então acha que encontraram o corpo?
Antigo Bombeiro: Acho que encontraram algo, por todo o material que baixaram. E não for o corpo o que é?
Marta: Bom… (virando-se para a câmara) Como ouviram, é opinião de um técnico especializado que o corpo já foi encontrado.
Antigo Bombeiro (em off): Eu não disse bem isso.
Marta: Resta agora saber quando o corpo irá ser içado. Provavelmente devem estar a proceder a todos os requisitos legais para o levantamento do corpo. Não deve ser tarefa fácil, até porque o corpo deve estar num elevado estado de decomposição. Sobre esta matéria posso adiantar que todas as pessoas que desceram levaram máscaras. Além do hipotético cadáver outras coisas também poderiam ser encontradas. (Ouve-se algum barulho, Luísa olha para o lado) Sim? Bom, parece que está a acontecer algo…Vemos ao longe algum burburinho à volta da fenda. (Zoom sobre as pessoas que cercam o buraco, vê-se os bombeiros a puxar umas cordas) Vemos também alguns bombeiros a içar qualquer coisa… Parecem fazer muito esforço… Continuam a puxar… Surge qualquer coisa, é o corpo…Não, parece um tronco… Se calhar para fazer contrapeso… Os bombeiros limpam suor, realmente não deve ser fácil fazer tanta força… Agora sim, surge um vulto… Sim é o corpo. Podemos afirmar que foi encontrado o corpo de Pablo Obregon.
Antigo Bombeiro (em off): Não quer dizer que seja. Tinha piada se fosse outro.
Marta: Assistimos assim, ao momento em que finalmente encontraram o corpo de Pablo Obregon. Mais uma vez o Mensageiro da Fúria de Deus revelou um segredo. Nascem agora outras dúvidas, que importa esclarecer, nomeadamente quem é esta personagem que tem revelado coisas que ninguém sabe e apresenta provas disso? A revelar segredos nasce um outro grande segredo, quem é o Mensageiro?
Ana fora convidada para participar na busca à casa do Nuno Azevedo Mascaranhas. A operação destinava-se a apanhar Guilherme Mascaranhas, filho de Nuno, em flagrante delito. Uma informação, de fonte segura, dizia que ele tinha recebido uma remessa de droga proveniente do Brasil e que a tinha escondido na sua casa, um velho casarão para os lados do Restelo. Como Ana estava na altura a investigar um caso de falência fraudulenta numa empresa onde Nuno Mascaranhas era sócio, foi-lhe sugerido para acompanhar a busca pois podia encontrar alguma informação relevante para o seu processo. Um pouco contrariada, porque sabia que qualquer coisa que encontrasse não poderia servir como prova, Ana acabou por acompanhar os seus colegas. Estes quase não puderam conter o riso, quando a viram aproximar-se do carro que eles iriam levar. Ana, como sempre, apareceu muito bem vestida, como se a seguir à busca tivesse que ir a uma pequena recepção informal, aquelas festas onde toda a gente finge ir com uma roupa simples, mas no fundo, todos levam um guarda-roupa de excelência, embora discreto.
Quando chegaram, Guilherme apareceu ainda com cara de sono. Estava só. Nuno e a mulher encontravam-se ausentes no Brasil. Havia rumores que já não deviam voltar. Aquela, que já fora uma das grandes famílias lisboetas, encontrava-se na altura num mau momento, após uma série de negócios mal sucedidos. Não se sabe se pelo efeito do ressaca da noite anterior, se por já esperar uma intervenção daquele tipo, Guilherme quase não reagiu à entrada da policia. Limitou-se a ficar sentado no sofá da sala, a dizer que não tinha nada em casa, que não iam encontrar nada.
A busca estava quase no fim e não tinham encontrado nada. Não havia rasto de droga e não tinha sido recolhida nenhuma informação interessante para o processo de Ana. Esta, um pouco cansada com toda aquela agitação, acabou por se sentar no sofá, enquanto os outros três colegas seus revolviam o resto das coisas que ainda estavam em ordem. Observou atentamente a sala, agora já bastante desarrumada.
- É pena, a Clara Brito de Almeida tinha feito aqui um trabalho tão bom – lamentou Ana ao observar o estado actual da sala.
- Como sabe que foi a tia Clarinha que decorou a sala? – perguntou Guilherme, um pouco surpreendido com a observação.
- O seu estilo é inconfundível.
- A mãe adorava esta sala, se a visse agora desmaiava.
- Uma boa empregada põe isto direito. Aconselho-o a tratar disso antes da mãe voltar, ela não merece isso.
- Voltar! Quando é que isso vai acontecer? Quando é que vai tudo voltar ao normal nesta família?! – lamuriou Guilherme, pondo as mãos na cabeça.
- Não pense nisso, é só um mau momento. Todas as famílias têm os seus. Não deve é dar mais desgostos à mãe, ela não merece.
- Conhece-a?
- Não, só de vista, do meio social – disse Ana mentindo, pois já várias vezes se tinha cruzado com a Mariazinha Azevedo Mascaranhas, nomeadamente nuns chás de umas amigas comuns.
- É uma grande senhora, com uma vida tão linda, mas o pai tinha que estragar tudo. Sempre a sua eterna mania que sabia tudo, nunca ouvia os conselhos de ninguém. Agora anda como um foragido, a esconder-se para não lhe tirarem o pouco que ainda temos. Sabe, como eles não voltam tão depressa vou ter que começar a vender coisas, as começar por aqui, com alguns objectos trazidos pela tia Clarinha.
Ana voltou a olhar melhor a sala, talvez a ver se realmente haveria alguns objectos que pudessem ser ainda valiosos.
- Não pode ser! – comentou ela, num tom um pouco mais alto do que era seu habitual. – Não pode ser!
- O que foi? – perguntou um seu colega, aproximando-se de Ana, que entretanto já se tinha posto a pé ao pé da janela.
- Estes cortinados, estão a aqui a mais. A Clarinha jamais escolheria uns cortinados como estes. Além de não se integrarem na decoração da sala, são horríveis. Ah, peço imensa desculpa! Não queria ser desagradável – disse Ana, voltando-se para Guilherme.
- Mas o que está para aí dizer? Ainda não percebi nada – insistiu o colega.
- Ó meu caro, ainda não reparou que estes cortinados não fazem parte da decoração inicial desta sala, que tem a assinatura de uma grande decoradora, Clara Brito de Almeida. Não conhece?
-Conheço lá agora – respondeu o colega, um pouco farto dos comentários refinados de Ana. – Está-me a dizer que isto foi posto aqui recentemente?
- Isso não sei, mas que não devia estar aqui antes da Mariazinha Mascarenhas ter ido embora, não devia.
- Malta! – com este grito os outros dois colegas juntaram-se a ele. – Só pode estar aqui.
- Vejam o contrapeso da bainha – sugeriu Ana, ao ver que todos começaram a apalpar o tecido dos cortinados. Não foi preciso muito tempo. A droga estava mesmo escondida na bainha do cortinado, substituindo o peso que por vezes se põe para manter o cortinado direito.
No carro, a caminho das instalações policiais, o ambiente foi trespassado por um longo silêncio. Não porque levavam detido o alvo da acção ali no carro, mas sim porque havia um travo amargo naquela vitória da noite. O objectivo fora alcançado, é certo, mas tinha sido a colega mais chique, mais distinta e mais apelidada de Barbie de toda a corporação a ser grande heroína do dia. Não só determinou o local exacto da droga, com o seu olhar conhecedor de decorações, como, numa simples conversa de sofá, conseguiu saber o que realmente se estava a passar com Nuno Mascaranhas e que o seu regresso não ia ser para tão breve. Ana levava um grande sorriso discreto nos lábios.
- Quando penso naquilo ainda me arrepio – disse Marta, entregando um copo de whisky a Miguel, que permanecia afundado no sofá a ouvi-la deliciadamente. – Podia ter sido o meu fim, aquilo ainda era alto.
- Em lugar de termos um corpo passámos a ter dois, um dois em um.
- Engraçadinho! – retorquiu Marta, enquanto se sentava também no sofá, com uma taça de vinho branco.
- Claro que eram dois corpos diferentes. Um putrefacto, o outro belo e sedutor.
- Isso é um elogio?
- É uma verdade.
Olharam-se. Brindaram com os seus copos, com líquidos diferentes. Houve algum silêncio.
- Tens um lindo apartamento – comentou Miguel.
- Quer dizer, uma linda sala, ainda não passaste daqui.
- Sim, mas imagino o resto.
- Não imagines muito, que ainda te desiludes.
- Não creio. Tenho uma boa imaginação, mas por certo a realidade não me deixará contradizer. E a imaginação é sempre o rastilho para se fazer realidade.
- Bom, vou ver como está o assado, que estás a ficar muito atrevido.
Os corpos, nus, estão entrelaçados um no outro, conjuntamente com os lençóis. Marta, com a cabeça no ombro de Miguel, brinca com os poucos pêlos do peito que ele tem.
- Nunca me imaginei na cama com um polícia.
- Não? Para tudo há uma primeira vez. E que tal, somos competentes?
- Sim, mas já tive melhor – Marta ri-se.
Miguel apanha uma almofada e sufoca-a, na brincadeira. Riem-se ambos. Ele agarra-lhe na cara e dá-lhe um beijo bem forte, com alguma violência até.
- Ok, não me precisa demonstrar que é um polícia bruto.
- Aleijei-te?
- Não, estou a brincar. Mas quando quiser engolir a minha boca, avise-me primeiro para não sufocar.
- Sabes, tenho estado aqui a pensar. Naquela filmagem pode estar a chave de todo o mistério.
- Eu não acredito, eu não acredito! – barafusta Marta, saindo da cama envolta no lençol, como se tivesse numa cena de um filme em que, como uma grande actriz, não queria mostrar a sua nudez. – Estive aqui envolvida intensamente com este tipo e ele esteve a pensar no serviço.
- Não é isso – responde Miguel, virando-se para baixo, para desta forma ocultar a sua nudez frontal, surgida com o roubo do lençol por Marta, revelando assim a falta de intimidade que ainda existia entre eles. – Claro que não pensei nisso enquanto estivemos envolvidos. Foi só agora, quando estavas calada a brincar no meu peito.
- Fala então – diz Marta já dentro da casa de banho.
- Se ele filmou o tal Pedro, sem se esconder, é porque ele o conhece.
- E porque ia o outro deixar que ele filmasse o local onde escondeu o corpo.
- Não sei, poderá ter uma câmara dissimulada num objecto qualquer, que lhe permitisse filmar sem as pessoas se aperceberem. Já o caso Mérito parece-me ter também algo de semelhante, ele entrou lá em casa e deixou ficar algum objecto que filmasse.
- Não sei, pode ser que tenhas alguma razão. É tudo muito esquisito.
Marta aparece junto da porta da casa de banho, já vestida com uma T-shirt comprida. Miguel olha-a fixamente. Mesmo com uma simples t-shirt não deixa de estar bonita. Aliás, aquela peça única de roupa, branca e amarrotada, acabava por realçar as suas belas pernas, a única parte nua agora disponível para o olhar de Miguel. Ela agarra-se à moldura exterior da porta, levanta uma perna, empurra a cabeça e os seus longos cabelos castanhos-claros para trás, imitando assim uma velha pose sexy cinematográfica.
- Sinto-me uma autêntica Mata-Hari. Não há nada como ter um homem na cama par o pôr a falar. O senhor inspector, nos poucos encontros que tivemos quase nada falou, sigilo profissional, deontologia, policia e jornalistas não combinam, etc. Dá uma quequinha comigo e ei-lo, já a falar do caso e das suas suposições. Os homens são todos iguais. Deus ao sétimo dia estava mesmo cansado e com preguiça. Fez uma única forma e zás, toca a fazê-los em série.
Miguel voltou a agarrar a almofada e atirou-a à cara de Marta. Como não era muito jeitoso de mãos acabou por mandá-la com força de demais e com o botão virado para fora, o que fez com que Marta desse um ai bem forte.
- Bruto! Aleijaste-me – gritou Marta agarrada ao olho.
Miguel levantou-se prontamente e foi até ela. Pegou-lhe na cara e soprou-lhe o olho, numa tentativa de lhe aliviar a dor.
- Desculpa, foi sem querer.
- Ok, já está a passar.
- Pronto, eu sei que sou um pouco desastrado, só queria brincar contigo – desculpou-se Miguel, encostando a cabeça de Marta ao seu peito.
- Tá desculpado. Vá, agora vá-se vestir, senão ainda é preso por atentado ao pudor.
Miguel ficou embaraçado com o comentário. Depressa procurou a roupa espalhada no chão, ao fundo da cama, para se começar a vestir. Sentiu que Marta o observava e isso ainda o deixou mais embaraçado. Não percebia porquê, já tinha estado, noutras ocasiões, nu após o sexo em frente a uma parceira, com a qual não tinha ainda grande afinidade, por vezes era só um conhecimento daquela noite, e nunca se sentiu constrangido com essa situação. Com Marta era diferente.
- Não procure um ginásio, não! Um menino que nem trinta anos tem e já anda aí com um pneuzito a querer romper.
Nu, completamente nu numa praça cheia de gente. Foi assim que Miguel se sentiu quando ouviu o comentário de Marta, apesar já ter os boxers e meia camisa vestida. Talvez percebendo o seu embaraço, ela aproximou-se dele e abraçou-o.
- Estou a brincar, meu tolo.
- Estou assim tão mal?
- Não, estás muito bem.
- Então porque disseste aquilo?
- Porque eu tenho um olho clínico para estas coisas. Tens um bom físico, mas sem trabalho nenhum. Como daqui uns tempos a lei da gravidade muscular começa a fazer das suas, vais ganhar volume naquilo que tiveres mais flácido – dizendo isto, Marta abriu-lhe a camisa, ainda não abotoada, e tocou-lhe barriga. – Vês isto aqui um bocadinho mole? Vai ser pneu daqui a algum tempo, e é pena. Ouve o que eu te digo.
- Ao ouvir-te falar assim, a tão longo prazo, até parece que está interessada em mim daqui a algum tempo?
Nesse momento foi Marta que ficou embaraçada. No entanto, disfarçou, rodopiando pelo quarto e cantarolando uma velha canção.
- Que será, será? I will be, will be?
Apenas a fúria das palavras, em jeito de um caminho construído pelas ideias da escrita, pelo som da imaginação de um ateu.
Se um filme começa muitas vezes por ser um pedaço de um vídeo na Internet, porque não um livro ter aqui também o seu primeiro encontro com os olhos do mundo exterior ao seu criador?
Apenas pedaços das ideias. Apenas partes do imaginário ainda encurralado nas folhas de um papel virtual. Imagens caídas de uma qualquer paisagem criativa.
O Mensageiro