Não lhe agradava nada o barulho do aspirador, da máquina de lavar roupa e da máquina de lavar loiça, tudo em orquestração de Juízo Final a sobrepor-se à sua telenovela preferida da TVI. Mas desde que as coisas mudaram – era assim que lhe chamavam - tinha de ser assim e não havia volta a dar-lhe.

Um dia, no meio de uma conversa e um café no tasco do Sô Jaquim, decidira-se. Daquelas decisões de É isso mesmo! acompanhadas por um Pernas para que te quero! físico, e em dez minutos apenas já estava ao balcão à conversa com a dona Quitas, para mudar o contrato da electricidade para o horário económico nocturno. Se esperasse pelo Alberto havia de estar bem tramada, havia. Ainda lhe dizia que o melhor era lavar a roupa à mão e dar mais uso à vassoura. Se eu fosse outra eu dava-lhe o uso da vassoura, dava -, pensava.

Assim sendo, só lhe restavam aquelas horinhas para fazer tudo e mais alguma coisa ao mesmo tempo.

- Ó Miguel!!! Ajuda a mãe a tirar a roupa da máquina, que ainda tenho de lavar mais roupa e passá-la para o teu irmão levar para a Universidade.

- Ó mãe, agora não!

- Ó Pedro, filho! Ajudas-me?

- Não pode ser depois? Isto é mesmo urgente, não posso sair do computador agora! Só mais cinco minutos!

- Raça do aspirador, também não aspira nada -, queixava-se Micas, empurrando o sofá da sala com as forças que lhe iam faltando para aspirar as migalhas, que eram sempre de batata frita ou amendoim.

Nisto entra o Alberto. Não vinha com boa cara.

(cont.) 

© M&M's productions