O Tributo
Pedro Passos Coelho está com aqueles 100 dias de bonomia a que os portugueses votam os politicos emergentes quando estão fartos dos mais antigos.
Na verdade, que trouxe de novo o ‘jovem’ laranja? Dizem os media que três coisas:
1. Que o país precisa de uma revisão constitucional. Ouve-se e não se acredita. Onde a novidade, se o PSD propõe uma sempre que muda de líder?;
2. Que é preciso «retirar o Estado dos negócios». Mas… não é esta outra promessa da Lapa que costuma resistir, vigorosa e viçosa, até ao dia em que chega ao Governo e começa a distribuir lugares pela rapaziada?; e,
3. Que quem recebe subsídio deve «retribuir com trabalho para a comunidade». No PSD, esta é, de facto, nova, apesar de recuperada ao discurso habitual do CDS/PP.
Por outras palavras, em Passos Coelho só é novo o que é velho e roubado, e é velho o que se apresenta como novo. Dir-se-ia que o novo líder faz o que pode e a mais não é obrigado. Por enquanto.
De todas estas peregrinas ideias, a mais tenebrosa é a do ‘tributo’ à comunidade. Explicando pelo sistema dos pauzinhos: quem recebe subsídio de desemprego é porque trabalhou antes. E se o fez, descontou. O subsídio de desemprego não é um favor. Também não é caridade, embora por vezes pareça. É um direito que foi pago pelo desempregado e pela desempregada.
Odinheiro do subsídio de desemprego foi descontado por quem trabalha e não pertence a governos, a ONG, a juntas de freguesia ou associações de caridade. É fruto do suor do trabalho, entrou no saco da solidariedade e é distribuído por quem, tendo descontado, agora precisa desse apoio. Um criminoso não pode ser obrigado a «trabalhar para a comunidade». Porque o haveria de ser um desempregado? Porque desempregado rima com calaceiro?
A ideia, além de peregrina, só pode aumentar o próprio desemprego. Muitas das ocupações que a direita gosta de definir como ‘comunitárias’ respondem a necessidades permanentes das próprias instituições. Por outras palavras, são trabalhos, empregos, se preferirem. Tratar de crianças e de jardins, limpar ruas ou matas, ser paquete ou condutor, pode ser mais ou menos interessante, mas conresponde a empregos. Não são ocupações como as que um avô ou uma avó pode ter no âmbito de um programa de animação com netos, onde se contam histórias ou se ensinam actividades manuais antigas, por exemplo. Se o que hoje é trabalho passa a ser ‘tributo’, então o desemprego só pode crescer ainda mais.
Um ‘político cábula’ é mil vezes mais perigoso e irresponsável do que um ‘desempregado calaceiro’. Porque esse politico não estuda e muito menos pensa no que diz. A versão laranja do ‘roto contra o nu’ – agora os desgraçados são os desempregados – é simplesmente rasca.