“Viva a República!”
Mesmo depois de todos estes anos ainda encontro em mim algumas parcas forças para gritar, em surdina, pois claro, e bem entendido, apenas para dentro de mim, um “Viva a República!”.
Ainda me recordo, quando em miúdo, muito miúdo, achava estranho que umas pessoas cordatas que neste dia 5 de Outubro iam depositar uns simples ramos de flores na entrada de um edifício que ficava ao fundo da rua onde nasci, um prédio antigo que tinha uma lápide de pedra afixada na fachada descolorida, dizia eu, achava estranho que, entretanto, aparecessem outras pessoas que não as deixavam ali estar a fazer a sua homenagem silenciosa e pacífica.
“Era um republicano!” diziam-me então para calar a minha curiosidade, que aquilo de ser curioso era complicado nesses tempos do outro milénio. Mesmo para quem tivesse cinco ou seis anos. “Maus princípios! Tanta curiosidade vai dar em problemas acrescidos!” diziam-me como se fossem prestidigitadores.
Mas depois daquilo se passar, ali mesmo na minha rua, local pacato, de pessoas ordeiras, estranhava porque é que na Praça do Município, bem ali à frente de toda a gente, já podia haver uma celebração ruidosa, com discursos estridentes e inflamados, exactamente, da instauração dessa mesma República, em Portugal, no mesmo país.
A confusão que aquilo me fazia! Por um lado era proibido homenagear um republicano, um homem que, vim mais tarde a saber, havia criado e instituído um sistema de ensino público que permitia o acesso ao ensino mesmo às classes sociais mais desfavorecidas, isto enquanto, por outro lado, era publicamente aclamada a instauração dessa mesma República.
E aquilo levava-me a pensar, certamente por ser criança de pouca reflexão, que havia republicanos e, estranhamente, havia outros republicanos. Diferentes dos primeiros, certamente.
Quase sempre, desde então, pela vida fora, neste dia 5 de Outubro, vêm-me à memória as faces tristes daquelas pessoas simples, cordatas, de passos silenciosos, de ramos de flores nas mãos, que mesmo ali, ao fundo da minha rua, eram impedidas de, ordeiramente, prestarem a sua homenagem silenciosa a um dos fundadores da República. A um pedagogo!
E, talvez por isso, ou para que isso não volte nunca mais a ser possível, mesmo com toda a descrença que me mina e corrói a alma por estes dias, vou achando forças, ano a ano, para ir gritando, neste dia 5 de Outubro, um “Viva a República!”.
Só para mim, bem certo! Cá bem para dentro!
Talvez na esperança de voltar a poder acreditar, como quando era criança e via, lá ao fundo da minha rua, aquelas pessoas cordatas a serem impedidas de exercer um direito de cidadania, que um dia poderá haver aqui um país de fraternidade, de igualdade e de liberdade. Um país onde as pessoas não aceitem a mentira, a falsidade, a corrupção e a baixeza moral como coisas inevitáveis.
Neste país, de onde me parece que foi banida a palavra “honra”, tanto dos discursos oficiais como do pensamento da maioria das pessoas, ainda tenho esperança de que os valores éticos e morais se sobreponham à vileza do desrespeito pela cidadania e ao esbulho da Justiça.
E grito mais uma vez, neste dia 5 de Outubro, com honra pelo significado do que o ideal republicano representa. Mas grito silenciosamente, para dentro de mim, silenciosamente como a maioria, talvez envergonhado com a triste realidade de, tantos anos depois, ainda existirem uns republicanos e uns outros republicanos, dizia eu, grito bem alto um sentido
Viva a República!