- Apicultor
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- O PALHEIRO DO JORNALISTA (pág. 45 a 54)
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No regresso ao jornal, Rómulo não abriu a boca até que Raul, que conduzia, reconhecesse que o tema proposto não tinha grande sumo para notícia.
-Desculpa lá ó Rómulo, mas foi a melhor forma de começar a semana.
-Eh pá, espero que esta cena que hoje arrumaste, não torne a acontecer. Andas a querer dar em cima da Fátima a toda a hora, mas o meu e o teu futuro podem ficar comprometidos com os resultados das tuas invenções.
-Mas a Magda fez-te vertigens?
-É bom que penses bem no teu trabalho, porque se isto tornar a acontecer quem vai ficar com vertigens és tu.
-Eu? Então, tu assim que chegaste a casa da Magda, perdeste a força nas canetas e atiraste-te logo para cima da mulher, e eu é que fico com vertigens?
-Esta conversa fica por aqui, não quero que a Gilda saiba disto.
-Quem é a Gilda?
-É uma jornalista que nos últimos tempos…
-Espera aí, já sei quem é, tu andas com essa gaja?
-Não, só passei o fim-de-semana com ela.
-Pronto, está explicado toda essa tonteira. Quem diria que o Rómulo andava a voar com dois aviões…
-Raul, trata mas é de fechar a escotilha do teu avião, porque se a tua mulher desconfiar, ainda te deixa no aeroporto com a bagagem.
-Vira essa boca para lá, estava desgraçado, mas cuidado Rómulo, não viajes em voos muito próximos porque os aviões podem chocar.
-Eu não receio os choques, não sei é se aguento.
-Vai com calma, não quero perder um amigo.
-Obrigado pela tua preocupação, mas agora vamos trabalhar.
Depois daquele fim-de-semana, as crónicas e artigos escritos no jornal, por Rómulo, tinham-se desviado do habitual, refrescando mais as abordagens políticas que asfixiam os leitores.
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Num instante esquecia as críticas que fazia frequentemente aos colegas, das festas das amantes. Hoje vê-se defrontado com uma situação de tentações amorosas. Magda, uma provável amiga rameira, e Gilda a soberana agregada dos prazeres.
Com tal grandeza amorosa, a verdade era única. Continuava na companhia, lá em casa, dos velhos manequins entroncados de madeira. A semana estava a chegar ao fim, carregada de trabalho e tensão e sem nenhum sinal de Gilda.
Os hábitos não se perdiam. Ficava até tarde no jornal, a escrever, na companhia do telefone que tocava esporadicamente, passando em seguida para o fax.
As mulheres mantinham a tradição. Reservadas, submissas, sempre em expectativa de serem as presas e os homens os caçadores. E, sendo assim, não deixaria de armar um artifício para poder estar com Gilda. Telefonou-lhe.
-Então, como tem passado D. Gilda?
-Vai andando, sem notícias suas…
-O Jornal a Toca só sai na sexta…
-Lá estás tu com as tuas piadinhas.
-É verdade, posso antecipar o roteiro que vem publicado do jornal feito pelos meus colegas, ou tens outra sugestão?
-Não, diz tu.
-Temos os concertos do festival da música logo pela manhã de sábado.
-Ah, é muito erudito.
-Então, temos a baixa com várias sinfonias…montras com modas várias, caixas de sapatos esquecidas pelo chão e tens, ainda, pessoas simplesmente a passar…
-Diz-me uma coisa Rómulo, estás a traulitar em voz alta alguma futura crónica?
-Talvez… Mas então o que sugeres?
-Que tal ir passear em pastos de gado? Cheirar o campo? Podemos visitar uma quintarola e depois comer um peixinho grelhado num restaurante da especialidade.
-Mas que grande pescadora!
-Assim, tenho a certeza que te posso saciar, sem a desculpa do peixe se escapar.
-E depois, de tarde?
-Depois, podemos ir até minha casa ter bons momentos de leitura na biblioteca. Já leste o livro que levaste?
-Ainda não.
-Estou a ver que te concentras melhor na minha companhia.
-Já tinha esse costume, de ocupar o fim-de-semana com livros.
-É uma boa ideia, mas depois logo se vê. No sábado de manhã, eu telefono-te para te apanhar de carro, mas tem cuidado com as limpezas em casa, não te intoxiques na lixívia.
-Fica descansada, eu já arranjei uma senhora para fazer as limpezas.
-Vá lá, já abriste os cordões à bolsa!
-E à higiene.
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Tudo o que tinha programado naquele telefonema, era brisa que ainda sentia da ventoinha cansada de soprar dentro do Jornal a Toca.
O dia nascera abafado, sem a possível fuga da estufa que se fazia na rua. Gilda apresentou-se na rotunda combinada, como uma verdadeira flor que brotara dentro do seu carro, num berreiro orquestral agitado. Gilda esbracejava ao ritmo do som e os músicos saíam do carro com os grandes instrumentos nas mãos, para que Rómulo pudesse entrar. Os metais dourados, soprados em fôlego nas ponteiras pretas, coravam o rosto, vibrando os tímpanos. As hastes das bojudas caixas de cordas, iam à janela. Cabiam todos dentro do Peugeot, quebrando o espaço a conversas. Ela vinha trajada em vestes com cheiro a camponesa. Vestia uma blusa branca tão fina, que faria abortar qualquer ida madrugadora ao concerto de música no auditório. Rómulo aquecia o assento do banco de pele do carro, em movimentos incendiados na velocidade imprimida nas curvas em direcção à saída da cidade. Os seus seios soltos, baloiçavam em desmaio, separados pelo cinto de segurança. Estavam invertidos os sentidos do espectáculo musical com os dois espectadores no banco da frente do carro e o forte som de jazz vindo do palco detrás.
Rómulo ainda espreitou para o banco traseiro que ia vazio, mas o som era ensurdecedor. Encaminhavam-se, distanciando-se de costas voltadas ao concerto privativo. A testa de Rómulo começava a fumegar. Abriu o vidro da janela até baixo para sentir o fresco das gotas de suor, que limpava com a mão, sem entender a razão da música tão alta e da condução excitada de Gilda. A música, repentinamente, baixou quando começaram a entrar em zonas de terra batida. A velocidade voltou à de cruzeiro, com direito a paragem brusca junto de um campo de milho. Ela desliga, sai do carro e entra campo a dentro.
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Rómulo saiu calmamente do carro, sem imaginar o que se estava a passar desde a rotunda onde tinha sido apanhado por uma outra Gilda que não conhecia. Aproximou-se dela, atrás das folhas do milho onde estava agachada, de saia na mão, a fazer chichi.
-Não me digas que vinhas aflita há cerca de uma hora para fazer chichi?
-Quando vais a um concerto de música, interrompes o espectáculo para ires ao quarto de banho?
-Não, trato disso antes.
-Mas eu tratei de o fazer depois.
-Mas podias ter vindo mais devagar, não achas?
-Aí, tinha que parar duas vezes, e não gosto de ficar a meio do espectáculo.
-Gilda, o disco que vínhamos a ouvir podemos escutá-lo outra vez, se quiseres, mas em tua casa.
-Estás com medo que eu vá novamente por aí a abrir?
-Quero escutar os sons da natureza, como esse ribeirinho que acabaste de fazer.
Fizeram amor mesmo ali. Ela, agarrada a dois pés de milho, abanava-os até derrubá-los, caindo sobre as maçarocas ainda verdes. Possuída, estrebuchava de prazer, ombros caídos na terra. Escutam tiros de caçadeira vindos de longe, das caçadas na planície. Derreados, no chão, parecia uma falsa partida de 100 metros. Estavam fora da coutada, alheios às miras e terminaram a cúpula enterrados na terra.
Descansaram as narinas entupidas do pó dos torrões desfeitos na breve largada. Deitados, no silêncio sombrio do milho, começaram a sentir o coração a abrandar e escutavam o começo dos jactos lançados à rega do milho.
-Vamos refrescar-nos nos esguichos da agulheta?
-Rómulo, eu acho melhor lavarmo-nos, tu trazes aí pendurado um torrão…
-Coitado, está exausto, mas também não esconde a humidade onde se meteu.
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Ergueram-se no meio do milho, em direcção ao esguicho de água. Estavam mais borrados que escaravelhos. A água era expelida por apenas uma ponteira colocada acima da altura do milho e tinha a força de um canhão. Ela molhava o campo rodando em leque com pingos grossos. Posicionaram-se, especados, na trajectória mais carregada de água e assim esperavam, como dois putos, que a água os molhasse. A água aproximava-se, soando em rajada, vociferando nas folhas do milho. A passagem é breve mas suspirada. Por ali estiveram mais duas rodadas a banharem-se.
De cabelos escorridos, continuaram de carro, em pisadelas às bermas da estrada, fugidas ao alcatrão. Não era estreita, mas a velocidade imprimida não soava nada bem, levantando apenas nuvens de pó.
A paragem seguinte era religiosa. Entraram num restaurante onde decorria uma boda de casamento. A barulheira vinda da sala ao lado, era de festa.
Após almoçarem, regressaram a Lisboa. A meio da tarde, já dormitavam na casa de Gilda. Intervalados pela natureza do cansaço, lutavam por estar acordados, em conversas pestanejadas e olhares beliscados em lentos beijos, até adormecerem.
Assim que a manhã chegou, depois de tomarem café, Gilda mandou Rómulo para casa, revelando uma pura necessidade de estar só.
Rómulo estava confuso, mas saiu mudo, rosnando com o bater da porta.
Ela parecia que tinha medo da atracção ou de poder vir a amar. Rómulo não acreditava que Gilda quisesse somente prazer. Encarregou os cenários ao futuro, guardando os momentos bons que já tinham passado.
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Segunda-feira de manhã, Magda apresenta-se no Jornal para o seu primeiro dia de trabalho.
-Bom dia Magda, então vamos às limpezas?
-Eu pensava que conseguia fazê-las sozinha…
Magda acabava de lhe abrir o desejo libidinoso, desconcentrando-o do trabalho. O seu desejo brotava fluxos de sangue cada vez mais fortes, apinhando-se em desconforto na cadeira.
-Sim, claro. Eu acompanho-a lá cima para lhe mostrar a casa.
Subiu as escadas na frente e abriu a porta.
-Faça o favor de entrar, faça dela a casa mais limpa de Lisboa.
-Não precisa de exagerar…
Rómulo, mostrou-lhe as divisões da casa rapidamente e deixou-lhe a chave.
-Fique com a chave, pode necessitar de sair.
-Sim, mas onde é que guarda os apetrechos da limpeza?
-Está tudo dentro deste armário.
-Quer que lhe faça o almoço?
-Não obrigado, mas se fosse um jantar para duas pessoas…
-Fique descansado que eu faço, mas eu não vou poder fazer companhia.
-O que sobrar fica para amanhã.
-Quer que faça algum prato em especial?
-Não é difícil de escolher. Dê uma olhadela dentro do frigorífico e se faltar alguma coisa, fica aqui dinheiro para o que for preciso, faça ao seu gosto.
Rómulo voltou ao Jornal para arrefecer os apetites que a mulher lhe dava.
À noite, quando entrou em casa, ela apresentava-se como nunca, cheirosa e arrumada. Entrou na cozinha para ver o que Magda lhe tinha deixado para o jantar. Pelo aspecto era empadão, mas não sabia de quê. Merecia uma comemoração.
Sentiu-se com vontade de convidar Gilda a conhecer a sua casa e telefonou-lhe a convidá-la para jantar. Ela aceitou de imediato o convite e Rómulo começou a tratar de pôr a mesa.
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Abriu vários gavetões à procura de uma toalha para a ocasião e a única coisa que encontrava eram tecidos lisos sem estampados. Já tinha revirado vários gavetões e lá encontrou algo mais conveniente para cobrir o tampo da mesa. O tecido ainda não era toalha, mas a partir daquele momento passou a ser, mesmo a cheirar a naftalina. Estendeu o tecido, pegou numa tesoura, e toca de cortar a peça de linho para o tamanho da mesa. A toalha atraiu-o pela cor natural. Parecia papel velho. Por cima da toalha, colocou a louça antiga. Eram os pratos que trazia a uso e ainda restavam alguns. Tirou dois copos da cristaleira carregados de pó. Lavou-os apressadamente, não se fossem partir. Ainda escorriam água e já esperavam na mesa pelo momento de serem enchidos com um bom vinho. A mesa estava posta. Preparou um CD de música para quando ela chegasse. Faltava só a presença de Gilda. Abriu uma garrafa de vinho velho tinto para respirar. Esta está cá na casa desde o tempo do tio Grou. Uma grande reserva San Marco 1970. Esperou longos anos por um momento especial. Espero que esteja boa. Pelo seguro abriu outro, também tinto, mas mais recente.
Rómulo, dentro de casa, nunca se sentia sozinho. A máquina de costura permanecia tapada como o tio a deixou. A sala de estar mantinha um ar de casa de alfaiate. Dois manequins de madeira decapitados, mantinham-se em pé, posando só de casaco. Espero que a decoração da casa não lhe tire o apetite que costuma ter. Finalmente a campainha tocou. De porta entreaberta, esperava-a sentado, virado para a entrada, seguindo o único som dos saltos altos nas escadas.
-Posso…?
-Espero que sim…
Ela empurrou a porta e entrou. Gilda dirigiu-se de imediato para o beijar, mas Rómulo moderou os afectos.
-O que fizeste para o jantar?
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-Empadão.
-E pode-se saber de quê?
-É surpresa.
Serviram-se de vinho e passearam pela casa em visita, sem guia, murmurando uma repetição do anterior encontro.
Abraçados param em frente de uma porta fechada.
-Esta divisão é a continuação do jornal, onde venho de vez em quando para escrever as partes da minha vida privada que mais gosto.
Gilda abre a porta e encaminha-se para a cadeira da secretária. Sentada, pediu de imediato para que lhe lesse alguns dos seus textos.
-Abre a gaveta do meio da secretária e vê a desarrumação. Está tudo ao monte, apontamentos, textos…parece um palheiro.
Gilda abre a gaveta, apanha uns papéis e recosta-se na cadeira a lê-los.
-Gilda, deixa isso, fica para outra altura, vamos é aquecer o jantar que está no forno.
-Sim, eu ajudo-te.
Rómulo preparava uma salada para acompanhar o empadão e Gilda bebericava vinho. Estava tudo pronto na mesa e Gilda fez um reparo à toalha.
-O teu tio não terminou esta toalha?
-Porquê?
-Não fez bainha, e está um tanto ou quanto aos ziguezagues.
Rómulo não se desfez, não revelando o seu jeito, ou falta dele, para o desenrasque, e pôs o tio ao barulho.
-Sabes, no final da vida do meu tio Grou, a vista já não era a mesma. Ele ficou atribulado com os problemas de Alzheimer, deixou os fatos e começou a fazer toalhas.
A mesa era um pouco grande e Rómulo levantou-se para a servir.
-Cheira muito bem. Foste tu que fizeste?
-Não, foi a senhora que faz as limpezas cá em casa.
-Então sempre arranjaste uma empregada?
-Depois daquela última tentativa de limpar a casa, em que ia
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morrendo intoxicado com lixívia, entreguei as limpezas a quem as sabe fazer.
-Vamos lá ver se ela tem mãos de cozinheira.
Rómulo pega no seu prato e, quando se servia de empadão, a colher apanhou um valente osso, que lhe cai no prato.
-O que é isso? - pergunta Gilda.
-Não sei, deve ter-se escapado um ossito.
Gilda espreita e diz-lhe:
-Um ossito, se faz favor, isso parece um pescoço de galinha.
-Bem, não vou comê-lo com certeza, muito menos sancionar quem fez o jantar, pois não seria capaz de fazer um empadão tão delicioso.
-Lá isso é verdade, está delicioso.
O silêncio parecia que se tinha sentado à mesa. Só se sentiam as ferramentas que compõe a orquestra, em fusão exclusiva dos metais a dois.
-Rómulo, não tens música para acompanhar o jantar?
-Tenho, esqueci-me de o pôr a tocar. É falta de hábito.
Rómulo tratou de imediato de ligar a sua mini aparelhagem, com o CD pré escolhido de Ella Fitzgerald.
-Espero que gostes, faz-me sempre lembrar a calma do corte e costura desta casa de outros tempos, não achas?
-Não sei, nunca aqui tinha estado, mas gosto da música.
O ambiente foi quebrado com o toque da campainha.
-Quem será? - pergunta Rómulo.
-Não sei, queres que vá ver?
-Não, eu vou, faço as honras da casa.
Quem era já tinha subido as escadas e esperava na porta de entrada.
-És tu… Entra, estou a jantar com uma amiga.
-Não é preciso, vim só para te entregar a chave da casa que levei sem querer.
Rómulo insistiu e Magda entrou para o hall que dá para a sala e depara-se com o cenário que lhe revoluciona as vísceras até à boca.
-O que é que se passa aqui?
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Rómulo sabia que Magda falhava por vezes com as pancadas, talvez por não ter jantado ou coisa que o valha.
-Vocês podem explicar-me o que se está aqui a passar?
Rómulo tentou acalmar Magda, mas foi enxotado como um cachorro.
-Eu estive a cozinhar para esta gaja!
Gilda estava petrificada à mesa a ver aquele histerismo.
-Oh Magda, eu acho que te estás a passar, é melhor ires-te embora.
-Vou embora mas primeiro…
Avançou como uma fera, de mão fechada, e desatou aos murros à cabeça de Gilda, arrancando-a da cadeira. Estavam embrulhadas no chão e Rómulo não conseguia arrancar a fera da Magda de cima da Gilda. Conforme lhe batia, respingavam frases:
-Porquê é que me roubaste, porquê?
-Rómulo, ajuda-me! - gritava Gilda.
Rómulo agarrou-se às mãos de Magda, para amortecer a surra que estava a levar Gilda, caindo em cima das duas. Tombados os três, Gilda consegue escapar das garras da fera que abandona a presa, e desata a chorar.
Diz Gilda:
-Essa mulher é doida.
-Fui doida sim, quando confiei em ti e te levei para minha casa, sua p***. E tu, meu cabrão, eras tu que ias editar o que eu escrevi?
Entra ao ataque Rómulo:
-Espera aí, foste tu que roubaste os escritos da Magda?
Gilda, de mãos na cara, responde:
-Eu não sei de escritos nenhuns, apenas tivemos um caso amoroso as duas, há muito tempo.
-Foste tu sim, que dormiste na minha cama, e no dia seguinte desapareceste com a pasta que te mostrei.
Intromete-se Rómulo:
-Agora Gilda, quem quer saber o que se passou, sou eu, que já escrevi sobre o roubo dos escritos de Magda.
Defende-se Gilda:
-Basta de ameaças, porque ela não tem testemunhas do que afirma, ainda lhe pode vir a sair cara a violência com que me tratou e ainda vir a ser acusada de difamação.
Gilda saiu de casa em silêncio, toda arranhada, com a cara e braços cheios de negras dos carimbos bem marcados de Magda.
As semanas que se seguiram, foram-se amontoando em esquecimento do sucedido. As limpezas profundas de namoro triplicaram, esperançados de não virem a ser incomodados por Gilda.
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Esta história foi adaptada do original®
Apicultor
- O PALHEIRO DO JORNALISTA (pág. 37 a 44)
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Deslocavam-se de carro para o local combinado e, pelo caminho, Raul começou a contar a Rómulo tudo o que sabia acerca de uma mulher que lhe tinham apresentado uma noite num bar.
-Estava eu a beber o meu copo na companhia da minha amásia…
-Mas qual delas era? - pergunta de imediato Rómulo.
-É pá, ouve até ao fim, e não me interrompas. Estava eu com a Fátima lá no bar e chega junto dela uma gaja que desconhecia. Abraçaram-se como se não se vissem há muito tempo. A Fátima apresentou-ma, expondo-me de imediato a bronca em que a amiga se tinha metido. Ela tem um blog onde escreve e, após algumas mensagens privadas com uma fã que a elogiou pela forma e conteúdo da sua escrita, marcaram um encontro. Ao que parece também faz ou já fez uns servicinhos através da Internet.
-É fufa?
-É pá não lhe perguntei, mas espero que tu não lhe perguntes uma coisa dessas.
-Sim, claro, mas continua.
-A simpatia foi crescendo e o interesse da fã pela sua escrita, levou-as a conhecerem-se.
-Levou-a para casa?
-Não sei, mas a dona do blog entusiasmou-se e ficou sem o seu manuscrito, que parece ter ficado nas mãos da admiradora. Passaram-se entretanto seis meses que a mulher sumiu com as peripécias amorosas que tinha em casa.
-E não há pistas de quem seja?
-Não. Também não sei como tudo aconteceu.
-Então, qual é o problema, é isso que vamos saber…
-Pois é, mas vamos com calma, que a gaja está de rastos.
Rómulo estava cheio de fome e propôs a Raul irem comer alguma coisa, antes de fazer a entrevista.
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-Vamos comer, que eu já tenho ratos no estômago.
-Olha lá, a entrevista foi marcada para esta hora para almoçarmos e, com calma, irmos fazendo as perguntas.
Entraram os dois no prédio onde Raul tinha combinado encontrar-se com a Fátima e a desastrada amiga.
Subiam as escadas e Rómulo pergunta:
-Como é que ela se chama?
-Tem calma, já te apresento.
No último lance de escadas, de porta aberta, aguardava Fátima.
-Estamos atrasados? - pergunta Raul.
-Não, eu vi-vos a chegar da janela. Entrem, a Magda está na cozinha a terminar uma sobremesa.
Rómulo estancou no último degrau e não entrou. Parado, apoiado no corrimão, respirava fundo.
-Rómulo estás pálido, tu estás bem? - pergunta Fátima.
-Foi uma pequena vertigem… preciso de água…
-Entra, vem até à cozinha.
Rómulo, quando entrou na cozinha, deparou-se com uma bela mulher que ainda lhe aumentou mais as vertigens. Conforme aproxima a cabeça para cumprimentar Magda, apoia-se com as mãos nos seus ombros, e deixa-se escorregar pelos seus seios, até se curvar, fraquejado, no meio das pernas de Magda.
Raul, manda um salto para ajudar Magda que o segurava pelos braços. Sentou-o no chão, amparou-lhe o corpo mole, com a cabeça caída sobre as suas pernas e, em segundos, voltou a si.
Em voz alta diz Raul:
-Então, é assim que se cumprimentam as pessoas?
Fátima, prepara de imediato um copo de água com açúcar.
Rómulo sorri, bebericando, amparado por Magda.
O sangue voltava a fluir normalmente ao cérebro.
-Mas eu ainda não te cumprimentei…
-Não, quase que me despias toda, que ideia é essa, és sempre assim?
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Magda, de saia curta, permanecia agachada na sua frente.
A fraqueza não murchou a vontade de apreciar:
-Mas gosto das tuas pernas.
De imediato Magda reanima-o de vez, com uma grandíssima bofetada.
Fátima finalmente diz alguma coisa:
-Ah, agora estás melhor, já tens cor e tudo…
Levanta-se do chão, senta-se numa cadeira e pede desculpa:
-Hoje ainda não tive tempo de comer nada, e a subida destas escadas deixaram-me exausto.
Raul, serve-lhe um copo de vinho e diz-lhe:
-Pois é, não tinha elevador, foste de escorregão…
Rómulo sorriu e respondeu:
-Magda, desculpe, isto não fazia parte da entrevista, mas eu espero que possa contribuir de forma positiva para o seu caso.
-Alguém quer sopa? - pergunta Magda sugerindo que fossem todos para a mesa posta na sala. Ninguém respondeu nem se moveu, observando o avanço atrevido de Raul, que destapa uma panela em cima do fogão. Liberta-se um vapor e, de nariz no ar ao cheiro a carne estufada, belisca com os dedos e leva à boca um pedaço de carne, deixando-os de água na boca. Fátima, esfomeada, diz:
-Magda, pega no esparguete que eu levo o tacho da carne para a mesa, a sopa fica para o fim.
Os dois homens seguiram-nas cheios de vontade de ajudar.
Todos estavam já servidos e a música dos talheres ocupava a vez das línguas silenciosas, lavadas de vinho tinto.
Raul faz uma pausa e encosta-se na cadeira para questionar o colega:
-Olha lá, tu ontem à noite ficaste até tarde ainda a fazer limpezas?
-Fiquei, e ainda não está tudo.
-Tens que arranjar alguém para te fazer a lida da casa.
-Tens razão, às tantas as náuseas também estão relacionadas com as limpezas de ontem.
-Porquê, não me digas que estiveste o fim-de-semana em limpezas domésticas?
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-Não, comecei ontem, mas devo ter usado muita lixívia e senti-me mal.
-Mas tu não me disseste nada!
-Foi assim. Ontem, quando estava a limpar a casa, senti umas náuseas e saí de casa para apanhar ar, mas na rua é que vi que não tinha chave de casa, foi quando te telefonei.
Em tom irónico, Raul exclama:
-Com tantas náuseas, não me digas que estás grávido?
Magda intervém na conversa:
-Mas afinal quem é que está a precisar de ajuda, sou eu ou é o Rómulo?
Responde Raul:
-Eu, não tenho nada a ver com a questão do Rómulo, nós estamos aqui para te ajudar no que pudermos, mas quem sabe se ele não gostaria dos teus préstimos.
Rómulo bate com os talheres no prato e diz:
-A comida está muito boa, e espero que tu Raul aprendas a saber respeitar as pessoas, qualquer dia perco a paciência…
Diz a Fátima:
-Calma Rómulo, deixa-o falar, é do vinho.
- Se não pode beber vinho, beba água.
A conversa ficou por ali. Raul levanta-se e vai ao quarto de banho.
Magda sana de vez o desatino e disponibiliza-se a ajudar Rómulo:
-Eu posso fazer a limpeza na tua casa, desde que pagues.
-Queres mesmo?
- Não fiquei inválida pelo facto de me terem roubado um manuscrito que fui escrevendo ao longo de alguns anos. As limpezas fazem parte de muitos outros trabalhos que faço.
-Está combinado então, pode ser uma vez por mês? - pergunta Rómulo.
Acarinhando a situação, Magda insinua simpatia e pergunta:
-Por mim está bem, mas parece-me pouco.
-Mas eu ainda não disse quanto pago…
-Eu refiro-me à limpeza mensal que propôs, bem o preço faço eu.
-Porquê, acha pouco uma vez por mês?
Magda, insiste:
-Posso fazer uma pergunta indiscreta?
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-Claro que pode.
-Quando urina na sanita, fá-lo de pé ou senta-se?
-De pé!
-Eu acho melhor sentar-se, se quer ter pelo menos o gosto que uma senhora como eu, vá a sua casa e se possa sentar na sanita, para fazer um chichi. E já agora, cozinha em casa ou come sempre fora?
Rómulo estava pasmado com as perguntas da Magda e continuava a responder.
-Normalmente como em casa.
-Deve estar linda essa cozinha…
Fátima intervém:
-Ó Rómulo, uma vez por semana, pelo menos.
-Só falta chamarem-me porco. Olhem lá, eu tomo banho.
Entra na sala Raul e só ouve a última parte da conversa.
-Estou a ver que vocês já despiram o homem. Quem é que vai fazer café?
-Eu vou fazer, mas não querem sobremesa? - pergunta Magda.
-Traz, come-se tudo. - diz Raul.
Magda apresenta na mesa uma tarte de coco feita por ela. Todos comem e bebem café sem tocarem no assunto que os levou a almoçar em sua casa.
-Parece que estava tudo bom, mas a que se deve a visita dos senhores, pois a Fátima já faz parte da mobília da casa?
Diz Raul:
-A história é tua. Quando quiseres podes começar, mas se não te importas empresta-me uma caneta e um bloco de papel, porque deixei o meu no carro.
Pasmada, pergunta Magda:
-Fátima, eles são mesmo jornalistas?
-Não parecem, mas são.
Magda começou a desbobinar a sua história.
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Crónica IV
Os manuscritos de Magda
Mudaram-se os ritmos dos relacionamentos com a chegada da Internet. Magda tem 43 anos, é uma mulher atraente, eleva-se muito bem em cima dos seus saltos altos, que proporcionam vertigens aos homens mais distraídos. Quando quase tudo parece perfeito e maravilhoso, consegue surpreender com a sua inteligência. Mas foi nas aparências dos costumes antigos que se deixou levar. Iniciou-se na Internet no MSN. A sua maturidade chegava para saber distinguir uma flor de uma pedra. Por lá, fazia os seus engates à primeira, assegurando amizades que conserva com estima. Rapidamente viu a sua conta bancária a aumentar. Relacionou-se com cavalheiros que não lhe davam descanso, ao ponto de serem raras as vezes que ligava o computador para se encontrar com amigos, clientes, incluindo o seu próprio médico ginecologista, que também não resistiu em “medicá-la.” Hoje está mais calma e pálida, com as provas visíveis de permanência como em cascos de carvalho.
Há cerca de três meses, conheceu uma fã um pouco mais nova que ela. Essa fã, para além dos elogios que deixou no seu blog, demonstrou querer conhecê-la pessoalmente. Magda, pela tarimba da vida, não supôs mais nada que não fosse uma relação casual entre duas mulheres acesas, prontas ao deleite. Entusiasmada, aceitou o convite. Encontraram-se num café, perto de sua casa. Não conversaram muito, porque já o tinham feito através de e-mails e Messenger. No café, para além do café que bebeu cada uma, emaranharam as mãos transpiradas que pareciam ter íman. Olharam-se como verdadeiras fufas. Dali saíram em direcção a casa de Magda que ficava a menos de 200 metros. Quando entraram em casa, já as mãos sábias da fã percorriam lentamente o corpo de Magda.
Magda, para além do seu corpo, mostrou-lhe a única pasta onde
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guardava todos os escritos com histórias da sua vida. Leram e embrulharam-se várias vezes em orgasmos. Numa das pausas, a fã propõe a Magda apresentar todos aqueles escritos a uma amiga com referências literárias. Magda, atordoada, ainda hesitou, mas de imediato lhe tirou a pasta das mãos negando tal proposta. Magda não tinha grande conhecimento literário para poder avaliar o que continha a pasta.
Beberam vinho e a fã, enquanto permaneceu dentro de sua casa, provocou-lhe, também, alguma embriaguez.
Quando acordou, já a fã tinha sumido, levando apenas aquela pasta.
Desde esse dia, nunca mais voltou a obter qualquer sinal de vida da fã. Apenas ficou com um e-mail que está mudo.
Magda tem vindo a escrever novas histórias, mas com cópias de segurança.
O depoimento ainda não tinha terminado, já Raul e Fátima se tinha pirado para os fundos da casa. Rómulo tentava consolar Magda, propondo-lhe a participação do caso às autoridades, mas foi-lhe negado de imediato, enquanto recolhia a louça suja da mesa e se dirigia para a cozinha, seguida por Rómulo, com o resto da sobremesa nas mãos.
-Magda, não queres guardar a sobremesa?
-Põe aí no frigorifico.
-Sabes Magda, o mais natural é que não venhas a recuperar os teus escritos, mas ainda podes reconhecê-los com algumas transformações em alguma livraria, numa prateleira da especialidade.
-Aqueles escritos fazem parte da minha intimidade, da minha vida, e não os quero ver numa prateleira qualquer.
-Fica descansada, se alguém comunicar para o jornal algo relacionado com o artigo que vou escrever, eu mesmo tratarei de te informar.
43
-Queres tomar mais alguma coisa? - pergunta Magda.
-É capaz de ser melhor. Aqueles dois não saem lá de dentro?
Magda, de sorriso nos lábios, tira dois pequenos copos do armário e uma garrafa White-Horse e diz-lhe:
-Porquê, precisas de alguma coisa lá de dentro?
-Não, pode ser mesmo aqui.
-Mesmo aqui, o quê?
-Bebermos o whisky…
Entendidos na conversa, Magda serve dois whiskys sem gelo, brindam e bebem-no de trago.
Rómulo agarra-se à cintura dela e sussurra-lhe ao ouvido:
-Em trabalho não bebo, mas venha lá essa garrafa White-Horse.
-Toma, é tua.
Magda entrega-lhe a garrafa e afasta-se das manápulas atrevidas dele, com o barulho vindo das entranhas da casa. Raul entra na cozinha com a camisa fora das calças e de seguida Fátima, amarrando o cabelo.
Raul apercebeu-se da situação e arrefeceu a temperatura:
-Magda serve-me um com gelo, que temos que ir embora.
-Estás com pressa? - pergunta Rómulo.
-Eh pá, se quiseres ficar, isso é contigo.
Remata a Magda:
-Bebam lá isso e vão ao trabalho.
Rómulo não se esqueceu das limpezas:
-Então Magda, temos que combinar um dia da semana para me limpares a casa.
-Sim, mas eu nem sei onde mora!
-É fácil, moro mesmo por cima do Jornal a Toca. Pode começar já amanhã?
-Mas espere aí, então não limpou a casa ainda ontem e até ficou com tonturas quando aqui chegou?
-É verdade… Fica para a semana que vem. Acho que ainda não me recuperei das limpezas de ontem.
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(Continua)
- O PALHEIRO DO JORNALISTA (pág. 29 a 36)
-
Crónica III
O ar que respirava
A maioria das pessoas que vivem em países ditos desenvolvidos e com acesso mais facilitado à informação reconhece que o ar que respiram está cada vez mais inadequado para as exigências do mundo capitalista. Todos querem ganhar rapidamente, avançar, abraçar o futuro com todos os requisitos de comodidade. A poluição nas grandes urbes, sem os níveis desejáveis de qualidade do ar, pode reduzir a capacidade de oxigénio no sangue, limitando o pensamento.
Quem de facto tem poder, não quer travar grandes discussões mundiais para fazer cumprir o protocolo de Quioto. Afinal, os decisores (G8) ou os Goitos, entendem-se bem debaixo da cúpula, albergando milionários afortunados. Os verdadeiros fabricantes da ambição, tornaram-se imunes ao desenlace gradual dos dilúvios que calam berreiros lamentados nas subidas das águas e, lá ao fundo, já respiram os ventos com sopros que nos fazem voar. Oceanos e mares albergam o desconhecido das profundezas do Homem.
Rómulo, assim que entrou em casa, cheirou-lhe mal. Começava, de facto, a compreender melhor os odores da sua casa. Abriu de imediato persianas e janelas. O cheiro mais intenso vinha do caixote do lixo, que se esquecera de ir vazar. Até se deitar, não faria mais nada a não ser limpar e esfregar. Ele queria ver e sentir a sua casa asseada. Reparava em tudo o que estava sujo, coisa que até à data não notara. Demolhou os tachos e pratos que ocupavam a cozinha toda. Lavou com lixívia todas as divisões, incluindo a varanda que não usava, mas estava encardida. Dava os últimos retoques, todo transpirado, ao limpar os vidros.
29
Uma leve dor de cabeça, estava a atacá-lo, de algum exagero nas porções de lixívia. Entretanto, notou que tinha ganho um único prémio. Tudo lhe cheirava a lixívia, e a sua cabeça parecia estar no meio da rotunda, a girar sem querer parar. Deixou cair os jornais com que limpava os vidros e dirigiu-se para a porta de entrada de casa, cambaleando. Saiu batendo a porta, que lhe soou em eco, como se não morasse lá ninguém. Apalpou a parede procurando o interruptor da luz das escadas e nada. Continuava às apalpadelas na parede, que queimava de gelada que estava. Agora parece que o encontrei…Mas só zumbia a campainha de esperança em encontrar o interruptor da luz, mesmo ao lado. Mas não acendia, continuava tudo escuro, parecia tudo fora do lugar. Os seus sentidos estavam debilitados, mas não os perdeu. Agarrado ao corrimão das escadas, a luz foi vindo aos poucos, mas estava mais fraca do que o costume. Sentou-se no primeiro degrau e ali ficou, até voltar o raio da luz branca, forte, que existe nas escadas.
Restabelecido o fornecimento de energia, desceu as escadas e caminhou até à rotunda para respirar um pouco de ar. Àquela hora, os carros já não atordoavam em seu redor, conseguindo segui-los, sem dificuldade, a entrar e a sair da gorda rotunda.
Passado o susto, pôs as mãos nas algibeiras e sentiu a falta da chave de casa. Estava na rua, sem chave para entrar em casa, apenas com dinheiro para telefonar. Não quis fazer alarido com a vizinhança.
Um carro de bombeiros à porta do prédio do Jornal A Toca, poderia ser o suficiente para começarem a conjecturar um fim trágico ao Jornal.
Por outro lado era um bom motivo para ir pedir asilo a Gilda, por uma noite. Dirigiu-se para uma cabine telefónica e começou a rodeá-la como quem espera uma chamada.
30
Faltava-lhe só o número de telefone dela, que ficou em casa no casaco. Telefonou para casa de um colega de trabalho.
-Tou, eh pá, tens que vir aqui ao Jornal.
-O quê, que se passa?
-Então, saí de casa sem chaves e agora estou na rua.
-Vais dormir na Toca?
-Eh pá, não gozes, vem abrir a porta aqui do Jornal, eu tenho lá uma cópia da chave de casa.
-Está bem, daqui por vinte minutos eu estou aí.
Assim que chegou o colega Raul, chamou-lhe a atenção as luzes que raiavam para a rua, vindas da casa do Rómulo e perguntou-lhe muito admirado.
-Abriste as persianas de tua casa?
-É verdade, estava em limpezas, tive que sair e esqueci-me da chave.
-Ai, ai, tu andas em limpezas em tua casa… cheira-me a perfume de mulher...
-Olha, a mim, só me cheira a lixívia.
-Então, quando é que a vamos conhecer essa dona que usa perfume de lixívia?
Rómulo engrossou a voz.
-Então, já não há respeito!
O colega abre-lhe a porta do Jornal, e deseja-lhe boa noite.
-Boa noite e obrigado por teres vindo.
Rómulo entra no seu gabinete, e vasculha no fundo das gavetas.
-Aqui está ela.
Abandona o Jornal em corrida, como um verdadeiro ladrão. Sobe a casa e vai direitinho ao bolso do casaco apanhar o papel com o número de telefone e liga de imediato para Gilda do seu telefone fixo.
-Ainda estás acordada?
-Quem fala?
-Sou eu, Rómulo.
-Estás com saudades?
31
-Ó Gilda, nem imaginas o que me aconteceu.
-O que foi?
-Queria pedir-te um favor.
-Fala, o que se passa?
-Saí de casa sem as chaves e agora estou na rua, será que posso dormir esta noite em tua casa?
-Estás a mentir?
-É verdade, estou aqui na rotunda perto de casa.
-Vejam bem o que foste inventar para dormires comigo.
-É verdade, e estou com poucas moedas para poder estar a falar ao telefone.
-Pronto, eu vou aí buscar-te, à rotunda.
Rómulo desliga o telefone, baixa as persianas e sai de casa deixando as chaves no Jornal, e desce mais uma vez à rotunda dos amores. Ali ficou, plantado junto do sinal intermitente, a piscar em auxílio a uma mentirola.
Rómulo mirava todos os carros que passavam por ali e ansiava avistar o de Gilda, Peugeot, verde-escuro, grande. Se ela não aparecer, terá que dormir na rua, de castigo. Não se sentia em situação de pedir auxilio e incomodar mais alguém.
O tempo que ali permaneceu, dava para dar uma volta completa a Lisboa de táxi. Mas lá aparece o raio do Peugeot escuro que dá uma volta completa e não parou junto dele, continuou a contornar a gorda rotunda e, só à segunda volta, é que afrouxou junto dele.
32
-Não me viste?
Gilda sorriu, e responde:
-Vi, mas era para ver a tua reacção.
-Ainda gozas!
-Tu é que pareces que não consegues dormir sozinho.
-Mas eu agora vou contar-te o que me aconteceu. Estava eu a limpar a casa, para a senhora Gilda não lhe colocar defeitos, e quem se ia lixando com as limpezas era eu.
-Como é que é?
-Com falta hábito nestas andanças, devo ter posto lixívia a mais e senti-me mal. Sai de casa meio pedrado com o cheiro, e bati a porta.
-Quer tomar leitinho na casa da Gilda para desintoxicar?
-Vê lá se o leite azeda antes de chegares a casa.
-Não precisas de ser grosseiro.
-Está bem, mas eu só bebo leite magro. É desse que tens em casa?
Gilda não lhe respondeu e voltou o silêncio apaziguador dos disparates, até parar o carro perto de casa.
-Rómulo, amanhã bem cedo tenho coisas para tratar e vais ter que apanhar um transporte.
-Não há problema.
Rómulo quando entrou no apartamento, silenciou por completo, no hall de entrada. Observava, embasbacado, as estatuetas iluminadas no grandioso hall. Ainda não tinha saído da entrada, já exclamava:
-A tua casa é soberba… Gilda onde estás tu?
33
- Entra, estou aqui na cozinha.
Rómulo avança pelo corredor iluminado e entra de boca aberta na cozinha.
-Que casa é esta, assaltaste algum antiquário? E isto não é uma cozinha, é uma magnífica copa com um janelão em vitral!
Gilda ria-se da pureza ingénua de Rómulo, enquanto aquecia uma chávena de leite para desintoxicar o olhar esbugalhado que não parava em observações.
-Toma, bebe isto para ver se ficas melhor. Esta casa tem este aspecto, graças à minha irmã que se dedica à decoração, e muitas das peças que aqui estão são dela, mas se fossem minhas, havia algum problema?
-Nenhum. Sejam tuas ou da tua irmã são muito nobres, e eu não entendo nada de arte.
-A minha irmã, não é muito reconhecida, mas faz decorações em casas mais do tipo clássico.
-Mas ela tem algum estabelecimento?
-Não, mas frequenta os meandros da arte. A casa dela está um pouco atulhada, são “ossos do ofício”. Os quadros são reproduções, que ela vai comprando em viagens que faz a outros países.
-Ainda não vi quadros?
-Estão na sala e nos quartos, amontoados outros embrulhados, encostados às paredes, mas peço-te um favor, não movas nada do sítio, foi o pedido que ela me fez.
-Não, fica descansada, eu sei o que é isso. Quando fui para a casa do falecido tio Grou, onde vivo, ele dizia-me o mesmo.
-Mas o teu tio também gostava de arte?
-Não, era mesmo artista, era alfaiate.
-Ainda deves ter lá por casa fatos feitos por ele?
-Sim, mas eu não os uso.
-Mas porquê, não gostas dos modelos que ele fazia?
-De vez em quando, em dias de festa, visto, mas não gosto de andar aprumado de cerimónia. Mas tenho que lhes dar um fim, penso que a traça os anda a vestir.
-Tens que me mostrar esses fatos.
-Quando quiseres.
-Agora vou mostrar-te o resto da casa, e depois vou dormir, que amanhã tenho que sair cedo de casa.
34
Rómulo seguia-a de chávena de leite na mão. A sala era grande, mas aconchegante. As paredes forradas com a cor das telas, salientavam formas indefinidas de força e movimento. Dentro da sala nada era decorativo, sentia-se a presença e a estima por arte.
-Não tens livros, nem prateleiras?!
-Na sala não, mas anda ver livros…
Atravessamos um pequeno corredor e entramos em mais uma divisão, onde as paredes não se viam. Estavam repletas de livros, do chão ao tecto e, no meio da divisão, um grande candeeiro de pé iluminava um cadeirão de aspecto confortável. Rómulo ficou embasbacado com a quantidade de livros e só a existência de uma janela rasgada até ao chão, deixava respirar tantos autores.
-O que é isto?
-São livros…
-Vais-me dizer agora que a tua mãe já coleccionava literatura dentro da barriga da tua avó?
-Não, estes foram adquiridos e oferecidos ao longo dos anos, mas não são assim tantos para uma leitora.
-Passas aqui muito tempo?
-Aqui ou em qualquer parte da casa, é um hábito, é como comer. Desculpa, mas tenho que me ir deitar.
-Vai, eu depois dou com o quarto?
-Dás de certeza, mas não me acordes que eu quero descansar.
-Vou ficar aqui mais um pouco.
-Fica à vontade, até amanhã.
Quanto maior era o cansaço, maior era a vontade de Rómulo em permanecer por ali, acordando autores que amontoava ao lado da cadeira, descentrando as descobertas. Já tinha amanhecido e Gilda era acordada no berreiro do despertador. Sentia-se exausta e o dia ainda não tinha começado. Apalpou o seu lado da cama e nenhum sinal quente dele. Respirou fundo mas estava completamente atordoada com a falta de descanso. Levantou-se em direcção ao quarto dos livros, e lá estava ele a dormir sentado no cadeirão com um livro na mão.
35
Abanou-o, e ele estremeceu, assustado.
-Que horas são?
-Sete e meia, vai dormir para a cama.
Ele levantou-se bêbado de sono. Gilda amparou-o para que não derrubasse nada pelo caminho, enfiou-o na cama e marcou-lhe de imediato o despertador para o meio-dia. Espero que este gajo vá à sua vidinha, olha eu agora a deitar homens…
A manhã estava mais que morta, mas o despertador deixado por Gilda, longe da cama, enxotava moucos do quarto. Rómulo levantou-se para livrar-se do despertador torturante.
Os músculos do corpo estavam doridos das limpezas do dia anterior e vestia-se, intrigado, sem se lembrar de se ter despido. Antes de sair, deixou-lhe um bilhete por baixo do despertador. “Adorei a tua biblioteca, vou levar um livro que me interessa ler, e obrigado por me teres ACORDADO”.
Desceu à rua e apanhou o autocarro até ao Jornal a Toca. Assim que entrou, foi de imediato abordado pelo patrão, com uma mão cheia de tópicos, que poisou em cima da sua mesa.
-Boa tarde Rómulo, quero que me desenvolvas estes trabalhos até ao final da semana, mas entretanto vai com o Raul ver se sabem mais alguma coisa sobre este caso.
-Mas eu não sei do que se trata!
-Tenho recebido muitas queixas anónimas aqui no Jornal, a denunciar atrasos de variada ordem. Muitas das questões prendem-se com as propostas dos originais junto das editoras.
-Sim, eu vi na televisão este sábado o caso do hipermercado.
-Pois é, mas esse trabalho o Raul já terminou, e agora quero que vás com ele para levantarem outros casos.
-Mas o Raul tem pistas dos desgraçados?
-O Raul, está a par do que se trata, mas eu quero a tua opinião nas entrevistas que vocês os dois vão fazer.
-Ponto, eu vou a casa tomar um banho e desfazer a barba.
Com ironia diz o patrão:
-Então, o fim-de-semana foi complicado?
-Foi tão perfeito, que sobrou alguma coisa…
-Está bem, vai lá que o tempo escasseia.
36
(Continua)
- O PALHEIRO DO JORNALISTA (22 a 28)
-
O diálogo entre os dois espaçou-se tanto que, se fosse uma emissão televisiva em directo, teria que ser interrompida. Gilda fazia vento com um livro grosso, aparentemente novo, nas mãos. Passava o dedo repetidas vezes por todas as folhas, a cheirar as páginas em adivinha. Aquele som irritava Rómulo.
-Se quiseres podes lê-lo…
-Não tens nenhum destino melhor para mim que contorne os obstáculos?
Rómulo percebeu a intenção, mas não lhe deu o troco que ela queria.
-Há uma forma de contornares os teus obstáculos…
-Sim, qual é?
-Ouve lá Gilda, se tu te identificas em voos salvadores, amanhã eu acompanho-te ao aeroporto para seguires a tua viagem.
Dito isto, levantou-se da cama em direcção à janela do quarto, e ali permaneceu encostado, como uma murcha sombra que aguarda resposta. A compreensão era um passo curto, mas suficiente para respeitar o espaço partilhado em menos de dois dias. Rómulo quebra o silêncio, para que o ar não ficasse mais pesado.
-Pois é, vamos pensar que os três livros que estão aí, tenham sido escritos por mim, faria alguma diferença para ti Gilda?
-E se fossem, seriam como todas as coisas que trazes dentro da mala, não é?
-Sim, mas imagina que os livros fossem da minha autoria, não gostarias de os ler?
-Claro, mas não agora.
Gilda estava confusa com a origem dos livros e pegou novamente neles, confirmando os autores.
-Vês, estes nunca os li, mas teus também não são.
-Eu só supus, e tu foste logo confirmar o autor.
-Claro, poderia estar perante um escritor num hotel, e seria muito gratificante estar junto de uma pessoa com tanta coisa para ler.
22
-Aí está, neste momento encontras-te com quatro num quarto de hotel, que tal?
Rómulo começou a calçar os sapatos mostrando-lhe que ia sair.
-Onde vais?
-Vou chamar mais três escritores aqui para o quarto.
-Não é necessário, chegas-me muito bem.
Gilda entendeu que tudo o que se estava a passar não passava de uma chamada de atenção para ler. Esticou-se em cima da cama com um na mão e começou a saborear a leitura.
O conteúdo dos livros agarrou-os com prazer, sem darem conta dos raios de sol que se desprenderam dos céus, sumindo as letras, borrando as linhas em riscos pretos.
-Fez-se noite depressa. - exclamou Gilda.
-É verdade, é um momento mágico.
Acenderam os candeeiros de parede que ladeavam a cama, e as letras voltaram a juntar-se.
Reconquistados, não por muito mais tempo. Recostados na cama, espreitavam por cima dos livros os pés de ambos, que namoravam em distracção. Este foi o primeiro de muitos intervalos que os visitaram noite fora, em interrupções para se saciarem.
Era Domingo. Gilda dormia ferrada na almofada. Saiu do quarto e voltou à rotina dos jornais. Era mais forte do que ele. Lia os tópicos, depois do pequeno-almoço, na sala junto à recepção. Deixou-se ficar por ali, de perna traçada, para deslizar por momentos a caneta no bloco. Rómulo estava sozinho naquela hora da manhã, sentado na fileira de sofás, de costas para a entrada da sala, e começou a registar uma história que já lhe tinha feito parar a leitura do jornal várias vezes. Os relatos do homem eram audíveis com nitidez. Quem estava a contar a história, estava mesmo junto da entrada da sala, na parte de fora. Rómulo virou-se várias vezes para trás porque, por vezes, até parecia que lhe iria entrar na sala tal personagem. Umas semanas depois escreveu a seguinte crónica no jornal.
23
Crónica II
Estados mentais
Saiu do hotel. Para além da actividade mental ainda tinha de andar. Quando passava ao lado de uma igreja, reparou em duas pessoas com um ar suspeito a sair pela porta das traseiras. Continuou a andar, em direcção à frente da Igreja, sem ouvir vozes ou orações, simplesmente o som de órgão que começava a tocar lá dentro. Ficou confuso… As duas pessoas que acabava de ver, não lhe pareciam freiras, nem frades ou padres. Estava prestes a acreditar que, o envenenamento, poderia ter entrado mais uma vez, pela porta das traseiras da igreja. Era possível que a maldade pudesse chegar à sacristia, atravessando a sala dos velórios… Parado, olhou o relógio da torre da igreja e aligeirou o passo, desorientado, para a igreja. Correu a cortina espessa, cor de sangue, iluminando a entrada pesada de gente sentada em longos bancos. A missa já iria a meio. Caminhou até ao altar ao pé do padre, interrompendo a eucaristia e disse:
-Padre, eu acho que as hóstias foram envenenadas.
-Não diga disparates e sente-se para eu prosseguir a homilia.
-Mas padre, o senhor não lê jornais?
Num gesto, o padre eleva os braços aos céus, em oração, e o inoportuno é acompanhado por um membro mais chegado da paróquia para fora da igreja.
Rómulo estava a passar um período conturbado, devido aos estudos mais recentes, efectuados em pesquisas sobre as mais variadas formas de um ser se intoxicar com informação, mas levantou-se, saiu da sala junto da recepção, deparou-se com os dois hóspedes e perguntou:
-Desculpem, mas de quem estão a falar?
-Não sei, mas pelo que me contou o empregado da recepção parece que está aqui hospedado.
24
Rómulo subiu o monte de escadas, atordoado com o que acabava de ouvir. Abre a porta do quarto e entra dentro de uma nuvem de vapor vinda do quarto de banho.
-És tu?
-Sou. Consegues ver-me? Com este nevoeiro ainda o barco encalha na praia.
-Não percebi o que disseste.
-O quarto está cheio de vapor.
-Não faz mal. Vem cá, faz de Adamastor.
Rómulo estava a dar em doido, despiu-se e entrou dentro do quarto de banho com o cabo em tormenta. Invade a banheira atestada de água a ferver, enlaçando com as pernas o corpo de Gilda.
-Onde andaste, tens os pés gelados?
-Eu acho que estive lá em baixo, na sala junto à recepção.
-Não tens a certeza ou não me queres dizer onde foste?
Embrulharam-se no silêncio, como adolescentes e, aos poucos, a água ia transbordando da banheira, ao ritmo das ondas calmas que rebentam umas atrás das outras na praia.
Estavam exaustos, com umas olheiras bem pintadas, lá dos confins mais fundos de uma mina de carvão.
Rómulo estava com os bofes na boca, mas exclama:
-Não me lembro de uma viagem tão intensa.
-Eu também não, mas ainda não terminou.
-Queres matar-me?
-Não é isso. Temos ainda de viajar dentro daquele comboio, e se tivesse trazido o meu carro a viagem era mais cómoda, podíamos parar sempre que pretendêssemos.
-Não sei se seria assim como dizes, mas fica para a próxima.
Estavam em pé, enrolados em toalhas, de frente um para o outro, trocando afagos. Já não haviam mais gotas de água para limparem, estavam secos. Olham-se firmemente olhos nos olhos, e fazem nascer gotas salgadas, sem ruídos. E elas chamavam, sem voz, outras lágrimas, e elas vinham, felizes em fio.
25
Vestiram-se, Gilda arrumou os livros e a roupa na mala, e saiu do quarto à frente de Rómulo com a mala na mão.
-Vais levá-la até à estação? - perguntou Rómulo.
-Só até lá baixo, à porta do hotel.
-Com que então, vais deixar-me à porta do hotel?
-Claro, eu fico mais uns dias, para recuperar o desassossego que me provocaste.
Desatam às gargalhadas pelas escadas, chegando à recepção, ainda com sorrisos de contenção. Rómulo fez intenção de pagar as dormidas. Afinal, foi ele que convidou Gilda a passar o fim-de-semana e a cama, apesar de casal, era só uma.
Pelo caminho até à estação, compraram umas sandes e aguardaram na plataforma pela hora da partida, junto de outras pessoas. Decididamente, Gilda dava-se mal com os cheiros. Conjecturava a viagem dos odores. Desta vez era o característico cheiro a ferro e creolina, das linhas de comboio, deitadas em escada sem fim. Rómulo, com alguma pachorra, tentava explicar-lhe que na viagem não iria ser assim.
-Tu sentes aqui fora, dentro do comboio não te cheira.
Depois de lhe dizer isto, chega a velha lagarta de ferro, que os levaria até Lisboa.
Entraram no comboio, na viagem da descompressão. Estavam mais calados do que nunca, as suas cabeças estavam cheias de interrogações. Desta vez ninguém dormiu, estavam vigilantes um do outro. Conforme as horas passavam e a aproximação à chegada se fazia, pareciam mais distantes em suspiros profundos. Rómulo não aguenta e parte a paz de Gilda.
-O regresso parece estar a passar muito depressa, não achas?
-Não, parece uma eternidade.
-Queres ler o livro que estavas a ler?
-Não, gostava de continuar a ler mas noutra altura.
26
Rómulo sorriu.
-De que te estás a rir? - perguntou Gilda.
-De nada. Eu dou-te o livro.
-Mas dás-me o livro para quê?
-Então? Para leres.
-Ah, eu pensava que podia ir a tua casa para o ler, percebes?
-Claro que podes, mas deixa-me limpar e arejar a casa, primeiro, senão não consegues lá entrar.
-Dá-me o teu número de telemóvel.
-Gilda, estou pasmado, como é possível, eu não me lembrar do telemóvel todo o fim-de-semana.
-Eu desliguei o meu assim que saímos de Lisboa, e tu?
Rómulo tirou-o de dentro do bolso do casaco.
-O meu está sem bateria. Usei-o para te tirar uma fotografia quando me deste boleia na rotunda perto de casa, lembras-te?
-Não me lembro, mas tiraste-me uma foto, na rotunda, para quê?
-Isso é uma história.
Gilda debruçou-se e pergunta-lhe baixinho.
-Mas como é, eu sou uma história?
-É assim. Eu tenho um amigo nos Estados Unidos, mais propriamente em Nova York, e, volta e meia, telefono-lhe de madrugada para conversar…
Gilda interrompe a história numa valente gargalhada.
-Olha lá, tu és homo…
-Não, não sou homossexual, ele é mesmo um amigo de longa data, que foi trabalhar e por lá casou com uma ciumenta americana.
-Mas tu conheces a mulher dele?
-Ainda não. A mulher dele anda desconfiada com ele, diz que anda metido com outra mulher, porque recebe as minhas chamadas de telefone à noite. Às vezes, já madrugada, ligo-lhe para lhe ler as últimas crónicas, as mais hilariantes que vou publicar.
-Ficava mais barato se lhe enviasses um e-mail.
-Mas se é amigo, não tem preço.
27
-Pagas tu ou o teu patrão?
-Pago eu, com os meus pulmões.
-Gritas com o teu patrão?
-Refiro-me aos cigarros que ele chupa sem respeitar quem lá dentro trabalha.
-Mas Rómulo, conta lá o que estavas a contar.
-Agora prometi-lhe que lhe enviava uma foto minha com uma amiga, para mostrar à sua esposa que fala ao telefone com um amigo, e não é nada do que ela anda a pensar.
-Então, tu tens um amigo nos Estados Unidos e andas a ligar-lhe de madrugada?
-Também tu a desconfiar!
-Não, eu acredito no que me disseste, agora eu acho que o melhor que tens a fazer é falares com ela ao telefone e explicares quem és. Se tu enviares uma fotografia tua ou de alguém, isso não vai tirar as dúvidas à senhora.
-Mas eles estão a pensar vir a Portugal e ela, assim, já conhecia a cara aqui do amigo.
-Faz como quiseres, mas não envies a foto que me tiraste.
-Sabes que mais, não vou enviar foto nenhuma, não sei resolver cenas de ciúmes, ele que a deixe numa bomba de gasolina no deserto.
-Tu és mau…
- À custa dos ciúmes, tenho uma foto tua.
-Eu depois quero ver essa foto, mas ainda não me deste o que te pedi.
-O quê?
-O teu número de telefone.
-Está aqui.
-Ficas também com o meu número, mas não me ligues durante o dia, só se for muito urgente.
-Ó Gilda, mas o que é para ti muito urgente?
-Tu sabes muito bem, não te armes em parvo. Olha estamos a chegar, já me cheira a Lisboa.
-Eu acho que posso comparar-te a uma ursa.
-Porquê, eu sou assim tão grande?
-De facto, corpo de ursa não tens, mas pelos cheiros que detectas, tens um olfacto apurado.
Saíram da estação em direcção ao carro que estava estacionado ali perto.
-Eu levo-te a casa. - diz Gilda.
-Eu posso apanhar um autocarro, não precisas levar-me lá.
-Entra no carro.
Deixou-o no ponto de partida, como um jogo, na rotunda perto de casa.
28
(Continua)
- O PALHEIRO DO JORNALISTA (pág. 18 a 21)
-
A meio da manhã de sábado, acordaram com o telefone do quarto a tocar.
-Atende tu Rómulo.
-Atende tu, o telefone está do teu lado.
-Sim… obrigado. - desligando o telefone de imediato.
-Quem era? - pergunta Rómulo.
-Tu ontem pediste para despertar?
-Que me lembre, não.
-Mas ontem à noite, quando chegamos, estivemos a conversar na recepção com um moço, lembraste?
-Espero que não seja para te lembrar que tens que ir comprar cuecas.
De repente Gilda senta-se na cama.
-Mas eu disse isso ao rapaz?
-Eu acho que não, mas disseste-me a mim que hoje de manhã tinhas que ir comprar cuecas, mas também não sei onde e quando o disseste.
Olharam um para o outro, e começaram a rir.
Gilda levantou-se ainda atordoada, tomou um banho e tentou vestir a única roupa que trazia, a do dia anterior.
-Rómulo, eu não consigo vestir esta roupa, cheira mal…
-Vai aí à minha mala e vê se alguma coisa te serve.
Gilda, embrulhada na toalha, remexeu com cuidado a mala, não por medo de a desarrumar, mas para não enrugar ainda mais a roupa.
-Posso vestir esta t-shirt preta?
-Veste o que quiseres.
Gilda deixou cair a toalha e aprontou-se num instante, mas sem cuecas e com as mesmas calças que trazia.
-Rómulo, eu vou descendo, espero por ti lá em baixo.
-Está bem, eu levo cinco minutos.
18
Gilda tomou um café e saiu de cabeça baixa para a entrada do hotel. O dia estava solarengo, mas cheio de carros estacionados no parque do hotel. O que se estaria a passar de importante àquela hora no hotel? Voltou a entrar e dirigiu-se à recepção. Sentiu um alívio quando viu que não era o empregado da noite anterior.
-Bom dia…
Bom dia, sabe-me dizer que tipo de actividades vão acontecer este fim-de-semana aqui?
-Para além do congresso que começou ontem, não sei se haverá mais alguma coisa.
-O congresso é sobre o quê?
-Não lhe sei dizer ao certo, mas penso que está relacionado com política.
-Obrigado.
Rómulo, lá apareceu e saíram os dois, para comer alguma coisa e parar com os roncos do estômago.
-Rómulo, sabes de algum congresso de política este fim-de-semana, aqui?
-Não, o que ontem vi, foi um prospecto de um congresso, mas era de medicinas alternativas. Porquê, queres ir lá?
-Não, estou muito bem com a tua alternativa de ter vindo até esta terra, mas sem cuecas.
Rómulo sorri.
-Estás sem cuecas?
-Achas que eu ia vestir as tuas?
-Tem calma, já vais poder compra muitas.
Depois de terem parado numa pastelaria para forrar o estômago, era a vez de procurar montras com pernas avulso e meias de vidro, de bustos pálidos, armados sem elasticidade.
-Aqui tens a loja que procuras, vai lá, que eu espero.
-Entra comigo, quero saber dos teus gostos.
-Não, eu espero aqui fora.
-Se não entrares eu venho aqui fora mostrar-te os modelos, queres?
Rómulo lá entrou para não fazer ondas. Gilda pegou em vários modelos do seu tamanho e pediu a opinião de Rómulo.
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Dirigiu-se com Rómulo para o vestiário para provar as que ele tinha escolhido. Gilda espreitou pela cortina com um dedo em chamada.
-Estou pronta, gostas?
Rómulo espreita, mas não entra.
-Gosto, já te tinha dito mesmo sem as vestires.
Gilda já não as despiu, vestindo as calças de seguida, dirigindo-se à caixa para pagar os três fios.
Assim que saíram, pergunta Rómulo.
-Olha lá, o que é que tu pretendias fazer lá dentro?
-Eu, nada. Estava a verificar se tu eras capaz…
-Era, e se fosses apanhada em plena cópula, quem é que iria escrever, um colega nosso?
-Não, escrevias tu, uma crónica para salvar o teu emprego.
-Bem visto, queres lá voltar?
-Não, agora vais ter mesmo que inventar.
Não seria solução, descambar para fazer notícia e não era isso que ambos procuravam.
-Desculpa, o que te vou dizer, mas parece-me alguma infantilidade da tua parte estares a pôr-me à prova do que faria sem qualquer problema.
-Tens razão, mas eu acho que o risco teria sido compensador.
Pararam de andar numa praça. Sentados, repousaram como pombinhos inchados ao sol. Estava-se em pleno verão e o calor que fazia, convidava a um passeio pelo campo, mas o tempo de que dispunham, estava entregue aos prazeres do ninho. Almoçaram e voltaram, a meio da tarde, para o quarto com uma saca de compras. Água, bolachas, frutas e pastéis de massa tenra, para não endurecer a despesa do fim-de-semana. A televisão do quarto tinha estado sempre desligada, mas agora, Gilda, deitada em cima da cama, de comando na mão, saltitava de canal em canal. Rómulo aliviava-se na sanita. De súbito, Gilda aumenta o volume da televisão para que Rómulo se apercebesse do que se estava a passar.
-Estás a ouvir?
-Estou, onde é isso?
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-Num hipermercado em Lisboa.
A notícia estava a dar em directo. Um sequestro, ao que parece muito original. O autor de um livro teria deixado, na editora Tempos, há mais de três anos, um original para apreciação. O autor desconhecido cansou-se de esperar por uma resposta e conseguiu entrar na editora, que se encontrava fechada, este sábado. De lá, terá saído com a responsável. O autor das duas obras, livro e sequestro, acompanhado da sua vítima, invadiu a recepção do hipermercado, onde a mantém sequestrada. Não se sabe ao certo quantas pessoas estão lá dentro, mas a directora da Tempos está bem. Pode-se ouvir, dentro do hipermercado todo, o que se está a passar. A senhora foi sequestrada para ler ao microfone o original do autor. As pessoas continuam a fazer as suas compras normalmente, outras estão silenciosas a ouvir a leitura da senhora que já dura há mais de uma hora.
-Gilda, destas é que eu gosto, são leves e por vezes merecedoras.
-Estás parvo, o gajo está lá dentro sabe-se lá com quem.
-E tu sabes tão bem como eu, que existem demoras sem qualquer justificação.
-O melhor é desligar isso, ainda ficamos encantados sem qualquer explicação.
-É para já. Gilda enterra o dedo no botão da televisão com tal força, que ia arrancando a televisão da parede.
-Honestamente te digo, não sei qual é o ruído pretendido por estes gajos que fabricam programas de televisão.
-É o costume, divulgar, dar importância ao primeiro macaco que subir a uma árvore.
-Gilda, às vezes fico surpreendido com as tuas tiradas.
Gilda estava prestes a violar os segredos da mala mal cheirosa de Rómulo. Vasculhou no fundo com as mãos.
-Tens aqui três livros! Pretendes ficar mais dias de férias?
Rómulo, relaxado em cima da cama macia, silenciou. Levou uma eternidade a responder.
-É, estão aí três livros, nunca sabemos com exactidão quando o destino nos faz pensar.
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(continua)
- O PALHEIRO DO JORNALISTA (pág. 13 a 17)
-
Acordaram, em sobressalto, com a voz do revisor, e dormitaram mais um pouco num acerto de contas com os sonhos leves.
Gilda pactuou na viagem com o desinteresse demonstrado por Rómulo, em não querer falar em trabalho e abstraiu-se, também, da materialização do processo de globalização, que decorria a passos largos, sem tempo para reflectir, abordagens e inquirições, cruzamento de informações sem qualquer poder de julgar o que se estava a passar. As regências emperravam diariamente em direitos retirados a cidadãos da Comunidade Europeia. Estava por dissecar um país surdo, em colapso constante a denúncias designadas às prioridades reformistas da legislação. As leis em Portugal atravessavam a maior prova de fogo, lançadas em questões pertinentes aos responsáveis. Na tribuna, os juízes, encerravam processos com as sentenças, e amontoavam recursos sucessivamente desviados em resposta a um direito de se poder protestar. Os mega processos não cabiam dentro do comboio, que deslizava sem fim à vista.
Rómulo abriu os olhos, encostou-se direito no banco e viu as horas. Estavam prestes a chegar a Castelo Branco e Gilda dormia quase deitada no banco. Ela trazia vestidas umas calças de sarja preta e uma blusa de cor seca de bambu, mas fraca para suportar o aperto generoso dos seus seios, que se escapavam livremente aos olhos desabotoados de Rómulo. Ele não resistiu em acordá-la, abanando-a no ombro.
-Estamos quase a chegar.
Pôs-se direita, passando as mãos nos cabelos que lhe cobriam o pescoço.
-Então, não fugiste?
-Não, fiquei pregado no botão da tua blusa.
Ela olhou-o nos olhos fixamente e debruçou-se em provocação, tentando suportar uma gargalhada.
-Com que então, não fugiste. Foram “elas” que te pediram para ficares?
Rómulo estica os braços e fecha o grande plano, abotoando-lhe o botão que faltava.
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-Não achas um bom motivo para ficar e salvá-las do aperto em que estão?
Gilda ri-se…
-Vais ter que fazer uma petição ao supremo para salvá-las da injustiça.
-Quem é o supremo?
Ela aponta para a cabeça batendo com um dedo na testa.
-Suprema, suprema…
-Ah, jamais iria a algum lado sem passar por aí.
Assim que saíram do comboio, apanharam um táxi para o hotel, para deixar o sangue fluir livremente noutras partes do corpo. A repetição dos sintomas de uma viagem de comboio, longa e pouco habitual, fazia sentir as linhas atacadas pela velhice até à entrada no quarto do hotel. Era moderno e estava arrumado. Não se parecia nada com o quarto de Rómulo onde, por vezes, até tachos com restos de comida descansam, pernoitando em cima da cómoda, ao lado de frascos de perfume, por vezes dias. Deixaram-se cair na cama macia, que não rangia, desamarraram os seus corpos e navegaram lentamente até alto mar. As braçadas, com o cansaço, passaram a bracejos, ficando perdidos na embarcação da paixão. Abriram o mapa e, calmamente, percorreram-no em pontas dos dedos, retomando novas coordenadas.
Em menos de uma hora saíam do hotel ainda com o cabelo molhado, mas mais esfomeados do que à chegada. Espantoso, como ambos já repetiram vezes sem conta o prazer de casear o corpo e repetem os deleites, espalhando esses momentos únicos por uma vida em direitos essenciais ao equilíbrio humano.
Julgam-se os prazeres dos mais gulosos e fogosos, como criminosos e animalescos. O desenvolvimento das avaliações dos comportamentos sexuais, já foram conturbadas e testemunhadas, outrora, como sombras da Terra. As regras eram elaboradas e adaptadas, por vezes, pelos próprios prevaricadores. As notícias corriam em perversidade, sem o possível isolamento de privacidade. Mais tarde refreavam, como se
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fosse uma doença na boca do povo. Dentro de todas as espécies de seres vivos, a sexualidade do homem seria a mais vulgar e a que mais se desconhecia.
Os casais mais comuns manifestam-se como possuidores e possuidoras dos seus parceiros. A separação acontece normalmente por ciúme, um sentimento pouco explorado devido aos resultados dos testes pouco animadores. Por vezes, as crias ficam desamparadas sem culpa das vontades e apetites dos progenitores, geradores de sofrimento.
Mesmo assim, o homem, conhecedor da matéria de que era constituído, ainda não tinha entendido aquilo que fazia em mais vinte ou menos vinte minutinhos tão agradáveis, como comer quando se tem fome.
Os preceitos de como deveriam comer estavam lá, na mesa posta com pratos e talheres, copos das mais diferentes medidas para empurrar a conta no fim. Em poucos anos surgiram rectificadores de comportamentos, alguns com nomes bastante arrojados nas ementas, atraindo a clientela. Os Vegetarianos demonstravam, com os seus hábitos, uma parte da evolução, mas o tempo ainda não teria passado o suficiente para provar a estadia tão prolongada dos dentes que teimam em crescer logo em criança.
Ao longo dos séculos, as alterações de comportamentos sexuais, estavam relacionadas e reguladas à época em que se vivia, adaptados aos prazeres e formas mais ocultas, porque também eram considerados mais devassos, pela inexistência de políticas abertas de sexualidade.
As vias de comunicação industrializaram-se de tal forma, que Gilda e Rómulo ainda não tinham assimilado metade das loucuras do Homem cometidas em Terra.
Um mal terreno pairava no ar com a facilidade de viajar. Voos descritos em queda livre, uma presunção do conhecimento de todas as terras e lugares por onde passaram a planar, mas distraídos com a paisagem e a diversão dos factos a esvaírem-se por dentro das nuvens. O reconhecimento, como passageiro dentro de um avião, era garantia
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com direito a estatuto pessoal e a ficar com os ouvidos a zumbir, por algumas horas. Os destinos, eram lugares que não passavam de pontos de diversão, onde viajantes se instalam, num mundo cada vez mais frágil de entender e permanece enquanto o bom tempo ajudar.
Neste fim-de-semana imperava, aos dois, tirar o maior proveito, mas a experiência e o conhecimento das novas tendências informatizadas da informação assustavam Rómulo. O jornal a Toca passava por momentos delicados, mas não seriam os únicos, com quebras de vendas em formato de papel. Afinal, ambos sabiam o que se estava a passar, mas não tocaram na ferida para não a abrir.
Percorriam a rua a pé, em busca de um sítio acolhedor para comer. A noite tinha arrefecido e Gilda suportava o cheiro a mofo da camisola para não ter frio.
-Mas afinal onde guardas a roupa para ter este cheiro?
-Essa camisola já não a visto há muito tempo, deve ser disso.
-Mas não é só esta camisola, a roupa que está naquela mala velha que ficou a arejar no hotel está impregnada de mofo, não arejas a casa?
-A mala é que é muito antiga, era do meu tio, deve ser disso.
-Mas arejas a casa?
-Sim, desde que esteja sol e seja feriado, eu levanto as persianas e dou uma volta na casa de vassoura na mão, perseguindo aqueles rolos de cotão que se escondem atrás das porta, e se amontoam debaixo da cama.
-Ó meu grandessíssimo porco, só limpas a casa quando está sol e é feriado?
-Sim, quando quiseres passar por lá, és bem vinda, pode até não ser feriado e o sol estar encoberto, ou mesmo ser de noite. Uma alma preocupada como tu dá sempre jeito.
Gilda dá um valente encontrão com a sua anca bem pronunciada em resposta, sacudindo-lhe as ideias.
-Olha que eu tenho uma profissão mas não é de sopeira!
-Calma, eu estava a brincar, mas olha que eu faço umas sopas…
-Devem ser sopas de pacote, água a ferver e juntar, não?
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-Não, dessas sopas dou só a determinadas visitas.
A ironia era o prato favorito de Rómulo, que calava Gilda nas suas observações.
-Tu, em Lisboa, vives para os meus lados? - pergunta curioso Rómulo.
-Não, eu vivo para os lados de Belém.
Abraçados, tornearam a noite, fugindo dos restaurantes com televisão ligada. Fartos de andar, perguntaram a um guarda por um local onde se comesse, excluindo os do centro, na praça principal. Seguiram o conselho do guarda e acertaram na mouche.
Depois do jantar, enquanto regressavam ao hotel, Gilda parou e empurrou Rómulo encostando-o a uma montra de electrodomésticos que, por sinal, tinha televisores ligados.
-Estás bêbeda, queres partir a montra, ou quê?
-Não, estou mesmo só atordoada. Diz-me uma coisa, hoje em Lisboa, quando te dei boleia, perguntei-te se vivias perto do jornal e trataste-me por você, e disseste-me assim, “por favor não me fale em trabalho”. Eu sei que as coisas não estão muito boas para o nosso lado, mas não precisavas de ser tão seco.
-Eu gostava de saber o que responderias se vivesses no mesmo prédio onde trabalhas?
-Vives no mesmo prédio?
-Sim, vivo.
-Então Rómulo, mas isso é óptimo, não gastas dinheiro em transportes, podes levantar-te mais tarde…
-Não sabes o que é sair do trabalho, subir as escadas e, uns metros mais acima, entrar em casa.
-Mas afinal o que sentes?
-A sensação é a de não ter saído do trabalho. Pareço um bichinho dedicado à madeira, 24 horas sobre 24 horas.
Gilda manda uma gargalhada.
-Bichinho, ah,ah,ah,ah,…Caruncho velho, queima a mobília e compra de ferro, ah,ah,ah…
Rómulo ficou contagiado com as suas gargalhadas e, decidido a alimentá-las, abraçou-a, voltando em sentido contrário.
-Onde vamos? - pergunta Gilda.
-Beber mais uma daquelas ao restaurante onde jantaram dois mudos esfomeados.
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(continua)
- O PALHEIRO DO JORNALISTA (pág. 7 a 12)
-
Nos últimos dias antes de ir de fim-de-semana forçado, Rómulo telefonava regularmente, do seu gabinete do Jornal, a um amigo que atendia a chamada nos Estados Unidos, aguardando as manchetes mais hilariantes contadas em primeira-mão.
-É pá, não te acordei?
Respondia-lhe baixinho, enquanto saía do quarto.
-Não, estava só a passar pelas brasas, até o despertador tocar. Agora a minha mulher é que anda intrigada com as chamadas de madrugada.
-Diz-lhe que é um amigo teu, de Portugal.
-Queres acabar de vez com o meu casamento, ainda se fosse uma amiga…mas tu agora não dormes?
-Durmo, das 6 às10 e depois volto cá para baixo.
-Andas a tomar drogas?
-Sabes bem que a minha droga é só o jornal, o difícil é acompanhar a pedrada deste país.
-O sol deve estar a nascer aí em Portugal, vai dormir.
-É isso, vou apagar a luz aqui do gabinete, mas diz à tua mulher que eu vou enviar fotos do fim-de-semana.
Sexta-feira 13.30
Levantou-se da cama, na casa onde é sempre noite. Vivia com as persianas do andar, herdado do tio Grou, hermeticamente fechadas.
A mala já o esperava, estava feita, manchada de bolor, à porta da casa, pronta para sair. Esperava-o eriçada, com a aba de fralda de fora, enquanto procurava os óculos escuros.
A viagem, com destino incerto, iniciava-se com o bater da porta do prédio. Desceu a rua até ao cruzamento do engarrafamento, sempre em movimento para tentar apanhar um táxi. Foi andando e tentando a sua sorte nos distintos destinos que ali convergem. Um carro afrouxou perto de si, abriu-se o vidro, e ouve um berro:
-Queres boleia?
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Espreitou para dentro do carro e sorriu, agarrando logo a mãozota da porta e disse:
-Espera.
Os carros atrás começavam a apitar.
Sacou do bolso do casaco o telemóvel, apontou para dentro do carro, e zás.
-Já está.
-Entras ou não?
Entrou e arrancaram dali, desentupindo o trânsito.
Acabava de apanhar boleia da nova jornalistas de investigação, que recentemente começou a frequentar A Toca.
-Aonde queres que te deixe?
- Onde quiseres.
-Para onde vais?
-Nem eu sei.
-Estás a fugir de alguém.
-Bem, a 150 metros de casa, só se for do trabalho. Deram-me uns dias, estou a precisar de desanuviar.
-Então, vives perto do Jornal?
-Por favor, não me fale em trabalho.
Calaram-se ambos por mais de três minutos.
-Eu vou almoçar onde conseguir estacionar. Tu queres ficar em algum lado em especial?
-Não, onde parares, está bem.
O silêncio voltou a instalar-se dentro do carro, mas desta vez na companhia do rádio, que ela ligou com sons de marcha, baixinho, de cravo.
-Se vires um lugar para estacionar desse lado…
Ela interiorizava a azia da fome com que estava, e andava para ali às voltas há mais de 10 minutos e nada. Parecia praga ter dado boleia a este gajo. Normalmente levo dois ou três minutos para estacionar por aqui.
-Ali um…
-Não posso, é sentido proibido.
-Vais de marcha a trás.
Ela sorriu, este gajo é meio doido, mas das poucas vezes que fui lá à Toca daquele jornal, pareceu-me simpático, mas deve ser só mesmo em questões profissionais. O nome dele é estranho…
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-Tu és o… Raul?
-Não, Raul é o meu colega, eu sou o Rómulo. Espantoso, não me lembro do teu nome…
-Gilda…
-Qual é o restaurante onde costumas comer, Gilda?
-Apesar de viver sozinha, volta e meia passa lá em casa a minha irmã, que me deixa, às vezes, alguma coisa no frigorífico, e sempre que posso vou a casa, mas gosto de ir comer a este para onde vamos, o “Prato Raso”.
-Não conheço… mas o nome é sugestivo, comemos tudo.
Para Gilda, a cidade deixou de o ser naquele instante, parecia
que transportava alguém que engoliu velhos locais tantas vezes, que ficou pançudo.
Quase como um gesto de magia o carro pára, e os vidros fecham-se.
-Pronto este é meu, e daqui já não saio.
Saíram do carro ao mesmo tempo, caminharam um para o outro, e ela olha para ele sem a mala.
-A tua mala?
-Não vou precisar dela agora.
-Como não vais precisar?!
-Então não vamos almoçar?
Ela soltou uma gargalhada.
-Está bem, vamos, é por esta rua.
Assim que entraram no restaurante, Rómulo ficou logo de nariz no ar.
-Posso escolher a mesa?
-Podes, como és mais alto, vê lá se vês alguma vazia lá em cima.
-Eu vou ver se tem alguma livre lá em cima.
A sala estava cheia, só sobrava o balcão.
-Rómulo, importas-te de ficar ao meu lado no balcão, mais uma vez?
-Não, vamos.
-Desculpa, mas eu estou cheia de fome e assim podemos iniciar a conversa da tua viagem, se tu quiseres.
Acomodaram-se empoleirados nos bancos do balcão, engolindo em seco o cheiro que vinha da cozinha.
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Enquanto aguardavam por uma dose de bacalhau espiritual, Rómulo petiscava, em partilha, um queijinho em fatias finas. Iam mordendo e moendo em pausas lascadas de conversa, evitando assuntos profissionais.
O almoço estava no papo, mas ele de prato limpo.
-Ficaste com fome?
-Não, estou bem, não tenho o hábito de comer tão pouco.
-Só podes estar a brincar, comeste três pratos!
-Claro que estou. Agora só café.
Saciados, bebiam o último copo de vinho.
-Eu não tenho o hábito de beber vinho ao almoço. O que me vale, é que hoje é sexta-feira, e o que tinha a fazer vai ficar para segunda.
O mal era geral, o barulho da sala principal do “Prato Raso” era contagiante. O desassossego estava a pegar-se de uma forma fulminante ao descanso semanal de cada um.
-Já sabes para onde vais?
-Vou ver se tenho comboio para um destino serrano.
-Eu faço-te companhia até lá, mas vamos a pé, tenho que andar um pouco.
Passaram pelo carro para ir buscar a mala e seguiram para a estação que ficava relativamente perto. Entraram na estação e o placard indicava as próximas partidas.
-Queres vir Gilda?
-Para onde?
-Vai sair daqui a pouco um comboio para Castelo Branco e durante a viagem escolhemos uma estação para sair.
-Estás doido, não estou preparada.
-Mas não és tu quem leva o comboio! Regressamos no domingo.
-Sem roupa?
-Eu tenho aqui roupa que chegue, e serve-te de certeza. Amanhã logo vês o que te falta.
Gilda não tinha nada a perder, e ainda tentou fazer-se esquisita, para se assegurar, de facto, se era caso o que ele queria.
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-Vai comprar o teu bilhete, que eu fico.
Num ápice se apresenta com dois bilhetes a acenar na mão.
-Compras já ida e volta?
-São duas idas, na volta pagas tu.
Pegou-lhe na mão, atracou-a a ele e entraram no comboio. A carruagem cheia, silenciou-os. Os lugares vagos e espaçados, distanciou-os por duas paragens. Estavam de orelhas atentas às conversas dos viajantes rotineiros, que apontavam defeito à lentidão das linhas do interior. E os dois lá iam, registando o que ouviam, numa tarefa de profissão. As linhas mais desniveladas, provocavam um baloiçar de cabeças ao corredor dos olhares. Miravam-se, como dois catraios experimentados na sedução. O ambiente pesado das pessoas servia de muralha, presos nos trilhos da paixão. Mais uma vez a lagarta de ferro abrandava em pressão e guinchava. As portas abriam-se aliviando o aperto da multidão que regressa a casa. O facto das pessoas saírem, não fazia o comboio andar mais depressa. Levantaram-se os dois e sentaram-se frente a frente nos bancos vazios junto da janela. A pouco e pouco, ia-se sentindo um desafogo do ruído e dos cheiros que caracterizam a cidade. Lá fora a temperatura baixava e calcava a neblina rasteira, juntando-se as sombras para a escuridão.
A sonolência atacava Gilda.
-Já decidiste onde vamos sair?
-Ainda faltam umas tantas para chegar a Castelo Branco, para mudarmos de comboio.
-O quê, ainda vamos apanhar outro comboio?
-Se não quiseres, pernoitamos em Castelo Branco, e amanhã seguimos para o Fundão.
-Um fim-de-semana a andar de comboio…
-Sempre é diferente, mas para a próxima escolhes um fim-de-semana a andar de avião.
Calaram-se os dois.
Um mal terreno pairava no ar com a facilidade de viajar. Voos descritos em queda livre, uma presunção do conhecimento de todas as terras e lugares por onde passaram a planar, mas distraídos com a
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paisagem e a diversão dos factos a esvair-se por dentro das nuvens. O reconhecimento como passageiro dentro de um avião era garantido, e quanto mais longa fosse a viagem, maior era o estatuto pessoal. Os destinos, eram lugares, que não passavam de pontos de diversão, onde os viajantes se instalam, num mundo cada vez mais frágil de entender.
Gilda estava desconfiada do silêncio do Rómulo e falou.
-Se eu adormecer acorda-me antes de saíres do comboio.
Rómulo fez um sorrisinho…
-Eu acordo-te, fica descansada, mas a bater no vidro da parte de fora, com o comboio a seguir viagem.
Gilda adormeceu enrolada nos seus próprios braços. Volta e meia, quando o comboio parava, abria os olhos e sorria.
Apesar do fim do dia estar a correr bem, não se conheciam o suficiente e o jogo das fintas tornou-se perigoso. Mais tarde dormiam os dois e poderiam surpreender-se nos solavancos em arranque de mais uma estação.
O conhecimento é algo que se transporta ao longo da vida e se apaga, sem querer esquecermo-nos dele. Partem e por vezes só restam trilhos velhos de ferro. A carruagem parecia quase vazia, e a insegurança perseguia-os, sempre latente, escondida nas profundezas das zangas, que sangram nos centros urbanos, percorrendo linhas agitadas em golpes transversais inflamados. Por mais que se achassem únicos, a violência rondava a materialização, e depois de provada, seria difícil o seu desmame. A evolução traiu-os. Estavam emaranhados, tão presos, que as línguas recolheram-se sem pedido ou favor. Rómulo, de boca aberta, parecia que tinha adormecido à espera das manápulas de um dentista curioso. Estremecia a cabeça como toques a um nervo de dente, sem anestesia, apoiado no vidro de fundo negro, espelhado na luz da carruagem sem fim. De boca aberta, a saliva juntava-se e saía ao resfolgar em fios sugados por si. Todos sofrem com o medo da dor, mas não saíam da Terra vivos ou mortos.
-Os vossos bilhetes por favor.
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(continua)
- O PALHEIRO DO JORNALISTA (pág. 1 a 6)
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O PALHEIRO DO JORNALISTA
Os repuxos da fonte iluminada de um jornalista, esguichavam jactos cada vez mais altos, consoante o estrangulamento das finas cavidades à sua volta.
Não estava na rua da praça das descobertas, nem perante a vontade de envenenar as águas na primavera, muito menos aterrorizar o dono do jornal onde trabalha, com as crónicas que não publicava. Rómulo, um jornalista discreto, mas perturbado pelo ritmo imposto e pela forma como se escolhe e faz informação. Este jornalista estava especado, como uma estátua, em algum lugar. Talvez numa praça desconhecida, com a cabeça repleta de furos, jorrando água. Também poderia ser mais um detalhe pouco importante. Diria que estávamos perante mais um fio de água, em que alguém reparou, num leque do seu repuxo imaginário, em crónicas entupidas, pela acumulação de partículas das mais variadas origens que se juntavam até formarem sedimentos. O comportamento da maioria dos jornalistas irritava-o por serem, para ele, uma mão de carneiros, que usavam os privilégios em pastagens jornalísticas, mastigando as notícias como erva. Um verdadeiro laxismo, imunes à paisagem que os cercavam. Rómulo sentia-se na obrigação de penetrar dentro das matérias mais sensíveis, de uma forma abstracta, ou diria mesmo excêntrica. A maioria dos jornalistas, não estava disposta a perder a sua carteira profissional em devaneios, ou colheradas colectivas, respeitando os gostos da hierarquia. Os problemas de Rómulo, passavam ao lado da carteira profissional porque não a tinha, mas o seu contributo era do gosto do director do jornal para onde trabalhava, e enriçava o seio mais murcho sem lhe tocar. As fontes noticiosas a que Rómulo recorria, eram as mesmas dos colegas pasmados na pradaria. As diferenças partiam de cada um, e ele cuidava do rasto deixado, diariamente, que endurecia como pão esquecido no saco da cozinha na semana passada.
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Raramente abordava os assuntos com desvios de conduta, e esses permaneciam dentro da gaveta. O tempo para Rómulo era amigo da razão e, por vezes, deixava escapar algumas dessas crónicas mais extravagantes, mas com algum humor. Volta e meia, enviava-as pelo correio, em modo de oferta, para uma revista conceituada. As cartas foram interceptadas e desviadas, deleites de uma funcionária, que as lia e depois as enviava para um apartado criado para o efeito. Toda a correspondência escrita, referenciada como suspeita e que não necessitasse de resposta, era reenviada com o nome do remetente, com a única alteração que definia o seu fim num apartado incógnito.
Este livro foi adaptado com crónicas e excertos amontoados dentro da gaveta da secretária de Rómulo. Quem os retirou, descreve a gaveta como o palheiro do jornalista.
Crónica I
Editores e políticos em depressão
A política, ilustrada na voz do poder dos editores, poderia ser descrita em livro, levada ao pormenor. Entendo que a descrição dos passinhos desses artistas, na orientação e na escolha, é evidente. Ela passa por uma política esquiva, desinteressante, sem o leitor perceber o que é literatura, impressa em livro ou em jornal. São matérias que os próprios jornalistas se deveriam interrogar, onde param os romancistas diários e tantos outros que mastigam os meandros do seu ganha-pão.
Quero sentir o contributo, enquanto vivo, desses “artistas” em vias de extinção, dos autênticos que ficam roucos, em suportes de papel.
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Veladas estas criaturas embebidas em panóias de promoção, conseguiam iludir uma multidão. No parlatório, iluminavam com ideias radiantes, únicas, num universo tão vasto, que varriam os apoiantes, emoldurando o palco, inspirados no teatro de revista do dia anterior. Pois bem, nem mesmo ali no palco souberam sair-se bem. Ficaram tão previsíveis os discursos das promessas que, só um ataque de soluços, seria matéria real para os fazer suster a respiração.
Teria que considerar que, a culpa do optimismo excessivo e das prioridades do país, também poderiam estar a passar pelo consumo do Prozac, utilizado para contracenar com os objectivos das aparências legais.
O que seria se, a política de uma maneira geral, viajasse dentro de uma caixa de comprimidos. Vou afigurar a chegada do Prozac, aos pobres, com a introdução de doses regulares da substância anti depressiva, navegando na rede pública de água, chegando assim aos consumidores diluída com aroma a menta, para a sua identificação. Os principais efeitos indesejáveis da fluxetina, são os seguintes: “Dores de cabeça, alterações do peso e apetite, perturbações digestivas, calafrios, e transtornos na área da sexualidade, sejam na forma de impotência, ou retardo do orgasmo”. Todos estes sintomas deveram ser nulos, por já existirem na maioria da população, que abre a torneira para matar a sede em que vive.
O Tio Grou
Sair da cidade por uns dias, era fugir da agitação da redacção do Jornal A Toca onde trabalhava. Não foi de livre vontade, foi ordem do patrão. Era difícil permanecer longe da quantidade de notícias que se escrevem e lêem diariamente, num gabinete sem janelas para a rua. Os dias de trabalho deste jornalista chegavam à exaustão, a ponto de achar que o sol já não nascia, nem embarcava no mar.
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Vivia no 1ª andar no mesmo prédio do Jornal. Quinze anos tinham passado desde que ali chegou. Rómulo foi ali parar para cuidar do tio, Grou, alfaiate viúvo e sem filhos. O tio deixou há muito de exercer a profissão. Cada fato que fazia era de uma perfeição tal, que muitos acabavam por ficar nos cabides à espera que lhe pagassem. Perdeu os últimos clientes que teve com a demora da sua conclusão, com chamadas de atenção e queixas das picadas nas provas dos fatos. Durante os alinhavos, os dedos falhavam e os alfinetes espetavam as suas próprias mãos. Os salpicados de gotas de sangue, assinaladas nos fatos claros, suspendiam as provas armadilhadas em ais na carne dos fregueses.
A doença de que sofria, tomou-o das capacidades autónomas e, a partir daí, ficou condenado às empregadas que por lá passavam para o tratar.
A última empregada que por lá passou, abandonou-o, deixando um pequeno papel escrito com o contacto dos familiares e a chave da casa dentro de um envelope, simplesmente despejado dentro na caixa do correio do jornal que existe por baixo da casa. O tio Grou, para além da doença que tinha, alzheimer, possuía também um mau feitio. Um sobrinho, que estava desempregado, aproveitou para deixar a pequena cidade onde vivia e tentar viver na capital, com ele. Tratava bem do velho, que ainda dava conta do seu pé. De manhã, em dias de sol, levava-o a passear até ao único cruzamento que se avista perfeitamente da varanda de casa, mas equacionados pelo tio, multiplicavam-se em dezenas de cruzamentos. Era um pára arranca amparado de um lado pela bengala, que incrivelmente nunca esquecia, e pelo sobrinho em leves puxões. Quando precisava de sair para fazer as compras ou ir à farmácia, fechava-o à chave no quarto, não fosse fazer alguma desgraça. Fazia-lhe o almoço, lia o seu jornal em voz alta, e levantava a voz para ele não dormir.
Os últimos meses de vida do tio, foram os mais duros para ambos. Acamado, dava-lhe a sopa com uma seringa enorme, usada também em mamíferos marinhos e outros animais. A parte pior, era mudar a fralda, mas tudo era uma questão de hábito. Calçava umas luvas, enrolava sobre o nariz e a boca uma écharpe embebida em perfume para não vomitar.
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Depois da morte do tio, ofereceu ao Jornal A Toca duas crónicas para apreciação. O director do jornal facultou-lhe alguns livros para ler, e assim iniciou um percurso de estudos.
Meses mais tarde, parou a observar a fachada do prédio, forrada de pedra enegrecida da poluição. O director, que vinha a entrar, chamou-o ao Jornal. Surpreendido, arregalou os olhos e encheu-se de esperança. Ainda pensou que poderia ser um pedido escravo, para esfregar “os negros” da fachada. Esticou-lhe a mão com uma folha de jornal e uma carta. Acabava de lhe oferecer uma folha da edição do jornal, que iria sair no próximo sábado, com a publicação de uma crónica que tinha escrito, e uma carta que continha um contrato de trabalho para assinar. Cresceu dentro do Jornal, nos catorze anos de dedicação, alternando o seu tempo entre a casa e o trabalho na cave. O apego era muito, o suficiente para não ter muito tempo para si.
O egoísmo de Rómulo era simples, escrevia relatos de vidas dentro da sua própria vida, que pouco partilhava para lá das palavras relatadas e publicadas no Jornal. Estava mudo socialmente, a vacina que viciou o mundo de egoísmo, à excepção dos aniversários comemorados, normalmente a sós, com os colegas do emprego. Vestia-se de cerimónia, com factos antigos do tio Grou e sapatos comprados em saldos a condizer. Passava um gel na cabeça para salientar o risco do cabelo, carregava-se de perfume da época e lá aparecia nas festas, provocando grandes gargalhadas à sua chegada. Conseguia surpreender os colegas com um estilo que não era o dele e marcava a boa disposição quando era necessário. Rómulo diferenciava-se também dos costumes corriqueiros de alguns colegas que sanavam as
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turbulências sexuais com prostitutas, que apareciam a meio das festas, como verdadeiras encomendas. Rómulo, defrontado com aquele mulherio, afirmava de voz baixa ao colega mais próximo; prostitutas, só se fossem minhas amigas. Os colegas pagavam e retiravam-se por minutos, impondo o prazer de uma forma abreviada e, em breve, o isco da conquista murchava, e voltavam em partilha brejeira de conquista.
No trabalho, a porta do gabinete entreaberta, aliviava o sufoco dos dias ali passados com visitas de pessoas que lhe traziam os mais variados temas e propostas para analisar para edição. Muitos outros assuntos eram baseados em situações de vida pessoal, sem caber ao jornal resolvê-las, mas não deixava de ser matéria pertinente. O mais comum era o desrespeito pelas placas anti-tabaco e perigo de fogo, esparramadas nas portas. Rómulo passava-se dos carretos quando o seu pedido já tinha sido feito outras vezes, com a excepção do patrão, que fumava em todos os locais de trabalho do Jornal. Diariamente, a meio da tarde, a interrupção da D. Emília fazia crescer água na boca. Trazia consigo o gosto de comer uma fatia de pizza, feita por si, na companhia do Rómulo. Vendia outros manjares a outros empregados, enquanto Rómulo mastigava as escolhas dos artigos para a reunião.
Bateram na porta aberta e respondeu para entrar, a mastigar. Quando levantou a cabeça, o seu porte dava que pensar. Respondeu, com gestos, para se sentar. A mulher atraiu-o. Acelerou-lhe o ritmo de tal forma, que trincou a sua própria língua. A mulher que acabava de se sentar na sua frente, era desinibida, com algum à vontade. Começou a fazer perguntas e, ao mesmo tempo, respondia, com tal rapidez, que ele nem sequer a interpelou, respondendo com a cabeça que sim. Era jornalista, e acabava de lhe pedir dados concretos de uma determinada pessoa que procurava, por estar envolvida num caso que investigava. Ele aceitou ajudá-la com alguma prioridade no que viesse a saber.
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(Continua)
- Vou editar um livro aqui no Sol
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O lançamento das primeiras páginas é já no próximo domingo, dia 24 de Fevereiro, aqui no Blog O Apicultor. Trata-se de um livro que escrevi em 2007. Este original, já tem um irmão mais velho, mas este pai desnaturado deixou-o apreendido de forma espontânea. Ao longo deste tempo, fiz as diligências que estavam ao meu alcance. Telefonemas, cartas, a outros, para o libertar, mas o tempo da pena foi sempre crescendo com a paciência do pai. Este filho mais velho, infelizmente, já está a caminho de casa. Partilhou cinco anos em três cadeias, com centenas de outros presos, em celas a abarrotar.
Fica aqui o meu convite, e delicie-se, também, com as desculpas deste heterónimo
Apicultor
- SEGREDOS DOS SONS
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Na total escuridão rompe o silêncio.
É luz que nasce sem voz e todos a sentem.
Na desordem compõem, sem ainda serem músicos.
Muitos erguem-se bravos ao universo dos sonhos, em sons que apenas te transportam a essa imensidão.
Os outros que vibram dentro deste mundo, vazam os sons. Estes são os sons sem voz, sem palavras, sem pudor, que avançam e despertam todos os sentidos, e começam a compor.
Mais tarde vêm músicos, que espreitam as pautas e, só de ouvido, param para escutar.
E todos os dias inovam e refazem com medo da repetição.
Apicultor
- A estirpe do vírus da corrupção
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Ao que parece tem variantes de difícil detecção. A estirpe tomou parte do equilíbrio do aparelho, que se governa em manifestas irritações cutâneas. Afligidos, contaminam cidadãos, livrando-se do mal que os cerca.
Tem-se registado um agravamento de situações deprimentes, devido a uma política de águas paradas. As reformas incidem numa conjuntura estéril, com adaptações ambulatórias.
Penso que, em relação à base de dados do ADN, não deve haver qualquer objecção parlamentar. Até posso acreditar que lá habite alguma espécie nocturna e esvoace num recanto escuro, resistindo a direitos especiais inerentes ao cargo. Sem danificarem a arte envolvente, reparem que a grandiosa casa não foi concebida para sustentar usurpadores sem ADN. Deixemos santos e anjos de fora e voltemos ao “altar”. Até que ponto tencionam imiscuir-se em questões de sangue?
Tenham atenção, os morcegos que viveram nas torres e telhados das universidades, seguiram caminhos distintos e poderão estar a romper novas crias para coabitar no espaço da decisão.
E aos delegados, poder-se-ão destapar conteúdos bancários e bens adquiridos, ou será um género a preservar à parte?
Num país unido como o nosso, esperemos que usem bem as fitas do ADN para que não recaiam as culpas nos inocentes.
Apicultor
- O Apicultor no ringue de patinagem
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Actualmente a graciosa Doutora tem permanecido albergada em terras do apicultor. Não é rota de agro turismo, nem perspectiva de vir a permitir licença de habitabilidade. É um local repousante, para quem visita. A alimentação para aquelas bandas, fortalece facilmente a mente e avoluma zonas abdominais, se apenas observar o Apicultor a trabalhar.
A Doutora esmerou-se em mimos pela casa. Trouxe uns apetrechos para cozinhar, retirou a fina camada de terra que clareava o mobiliário, conseguiu dar banho ao Fanico sem o matar. Está deveras a amar as suas curtas férias, longe do ambiente hospitalar. O Apicultor tem deixado a geada cobrir o horto, pegando as manhãs já quentes.
Mas, há dois dias, o almoço foi mais leve, e o jantar uma bela pizza feita pela doutora e cozida no forno a lenha. Depois do jantar, uma sonolência abateu-se no sofá, com os dois vigiando as noticias na TV, que ardiam reflectidas com as chamas da lareira. A soneira deu para passar pelas brasas, sem se queimar, interrompida por uma chávena de chá. Apicultor não toma comprimidos para dormir, deixa-se ficar ao sono natural. Ambos se deitaram e, em poucos minutos, começou a má disposição. Assim que entrava no sono, estremecia. Era como se alguém o sacudisse para não adormecer. Virava-se de um lado para o outro e repetia-se a sensação de estar a patinar, enterrado na almofada de neve, que o encharcou de transpiração até ao peito num instante. Morto de sono, sentou-se na beira da cama e respirou fundo várias vezes. A Doutora perguntou:
-Que tens tu, estás mal disposto?
-Parece que o chá me parou a digestão…
-Vai ao quarto de banho mete os dedos à goela.
-Então, agora ia deitar fora o jantar que estava tão bom!
Apicultor permanecia sentado na cama com um sono excessivamente pesado, namorando a almofada da morte.
-Queres que chame o INEM?
Apicultor sorriu:
-Esqueceste que és médica, ou também te parou a digestão? Olha que os gajos não dão com isto, nem sei se o carro chega cá acima.
-Vai vomitar!
-Nem penses nisso, vou mascar uma chiclete e passear pela casa. Não posso é deitar-me que adormeço de vez. Quinze minutos depois, tinha chupado duas pastilhas Kompensan e mastigou, por mais uma hora, outra chiclete. Lá arrotou e voltou para o ringue, mas desta vez sem patins.
Apicultor
- Balanço do (PAC)
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Uma chamada de atenção para a política agrícola comum.
As reformas arrastam-se e as espécies somem-se mais rápido do que se esperava. Os resultados das reformas do (PAC) de 2003 poderão ser, para alguns economistas, positivas, mas esqueceram-se de um pormenor importantíssimo. É que, as colónias de abelhas, acompanharam escrupulosamente a agricultura que desapareceu, quase por completo, no Alentejo, por exemplo. Um pouco por todo o mundo, a subsistência natural das abelhas está desgovernada. Os acidentes provocados por aquelas criaturinhas têm aumentado, mas não passará de um arranhão que contaminará, de forma mais drástica, o sustento do planeta a curto prazo. Outras causas, como incêndios e o aumento das intempéries, também contribuem negativamente, mas não poderemos deixar a polinização entregue apenas a cargo do vento. Podemos globalizar muita coisa, mas as abelhas já viviam num mundo global e o Homem ignorou.
As culturas agrícolas já tiveram outra configuração. Eram menos rentáveis, mas mais naturais. Este animal poderá estar a ser “perseguido” pelas radiações electromagnéticas, mas ainda não sei se o Mister Iztok Jarc, estará preocupado com a extinção das abelhas.
Hoje, as áreas de cultivo são massivas, deixando intervalos significantes entregues às industrias que proliferam, envenenando qualquer tipo de flora.
Não foram só as pessoas que, até agora, abandonaram o espaço rural. Diversificada forma de vida terminou e as campanhas publicitárias induzem cada vez mais os produtos caídos dos céus. A consistência humana nas aldeias é olhada como espaço a conservar, com um espírito musicológico.
Resta saber para quem servirá.
Apicultor
- Os alicerces da barraca
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(Autor desconhecido)
A Casa de Chá, hoje é um palacete, que o falecido Zé Pedreiro, fundador da requintada construção, deixou aos legítimos herdeiros, no Lugar dos Achados, terra onde nasceu. Ao longo dos anos, o palacete sofreu várias alterações que, atempadamente, eram conseguidas pelas mãos sábias de Zé Pedreiro.
O primo Joaquim, um dos herdeiros, relembra-o, enquanto arruma a cave da Casa de Chá. No meio de alguns despojos magníficos, encontrou papéis amarrotados, plantas e caminhos que o fizeram chegar às primeiras fundações. Não era nómada, nem campista ou naturista, mas frequentou os escuteiros, adquirindo uma vasta experiência na construção rudimentar. Depressa os primeiros pêlos na cara surgiram e fez-se homem. Foi incansável, com fatos para toda a obra, mas os tempos eram outro. Por onde passou, deixou marcas visíveis de modernidade, ficando para traz, um hábil historial de casas construídas a pulso. Zé Pedreiro partiu para o Brasil com as massas que juntou e por lá se ficou.
As construções que deixou não foram certamente como esta fotografia, mas tem a particularidade de serem amigas do ambiente.
Apicultor