A Europa que não se recomenda
Riga Bom dia, apresento-me, sou a Europa, inteligente, tolerante e convivial. Sou grande, vou da ponta de Sagres ao Báltico. A Riga, e mesmo mais acima. Não sabem onde fica? Riga é a capital da Letónia, um antigo Estado da URSS, onde se fala o Letão, e o Inglês é uma língua quase desconhecida. Sou assim, grande e generosa.
Foi a Riga que dois portugueses, o David, de 28 anos, e o João Miguel, de 27, decidiram ir passar férias na Páscoa. Seguiram os passos do Presidente da República de Portugal, embora as suas motivações fossem mais da ordem da paisagem. Partilhavam, uns e o outro, de uma suspeita que só se revelaria fatal aos primeiros: a de que Riga era mesmo na Europa. Estavam o David e o João Miguel de regresso de um curto salto à Lituânia, terra vizinha, também Europa, já se vê, quando o autocarro onde viajavam foi objecto de uma busca. Os nossos amigos tinham 2 miligramas de haxixe com eles e, pimba, lixaram-se. Detidos, encontram-se agora com residência fixa, aguardando julgamento, não se sabe quando. O que se sabe é que 2 miligramas – que, em Portugal, não merecem sequer um puxão de orelhas – por lá dá pena de prisão. A namorada de um deles está desesperada: «Vejo tudo a desmoronar-se», escreveu aos eurodeputados do seu país. Se este apontamento ajudar a agilizar a diplomacia portuguesa, já me dou por muito feliz.
Sirt Bem mais complicado é o caso de cinco enfermeiras búlgaras, também Europa, que foram, com um médico palestiniano, condenadas à morte por um tribunal do coronel Khadaffi. Acusadas de terem espalhado o HIV/sida na Líbia, foram alvo de um processo mais do que obscuro. As famílias das que esperam o corredor da morte estiveram em Bruxelas. Denunciaram actos de tortura e revelaram um documentário onde o único búlgaro liberto denunciou, à porta da prisão, as condições de detenção e a ‘orwelliana’ conduta das autoridades líbias. Mas, principalmente as famílias, estavam exasperadas pela Europa. Esta considera hoje o coronel uma «força do bem» e cala-se. Assim anda a ‘Europa dos valores’, altiva nos negócios e rasteira nos Direitos Humanos.
Varsóvia Os EUA querem colocar na Polónia 10 interceptores de mísseis e na República Checa uma estação de radar. O objectivo é «reforçar a segurança da Europa», garante Robert Gates, secretário da Defesa da Casa Branca. Por isso, os gémeos fascistas que governam a Polónia querem, pelo menos, mais uma bateria de mísseis Patriot no pacote. A quinta coluna de Washington na Europa é tão ciosa da sua soberania quanto rancorosa na eliminação dos adversários.
A última vítima chama--se Bronislaw Geremek, medievalista reputado e figura proeminente do movimento Solidarnosc que, nos idos de 80, abalou o regime polaco. Geremek foi ministro dos Negócios Estrangeiros nos primeiros anos da transição e actualmente é eurodeputado. A comissão de mandatos do seu país quer retirar-lhe o cargo por se ter recusado a entregar uma declaração onde reconhecia nunca ter colaborado com os serviços secretos do período comunista. Foi o único desobediente, entre 51 eurodeputados polacos, 411 deputados nacionais e 98 senadores. Todos os outros entregaram o papel, cuja veracidade um diligente Instituto da Memória, com mais de um milhão de fichas em arquivo, irá agora verificar. 700 mil polacos estão abrangidos por esta caça às bruxas.
Boa tarde, despeço-me, sou a Europa. Raptada por tempos de intolerância e cinismo, não posso dizer que me recomende.
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