SOL
Uma chama não se prende.
25 Agosto 10 11:34

 

 

Rodeado de paredes

rodeadas de muros altos

que foram depois muralhas

um preso encarcerado

ao longo da terrível década de 50

inteira

Não cedeu.

Levado a tribunal

em 3 e 10 de Maio de 1950

só então fica a saber que Militão e Sofia

presos com ele torturados não «falaram»

não cederam E que esse grande patriota Militão

Ribeiro fazendo greve da fome foi morto

Perante o tribunal acusa os seus acusadores

Defende o seu Partido a sua acção

e a sua orientação política

Ponto a ponto responde às calúnias

que são os porcos argumentos do ódio

e do terror de estado Ponto a ponto

responde com o orgulho do homem livre

e o vigor da inteligência Responde por si

e pelos seus como quem acusa

e ameaça Ameaça o inimigo que o tem preso

Dos 11 anos seguidos, preso,

14 meses incomunicável,

8 anos em isolamento

E não cedeu Nunca cedeu

Agora na humidade salina da cela

contra o eco do estrondo do mar

que não esquece/e grita/contra a fortaleza

contra a corrente contínua dos dias e das noites

este homem livre é uma chama

uma lâmpara marina

Não cede lê e desenha lê

e estuda e escreve este homem livre

que está preso e é uma chama

açoitada pelo vento e pelo silêncio

numa cela

Não cede e escreve

A Questão Agrária

As lutas de classes em Portugal nos fins da Idade Média

e escreve uma tradução do Rei Lear

e escreve

Até Amanhã, camaradas

o homem livre encarcerado

fugiu enfim

colectivamente

a 3 de Janeiro de 1960

e nunca mais foi apanhado

Manuel Gusmão

(de «Três Curtos Discursos em Homenagem Póstuma a Álvaro Cunhal»)

Publicadopor Navegante55 | 0 Comentário(s)    
Arquivado em:
La Lámpara Marina.
15 Novembro 09 10:20

Portugal,
vuelve al mar, a tus navíos,
Portugal, vuelve al hombre, al marinero,
vuelve a la tierra tuya, a tu fragancia,
a tu razón libre en el viento,
de nuevo
a la luz matutina
del clavel y la espuma.

Muéstranos tu tesoro,
tus hombres, tus mujeres.
No escondas más tu rostro
de embarcación valiente
puesta en las avanzadas de Océano.

Portugal, navegante,
descubridor de islas,
inventor de pimientas,
descubre el nuevo hombre,
las islas asombradas,
descubre el archipélago en el tiempo.

La súbita
aparición
del pan
sobre la mesa,
la aurora,
tú, descúbrela,
descubridor de auroras.

Cómo es esto?

Cómo puedes negarte
al ciclo de la luz tú que mostraste
caminos a los ciegos?

Tú, dulce y férreo y viejo,
angosto y ancho padre
del horizonte, cómo
puedes cerrar la puerta
a los nuevos racimos
y al viento con estrellas del Oriente?


Proa de Europa, busca
en la corriente
las olas ancestrales,
la marítima barba
de Camoens.

Rompe
las telaranãs
que cubren tu fragrante arboladura,
y entonces
a nosotros los hijos de tus hijos,

aquellos para quienes
descubriste la arena
hasta entonces oscura
de la geografía deslumbrante,
muéstranos que tú puedes
atravesar de nuevo
el nuevo mar oscuro
y descubrir al hombre que ha nacido
en las islas más grandes de la tierra.

Navega, Portugal, la hora
llégó, levanta
tu estatura de proa
y entre las islas y los hombres vuelve
a ser camino.

En esta edad agrega
tu luz, vuelve a ser lámpara:
aprenderás de nuevo a ser estrella.

(parte V de um poema de Pablo Neruda

 

Publicadopor Navegante55 | 0 Comentário(s)    
Arquivado em:
PORTUGAL: 10 milhões de analfabetos menos um:Vasco Pulido Valente
25 Outubro 09 11:37

 

 

 Uma farsa.

“O problema com o furor que provocaram os comentários de Saramago sobre a Bíblia (mais precisamente sobre o Antigo Testamento) é que não devia ter existido furor algum. Saramago não disse mais do que se dizia nas folhas anticlericais do século XIX ou nas tabernas republicanas no tempo de Afonso Costa. São ideias de trolha ou de tipógrafo semianalfabeto, zangado com os padres por razões de política e de inveja. Já não vêm a propósito. Claro que Saramago tem 80 e tal anos, coisa que não costuma acompanhar uma cabeça clara, e que, ainda por cima, não estudou o que devia estudar, muito provavelmente contra a vontade dele. Mas, se há desculpa para Saramago, não há desculpa para o país, que se resolveu escandalizar inutilmente com meia dúzia de patetices.

 

Claro que Saramago ganhou o Prémio Nobel, como vários "camaradas" que não valiam nada, e vendeu milhões de livros, como muita gente acéfala e feliz que não sabia, ou sabe, distinguir a mão esquerda da mão direita. E claro que o saloiice portuguesa delirou com a façanha. Só que daí não se segue que seja obrigatório levar a criatura a sério. Não assiste a Saramago a mais remota autoridade para dar a sua opinião sobre a Bíblia ou sobre qualquer outro assunto, excepto sobre os produtos que ele fabrica, à maneira latino-americana, de acordo com a tradição epigonal indígena. Depois do que fez no PREC, Saramago está mesmo entre as pessoas que nenhum indivíduo inteligente em princípio ouve.

 

O regime de liberdade, aliás relativa, em que vivemos permite ao primeiro transeunte evacuar o espírito de toda a espécie de tralha. É um privilégio que devemos intransigentemente defender. O Estado autoriza Saramago a contribuir para o dislate nacional, mas não encomendou a ninguém? principalmente a dignatários da Igreja como o bispo do Porto - a tarefa de honrar o dislate com a sua preocupação e a sua crítica. Nem por caridade cristã. D. Manuel Clemente conhece com certeza a dificuldade de explicar a mediocridade a um medíocre e a impossibilidade prática de suprir, sobre o tarde, certos dotes de nascença e de educação. O que, finalmente, espanta neste ridículo episódio não é Saramago, de quem - suponho - não se esperava melhor. É a extraordinária importância que lhe deram criaturas com bom senso e a escolaridade obrigatória.”

Vasco Pulido Valente

Resposta:

“A marca de água de uma certa aristocracia falida é o ódio cego que têm aos não aristocratas que “ousam” viver bem, ódio potenciado por uma inveja doentia pelo dinheiro destes, inveja que visivelmente os mortifica. Então quando o aristocrata falido alimentou esperanças de fama intelectual, quiçá literária e se confronta com um “filho e neto de camponeses sem terra” que chega ao cume da fama enquanto escritor e vive mais do que desafogadamente dessa escrita, isso é um verdadeiro purgatório.

 

É assim a relação de Vasco Pulido Valente com José Saramago.

 

 O infeliz Pulido Valente não é a única vítima. Por qualquer razão, Saramago traz ao cimo, nalgumas pessoas, exactamente o pior que têm para mostrar.

 

 Não estou de acordo com muito do que recentemente tem sido dito por Saramago, aliás, pelos visto, ele também não... mas quando se vê alguém com a cultura, os cursos e a prosápia de um Vasco Pulido Valente, atacar o escritor de “Levantados do chão”, “Memorial do convento”... e “Caim”, como se pode ler neste texto asqueroso, com “argumentos” mais ou menos miseráveis, mas principalmente, por falta de adequados “dotes de nascença e de educação”, temos um vislumbre da miséria intelectual em que pode cair um pobre, reaccionário e taralhouco aristocrata, cuja última bóia de salvação, à qual tenta agarrar-se patética e desesperadamente... é o “berço” e uma remota formação académica.

 

 Vocês imaginam a quantidade de seres humanos rigorosamente analfabetos com que me cruzei ao longo da vida, todos pessoas infinitamente mais interessantes, profundas e verdadeiramente úteis para a Humanidade, do que este pobre Vasco Pulido Valente?”

Samuel in "O Cantigueiro"

- Parabéns ao Samuel por este excelente comentário ao artigo publicado no Publico por este senhor que é verdadeiramente uma nulidade.

Chamar analfabetos aos portugueses, mostrar o seu ódio às classes trabalhadoras deste País é uma atitude neste caso bem demonstrativa da personalidade deste tipo de pessoas. Reaccionário e obviamente retrógrado.

Um conselho a este senhor. Enfie as pantufas refugie-se na sua ignorância e faça um favor aos Portugueses não diga mais disparates. Nós, as criaturas, os trolhas, os semi-analfabetos, os saloios e aqueles que temos só a escolariedade obrigatória, agradecemos.

A inveja por vezes leva-nos a cegueira. Sabia? Em conclusão digo: O Senhor é um miserável  analfabeto intelectual.

Navegante55

Publicadopor Navegante55 | 1 Comentário(s)    
Arquivado em:
Euro deputado do PSD Mário David exorta Saramago a renunciar à cidadania portuguesa.
20 Outubro 09 11:21

Lisboa, 20 Out (Lusa) - O euro deputado social-democrata Mário David exortou hoje o escritor José Saramago a renunciar à cidadania portuguesa por se sentir "envergonhado" com as recentes declarações do Nobel da Literatura sobre a Bíblia.

No sítio pessoal na Internet, o vice-presidente do Partido Popular Europeu (PPE), eleito pelo PSD, escreveu hoje que José Saramago "há uns anos, fez a ameaça de renunciar à cidadania portuguesa. Na altura, pensei quão ignóbil era esta atitude. Hoje, peço-lhe que a concretize... E depressa!"

"Tenho vergonha de o ter como compatriota! Ou julga que, a coberto da liberdade de expressão, se lhe aceitam todas as imbecilidades e impropérios?", questiona o euro deputado.

Porque não te calas?

“Eu tinha vergonha era de pertencer ao partido do galã candidato à Câmara Municipal de Lisboa que fez o que fez na altura que o fez e obrigou assim o José Saramago a tomar a decisão que tomou.

 

O Senhor. por acaso é português ou sabe o que isso significa? Deve ser é um dos que bate com a mão no peito ao domingo e depois durante a semana explora o Zé português ou o humilde imigrante que para aqui vem trabalhar.

 

Tenha vergonha na cara e limite-se á sua insignificância de euro deputado pois já tem tacho e um chorudo ordenado. E quando falar em liberdade de expressão pense duas vezes pois não sabe do que está a falar. Triste do povo que elege este tipo de pessoas para os defender. Assim vemos os “democratas portugueses” que nos representam no Parlamento Europeu, prontos a vender o seu país a americanos, russos ou chineses.

 

Já agora quanto cobrou para dar ou escrever no seu sitio esta entrevista? Tenha vergonha na cara e já que nada sabe dizer no Parlamento Europeu limite-se á sua insignificância e poupe-nos a vergonha de dizer que é português. Nós portugueses agradecemos.

 

Vergonha, tenho eu, em ter como compatriota uma pessoa imbecil como o senhor. Se alguém devia renunciar a cidadania portuguesa é o senhor por isso faça-nos um favor aproveite e renuncie de imediato, pois por mais que queira nem aos calcanhares de José Saramago chega.

 

È este tipo de pessoa que nos enganam a toda a hora, em todo o local, em todas as eleições que o povo Português deve escorraçar de vez. Estamos fartos de falinhas mansas, enganadoras. Estamos fartos de vendedores de falsas verdades. Estamos fartos de gente como este Senhor que ao domingo vai á missa e a saída da missa cospe no coitado que está ali á porta a pedir uma moeda.

 

Já agora Senhor euro deputado já programou a data do auto da fé para queimar o livro em praça pública?

 

A Igreja de certeza que já o programou assim como tantos outros donos do mundo. Lembra-se de Hitler? Salazar? Franco? Talvez não esses são amigos. Saramago é o diabo.

 

Navegante55 

 

 

Publicadopor Navegante55 | 1 Comentário(s)    
Arquivado em:
Canción con todos.
07 Outubro 09 11:04

"Algumas canções ganham o dia, outras ganham a alma, outras suavizam a morte, outras embelezam a feiura, outras entristecem, outras fazem aparecer alguma coisa nova, alguma coisa velha, alguma coisa. E essa aqui, feita para nossa identificação através de nossas diferenças, feita para a memória de corações que se sentem latinos/americanos/mundanos/humanos, essa aqui, essa virou um hino geral, um hino da ternura de um povo mais do que mestiço, mais do que continental, de um povo criativo de coração aberto ao mundo."

 

 

"Salgo a caminar

Por la cintura cósmica del sur

Piso en la región

Más vegetal del tiempo y de la luz

Siento al caminar

Toda la piel de América en mi piel

Y anda en mi sangre un río

Que libera en mi voz

Su caudal.

 

Sol de alto Perú

Rostro Bolivia, estaño y soledad

Un verde Brasil besa a mi Chile

Cobre y mineral

Subo desde el sur

Hacia la entraña América y total

Pura raíz de un grito

Destinado a crecer

Y a estallar.

 

Todas las voces, todas

Todas las manos, todas

Toda la sangre puede

Ser canción en el viento.

 

¡Canta conmigo, canta

Hermano americano

Libera tu esperanza

Con un grito en la voz!"

 

Mercedes Sosa

 

Publicadopor Navegante55 | 0 Comentário(s)    
Arquivado em:
A RAPARIGA DO PAIS DE ABRIL.
25 Agosto 09 11:29

Habito o sol dentro de ti

descubro a terra aprendo o mar

rio acima rio abaixo vou remando

por esse Tejo aberto no teu corpo.

E sou metade camponês metade marinheiro

apascento meus sonhos iço as velas

sobre o teu corpo que de certo modo

é um país marítimo com árvores no meio.

Tu és meu vinho. Tu és meu pão.

Guitarra e fruta. Melodia.

A mesma melodia destas noites

enlouquecidas pela brisa no País de Abril.

E eu procurava-te nas pontes da tristeza

cantava adivinhando-te cantava

quando o País de Abril se vestia de ti

e eu perguntava atónito quem eras.

Por ti cheguei ao longe aqui tão perto

e vi um chão puro: algarves de ternura.

Quando vieste tudo ficou certo

e achei achando-te o País de Abril.

Manuel Alegre

 

Publicadopor Navegante55 | 1 Comentário(s)    
Arquivado em:
DELÍRIO.
19 Julho 09 09:26

Hoje apetece-me Maria Teresa Horta.

É o meu mel

que eu cheiro na tua boca

 

É no teu pénis

que eu bebo a sede toda

 

Nos meus lábios abertos

que me vencem

eu nado devagar sem ter vergonha

 

É a lagoa - eu digo

de veludo

 

É o grito - eu sei

na raiva solta

 

É a proa do prazer

sobre o lençol

onde mais tarde vai rebentar a onda

 

Secreto é o ruído

dos corpos

no combate

Os elmos já depostos pelo chão

caídas as viseiras e as máscaras

o vestido misturado à armação

 

São fulvos os cavalos

com as patas cor do pó

tropeçando na paz adormecida

 

Eu levo a bandeira

do orgasmo

E "para tão grande amor é curta a vida"

 

 

(SÓ DE AMOR, 1999)

 

Maria Teresa Horta

 

Publicadopor Navegante55 | 0 Comentário(s)    
Arquivado em:
Discurso no Parlamento
20 Junho 09 12:06

Um dia, encho-me de coragem

E vou mesmo discursar no parlamento

Confesso que fiz juramento

De ir a pé até lá

De entrar naquela sala,

Para discursar a minha mensagem

Um dia, apareço nas câmaras da televisão

Verdade mesmo, não é ilusão

Apareço com o meu rosto maltratado

Com o meu rosto de drogado

Para pedir um ponto de ordem

Aos senhores deputados,

Eu mesmo que vivo do outro lado da margem

Já sei que vão olhar com indignação

Para os meus pés descalços

Para os meus calções rotos

E para os meus magritos braços

Já consigo imaginar os vosso rostos

De indignação e estupefacção

Mas mesmo assim eu vou mesmo discursar

Em plena assembleia nacional

Assim mesmo, com este meu visual

De menino de rua votado ao abandono

De menino de rua cão sem dono

Eu vou à assembleia nacional falar

Assim mesmo, sem convite

E sem ser chamado

Eu, que não sei falar português de escola

Vou entrar naquela sala

Para falar com os senhores deputados

Eu vou lá sem convite, acredite!

E antes de me porem andar à paulada

Antes de me mandarem calar à porrada

Vou rasgar o meu peito

Para vocês escutarem o grito

De tanto sofrimento vivido

De tanto sofrimento bebido

E enquanto estiver a ser arrastado

Para fora da assembleia nacional

Eu, menino de rua cão sem dono e drogado

Eu, menino de rua marginal

Ainda terei coragem

Ainda serei capaz

De trovejar a minha mensagem:

POR FAVOR, PÃO, TECTO E PAZ!

Não levem a mal

Mas eu vou mesmo discursar em plena assembleia nacional!

Décio Bettencourt Mateus

in "A Fúria do Mar"

 

Publicadopor Navegante55 | 0 Comentário(s)    
Arquivado em:
PARA VÓS O MEU CANTO...
18 Junho 09 10:55

Para vós o meu canto, companheiros da vida!

Vós, que tendes os olhos profundos e abertos;

vós, para quem não existe batalha perdida,

nem desmedida amargura,

nem aridez nos desertos;

vós, que modificais o leito dum rio;

- nos dias difíceis sem literatura,

penso em vós: e confio;

penso em mim: e confio;

- para vós os meus versos, companheiros da vida!

Se canto os búzios, que falam dos clamores,

das pragas imensas lançadas ao mar

e da fome dos pescadores,

- penso em vós, companheiros,

que trazeis outros búzios pra cantar...

Acuso as falas e os gestos inúteis;

aponto as ruas tristes da cidade

e crivo de bocejos as meninas fúteis...

Mas penso em vós e creio em vós, irmãos,

que trazeis ruas com outra claridade

e outro calor no apertar das mãos.

E vou convosco. - Definido e preciso,

erguido ao alto como um grito de guerra,

à espera do Dia de Juízo...

Que o Dia do Juízo

não é no Céu... é na Terra!

Sidónio Muralha

 

Publicadopor Navegante55 | 1 Comentário(s)    
Arquivado em:
Cântico Negro.
02 Junho 09 10:34

"Vem por aqui" - dizem-me alguns com olhos doces,

Estendendo-me os braços, e seguros

De que seria bom se eu os ouvisse

Quando me dizem: "vem por aqui"!

Eu olho-os com olhos lassos,

(Há, nos meus olhos, ironias e cansaços)

E cruzo os braços,

E nunca vou por ali...

 

A minha glória é esta:

Criar desumanidade!

Não acompanhar ninguém.

Que eu vivo com o mesmo sem-vontade

Com que rasguei o ventre a minha mãe.

 

Não, não vou por aí! Só vou por onde

Me levam meus próprios passos...

 

Se ao que busco saber nenhum de vós responde,

Por que me repetis: "vem por aqui"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,

Redemoinhar aos ventos,

Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,

A ir por aí...

 

Se vim ao mundo, foi

Só para desflorar florestas virgens,

E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!

O mais que faço não vale nada.

 

Como, pois, sereis vós

Que me dareis machados, ferramentas, e coragem

Para eu derrubar os meus obstáculos?...

Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,

E vós amais o que é fácil!

Eu amo o Longe e a Miragem,

Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

 

Ide! tendes estradas,

Tendes jardins, tendes canteiros,

Tendes pátrias, tendes tectos,

E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios.

Eu tenho a minha Loucura!

 

Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,

E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

 

Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém.

Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;

Mas eu, que nunca principio nem acabo,

Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

 

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!

Ninguém me peça definições!

Ninguém me diga: "vem por aqui"!

A minha vida é um vendaval que se soltou.

É uma onda que se alevantou.

É um átomo a mais que se animou...

Não sei por onde vou,

Não sei para onde vou,

Sei que não vou por aí.

 

José Régio

 

Publicadopor Navegante55 | 1 Comentário(s)    
Arquivado em:
Homem que olha o céu.
19 Maio 09 11:19

Enquanto passa a estrela fugaz

junto neste desejo instantâneo

montes de desejos profundos e prioritários

por exemplo que a dor não me apague a raiva

que a alegria não desarme meu amor

que os assassinos do povo engulam

seus molares caninos e incisivos

e se mordam sensatamente o fígado

que as grades das celas

se tornem de açúcar ou se curvem de piedade

e meus irmãos possam fazer de novo

o amor e a revolução

que quando enfrentarmos o implacável espelho

não maldigamos nem nos maldigamos

que os justos avancem

mesmo que estejam imperfeitos e feridos

que avancem porfiados como castores

solidários como abelhas

aguerridos como jaguares

e empunhem todos seus nãos

para instalar a grande afirmação

que a morte perca sua asquerosa pontualidade

que quando o coração saia do peito

possa encontrar o caminho de regresso

que a morte perca sua asquerosa

e brutal pontualidade

mas se chega pontual não nos encontre

mortos de vergonha

que o ar volte a ser respirável e de todos

e que você mocinha continue alegre e dolorida

pondo em seus olhos a alma

e sua mão em minha mão

e nada mais

porque o céu já está de novo turvo

e sem estrelas

com helicópteros e sem deus.

 

Mário Benedetti

 

Do livro "Inventário"

Tradução de Julio Luís Gehlen

 

 

Publicadopor Navegante55 | 0 Comentário(s)    
Arquivado em:
Ouvindo Beethoven
17 Maio 09 10:37

Venham leis e homens de balanças,
mandamentos d'aquém e d'além mundo.
Venham ordens, decretos e vinganças,
desça em nós o juízo até ao fundo.

Nos cruzamentos todos da cidade
a luz vermelha brilhe inquisidora,
risquem no chão os dentes da vaidade
e mandem que os lavemos a vassoura.

A quantas mãos existam peçam dedos
para sujar nas fichas dos arquivos.
Não respeitem mistérios nem segredos
que é natural os homens serem esquivos.

Ponham livros de ponto em toda a parte,
relógios a marcar a hora exacta.
Não aceitem nem queiram outra arte
que a prosa de registo, o verso acta.

Mas quando nos julgarem bem seguros,
cercados de bastões e fortalezas,
hão-de ruir em estrondo os altos muros
e chegará o dia das surpresas.

 

(José Saramago)

 

In "Os Poemas Possíveis", 1966

 

 

Publicadopor Navegante55 | 0 Comentário(s)    
Arquivado em:
Meu Galope É em Frente
10 Maio 09 09:59

Direis que não é poesia

e a mim que importa?

 

Eu canto porque a voz nasce e tem de libertar-se.

E grito porque respondo

às lanças que me espectam

e aos braços que me chamam,

E porque, dia e noite, minhas mãos e meus olhos,

por estranhas telegrafias,

dos cantos mais ignotos

e das linhas perdidas

e dos campos esquecidos

e dos lagos remotos,

e dos montes,

recebem longas mensagens e comunicações:

para que grite e cante.

 

O meu grito e meu canto é a voz de milhões.

 

Por isso que me importa?

Eu canto e cantarei o que tiver a cantar

e grito e gritarei o que tiver a gritar

e falo e falarei o que tiver a falar.

 

Direis que não é poesia.

E a mim que importa

se eu estou aqui apenas para escancarar a porta

e derrubar os muros?

E a mim que importa

se vós sois afinal o que hei-de ultrapassar

e esmigalhar

em nome

de todos os futuros?

 

Eu sigo e seguirei.

como um doido ou um anjo,

obstinado e heróico a caminho de nós

em palavras e acções

por todos os vendavais

e temporais

e multidões

nos cantos mais ignotos

e nas linhas perdidas

e nos campos esquecidos

e nos lagos remotos

e nos montes

- por terra, mar e ar.

 

Direis que não é poesia

E a mim que importa!

Convosco ou não, meu galope é em frente.

Pertenço a outra raça, a outro mundo, a outra gente.

 

É andar, é andar!

 

Mário Dionísio

(Lisboa, 16/7/1916 - Lisboa, 17/11/1993)

 

Publicadopor Navegante55 | 0 Comentário(s)    
Arquivado em:
1º de Maio.
30 Abril 09 11:17

Há Maio em cada rosto

em cada olhar

que passa pelo asfalto da Avenida

Há Maio em cada braço

que se ergue

há Maio em cada corpo em cada vida

Há Maio em cada voz

que se levanta

há Maio em cada punho que se estende

há Maio em cada passo

que se anda

há Maio em cada cravo que se vende

Há Maio em cada verso

que se canta

há Maio em cada uma das canções

há Maio que se sente

e contagia

no sorriso feliz das multidões

Há Maio nas bandeiras

que flutuam

e mancham de vermelho

o céu de anil

Há Maio de certeza

em cada peito

que sabe respirar o ar de Abril

Mas há Maio sobretudo

no poema

que se escreve sem ler o dicionário

porque Maio há-de ser

mais do que um grito

porque Maio é ainda necessário

Canto Maio e se canto

logo existo

que o meu canto de Maio é solidário

com o canto que escuto

e em que medito

e que sai da boca do operário

(Fernando Peixoto)

 

 

Publicadopor Navegante55 | 1 Comentário(s)    
Arquivado em:
MATERNO
20 Abril 09 09:41

És ventre de uma flor por nascer

e de toda a esperança por florir

certeza inquietação amor e fome

És ventre de flores cravos de Abril

de ventos que norteiam as marés

de risos choros e águas de beber

És ventre do jardim que nos aquece

rio que renasce em cada fonte

És ventre de uma flor que amanhece

És ventre de uma flor Abril em Maio

e de todos os sonhos por cumprir...

 

in “O Cheiro da Ilha”

 

Publicadopor Navegante55 | 0 Comentário(s)    
Arquivado em:
More Posts Next page »