SOL

Uma chama não se prende.

Publicação: 25 Agosto 10 11:34

 

 

Rodeado de paredes

rodeadas de muros altos

que foram depois muralhas

um preso encarcerado

ao longo da terrível década de 50

inteira

Não cedeu.

Levado a tribunal

em 3 e 10 de Maio de 1950

só então fica a saber que Militão e Sofia

presos com ele torturados não «falaram»

não cederam E que esse grande patriota Militão

Ribeiro fazendo greve da fome foi morto

Perante o tribunal acusa os seus acusadores

Defende o seu Partido a sua acção

e a sua orientação política

Ponto a ponto responde às calúnias

que são os porcos argumentos do ódio

e do terror de estado Ponto a ponto

responde com o orgulho do homem livre

e o vigor da inteligência Responde por si

e pelos seus como quem acusa

e ameaça Ameaça o inimigo que o tem preso

Dos 11 anos seguidos, preso,

14 meses incomunicável,

8 anos em isolamento

E não cedeu Nunca cedeu

Agora na humidade salina da cela

contra o eco do estrondo do mar

que não esquece/e grita/contra a fortaleza

contra a corrente contínua dos dias e das noites

este homem livre é uma chama

uma lâmpara marina

Não cede lê e desenha lê

e estuda e escreve este homem livre

que está preso e é uma chama

açoitada pelo vento e pelo silêncio

numa cela

Não cede e escreve

A Questão Agrária

As lutas de classes em Portugal nos fins da Idade Média

e escreve uma tradução do Rei Lear

e escreve

Até Amanhã, camaradas

o homem livre encarcerado

fugiu enfim

colectivamente

a 3 de Janeiro de 1960

e nunca mais foi apanhado

Manuel Gusmão

(de «Três Curtos Discursos em Homenagem Póstuma a Álvaro Cunhal»)

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