SOL

 

Há uns dias pôde ler-se aqui no sol a notícia de que uma jovem brasileira foi assassinada na Galiza a golpes de tijolo na cabeça pelo seu companheiro, em frente aos dois filhos do casal, de três e quatro anos, que deram o alarme. E também a notícia de que as mulheres inglesas recebem menos indemnização caso tenham bebido antes de serem violadas. 

Leio estas coisas e o mundo cai um pouco mais pela ribanceira abaixo. E passo ao trabalho de o içar de novo. Que isto é um vale de lágrimas cheio de minotauros escondidos nas esquinas, qualquer mulher sabe e eu também. Mas que tudo está na nossa mente é coisa que há muito descobri e que tenho responsabilidade acrescida de gerir como deve ser.

Por algum motivo, talvez por terem crescido e permanecido em circunstâncias que lhes permitem pensamentos que emitem uma vibração positiva que rechaça e antipatiza as negativas, algumas mulheres parecem ter o dom de ler escrito na testa dos homens "agressivo e violento" e assim fogem deles como o diabo da cruz muito antes das coisas entre ambos terem dado azo a que ele se ponha com coisas. Enquanto outras que parecem incapazes de ler isso, parecem mesmo atraír e serem irremediávelmente atraídas pelo padrão.

Há muita gente que acha que isso é tudo Karma e portanto só se perdem as que caem no chão. É que lá se perdem mais umas lições para a alma. Eu prefiro achar que é tudo Dharma e portanto que devemos lutar todos pela felicidade de todos os seres. Apesar de reconhecer que esta divindade que compomos todos parece apreciar uma manifestação na matéria mais estilo bife em sangue e molho de piri-piri...

Conheço ruas inteiras onde porta sim, porta sim, as mulheres são, com frequência, espancadas pelos seus homens, e algumas com quem falei contaram-me que tinham sido espancadas por todos em todas as relações anteriores... 

Numa altura em que tinha contacto com uma associação local sugeri que nos juntássemos e, em grupo, tentássemos analisar as razões que levam as mulheres a aceitar como normal que os homens lhes batam, ou que, não aceitando, a que permaneçam nesse inferno e o que fazer para sair desse círculo vicioso. Recusaram porque isso iria avivar de forma perigosa as tricas e enredos já muito complicados entre mulheres e se os homens soubessem que andavam a contar umas às outras o que se passa dentro de portas isso ia dar motivo para muito mais pancada. 

Abordando essas mulheres uma a uma, no café, nas associações de bairro, ouvi estórias de faca e alguidar, com voos contra paredes, defenestrações, quedas do segundo andar, pernas, braços e dentes partidos, tímpanos rebentados e o mais de que o demo se pudesse lembrar. Vi exibidas cicatrizes horríveis, os dentes em falta...  vi os autores das façanhas, impávidos e serenos, e ainda ouvi explicações alarmantes das estratégias utilizadas para diminuir a frequência e grau das tareias. Alarmantes porque em algumas dessas explicações perpassava a convicção de que eles até tinham razão. "Eu dantes portava-me mal, ia para o café conversar com as amigas em vez de ficar em casa a fazer o serviço da casa e ele quando voltava se lhe diziam que me tinham visto no café, claro, castigava-me. Mas depois deixei de ir e agora já raramente me bate".

Do que presenciei, parece haver dois tipos de agressores (estamos a falar de homens, que perfazem de 80 a 90 por cento dos agressores): Os agressores "por direito e convicção", aqueles que cresceram ensinados nas famílias por pai e mãe de que bater na mulher é um direito e até um dever e que portanto impõem a sua vontade à pancada. Não nos enganemos a pensar que só os árabes é que têm uma cultura de "bater na mulher". E por isso a estes correspondem outras tantas mulheres, oriundas de outras tantas famílias onde aprenderam exactamente o mesmo e que são mais predispostas á evolução da mentalidade nessa área, por motivos óbvios, mas trazem em si o padrão que "admite" e "consente" esta realidade. Com estes, deixar de ir ao café, obedecer e fazer-lhes as vontades todas como manda o sr. prior, até funciona... A pancada torna-se outra.

E os agressores patológicos, os que batem quando o Porto perde, quando o patrão lhes dá uma bronca, quando a vida os frustra de alguma maneira e para quem as mulheres (e os filhos, os cães, os gatos, tudo o que mexer e for mais fraco) são sacos de pancada. Desses fazem parte também os ciumentos compulsivos, os que batem porque a mulher se atrasou cinco minutos, porque a saia está curta, porque um homem olhou para ela, porque simplesmente tiveram um devaneio mais alucinado. É claro que a fronteira entre um e outro é ténue e permeável...

Uma coisa é preciso ver: Se uma mulher das que não vê a violência doméstica como uma coisa normal e aceitável, numa altura da sua vida está em baixo, se vê a si e ao mundo de forma negativa e embarca numa relação com um potencial agressor, que não reconhece e só passa a experienciar enquanto agressor quando casa ou engravida ou de alguma forma se torna dependente deste, poderia dizer-se que quando a má altura passasse ela poderia sair.

Mas infelizmente este é um círculo vicioso. Porque na grande maioria, se já estavam mal, pior vão ficar. Vão descer uma escadaria que as leva a lugares cada vez mais escuros da sua alma, onde se vão sentir cada vez menos dignas, válidas e merecedoras de respeito, amor, paz e felicidade.  E quando, normalmente no momento em que vêem ameaçada a integridade física ou psíquica dos filhos, as mulheres reúnem coragem para dar, do escuro em que estão, o salto para o negro hostil que se lhes afigura começar tudo de novo, o agressor não raras vezes perde a cabeça e o desfecho é fatal. Como sociedade, não oferecemos refúgio e protecção adequados para essas mulheres. E são tantas!!!

 Karma ou pensamentos negativos atractores, a verdade é que os agressores existem e as mulheres entram em pesadelos infernais que mal se escondem por detrás de portas e paredes. Os vizinhos ouvem, as marcas são visíveis na cara, nos braços, a quem quer que cruze com elas no autocarro, na escola, no hospital, na mercearia. Prevenir não é só ensinar às mulheres os seus direitos e aos homens os limites dos seus. Se a violência doméstica mata, directamente, mais em Portugal que o cancro da mama, indirectamente ela causa sofrimento a todos, mulheres e crianças e aos próprios homens agressores também; e doenças do foro psicossomático de monstruosa amplitude e pior, é HEREDITÁRIA. É na família que se aprendem e desaprendem o amor, a bondade, a compaixão e o respeito por si, pelos outros e sobretudo pelos mais fracos.

Este é um tema complexo que não se esgota em si mesmo nem se divide a preto e branco em vítimas e agressores. Ele enraíza pelo todo que é o estado mental das pessoas nas faixa mais baixas e alargadas da pirâmide da consciência e de como se vêem a si e aos outros. E é neste "ver", neste encarar dos outros e digo outros começando nos animais, passando pelas crianças e outras mulheres e outros homens, que está o busílis da questão.

Porque muita gente vê "outro" igual apenas onde vê poder (de retaliação e até de subjugação). Onde vê menos poder, fraqueza, onde alguém está à sua mercê, a maioria dos seres humanos parecem ver apenas uma coisa, um objecto sem necessidades, nem direitos nem vontades. Assim vê uma mulher com a melhor das formações, piedosa e crente, fiel esposa e mãe extremosa,  as suas galinhas ou as galinhas que compra embaladas no super-mercado, E noutro grau, com a complexidade dos afectos, assim vê os seus filhos. Pouco a incomoda perpassar três estalos bem dados na cara do fedelho em frente a toda a gente numa rua para lhe dar a educação como nem a aquece nem a arrefece que um animal tenha crescido num cúbiculo onde teve toda a vida direito a uma média de menos de 30 cm2, que lhe tenham cortado o bico e as asas a sangue frio para que não voasse, que  lhe tenham servido farinha feita de hormonas de crescimento rápido, carradas de antibióticos para que resista às infecções causadas pela insalubridade da sua mísera existência, e aproveitamento de restos de outros animais, inclusive de galinhas. A imensa perversão deste processo não lhe é de todo consciente. nem a ela, nem ao seu homem, nem vai ser assim sem mais nem menos aos seus filhos. Filhos esses que crescem inseridos neste sistema da vivenciação do poder. Que de pequenos são desrespeitados, abusados, insultados e espancados. Que de pequenos aprendem a abusar, a desprezar, a desrespeitar e a maltratar pessoas e animais, todo aquele que seja indefeso relativamente a eles. E a reconhecer apenas a autoridade e o direito do mais forte, do que lhe possa bater, do casse-tete, da multa, da metralhadora.

Assim presenciamos cenas da maior crueldade entre crianças em todos os níveis da escola. E quando nos chegam pps a dizer que quando éramos pequeninos é que era bom, podíamos espancar-nos uns aos outros à vontade que ninguém chamava o psicólogo, sabemos todos muito bem que quando éramos pequeninos era a mesma coisa, simplesmente hoje levantam-se vozes e consciências e neste jardim à beira-mar plantado, levantam-se instituições de importação, reflexo imposto pela maior consciência relativa doutras nações, pretexto para escoamento de novas profissões na área da psicologia e das ciências sociais e para a criação de novos postos de trabalho, mas estruturalmente carentes duma consciência holística e gerada do interior, quanto à sua função...

A agravar o quadro acresce que grande parte das instituições a quem o estado confere avenças para acudir às sequelas inúmeras da tremenda violência que grassa nas famílias pertencem à igreja católica e perdoem-me os filiados mas é como dar o filete a guardar ao gato; já que a referida organização é francamente machista, deixa-se pagar para benzer exércitos e armamento, assenta na recusa da vida sexual dos seus ministros para recolher no seu seio as heranças do que amealharam ao seu serviço, esboroa-se em escândalos de pedofilia onde quer que enfie os seus tentáculos e aconselha o abate e consumo de cabritos para festejar a Páscoa como se fosse assim que o lobo e o cordeiro hão-de aprender a pastar juntos! Nenhum produto dos seus ensinamentos poderá alguma vez constituir-se num membro digno de integrar o Paraíso. Ou alguém dos que acreditam nele imagina que no Paraíso haja matanças de porco e caldeiradas de cabrito?

 E é esta ordem de coisas, este perpetuar institucional da crueldade para com animais e pessoas, que enche as prisões, os hospitais, as casernas e os asilos. Que cria e enche o inferno na Terra. Não me venham com coisas, é certo que a testosterona é em grande parte responsável pelos 80 a 90 por cento dos agressores homens e por toda a carnificina que tem sido a história (com as Igrejas em guest Stars). Mas que a testosterona é educável e que os homens são capazes de pensar com mais do que as hormonas, temos também amplamente comprovado por muitos dignos representantes do género masculino. Não precisávamos de nada disso se aprendessemos a respeitar a todos os seres vivos, se soubéssemos reviver uma espiritualidade de facto, afastada dos ensinamentos perversos duma igreja que não está caduca, sempre foi caduca; uma espiritualidade que nos fizesse compreender duma vez por todas que nós e o pai somos um mas não se esquecesse da mãe e de todos os outros seres sencientes.

Não tenho muito em particular contra a ICAR

Bah...

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[YouTube:MSVkY-01r5o]

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Estamos a descer para Outono, depois do pino do Verão.  Quem tinha que ser ferrado pelo peixe aranha já foi, quem tinha que acordar com um olho inchado duma ferradela das melgas já acordou e quem tinha que encontrar a cobra cuspideira já encontrou. Sobre esta última vou avisar na mesma, até porque o único antídoto para o veneno é reconhecê-la. Este animal é  excelente nos disfarces...

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Houve um Verão em que uma determinada cobra cuspideira nos deu um trabalhão danado. Atacou sem dó nem piedade durante meses a fio um amigo nosso até o pobre mal conseguir ver de olhos inchados de tanto chorar e mal se ter em pé de tanto tempo sem comer. Aquilo foi como se tivesse sido atacado pelas melgas e pelo peixe-aranha tudo ao mesmo tempo, tal era o gabarito daquela cobra...

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Tivémos infindáveis sessões de terapia de grupo no café, tudo á volta do rapaz a tecer considerações sobre o que é uma cobra-cuspideira e a diagnosticar o estilo e o móbil daquela, precisamente.

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É que há cobras cuspideiras em diversas modalidades e de periculosidade crescente, desde a cobra que há em cada um de nós e ataca quando um belo dia bebemos uns wodkas a mais do que aquilo que conseguimos aguentar, passando pela cobra cujo móbil é sermos o namorado/a de alguém com quem rivaliza, quer dizer, importante é suplantar o outro, nós somos iguais ao litro, ou pela cobra com móbil paralelo, ou seja, dá o bote em nós mas está interessada é no nosso dinheiro ou casa ou fama ou melhor amigo/a, no nosso irmão/ã, etc e por aí fora, até ao grau máximo da cobra-cuspideira, também conhecida por "sereia", que só se sente viva e importante através do número de admiradores apaixonados que arrasta atrás de si e está ali sóbria e durante meses a tecer cantos e encantos mas pouco se lixando para que os marinheiros se afoguem nas próprias lágrimas. Um perigo real.

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Comum a todas as cobras cuspideiras é que desde o princípio fazem olhinhos e dão indirectas, arrastam a asa  e esbanjam charme para cima das pessoas sem a mínima intenção de começar alguma coisa com elas. E o perigo está na frieza réptil da estratégia, porque de cabeça fria conseguem avançar até ao limite e recuar quando convém e não só o efeito de "teaser" é tão mais poderoso quanto a cobra se está nas tintas para a presa, como à medida que a presa vai ficando fisgada e doida, a sua dignidade desce aos olhos da cobra cuspideira. É um jogo de poder e as cobras tendem a manifestar desprezo por quem lhes cai no encanto.

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E tanto a saída de jogo com a ficha limpa como a manutenção segura de um admirador fazem-na pelo discurso do poder, que é o discurso da culpa. E portanto nos finais do jogo, invariávelmente, a cobra ainda joga culpas em cima da pessoa, que se estiver em baixo se vai atolando num nevoeiro de auto-recriminações e auto-estima cada vez mais baixa. Foi nesse estado miserável que a tal cobra cuspideira de há uns verões manteve o nosso amigo durante meses.

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A última cobra cuspideira que encontrei era de nacionalidade holandesa e pela pouca roupa em noite tão fria já se estava mesmo a ver que lhe devia estar a saltar o óvulo. Estava no grau mais baixo do perigo, quer dizer, só começou a dar-lhe para ali depois da terceira wodka. Lá para a quinta wodka já tinha uns quatro ou cinco rapazes de cabeça completamente perdida, na sexta estava a melgar o DJ e também a fazer-se às mulheres em geral e quando já estava de olhos trocados e a águas, o mulherio ainda teve que a fazer chegar em segurança à pensão onde estava hospedada, não fosse o diabo tecê-las, que os tempos andam agrestes.

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Cobra cuspideira conjuga-se no feminino, mas ninguém pense que só as há do nosso género. Já encontrei uma data delas bem machas e são piores, porque salvo raras excepções e ao contrário da maioria das cobras cuspideiras mulheres, não se importam nada de chegar a vias de facto e de petiscar a presa, a menos que sejam do tipo móbil paralelo e isso interfira com os seus planos. E por isso, depois, o veneno das machas até leva mais tempo e dá mais trabalho   a extrair.

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A cobra cuspideira devia entrar para os compêndios de zoologia e ser ensinada aos meninos e meninas logo na escola primária. Não é que isso adiantasse muito para evita-las, mas reconhecer que estamos a lidar com uma  logo aos primeiros sintomas é mesmo o melhor antídoto contra o veneno.

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E pronto,  não vou terminar dizendo “eu gosto muito da cobra cuspideira” mas fica aqui uma canção dos tempos em que encontrei a minha primeira cobra:

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[YouTube:NRP4fxEORX0&feature=related]

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Olá amigos.

Sim, eu sei que vai demorar uma data de tempo até que algum de vocês dê por ela que eu ando outra vez a escrevinhar por aqui. Não faz mal. Mereço bem ser ignorada uns tempos valentes depois do sumiço indecente que dei na minha pessoa. 

Também, se me ignorarem um bocadinho, ou pelo menos fingirem que ignoram, isso só vai ajudar a minha vontade actual de blogar umas nemesices. O que me matou foi ter sido literalmente engolida pelas centenas de comentários e contra-comentários lençolescos em que me meti. E a vida ter-se a dada altura complicado tanto que não tive mesmo outro remédio senão cortar pela raiz. 

A vidinha já se descomplicou, já fui de férias, já voltei e voltei com um novo bichinho no sangue. Não, não fui mordida por uma carraça, nem fui de férias lá para as selvas dos Balis e levei com uma doença tropical esquisita a la BP, nada que se pareça, o meu bichinho é saudável e pega mesmo no lugar onde deixei este Blogue: O bichinho chama-se TANGO!!!

 

 

Porque descobri, primeiro, que adoro dançar tango e segundo, que não sou a única pessoa nesta cidade cinzenta a gostar e terceiro, que o pessoal, mesmo em pinos do mórbido vazio do buraco do Verão de Agosto se junta ali para as Antas e vai de dançar... de dançar um pensamento triste, sim, porque o tango,

 "O tango é um pensamento triste que se pode dançar"(Enrique Santos Discépolo)

Maravilhoso!

Não vou torrar-vos a paciência com informações históricas sobre o Tango. Basta dizer que as suas origens tem a ver com os escravos negros, que a princípio era dançada por homens e depois por homens e mulheres prostitutas, e foi de vento em maré até ser hoje dançado por toda a gente.

                                   

 

 

 

Há muito preconceito contra o tango, toda a gente sabe. Há quem ponha o tango e uma coladera ou um atarracho bem suados no mesmo pé de igualdade e ache aquilo tudo uma indecência. Como diz um conhecido meu, se o que querem é pinar, porque é que não vão logo directos ao assunto? Porque o Tango não tem nada a ver com pinar. Tem tanto a ver como a Margot Fontayn e o Rudolf Nureyev a darem uns belos passos de dança e alguém acha aquilo remotamente parecido com pinar?

 

 

 

 

(Era engraçado estabelecer uma escala de zero a dez da aproximação das diferentes danças de pares à cópula - um trabalho para ...hmmm sabeis quem, eh eh eh). 

Bom, como é que eu, nemesis, a vossa tangueira de serviço, vê isso? É simples. O tango é expressão, é abraço, é comunicação mas sobretudo é desafio à percepção da intenção de movimento do outro em coordenação também com o sentir da música. De ambas as partes. Enquanto expressão, tem várias possibilidades, ou o par se conhece e se ama ou se conhece e não se ama ou nem se conhece nem se ama e evidentemente que não é igual, que não vem a dar no mesmo, se estamos a dançar um tango com um corpo que conhecemos intimamente ou se o estamos a dançar com um que estamos a aprender a conhecer ou se o estamos a dançar com um que não conhecemos de todo.

Mas garanto que nada tem de lúbrico nem de intrusivo, embora por onde quer que se navegue na net, os slogans sejam ribombantes e escaldantes "tango é sedução, a sensualidade dos corpos que se entregam numa coreografia de derreter entre carícias de tacões e tatati tataata" e façam, quem está de fora e nunca percebeu a coisa, imaginar: ela, de rosa entalada nos dentes, os picos a rasgar-lhe os lábios, à espera dos comandos do macho latino para voltear para aqui ou para ali enquanto pensa "quanto mais me bates mais gosto de ti" e ele, de colete às riscas e chapéu sobre os olhos, a arrastar o casaco no chão como um toureiro enquanto a informa que se vai embora para dançar com outra e coreografa um arrasto da moça agarrada ao joelho "ó não me deixes!" e mais uma volta e mais uma escaldante reconciliação, com esboço de estrangulamento e desmaio da moça nos braços. . .

Hoje aprendi o passo básico, que ao fim de uma mudança de par já tinha percebido que é assim para um e assado para outro. Aprendi uns oitos à retaguarda, uns oitos para diante, um gancho (pode eliminar-se  um marido neste passo perigoso)

 

 

  

e uma sanduiche, que é assim, o homem ensanduicha-nos por assim dizer o pé com os pés dele e depois passa-nos para a direita (a nossa esquerda) e faz-se um volteio.

Mas o que mais me encantou foi ver as expressões de felicidade dos pares a dançar, mesmo quando se compenetravam numa aparência concentrada e sofrida. Aquilo produz endorfinas e fortalece o sistema imunitário, como os abraços grátis e a terapia do riso!

Vim da Milonga contente e satisfeita. E aqui estou a partilhar convosco esta descoberta fenomenal.

 

 

 [YouTube:UyyjU8fzEYU]

 

E aqui podem ver uma (excelente) tradução em português:

Bernardoramirez

 

 

 

 

Dá cá um abraço, Revolução. Estás mais crescidinha! Já não queres tomar consciências de assalto, nem com armas nem com decretos? Pois não, as consciências são como o céu, não se toma de assalto, sobe-se, lentamente, a longa e dura escadaria. Os degraus são os erros, as pedras de tropeço... Pois desse afã de subir, de tomar posse dos espaços da mente e do coração, estás mais linda que nunca, Revolução.

 

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Há coisas que se vivem intensamente durante anos a fio e não se conseguem nunca verbalizar. Aliás, essa qualidade do indizível está na directa proporção da intensidade. Por isso nunca vos hei-de poder contar o que sinto pelo mercado do Bolhão. De que cores, sabores, odores, imagens, memórias se faz o Bolhão na minha alma. A alma do meu Bolhão.

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Que tristeza ver-lhe a estrutura e as paredes a rachar sem que ninguém responsável mexesse uma palha para travar o acelerar duma decadência desejada, enquanto a Micas do metro escavava sem dó nem piedade pelos subterrâneos aquosos daquela zona da baixa portuense.

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Decaiu? Está velho, estagnado, estragado?  Houve interesse “político” de que tenha acontecido assim. Deixaram-no cair.

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O Bolhão das velas acesas às almas, das folhas de fetos pelo chão, dos corredores de flores e frutas e cebolas e feijões, dos cestos minimalistas em temas repetidos até à dor de ser tão bonito, do cruzeiro com as bicas no centro dos corredores, dos telhados negros de ardósia como escamas dum dragão, das escadas em que me sentei a desenhar; o Bolhão que fotografei de fio a pavio, onde almocei vezes sem conta, nos intervalos do trabalho, sozinha mas acompanhada por toda aquela gente que eu já conhecia, que me conhecia, que me chamava meu amor, ó querida, ó linda, num quer uns pesseguinhos?  Onde comprei os ovos caseiros, as azeitonas especiais, o caril, os colares vermelhos de malagueta, o arroz integral, os agriões, os ramos de alho, as beterrabas, as bravo de esmolfe, o cardamomo, a hortelã-pimenta, a broa de milho, as peúgas, os amendoins, as tangerinas, as assadeiras, as flores, as avencas, as begónias, as cestas da praia, Jimmi Bakunine, o meu rouxinol da china...

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O Bolhão tem tanta Qualidade. Porque raio é que essa gente do dinheiro não consegue fazer a mínima ideia da importância da preservação da Qualidade? Mas pior... porque nos tornámos neste povo morcão que permite que a paisagem portuense se transforme numa imensa variação sobre os temas macdonalds & centro comercial?

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Serei só eu a sentir assim? Não sou. Conheço quem queira emigrar ao pensamento de que também o mercado do Bolhão acabe. Que venha a ser alienado para uma qualquer espelunca de luxo gerida por gente de fora que nada, sublinho, nada tem a ver, nem pela vivência, nem pelo afecto, com o enorme pedaço de cultura, pedaço do sangue da gente do Porto. Que, por direito de  um qualquer concurso que esteja acima do direito inalienável da cidade ao seu património cultural mais sagrado, possa ser esvaziado do seu conteúdo vivo, limpo como quem limpa um animal para empalhar,  betonado todo o interior para lojas finas e residências chiques de temerosos da subida das águas do mar que ameaça a Holanda. É revoltante!

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Mas é o progresso, é a boa gestão económica! Onde os espaços se rentabilizam com mais do mesmo, promessas vazias de respeitar contratos que , "já se sabe, têm limites" ( diz a TramCroNe, a empresa holandesa) um centro comercial, um parque de automóveis, restaurantes, uma área de residência ...

Acima de tudo que o exterior continue igual. A fachada. Ai que fartos andamos de fachadas. Para uns poucos fica o recheio descaracterizado por quem vai GANHAR com isso...) para muitos ficam as fachadas e  servir às mesas das esplanadas.

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Um Link sobre as origens

Um blogue que está de parabéns

Uma noticia "tranquilizante"

Uma bolhinha de resistência

A petição on-line

52 Comentário(s)
Arquivado em:

Que me fez a Josefa de Obidos, uma das pessoas que me ensinou que as rãs podem andar, os impossíveis só o são enquanto não são possíveis e que fez de 2007, afinal, um ano bem colorido – obrigada, linda.

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1 – 5 Bens materiais QUE TIVE NO PASSADO, que já não tenho, e sinto saudades ou nostalgia por eles:

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Náná, o meu urso de peluche. Tinha o pelo cor de mel, encaracolado, era magro, nariz de fera, olhos pretos que falavam e quando se apertava fazia um “méééé” parecido com uma ovelha. Vestia uma camisa verde aos quadrados e umas jardineiras de bombazine castanha. Era muito meu amigo. Desapareceu sem deixar rasto. Para aí numa fúria de limpezas de fim-de-ano, não sei.

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A minha primeira motocicleta.

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Umas botas castanhas com cordões de cabedal que apertavam atrás – De longe a peça de vestuário mais confortável e com mais classe que já tive.

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Umas calças levis de bombazine cor-de-rosa.

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O meu jardim com 700 m2 e o respectivo conteúdo – A cama de rede, a estufa, o alpendre, a espreguiçadeira, o rododendro, o pinheiro nórdico gigante e a groselheira.

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2 – 5 Bens materiais QUE POSSUO ACTUALMENTE, que mais gosto e sem os quais não consigo viver (por ordem de importância).

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A minha câmara de filmar

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A minha máquina fotográfica

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O meu computador

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O meu material de pintura

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O meu bandónio

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3 – 5 Bens materiais QUE PENSO ADQUIRIR nos próximos 5 anos

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Uma casa grande com quartos extra para as mães, as filhas, os sobrinhos, os netos que vierem, atelier, e jardim.

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Uma ou duas baterias extra para a minha câmara de filmar.

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Um quadro de serigrafia.

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Um GPS

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Uma lixadeira nova.

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4 – 5 Bens materiais QUE GOSTEI DE OFERECER a 5 pessoas diferentes

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(Xiii... Esta é a parte penosa...)

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Hmmm: Uma máquina secadora de roupa que poupou a umas mãos com artroses ter que puxar o fio do estendal.

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Um violino do qual nunca ouvi sair um som, mas ofereci-o com muito amor.

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Uma caixa de 48 pasteis de óleo russa e um bloco A3 de excelente papel para pintura a pastel, ambas preciosidades nas mãos de alguém tão talentoso como sem jeito para ganhar dinheiro.

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Um candeeiro com abatjour em batik, feito por mim.

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Uma série de 4 pequenas pinturas, a 4 amigas, no Natal.

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5 – 5 Bens materiais QUE SONHO TER mas que sei que não vou adquirir (ou uma espécie de masoquismo mágico)

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Ora bem, para que conste, SABER, SABER, NÃO SEI. Porque SEI que não há limites.

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Sonho ter:

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A casa velha da minha avó e respectivas quintas remodeladas para uma escola onde crianças e jovens perdidos se encontrem com adultos e idosos bem-formados e de boa e férrea vontade e onde se aprenda o amor, o respeito, a atenção, a compaixão, a vontade, a criatividade e a integridade, a cozinhar, a escrever, a filmar, a fotografar, a pintar, a fazer música, olaria, teatro, técnicas de multimédia e a tratar da terra biologicamente.

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Um estúdio de cinema fixo (pode ser lá na escola).

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Um cavalo lusitano branco malhado de cinzento (desculpa lá, Rocinante, por te chamar bem material; e também pode ser lá na escola)

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Uma casa em Bali. Com telhados de colmo, um rio calmo que faça uma pequena enseada junto à casa, com uma pequena cascata cuja água lava e limpa tudo o que se nos cole ao corpo e alma, alpendre de madeira e bambu, com lanternas de luz doce à noite, uma cama de dossel grande e dura com cortinas mosquiteiras,  uma cozinha com fogão a lenha, e tudo o mais que não me apetece descrever, porque, na verdade, eu TENHO essa casa, é o meu refúgio e vou lá muitas vezes.

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Um veleiro.

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Desafio (se ainda não tiverem sido desafiados, o que é pouco provável) a Minda, a Angelical, a Olinda Gil, a Melita e o MUSICANDO.

 

 

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Onde andas, Natal de outros tempos?

A ti, que nunca vi e só imaginei,

Te projectei num futuro em que eu pudesse ser eu,

Para onde desloquei o cheiro da caruma,

Os anjos e as velas, e aquele presépio

Que transportei religiosamente

Em vinte e nove mudanças de casa,

Fui eu que te esqueci ou foste tu que te foste?

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Fui eu que percebi mal e afinal estás aqui?

Fui eu que desisti de tentar lembrar-te,

De ter também a memória cheia de luzes

quando chegas para os outros

E por todo o lado te vejo festejado?

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Não haja dúvidas,

Onde há comércio brilhas, potente e colorido

Enquanto gente rosada enfia a tua carapuça

E passeia-se pela rua, e bate fotos

Em frente à árvore de natal da nossa maior vergonha,

Como se, não sendo nada, fosses tudo.

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Fosses os jardins abandonados, os teatros profanados

As casas em escombros...

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E onde não há, brilhas também

E amigos insuspeitos derramam generosos

Amor e bons desejos sobre mim.

Envio os meus sete anjos a guarda-los

ó boa nova, és nossa,  vamos fazê-la!

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Mas muito do que eras já se foi,

Perdi o meu presépio na última mudança

(Aquela em que os teus pacotes não abriram),

Há muito que não mando nem recebo postais,

A minha lareira está apagada,

E não trouxe uma árvore para casa.

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Há um presente comprado para mim desde Outubro,

E um encontro marcado para depois do Natal.

Nos outros dias todos precisei e não vieste.

Só vi os picos desse cacto em que viajas no deserto

E que floresce três vezes por ano, para mim

(outra no meu aniversário, outra no são Valentim).

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Por isso detesto o Natal, com que se adiam

Os encontros que queria agora mesmo,

Mas amigos vêm à terra e isso é bom!

E dizem que o meu sorriso voltou a ser sorriso.

Que, isso vê-se,  a tua ausência fez-me bem.

Pareço outra, dizem e o Natal

Que vou recebê-lo embrulhado

Em papel de todas as cores e laço a condizer.

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Então cá estou e vou fazendo

Como sempre fiz e sempre hei-de fazer,

O que de mim se espera.

Já comprei as limas, os pinhões,

O Moleskine e o queijo da Serra.

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.Já vai há uns anos, estava eu muito descansada a conversar com alguns amigos num bar do Porto quando me aparece, a investir na minha direcção, com um sorriso de orelha a orelha e um amigo de cabelo à pajem platinado ao lado,  um jovem bonito, obviamente feliz , cuja cara me era conhecida. E ataca em simpatia com uma declaração que me deixou perfeitamente desconcertada:

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“Professora!!! Lembra-se de mim? (Lembrar, lembro, não faço é a mínima ideia de onde), sou o (nome) da (localização geográfica), (ahhhh... - reconheci-o, era um pequenino gorducho e fofíssimo do ciclo preparatório; e veio a declaração) - Professora, fez uma coisa importantíssima para a minha vida: lembra-se de me ter apanhado a fazer uns desenhos de homens nus numa aula? (hmmmmm... não, não me lembro mesmo.)

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“- Foi um momento muito importante para mim! É que eu fiquei de todas as cores, mas a professora, em vez de me ralhar, gabou-me os desenhos, disse que estavam muito bem feitos, que desenhamos sempre melhor as coisas de que gostamos e que eu devia insistir e fazer mais. Foi a primeira aceitação positiva da minha homossexualidade e a partir daí eu comecei a encarar-me doutra maneira. Mudou a minha vida.”

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Uau... Eu fiz isso tudo? E de repente caiu-me em cima o peso da responsabilidade do que fazemos a estas pessoas novinhas, como folhas de papel em branco, onde podemos desenhar portas abertas para a vida ou aloquetes muito difíceis de partir. E senti, momento raro, uma pontada de orgulho em mim mesma.

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Tradução de uma "short story" de Max Frisch - "Der andorranische Jude" (sujeita a algumas futuras correcções)

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Em Andorra vivia um jovem tido como judeu. Merecem ser contadas a suposta história da sua proveniência, e a sua relação quotidiana com as gentes de Andorra, que nele vêem o judeu: a imagem acabada que o espera em toda a parte.

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Por exemplo, a desconfiança sobre o seu coração, que um judeu, como as gentes de Andorra também sabem, não pode ter. Chamam-lhe à atenção a agudeza do seu intelecto que, precisamente por isso, se aguça à força. Ou a sua relação com o dinheiro, que em Andorra tem também um importante papel:

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Ele sabia, ele pressentia, o que todos sem proferir palavra pensavam; pôs-se à prova, tentando apurar se seria mesmo assim, na verdade, se pensaria constantemente em dinheiro; pôs-se à prova, até que descobriu que era assim, de facto pensava constantemente em dinheiro. Confessou-o; assumiu, e as gentes de Andorra trocaram olhares, sem palavras, quase sem mover um canto da boca.

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No que diz respeito à Pátria, ele também sabia exactamente o que pensavam. Sempre que deixasse essa palavra assomar-lhe à boca, deixavam-na cair como uma moeda caída na lama. Porque o judeu, isso também sabiam as gentes de Andorra, tem Pátrias que ele escolhe, que ele compra, mas não uma Pátria como nós, não uma de nascença, como nós, e por mais sério que fosse, quando se referia aos assuntos de Andorra, falava para dentro do silêncio, como para algodão.

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Mais tarde compreendeu que, claramente, lhe faltava tacto, sim, uma vez disseram-lhe isso directamente, quando, frustrado pelo comportamento deles, se tornou demasiado apaixonado.

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A Pátria pertencia aos outros, duma vez por todas, e não era esperado que ele a pudesse amar, pelo contrário, a teimosia das suas tentativas e anúncios abriam apenas uma fresta de suspeita; estava a esforçar-se por um proveito, uma preferência, uma lealdade, o que era visto como meio para chegar a um fim, mesmo que não se lhe visse qualquer objectivo possível.

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E assim decorreram as coisas até que um dia descobriu, com o seu discernimento incansável e a tudo atento, que na verdade não amava a Pátria,  já nem sequer a palavra que, de cada vez que a usava, o conduzia ao constrangimento.

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Evidentemente, eles tinham razão. Evidentemente, ele não podia amar o que quer que fosse, não no sentido dado em Andorra ; tinha o calor da paixão, como se sabia e, por acrescento, a frieza do seu raciocínio e isto era sentido como uma arma secreta, sempre pronta, da sua sede de vingança; faltavam-lhe o coração, a ligação afectiva; faltava-lhe, e isso era inconfundível, o calor da confiança.

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O trato com ele era excitante, sim, mas não confortável. Não foi sucedido em ser como os outros e, depois de ter tentado em vão não dar nas vistas, trazia o seu ser diferente até com uma espécie de teimosia, de orgulho e uma inimizade amorrodada por detrás, que ele, porque nem para si mesmo ela era confortável, cobria do açucar duma cordialidade negociada. E até quando se vergava, era com uma espécie de acusação, como se o mundo inteiro fosse culpado dele ser judeu.

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A maioria das gentes de Andorra não lhe fazia nada de mal.

Nem nada de bom.

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Mas, por outro lado, havia gente em Andorra de espírito livre e avançado, como eles se denominavam, que se sentiam obrigados à humanidade: desprezavam o judeu, como sublinhavam, precisamente pelas suas capacidades judias, agudeza do raciocínio e por aí fora.

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Escoltaram-no até à morte, que foi horrível, tão horrível e nojenta que toda e qualquer pessoa de Andorra, a quem não tinha incomodado que toda a sua vida tivesse sido horrível, se indignou.

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Quer isso dizer que eles não o lastimaram, ou dito abertamente: não sentiram a falta dele – indignaram-se apenas sobre aqueles que o mataram e sobre a maneira como isso aconteceu, sobretudo sobre a maneira.

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Falou-se muito tempo disso.

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Até que um dia se descobriu aquilo que o próprio falecido não podia ter sabido: que ele era adoptado, filho de uns pais que foram descobertos, uma pessoa de Andorra como as outras –

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Não se falou mais disso.

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Mas as gentes de Andorra, sempre que se viam ao espelho, viam com consternação que eles próprios tinham os traços de Judas, cada um deles.

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Não deves fazer ícones de Deus,  diz-se. Podia também valer neste sentido: de Deus como vivente em cada pessoa, daquilo que em nós não é palpável. É um pecado que nós, tal como nos é feito, quase sem interrupção fazemos contra os outros. Excepto quando amamos.

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FRISCH, Max

1950   "Der Andorranische Jude" in Max Frisch Tagebuch 1946-1949, Frankfurt am Main, Suhrkamp Verlag: 35-37.

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Quando era muito jovem, na idade em que alguns narizes decidem crescer mais do que aquilo que tínhamos esperado deles, acompanhei espantada o percurso do meu, outrora pequeno e arrebitado, hoje um belíssimo exemplo do que não deveria ser um nariz de mulher vaidosa. Hmmm...

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Não fiz esta via crucis da adolescência dos espelhos só. A acompanhar-me tive uma amiga, que se poderia ter chamado Sara ou Raquel mas se chamava Luísa. Cujo nariz também decidiu de repente e ao mesmo tempo que o meu surpreende-la e tornar-se numa amostra da sua personalidade determinada e do seu espírito vivo, para além de ser um incentivo a abandonar os espelhos e dedicar o tempo a causas mais nobres do que a admiração dum nariz que nada tem de admirável, embora o contrário também não se verifique.

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Claro que as nossas personalidades determinadas, como se podia ver já pelos nossos narizes, não aceitaram de bom grado aquela súbita manifestação física. E, inspiradas pelo aparelho de correcção dentária que eu usava, resolvemos agir enquanto era tempo. E improvisar aparelhos de correcção nasal com uns elásticos grandes e fortes, que prendíamos numa volta atrás de cada uma das nossas respectivas orelhas. Foi assim que tivémos o nosso primeiro segredo. Porque é evidente que, se hoje posso falar disso a rir-me, na altura não achávamos de todo possível partilhar a coisa fosse com quem fosse.

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A Luísa era pobre, morava num bairro camarário e tinha um pai que parecia ao mesmo tempo novo e velho, parecia muito velho porque tinha o cabelo todo branco, estava reformado e sempre em casa, encerrado num mutismo algo inquietante e encolhido em si mesmo, tremendo como se fosse sempre inverno e um frio eterno tivésse tomado conta do seu corpo magro e encurvado.

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Uma noite em que fiquei lá em casa a dormir, estavamos a estudar para um teste no dia seguinte, ambas de corrector nasal rigorosamente esticado entre as orelhas, atrevi-me a perguntar-lhe: Luísa, que é que tem, o teu pai?

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A Luísa olhou-me,  a princípio, como quem não sabe se deve confiar algo acerca do que está terminantemente proibida de falar. Mas por algum motivo, o que muito me honrou, resolveu que sim. E explicou-me. Que era um segredo terrível. Que o seu pai tinha lutado contra o nosso governo e pertencia a um partido proibido. Fora preso, encerrado numa prisão onde, ouviram os meus ouvidos estarrecidos, a água salgada das marés subia, o que lhe causou problemas nos ossos de que nunca mais veio a recuperar.

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Além disso, ouviram os meus ouvidos cada vez mais estarrecidos, fora submetido a interrogatórios sob tortura de sono. O método, disse, consistia em não deixar as pessoas adormecer durante dias e dias a fio. O seu pai fora torturado dessa maneira durante tanto tempo que nunca mais recuperou. A Luísa não sabia porque fora libertado, sabia só que lhe devolveram um pai diferente, inofensivo, incapacitado para o trabalho e para a vida. E que por isso eram pobres.

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Esse foi um daqueles momentos na vida da gente em que as coisas mudam e nunca nada mais será como antes. Duma assentada compreendi o que a ponta visível do mundo de silêncio em que vivíamos tinha de tenebroso na sua parte submersa.

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O terrível segredo do senhor Ribeiro deixou de ser segredo passados três anos desse dia. Mas o senhor Ribeiro nem se deve ter apercebido. A Luísa, essa sim, nesse dia uma importante parte do seu pai foi-lhe devolvida. O sentido da sua luta, expresso na mágica alegria comovida, na voz recuperada  dum povo a sentir a liberdade.

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Na multitude das escolhas, só há uma possibilidade de sabermos o que queremos, é sabermos exactamente o que não queremos. Um estado de absoluta indiferença, de absoluta cinzentude e monotonia, não nos permitiria conhecer contrários. Só através da experimentação do sofrimento podemos ter uma vontade activa de ser felizes. Gratidão, o êxtase da harmonia, o êxtase do amor, só se pode conhecer e permitir se tivermos conhecido o contrário... carência, conflito, desarmonia, medo e solidão...

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Mas então, chega o dia em que sabemos exactamente o que queremos. Sabemos que tipo de vida queremos viver, que tipo de coisas queremos realizar, que tipo de amigos queremos ter, que tipo de relação amorosa queremos para nós e podemos deixar de afirmar o que não queremos e passar a afirmar o que queremos com toda a força.

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Nesse dia começamos a saber pedir.

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Pedir não é encomendar no futuro. Quem encomenda no futuro está a lançar no universo o padrão implícito de que não pode ter no presente. Pedir é saber querer agora, saber sonhar que se tem agora, saber permitir o ter como merecido agora.

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Deixamos de dizer que não queremos guerra e deixamos de pensar nela e cria-la com os nossos pensamentos. Passamos a afirmar que queremos a paz e é a paz que projectamos no mundo e que obtemos.

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Deixamos de dizer que não queremos as nossas dores e as nossas doenças e deixamos de pensar tanto nelas ao nega-las; deixamos  de afirma-las vezes e vezes sem conta lançando repetidamente o padrão das nossas doenças no universo. E passamos a agradecer os momentos em que estamos bem, a viver e a sentir que melhoramos, a projectar a saúde como um dado adquirido.

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Deixamos de pensar ad infinitum nas nossas contas por pagar e de repetir constantemente que não temos dinheiro para paga-las. E passamos a pensar activamente a abundância e a viver internamente a certeza de merece-la.

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Deixamos de viver o medo da solidão e de celebrar à direita e à esquerda a nossa carência e a nossa desilusão, passamos a saber que merecemos ser amados, a saber exactamente por quem, mesmo que essas pessoas ainda não se encontrem fisicamente ao nosso alcance; e elas não tardarão  em aparecer. Porque projectamos a sua existência nas nossas vidas e criamos essa realidade.

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Em suma, esquecemos os vaticínios de derrota e as descrições da nossa pessoa que outros e nós mesmos nos temos vindo a fazer desde que nascemos. Abandonamos todas as obrigações de sofrer, de penar, de pagar karmas. Abraçamos a plenitude e a abundância da vida de braços abertos com o nosso ser inteiro. Nada excluímos, nada recusamos, de nada nos privamos por acharmos que não merecemos. A nossa consciência e não  o nosso aparelho mental de auto-punição tornam-se no leme dos nossos passos. E podemos ser felizes.

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Não é muito ortodoxo, mas apeteceu-me pegar no último comentário que fiz no Blogue do Bp63 e desenvolver aqui algumas das ideias. Acho que o assunto vale a pena. Aí vai:

A emoção não cai do céu aos trambolhões. Ela é provocada pelo sentimento. Primeiro sentimos, como quem inspira. E depois emocionamo-nos. Com ou sem expressão. A expressão das emoções é como quem expira. Mas a emoção é já ponto de partida dessa expressão.

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É o sentimento a fazer o seu caminho de volta ao exterior passando do mental para o físico. Podemos ficar muito emocionados sem chorar. O choro é a respiração completa, a expiração, a manifestação por sinais exteriores do que vai em nós.

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Se a dor é sentimento, o nó na garganta é emoção. Mas só com a expressão física de um ai, de um poema, de um cantar, de um gritar ela se torna expressão.

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Um poema é a expressão racionalizada da emoção causada pelo sentimento. Uma forma pensada de chorar lágrimas às vezes há muito tempo não choradas. Um beijo, um abraço, são a expressão corporalizada da emoção causada por um sentimento.

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A emoção, a racionalidade, a acção, precisam de andar sempre em parceria e de se compensar, quando umas excluem as outras durante largos períodos de tempo.

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O caminho do meio, em que tudo é contemplado na sua devida proporção é o único caminho possível de dar bons resultados.

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Nesta vida que levamos, nós, os trabalhadores intelectuais (que somos todos os que andamos por aqui, não me venham com coisas) usamos muito a cabeça, alguns muito o coração (caso dos professores a sério, e de outros profissionais) mas muito pouco o corpo.

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Quando o usamos é em contextos que não pedem ou não implicam grande uso da cabeça. É muito mau, isso. Cabeça, corpo e coração deveriam ter oportunidades, renovadas diariamente, de se harmonizarem num trabalho sincrónico e equilibrado.

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A mesma coisa para os desgraçados dos estudantes, todos os nossos pobres filhos, os alunos das escolas que quase não se podem mexer da carteira e têm que pedir licença para ir deitar um papel fora ou aguçar um lápis. Horas e horas por dia sentados, a usar a cabeça como se não tivessem corpo - nem coração.

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Os professores são instados para se regerem por um conjunto de regras que, note-se bem, só funcionam se forem aplicadas por todos. O que é repetidamente lembrado e quem não as seguir à risca é exposto pelos colegas nas reuniões de conselho de turma.

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Além disso são confrontados com a obrigação de fornecerem uma planificação calendarizada e detalhada dos conteúdos (que são bem explicados no programa da disciplina) e de indicarem os que leccionaram. Não esqueçamos que no final de cada ciclo há um exame. Logo, os professores são pressionados para, no espaço de algumas horas – sempre poucas - de que dispõem por semana, desbobinarem conteúdos de programas extensos, o que acham que não podem fazer se aos alunos for permitido algum protagonismo.

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Por isso os alunos são constantemente pressionados pelos professores para assistirem, mudos e quedos, a longas dissertações sobre conteúdos massudos e muitas vezes destituídos da aplicação prática que permite não só a memorização, mas a interiorização e a reutilização activa e descontextualizada dos saberes.

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E quando não estão ali, estão a ver filmes ou jogos, de acção muitas vezes violenta, em que o corpo está quietinho e a cabeça se move em companhia dum ser virtual, onde projectam as energias e que lhes despoleta emoções e produções de adrenalina e outras substâncias que ficam às voltas no corpo sem terem por onde sair.

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Depois explodem como panelas de pressão. Agora que já não estou a fazer um comentário, pergunto-me, pergunto-vos, não valerá a pena arriscarmos enveredar por novos caminhos e dar às nossas crianças, com a nossa mão e o nosso olhar atento a orientar e a cuidar que encaminhem os passos sem se perderem em vielas, a oportunidade de se realizarem plenamente, autonomamente, como personagens principais da sua vida e do seu desenvolvimento?

Metodologias há-as e muitas. Só não as conhece e experimenta quem não quiser.

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Às vezes dava muito jeito ser indiferente. Ah, mas o que é isso de ser indiferente?

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As respostas da google: Indiferente limão com mel; indiferente filme; indiferente dicionário; indiferente dicionário informal; A wikipédia não responde a indiferente mas remete para desejo, porque o indiferente não tem ou simula não ter qualquer espectativa relativamente aquilo a que é indiferente.

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É muito mais chic ser indiferente do que não ser. A indiferença distancia, distingue, nega flancos ao inimigo. A cultura da indiferença é uma cultura de classes. A indiferença dos oprimidos nasce da apatia desesperançada e da vida de mexilhão de viveiro. A dos opressores nasce duma gestão lógica e cosmética dos motivos.

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A indiferença mata. Mata crianças e grandes. Mata por omissão. Nega direitos. Anula identidades. Nega existências. Gera olhos por olhos e dentes por dentes. Há mesmo quem diga que o oposto do amor não é o ódio, é a indiferença.

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A vida torna-se, por vezes, num caminhar vacilante no arame esticado entre a indiferença e o apego.

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Um dos mais estranhos fenómenos a que assisti na minha vida e que, tal como a maioria de vós nunca vi a olho nu, é o dos crop circles, ou em português, círculos nos campos:

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[YouTube:Ugq6frGlKVQ]

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Estas construções geométricas, desde mandalas a conjuntos de Mandelbrot, algumas complicadíssimas, quase todas difíceis de fazer no papel e olhem que eu percebo um bocadinho de geometria, são feitas em gigantescas proporções, com inter-relações espaciais duma exactidão desconcertante, ao que consta de noite, às escuras, em absoluto silêncio, sabe-se lá por quem, em searas pouco antes da colheita.

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Há teorias a propósito, claro. Os cientistas do costume dizem que aquilo é feito por humanos engraçadinhos que não reclamam louvores para o seu meritório trabalho porque têm medo de ser presos caso sejam descobertos – por terem estragado o trigo e invadido propriedade alheia sem autorização, está bom de ver, aliás estamos todos especialistas nessa matéria. Já apareceram uns tipos a reclamar a façanha para si, diz-se que com a intenção de desacreditar os "autênticos"; e parecem ganhar montes de dinheiro pondo os seus serviços ao dispor de empresas para publicidade. Mas não explicam os outros todos, os estranhos fenómenos que os acompanham, nem a sua complexidade...

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Há quem veja neles trabalho da inteligência de Gaia, a terra nossa mãe, apontando os seus chacras e centros de poder e partilhando informação aos seus filhos, outras teorias apontam para que sejam trabalho de UFOs, fala-se de que os relógios não andam dentro dos círculos autênticos, de que há radiações electro-magnéticas anormais, de que alguns contêm informação astronómica muito complexa e precisa e relacionada com o calendário Maia. E até existem filmes de bólidos misteriosos em acção:

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[YouTube:6M6vP8-SbU0]

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Enfim, um mistério...

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