SOL

Tiro no pé

Publicação: 23 Julho 10 10:00

Sempre que o PSD muda de gerência, a primeira tentação do chefe é ‘rever a Constituição’. Passos Coelho não foi o primeiro nem será o último. Deixemos, portanto, de lado os elogios laudatórios de quem vê nesta trivial operação laranja sinais de rasgo e arrojo.

Antes pelo contrário.

Fazer da Constituição o centro da táctica num contexto de crise não lembra ao diabo. Não é por acaso que o CDS, um partido de estrutura ideológica bem mais vincada do que a do PSD, não se meteu por aí. Eles sabem o que é óbvio: nem povo, nem capitalistas, nem nano, micro ou pequenos e médios empresários vêm na Constituição a causa ou a salvação para os seus problemas domésticos. Nem o tema é popular, nem ele tem relevância prioritária para os agentes económicos.

O mistério adensa-se mais quando se olha para o calendário.

Por um lado, temos um governo condenado pela opinião pública que apenas sobrevive porque não se podem realizar eleições legislativas nas proximidades de uma disputa presidencial. Neste contexto, por que ‘atira ao lado’, ou ‘tão lá para a frente’, o PSD?

 

Por outro lado, temos um PR que quer a reeleição como ‘Presidente de todos os portugueses’ e não em ruptura com pelo menos metade do país. Por que abre Passos Coelho os derradeiros ajustes de contas com a revolução de Abril? Que ganha Cavaco Silva com isso, senão uma enxaqueca de longa duração?

 

Se a agenda é duvidosa e o calendário um desastre, que dizer de uma proposta que fará regressar o PSD à luta de facções? Claro que a contestação não toca nas matérias económicas e sociais. Ninguém no actual PSD verte uma lágrima pelo fim da ‘justa causa’ no despedimento, pela eliminação da obrigação do Estado de manter um ‘sistema público de ensino’ ou porque a saúde deixa de ser ‘tendencialmente gratuita’. A discórdia concentra-se, outrossim, na vertente institucional. A história do PSD escreveu-se contra a possibilidade de o PR demitir governos por vontade e fazer governos por medida. Tocar em Sá Carneiro só pode dar mau resultado, em particular quando a parte derrotada do PSD prefere mesmo um regime ‘quase presidencial’ – o que mais se assemelha a uma ‘solução providencial’ para tempos de crise.

 

Os equilíbrios e desequilíbrios de regime dariam um debate muito interessante no Grémio Literário, não se desse o facto de o líder fáctico da direita, Cavaco Silva, passar bem sem ele. Manuel Alegre já o desafiou a pronunciar-se, e dificilmente o silêncio deixará de ter o seu preço.

A escolha do PSD tem, assim, uma única coerência – dar a José Sócrates o sopro de vida de que carece à frente de um Governo moribundo. De PEC em PEC e SCUT em SCUT, a colaboração ao centro exige, paradoxalmente, uma guerra de alecrim e manjerona. Ela aí está e o PSD nem sabe no que se meteu.

Comentários

# Zeus said on Julho 28, 2010 3:36:

O PSD está à beira de recuperar o poder em Portugal, para mal dos Portugueses. Nem mesmo após a maior crise dos últimos 100 anos inteiramente devida a políticas neoliberais selvagens os Portugueses parecem importar-se em meter no poder um neoliberal do pior que existe na Europa e no Mundo. Este PSD de Passos Coelho mete dó. Não têm uma única ideia para o país digna desse nome. As únicas ideias que o Passos Coelho (ou deveria dizer Passos Fedelho?) tem é privatizar a CGD e todas as restantes empresas do Estado e de preferência vendendo-as a Castela por pataco-e-meio. Foi vergonhoso ver Passos Coelho e Miguel Relvas a trair Portugal em Castela, defendendo a venda da VIVO a Castela por pata-e-meio enquanto o Governo Português corajosamente defendia a PT, vetando a venda da VIVO.E não me venham com tretas de ilegalidades de Golden Shares. Todos os maiores países da UE as têm e usaram-nas recentemente para vetar OPAs hostis a empresas estratégicas. Entre esses países constam: a Alemanha, a França a Itália e a Espanha. O uso da Golden Share para defender o interesse nacional de Portugal justifica-se plenamente. O Tribunal Europeu que se quilhe. Quando os países acima referidos usaram as suas Golden Share, nem o Tribunal Europeu, nem a Comissão europeia fizeram nada. Tudo que o Estado Português tem a fazer em relação à UE é valente manguito. De resto a presença Portuguesa na UE tem que ser repensada. Nos moldes em que a UE está a ser criada é negócio verdadeiramente ruinoso para Portugal, pondo mesmo em risco a existência de Portugal. Se as coisas continuarem como estão (e tudo leva a crer que continuarão) o melhor que Portugal tem a fazer é sair da UE antes que seja tarde demais. A UE só vai declinar daqui para a frente. É demasiado insignificante para ter uma palavra a dizer nos destinos do Mundo.

Mas o pior disto tudo é que a culpa da situação em que estamos com um PSD neoliberal à beira do poder é em muito, também do Bloco de Esquerda. Desde o apoio que deu às Comissões de Inquérito cujo único objectivo foi desgastar a imagem de José Sócrates e do governo, o Bloco de Esquerda contribuiu decisivamente para a subida do PSD e da direita nas sondagens. E tudo a troco de quê? De nada! Ficará o país melhor com um governo neoliberal do PSD do que com um governo do PS? Certamente que não! Terá o Bloco de Esquerda alguma hipótese de chegar ao poder em Portugal? Certamente que não nas próximas décadas. A menos que façam um Golpe de Estado. Então o que é que o Bloco de Esquerda ganhou com a sua atitude irresponsável de ataque cerrado ao Governo em vez de atacar a direita? Certamente que nada!

Realmente José Sócrates tem razões para estar satisfeito. Provou-se no local próprio e por quem de direito que não teve nada a ver com quaisquer actividades ilícitas no caso Freeport.

O PSD, o CDS e restante oposição que criaram uma Comissão de Inquérito ao caso Freeport com o único fim de desgastar a imagem de José Sócrates devem um pedido de desculpas e uma explicação ao País. É muito à custa do desgaste político provocado por esta Comissão de Inquérito que o PSD está onde está nas sondagens. E não se limitaram a esta Comissão de Inquérito com fins puramente eleitoralistas, arranjaram ainda outra Comissão de Inquérito, a do caso PT/TVI que não só não conduziu a nada de benéfico para Portugal, como levou os Espanhóis da Telefónica a atacar a PT com o caso VIVO por achar que tinha hipóteses de comprar a VIVO por pataco e meio devido À fragilidade da Administração da PT por estar envolvida numa Comissão de Inquérito.

O PSD e os restantes partidos da oposição prestaram um péssimo serviço ao país por terem criado duas Comissões de Inquérito cujo único objectivo foi desgastar a imagem do primeiro ministro José Sócrates. E até certo ponto conseguiram isso. Mas prejudicaram o País. Como não conseguiam derrotar o primeiro ministro com um combate político sério baseado na apresentação de ideias alternativas, optaram pela via suja do bota-abaixo. O país ficou a perder. E o mais preocupante é que nenhum partido da oposição representa uma alternativa séria ao actual governo.  

# cristinamrp said on Julho 30, 2010 0:50:

Completamente de acordo com o seu comentário Zeus

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