A pedofilia e os silêncios
1.Nem sempre um problema assumido é um problema solucionado. Mas um problema abafado será, alguma vez, um problema resolvido?
É certo que este não é um exclusivo da Igreja Católica. Esta até será a instituição que mais está a fazer no sentido de não branquear os actos e de assumir as suas responsabilidades.
Só que as responsabilidades da Igreja são maiores. As pessoas tendem (tendiam?) a confiar muito mais num padre do que noutra pessoa ou instituição.
Como reagir à quebra da confiança, o vínculo mais nobre que perfuma a convivência humana?
A Igreja tem feito uma revisão muito séria de factos do passado. Tem pedido perdão por aquilo que, ao longo dos tempos, não correu bem.
Mas é bom que a autocrítica não se circunscreva ao passado. O encontro com a Verdade (sobretudo com a verdade que dói e incomoda) não pode demorar tanto tempo.
Há quem viva (e morra) sem uma palavra de conforto, sem um gesto de alento, sem um vislumbre de esperança.
2. É, pois, com o coração despedaçado que, como toda a gente, olho para a tragédia da pedofilia na Igreja.
Enquanto padre, tenho de perceber que o compromisso com a Verdade há-de estar antes de mais e acima de tudo.
Não foi Jesus que se apresentou como sendo a Verdade (cf. Jo 14, 6)? Não foi pela Verdade que ele foi condenado? Não foi pela Verdade que ele derramou o sangue e deu a vida? Será, então, lícito esconder a Verdade?
Será que já demos conta de que esconder não ajuda a regenerar o agressor e, pior, contribui para prolongar o sofrimento da vítima?
As palavras não resolverão tudo, mas o silêncio curará alguma coisa?
3. É preciso dizer que a Igreja sempre lamentou estas tragédias. Mas a tendência era para encobrir. Fazia-o certamente com o melhor propósito, mas o tempo provou que os resultados não foram satisfatórios.
Os autores das agressões mudavam de local. Só que a transferência das pessoas acarretava a transferência do problema que transportavam.
Hoje, temos presente que a tragédia não se resume aos actos. Ela envolve também o encobrimento dos mesmos.
4. É claro que todos temos soluções depois de os problemas acontecerem. Nem sempre na madrugada se sabe o que vai ocorrer pela tarde.
É impossível detectar a personalidade de uma pessoa, em toda a sua extensão, no seu período de formação.
Mas há valores que despontam cedo e debilidades que emergem depressa. Penso, particularmente, no carácter ou na falta dele, na autenticidade ou na duplicidade.
Toda a construção depende, em muito, dos seus alicerces. Sem uma forte espiritualidade é muito difícil resistir, é muito fácil claudicar.
Todos temos, por isso, muito a aprender em matéria de verdade e de justiça. É fundamental não chegar tarde aos acontecimentos.
A gravidade de um acto não está em que ele seja conhecido. Está em que ele seja cometido.
É imperioso escutar quem nos adverte na altura própria. Mesmo que se torne (insuportavelmente) incómodo.
Mas não é esse o destino dos profetas?