Óbvio
António Mexia, o special one da EDP, recebeu em 2009 rendimentos no valor de 3,1 milhões de euros, 600 mil contos em moeda antiga.
António José Seguro classificou este vencimento de «obsceno» e eu não posso senão estar de acordo com ele. Num país onde o salário mínimo não chega a 500 euros por mês, este vencimento é, não hesito na palavra, «imoral». Convém acrescentar: esta imoralidade é tanto maior quanto António Mexia foi, não há muito, membro de um Governo que classificou o salário mínimo, negociado em sede de concertação, como «excessivo» para as possibilidades de Portugal.
Pela questão moral se começa, mas ela não é tudo.
António Mexia respondeu à crítica como um qualquer ‘humilhado e ofendido’. Disse ele:
1. Que um gestor deve ser recompensado se ultrapassa os objectivos do negócio... que ele próprio fixa;
2. Que está longe de ser o mais bem pago entre os gestores do PSI 20.
Admitamos que o segundo argumento é verdadeiro (ele sabe seguramente mais do assunto do que qualquer um de nós...). Sobra o primeiro: qual a dificuldade de fixar objectivos ‘ambiciosos’ num contexto de monopólio? E qual a dificuldade em ultrapassá-los?
Admitamos que António Mexia é um Cristiano Ronaldo dos negócios, alguém que só está em Portugal porque a finança mundial ainda não o descobriu. Admitamos que ele é único e que a situação de monopólio de que desfruta a EDP em Portugal nada tem que ver com os resultados da empresa. Admitamos até que esta multinacional onde Estado e CGD detêm 25% não rouba ideias à concorrência potencial, por via da informação privilegiada a que o Governo tem acesso, como insinuou esta semana Mira Amaral. Mas se assim é, porque é que os outros administradores da casa também receberam iguarias sem par? Não foi Miguel Pais do Amaral que esta semana, respondendo a João Semedo na Comissão de Ética, reconheceu que vários dos seus ex-administradores na Media Capital só aí chegaram «por favor», porque eram «protegidos» e que tal estatuto está longe de ser uma excepção no mundo português dos negócios?
Prossigamos: os 3,1 milhões decompõem-se em 700 mil euros de salário, 600 mil de prémio anual e 1,8 milhões de prémio plurianual, fora despesas de representação, que o homemtem de se alimentar e transportar. Isto significa que a componente fixa não ultrapassa, de facto, um terço do rendimento total, despesas incluídas. Este é um dos assuntos que ando a discutir na União Europeia. Como sou um tipo conservador, propus que a componente variável fosse limitada a 25% do rendimento total; e que 50% da parte variável fosse paga em títulos da própria empresa, com retenção por três anos, condicionada aos resultados no período. Feitas as contas, ainda se saem muito bem...