SOL

Aquela noite de 1998

Publicação: 21 Outubro 06 12:39

O Parlamento aprovou, finalmente, a realização de novo referendo sobre a despenalização do aborto até às primeiras 10 semanas de gravidez. Não votaram a resolução, por razões distintas, CDS e PCP.
Os primeiros porque querem manter o crime de aborto na lei; os segundos porque acham que o Parlamento tem legitimidade para decidir.

Entendemo-nos: é claro que o Parlamento tem toda a legitimidade para mudar o Código Penal. Mas, bem ou mal – isso agora é irrelevante –, realizou-se um referendo em 1998. 70 por cento do eleitorado absteve-se. O resultado não foi, por isso, vinculativo. Mas o referendo realizou-se e, por 48 mil votos, venceu a criminalização das mulheres. O actual Parlamento podia proceder à mudança da lei. Mas que ninguém tenha ilusões: o que nesse cenário se discutiria não era a substância do problema, mas a intenção da esquerda de ganhar na «secretaria» o que perdera nas urnas. Demagógico, o argumento mobilizaria os sectores mais conservadores da sociedade portuguesa na exigência de um novo referendo... para mudar o que entretanto havia sido mudado.

Devo dizer que prefiro que as mulheres ganhem no terreno onde, há oito anos, perderam. Porque essa vitória tem que ser limpa e indiscutível. Quem preferia a decisão em sede de Parlamento deve agora canalizar essa vontade para ganhar todas as opiniões.

E quem ficou em casa em 1998 deve lembrar-se de como passou essa noite em que o resultado foi conhecido. Em 2007, isso não se repetirá. Não acredito que alguém se tenha esquecido e queira repetir a dose.

Além do mais, está à vista o resultado de 98. Oito anos depois, as mulheres continuam a abortar clandestinamente. E a ser julgadas. E algumas – nem que fosse uma – a serem condenadas.

Oito anos depois, o que está em causa já não são as opiniões sobre a origem da vida – cada qual terá a sua – mas saber por mais quanto tempo teremos mulheres julgadas por crime de homicídio suavemente punível com três anos de cadeia. Condenadas por terem tomado uma das mais difíceis decisões das suas vidas.

É isto que está em causa. É, de facto, uma questão de civilização.

Democracia na fábrica Mais de 60 por cento dos trabalhadores da Autoeuropa apoiaram, nas urnas, o resultado da negociação entre a comissão de trabalhadores e a administração. Esta fábrica é a única empresa do país onde os trabalhadores têm a última palavra sobre o que decidem os seus representantes. Bom seria que o exemplo frutificasse. Neste acordo deram outro exemplo: aceitaram diminuir o pagamento das horas extraordinárias contra a criação de postos de trabalho. Só sindicato dos metalúrgicos não percebeu.  


O véu Já não chegava em França, agora também no Reino Unido, Tony Blair decidiu apoiar uma campanha em curso para impedir que as minorias religiosas possam usar no espaço público os sinais distintivos das suas confissões. A intenção é, obviamente, o véu islâmico, mas todos comem por tabela, para manter as aparências. Há gente que, decididamente, não percebe. Ou que percebe bem demais. Transformado em objecto de polémica, o véu vira símbolo de identidade e resistência. E a sociedade perde em direito de escolha.

Comentários

# voninha said on Outubro 23, 2006 14:30:

Caro Miguel Portas

Li a tua crónica com cuidado..Independentemente das competencias da AR tambem concordo com o referendo.Espero que não se utilize o referendo para mais uma guerra entre partidos..!!

Bom trabalho.

VN

# drtrovoada said on Outubro 24, 2006 16:04:

Caro Miguel Portas,

Não tente justificar o que não tem justificação:

- em 98, como hoje, o referendo serviu, sobretudo, como manobra de diversão da opinião pública. Hoje mais do que em 98, creio eu;

- em trinta anos de democracia portuguesa, houve DOIS referendos. DOIS.

Hoje, no que respeita à regionalização, o PR, em campanha, já afirmou ser favorável a um novo referendo, a ver se desta vez passa.

Quanto ao aborto, repete-se agora, que as sondagens são bastante favoráveis, também a ver se passa. O que é que isto diz sobre a democracia em geral e sobre a nossa democracia, em particular? É preciso resposta?

- Quanto à democracia, em geral, diz-nos que o referendo, que devia ser um instrumento de democracia directa, permitindo a participação do povo na resolução de problemas concretos, de relevante interesse nacional, se transformou num dos mais perversos instrumentos de manipulação.

- Quanto à nossa democracia, em Portugal, indicia até que ponto esta é ridícula.

E o resto são balelas. Sobretudo quando vêm do BE, bando de travestis sodomitas que estavam melhor na Palestina, a lutar pelo casamento entre islamitas do mesmo sexo!

# voninha said on Outubro 25, 2006 9:33:

Oi Miguel!!!

Desculpa lá esta mendsagens.

Obrigado por te bateres pelo Referendo ao ABORTO , continua a falar por nós mulheres anónimas que não temos VOZ!!!!!!!!

VN

# AzeitonaAlbina said on Outubro 28, 2006 22:53:

Sem querer ser profeta, e ainda por cima, de desgraças, há, sem dúvida alguma, perfídia que sobeja em todo este comentário, Sr. Miguel Portas.

Inevitavelmente porque começa e acaba, para lá da apologia da demagogia, numa catastrófica falácia, que aliás está implícita na própria pergunta que irá ser referendado:

Confunde opinião pessoal primeiro como algo de estático, depois com legitimidade de se estipular opinião colectiva. Na sua opinião (?), um referendo será vinculativo nem tanto por uma ou outra maioria expressa, mas porque vincula uma determinada opinião irreversível! Exactamente o mesmo argumento que, segundo o Sr., impede a decisão na Assembleia da República? Por favor tente coibir-se de ser paternalista com a inteligência alheia!

Pior mesmo é que nada fica por aqui, na ânsia de protagonismo, o Bloco de Esquerda, que pelos vistos está a um passo de reconhecer que a convocação do primeiro referendo foi um erro crasso, nem sequer pestanejou com o perigosíssimo precedente que este tipo de referendo cria.

Referendar o direito ao aborto, não só implica que mais tarde ou mais cedo se poderá referendar coisas como: eutanásia, casamentos entre homossexuais, direito à adopção dos mesmos (tudo já na mediática agenda do Bloco), como: fumadores e/ou gordos devem ou não ser punidos na forma de impostos e direitos de acessibilidade, se queremos ou não ter direito a voto ou até se queremos continuar a ser independentes ou desejamos ser anexados por uma qualquer monarquia!

E tal não é uma extrapolação para cenários catastrofistas, é, simplesmente, partir do mesmo pressuposto; este referendo permite estabelecer que é legitimo referendar, i.e., alienar ao colectivo, direitos e garantias que, até aqui, pertenciam a cada indivíduo!

Voltando à questão do aborto, e à malfadada pergunta, é evidente que uma outra pergunta, de imediato, surge:

O que é que o facto de eu concordar ou não concordar com o aborto me dá autoridade para fazer alinhar uma outra qualquer perspectiva na minha?

A resposta, pelo menos a minha resposta, é em forma de questão:

Não cabe ao parlamento, órgão, por excelência, representante do povo, garantir que, seja qual for a perspectiva de cada um, essa mesma perspectiva terá legitimidade aos olhos da lei sem qualquer tipo de discriminação?

Já agora, não caberia aos senhores deputados determinar que, seja qual for a matéria a referendo, essa matéria não só que, jamais, envolveria áreas determinantemente do foro do individual como, nunca, de determinação irreversível?

Pois, se calhar, não deixa é muito tempo de antena. Ou como "diria", Orwell, demagogos somos todos, só que há uns que são mais demagogos que outros...

# java said on Outubro 29, 2006 9:54:

Para haver um referendo teriamos que viver em democracia e não numa democracia saloia onde estamos rodeados de ditaduras umas mais bem disfarçadas que outras só os menos atentos é que não as vêm todos estes debates politicos são uma hipocrisia não que todos os politicos o sejam mas porque as tais ditaduras assim o querem acordem e vivam livres só nós o podemos mudar quer em relação ao aborto quer em relação a muitas outras coisas mais que comandam as nossas vidas.

# ildemaro said on Outubro 30, 2006 11:53:

GOSTARIA DE SABER O QUE VAI FAZER O BLOCO DE ESQUERDA SE A RESPOSTA DO REFERENDO FOR NÃO!

IRÁ ACEITAR ? DUVIDO MUITO. VOÇÊS NÃO SÃO GENTE DEMOCRÁTICA. A PROVA DISSO É PROCURAR DAR A VOLTA AO TEXTO PELO PARLAMENTO QUANDO A RESPOSTA DE 98 NÃO FOI DO VOSSO AGRADO. ESTOU A VER A POSSIBILIDADE DE HAVER UM REFERENDO TODOS OS ANOS ATÉ QUE A RESPOSTA SEJA A QUE VOS AGRADE.

# RuiFerreira said on Novembro 11, 2006 10:34:

Caros Amigos

Sou profissional de saúde e concordo completamente com a DESPENALIZAÇÃO do aborto em Portugal, contudo gostaria de deixar a minha opinião referente ao local onde irá ser feito. Em estabelecimento devidamente autorizado, como é referido na pergunta do referendo. Espero eu que não seja nos públicos, onde as cirurgias do foro ginecológico já têm uma longa lista de espera.

Irá o Estado comparticipar ou pagar na totalidade a realização desta técnica? Se não o fizer a hipocrisia irá continuar...com falta de dinheiro, a mulher irá continuar a recorrer ao tal vão de escada, onde o serviço de péssima qualidade é mais barato.

Se o estado comparticipar, teremos um aumento da despesa do sub-sector saúde no oçamento de estado.

Preso por ter cão e preso por não ter...não haverá problema mais importante a ser resolvido do que este?

Será necessário gastar uns milhares valentes de euros para fazer o referendo? A AR não tem competência?...

Para comentar necessita de estar registado