Rapsódia
Há um site na internet – o newsmap.jp – que se deve consultar, no mínimo por curiosidade. Num rectângulo à dimensão do ecrã de computador aí se arrumam títulos de notícias em função da sua presumida importância – é o corpo da letra que as distingue – e por grupos de assuntos – são as cores que nos dizem, ainda antes das letras, se o acontecimento é económico, desportivo, politico ou cultural, por exemplo. O efeito global é o de um tapete policromático com símbolos hierarquizados de Norte para Sul e de Oeste para Este, numa diagonal imaginária. Se agora lhe disser que este painel se pode escolher por tema e ainda por país – há 15 disponíveis – fácil é descortinar uma das suas principais vantagens: ele permite comparar as prioridades informativas de cada nação ou espaço cultural.
Por exemplo, durante os últimos dias, o espaço mediático anglo-saxónico continuou a ser dominado pela British Petroleum, uma saga que em Portugal pouco mais tem merecido do que notas de rodapé. Já a França se tem dedicado ao folhetim da família Bettencourt, onde se misturam a novela cor-de-rosa, o picante de uma herança avaliada em 15 mil milhões de euros, a história fatal do envolvimento com o nazismo e, mais recentemente, complexos jogos de palácio que cobriram sofisticados mecanismos de evasão fiscal compensados com financiamentos ao partido no poder. Talvez porque esta história esteja a salpicar Sarkhozy, o Eliseu decidiu entretanto abrir fogo à peça sobre as comunidades imigrantes, a ver se o povo se interessa por outros assuntos, que não os da vida dos muito ricos. Como se sabe, não é fácil desviar as atenções. A vida dos famosos há muito ocupa os sonhos acordados dos anónimos. Deve ser por isso que a mais destacada notícia de quarta-feira no botão francês fosse um comunicado de imprensa de Naomi Campbell a tentar explicar por que não se lembra de como lhe foram parar às mãos umas quantas ‘pedras sujas’... foi tudo há 13 anos, o que em matéria de memória é como se fossem séculos.
Infelizmente, o painel não inclui Portugal. É por isso que o leitor brasileiro sabe dos incêndios na Rússia, mas não que o Gerês esteja a arder e muito menos por que foi impossível a este parque fazer o devido trabalho de fiscalização... (falta de verbas correntes).
A desigualdade na informação nem sempre é penosa. Por exemplo, a julgar pelo newsmap, o leitor britânico tem sido poupado às sequelas de uma investigação indecente, a do Freeport, onde ninguém sai bem na fotografia – dos vários investigadores às respectivas tutelas. Mesmo o actual primeiro-ministro continua suspeito na cabeça da generalidade das pessoas quando teria todo o interesse em ter-se visto livre desta suspeição sem qualquer margem de dúvida – ou seja, tendo sido ouvido. E assim vamos de trapalhadas, a mais inimitável especialidade da Justiça nacional.