SOL

Discurso no Parlamento

Publicação: 20 Junho 09 12:06

Um dia, encho-me de coragem

E vou mesmo discursar no parlamento

Confesso que fiz juramento

De ir a pé até lá

De entrar naquela sala,

Para discursar a minha mensagem

Um dia, apareço nas câmaras da televisão

Verdade mesmo, não é ilusão

Apareço com o meu rosto maltratado

Com o meu rosto de drogado

Para pedir um ponto de ordem

Aos senhores deputados,

Eu mesmo que vivo do outro lado da margem

Já sei que vão olhar com indignação

Para os meus pés descalços

Para os meus calções rotos

E para os meus magritos braços

Já consigo imaginar os vosso rostos

De indignação e estupefacção

Mas mesmo assim eu vou mesmo discursar

Em plena assembleia nacional

Assim mesmo, com este meu visual

De menino de rua votado ao abandono

De menino de rua cão sem dono

Eu vou à assembleia nacional falar

Assim mesmo, sem convite

E sem ser chamado

Eu, que não sei falar português de escola

Vou entrar naquela sala

Para falar com os senhores deputados

Eu vou lá sem convite, acredite!

E antes de me porem andar à paulada

Antes de me mandarem calar à porrada

Vou rasgar o meu peito

Para vocês escutarem o grito

De tanto sofrimento vivido

De tanto sofrimento bebido

E enquanto estiver a ser arrastado

Para fora da assembleia nacional

Eu, menino de rua cão sem dono e drogado

Eu, menino de rua marginal

Ainda terei coragem

Ainda serei capaz

De trovejar a minha mensagem:

POR FAVOR, PÃO, TECTO E PAZ!

Não levem a mal

Mas eu vou mesmo discursar em plena assembleia nacional!

Décio Bettencourt Mateus

in "A Fúria do Mar"

 

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