SOL

O empata

Publicação: 18 Junho 10 10:00

A pior ‘raça’ de portugueses é a dos empatas.

Pode dizer-se que o seu número varia em função das épocas. As temporadas de crise favorecem o género porque o empata se alimenta do medo e as crises metem medo. Nestas alturas, reproduzem-se como coelhos. Umas vezes metem dó. São tristes e coitados concentrados nas respectivas vidinhas e que há muito desistiram de viver. Noutros casos, os que nos interessam, irritam. É o que sucede quando ocupam postos de responsabilidade e ganham como se fossem competentes e mesmo bem para lá disso.

Fixemo-nos no medo. Não é estúpido ter-se medo, bem pelo contrário.

 

As criaturas inteligentes, como os empatas, conhecem o medo. Mas, diferentemente destes, não se deixam dominar por ele. Por exemplo, nunca apreciei a arrogância de Mourinho. Como o meu filho mais velho o adorava, a ponto de mudar de clube em função das equipas que treinava, quase atingi um principio de irracionalidade sobre o dito cujo. ‘Quase’, porque, contra mim próprio, lhe reconheço os talentos. Mourinho conhece o medo. Treinou muitas equipas que, em circunstâncias de ‘jogo aberto’, poderiam mais facilmente perder do que ganhar contra este ou aquele adversário. Nunca hesitou, por isso, em ferir a beleza do espectáculo. Mas reconheça-se que esta ‘traição’ do special one se deve ao facto de querer ganhar, independentemente dos limites das suas equipas. Numa ou noutra ocasião, esse objectivo tê-lo-á levado a preparar tácticas de jogo com o objectivo de ‘não perder’. Mas o que seguramente nunca fez foi o que Carlos Queiroz tentou, com assinalável êxito, no primeiro jogo de Portugal neste Mundial: preparar uma equipa para não perder quando tinha pernas e cabeça para ganhar.

 

O empata é, ainda, um optimista que gosta de trocar os pés pelas mãos. Queiroz acha que «Portugal foi a única equipa que quis vencer» e que tentou «assumir o jogo desde o início, contra uma Costa do Marfim que defendeu e contra-_-atacou». Isto era uma ideia. Deveras míope em face do jogo jogado, mas uma ideia. O treinador, contudo, desenvolveu-a: «Portugal jogou de forma inteligente», garante, com o cuidado de «não envolver muitos jogadores em termos de risco de ataque, para ter o contra-ataque controlado». Admito que esta tenha sido a variante do raciocínio oferecida nos balneários aos próprios jogadores e que eles, naturalmente, interpretaram de forma competente. Mas, para o grande público, o treinador traduziu a coisa de outro modo: «Foi o primeiro jogo, frente a um candidato à qualificação (...) o nosso balanço ofensivo seria completamente diferente se tivesse sido no segundo ou no terceiro jogo». Um empate de avanço, portanto. Porque, como comentou uma jornalista desportiva, «os trabalhadores mandriaram por ordem do patrão». Tem toda a razão. O patrão é um empata.

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