É do calor
Em portugal, a área ardida na segunda quinzena de Julho supera largamente as dos últimos anos; em Kut, no Sul do Iraque, explosões provocaram 33 mortos e 85 feridos – em ambos os casos encontramo-nos ante factos indiscutíveis. O jornalismo, ao contrário do que se pensa, não trata apenas de factos, ensina também a lê-los, ou seja, a distinguir entre realidade e ficção. Isso nem sempre é fácil. Particularmente em época balnear...
Por exemplo, há notícias que, sendo-o, constituem também uma proposta de leitura: ‘A produção industrial desceu nos EUA e na China. Nesta, a descida reflecte as medidas do Governo para arrefecer o crescimento, devido ao risco de uma bolha no imobiliário. Nos EUA receia-se que o desemprego e o consumo privado ditem um abrandamento da economia’. Os dois factos são, em si mesmos, preocupantes. A opinião pública sabe que a primeira fase da crise, que decorreu entre Setembro de 2008 e durante o ano de 2009, só não foi pior porque os países emergentes continuaram a apresentar taxas de crescimento muito apreciáveis. Se as fábricas do mundo ‘arrefecem’, isso é tão mau quanto o corte obstinado no poder de compra dos salários nos grandes centros mundiais do consumo privado. Se os dois factores se alimentarem um ao outro, a promessa de uma nova recessão estará inscrita nos astros. Eis porque a leitura sugerida é razoável. Na verdade, ela só está errada para um abnegado militante do PCP – a China não pode ter, por definição, ‘bolhas imobiliárias’ –, para um acólito da senhora Merkel – a redução da massa salarial é essencial ao magno objectivo de equilibrar as contas públicas – ou para Medina Carreira – porque só ele sabe de tudo e ponto final. Mas fora destas excepções, que relevam, todas, da fé, a interpretação sugerida é racional.
Já num outro tipo de notícias se disputa a verdade. Facto: terça-feira, o exército israelita procurou arrancar uma árvore que se encontrava do lado libanês da fronteira entre os dois países. Para o garantir foram deslocados carros de combate para a zona. O objectivo da operação era a instalação de vídeo câmaras de vigilância. O lado libanês disparou tiros de aviso e, em seguida, a sério. Israel ripostou com tiros de artilharia. Dois soldados, um jornalista libanês e um coronel israelita morreram. 15 pessoas foram feridas. Estes os factos de uma notícia que, às primeiras horas, garantia que os disparos tinham partido do Hezbollah. Quem tem razão para acusar a outra parte quanto ao rompimento da trégua? Para quem esteja de fora, não é difícil. Mas para quem esteja por dentro, difícil será fugir à versão oficial proclamada pelo seu próprio lado.
Finalmente, temos ainda as notícias que não são notícia, mas efeito do calor. Dessas há muitas. Na exacta proporção da escassez de todas as outras...