SOL

Obras de Arte

Publicação: 05 Julho 08 09:30

Decorre ainda hoje um encontro sobre Esquerda e Cultura, promovido pelo grupo europarlamentar a que pertenço. Eis uma boa oportunidade para desfazer alguns equívocos.

Diz-se que a Esquerda favorece a subsidiodependência e a Direita não. É falso. A Direita acha bem que se apoie a ópera, porque o mercado não recupera o investimento. E que se patrocine La Féria porque «o povo gosta». Elitismo e populismo, portanto.

A minha Esquerda concorda em apoiar a ópera pela razão acima referida, mas já discorda do apoio ao teatro comercial porque, se o é, não há razão para o subsidiar. Quim Barreiros ou os Xutos & Pontapés, para usarmos géneros bem opostos na cultura popular, não pedem subsídios e muito bem.

Sustenta-se, igualmente, que a Direita é pelas infra-estruturas e a Esquerda pela formação de públicos. Eis outra antinomia falaciosa. Com os dinheiros da Europa, Portugal não tem, hoje, carência de equipamentos culturais. Temos, até, cidades sobre-equipadas e com espaços sobredimensionados. O que faltam são meios e recursos para programações continuadas e espaços de preparação e ensaio para propostas que renovem o tecido cultural do país.

Infelizmente, a tentação estatizante (mesmo na versão municipal) e a apetência pelas inaugurações é enorme e transversal à Esquerda e à Direita. Na cultura política e não na cultura tout court, reside o nó górdio. Queremo-la para construir a imagem de um presidente ou para libertar a criatividade na sociedade? Esta, sim, é uma boa clivagem.

Há mais. Qual o lugar da cultura num país em crise? A resposta de PS e PSD é conhecida. ‘Obras de arte’ por ‘obras de arte’, vamos pela engenharia. É por isso natural que José António Pinto Ribeiro acompanhe José Sócrates ao Sabor. Sem ovos para fazer omeletas, anda-se por aí. A cultura é um luxo de quem pode e, de quando em quando, ‘circo’ para quem não. No mais, fazem-se os mínimos, que o ‘défice zero’ assim determina.

Um quilómetro de auto-estrada custa tanto como o conjunto dos apoios concedidos aos projectos pontuais submetidos à Direcção-Geral das Artes em 2007. Com o adiamento de alguns, poucos, quilómetros, resolviam-se problemas de precariedade das novas gerações de técnicos e artistas, promoviam-se redes de espaços com programas comuns e apostava-se a sério na formação de públicos, elevando os patamares de gosto.

Num país que saltou do analfabetismo para o computador e o telemóvel, não é um luxo. Nem sequer se resolvia a crise. Mas sempre se distribuía um pouco

Comentários

# cbastiao said on Julho 5, 2008 23:47:

Os subsídios afectam a imaginação de quem os recebe.

# depressaebem said on Julho 6, 2008 1:28:

Ó homem, então não é uma grande obra de arte o presidente da TAP, com o ordenado chorudo que é essa arte de bem ganhar.

# surpreso said on Julho 6, 2008 17:47:

A sua esquerda é mais "Rock in Rio".Moderna...

# LDiogo69 said on Julho 6, 2008 23:15:

a arte de bem ganhar também é transversal à esquerda e a direita ou o BE não apareceu para isso???

à mulher de César não lhe basta parecer séria...

# Trauliteiro said on Julho 7, 2008 13:13:

A arte é uma coisa muito súbtil; e à direita e à esquerda nunca faltaram engenho e a cuja dita para enganarem o pagode!...

# Liberdade said on Julho 11, 2008 17:06:

"(...)apostava-se a sério na formação de públicos, elevando os patamares de gosto."

Esta frase constitui um exemplo soberbo de dois pecados capitais associados à "esquerda moderna", libertária mas nada liberal.

Em primeiro lugar, julgam que é com o dinheiro dos contribuintes (que em Portugal é o mesmo que dizer classe média) que se resolvem todos os problemas.

Com efeito, na cabeça dos ilustres pensadores que partilham essa paixão pelo modernismo, para "ajudar" aqueles que não querem trabalhar, os "artistas" a quem ninguém liga e até as gravuras "rupestres", é só pegar no dinheiro de todos nós e ditribuí-lo como quem dá milho aos pombos (que grande ministro foi Carrilho! Foi, sem dúvida, o que arregimentou mais pombos).

Em segundo lugar, e mais lamentável ainda, é a insuportável pretensão de querer "educar" as massas "ignorantes" que só gostam de ver o "Big Brother" e outros programas afins. Eu também abomino tais espectáculos. No entanto, não cabe ao Governo, ou mais genericamente ao Estado, definir o que é bom e o que é mau em termos culturais!

As pessoas são livres de ver e ouvir o que bem entederem e ninguém pode ser censurado por isso.

É surpreendente como há pessoas que não aprendem nada com a história.

Resta-me recomendar a Miguel Portas uma conhecida música dos Pink Floyd...

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