Obras de Arte
Decorre ainda hoje um encontro sobre Esquerda e Cultura, promovido pelo grupo europarlamentar a que pertenço. Eis uma boa oportunidade para desfazer alguns equívocos.
Diz-se que a Esquerda favorece a subsidiodependência e a Direita não. É falso. A Direita acha bem que se apoie a ópera, porque o mercado não recupera o investimento. E que se patrocine La Féria porque «o povo gosta». Elitismo e populismo, portanto.
A minha Esquerda concorda em apoiar a ópera pela razão acima referida, mas já discorda do apoio ao teatro comercial porque, se o é, não há razão para o subsidiar. Quim Barreiros ou os Xutos & Pontapés, para usarmos géneros bem opostos na cultura popular, não pedem subsídios e muito bem.
Sustenta-se, igualmente, que a Direita é pelas infra-estruturas e a Esquerda pela formação de públicos. Eis outra antinomia falaciosa. Com os dinheiros da Europa, Portugal não tem, hoje, carência de equipamentos culturais. Temos, até, cidades sobre-equipadas e com espaços sobredimensionados. O que faltam são meios e recursos para programações continuadas e espaços de preparação e ensaio para propostas que renovem o tecido cultural do país.
Infelizmente, a tentação estatizante (mesmo na versão municipal) e a apetência pelas inaugurações é enorme e transversal à Esquerda e à Direita. Na cultura política e não na cultura tout court, reside o nó górdio. Queremo-la para construir a imagem de um presidente ou para libertar a criatividade na sociedade? Esta, sim, é uma boa clivagem.
Há mais. Qual o lugar da cultura num país em crise? A resposta de PS e PSD é conhecida. ‘Obras de arte’ por ‘obras de arte’, vamos pela engenharia. É por isso natural que José António Pinto Ribeiro acompanhe José Sócrates ao Sabor. Sem ovos para fazer omeletas, anda-se por aí. A cultura é um luxo de quem pode e, de quando em quando, ‘circo’ para quem não. No mais, fazem-se os mínimos, que o ‘défice zero’ assim determina.
Um quilómetro de auto-estrada custa tanto como o conjunto dos apoios concedidos aos projectos pontuais submetidos à Direcção-Geral das Artes em 2007. Com o adiamento de alguns, poucos, quilómetros, resolviam-se problemas de precariedade das novas gerações de técnicos e artistas, promoviam-se redes de espaços com programas comuns e apostava-se a sério na formação de públicos, elevando os patamares de gosto.
Num país que saltou do analfabetismo para o computador e o telemóvel, não é um luxo. Nem sequer se resolvia a crise. Mas sempre se distribuía um pouco