Voltei a visitar o "Pêgo do Inferno", local paradisíaco que conheço desde1996, perto de Tavira. Passando por laranjais que cercam a ribeira da Asseca,  espreitando para lá da vegetação, descobre-se aos poucos o pêgo: uma lagoa arredondada, de um verde mediterrânico, coroada por uma cascata alta de cinco ou seis metros chorando continuamente sobre os rochedos avermelhados, de formas lunares, cercada de árvores e arbustos que fazem de sombra e cenário.


Reza a lenda que, há muitos anos, uma carroça se despenhou no pêgo. Os cadáveres dos ocupantes da carroça - e os dos animais que a puxavam - nunca foram recuperados e foi com assombro que os mergulhadores que os buscavam contaram também não ter encontrado o fundo da lagoa.

O nome, a dificuldade de acesso e a ausência dos hábitos de turismo próprios dos nossos dias mantiveram o Pego do Inferno - sete quilómetros a noroeste de Tavira - protegido de invasões selvagens e usos poluentes. Era assim em 1996, coisa para meia dúzia de conhecedores com gosto pela natureza e pelo sentido da aventura.


Agora, a situação é diferente - a roçar o infernal -, quem lá chegue à procura de tranquilidade e silêncio cedo se desengana. O calor e o pó acumulam-se nos acessos até à subida, a circulação e o estacionamento são difíceis. Ainda ao longe, já é possível ouvir a estridência dos risos e dos gritos das crianças, os "splashes" dos saltos para a água (a partir do cimo da cascata ou de uma corda atada a uma árvore), as vozes de donos chamando cães ou de mães convocando para as refeições (em espanhol, francês ou em inglês). Já mais perto, vemos arcas cheias de garrafas de bebidas frescas que rodam de mão em mão e que, já vazias, poderão ficar a boiar nas águas  da ribeira. Nada que também se não encontre nas praias, mas que surpreende o visitante ingénuo, que julgava estar a caminho de um santuário natural.
O local sofre hoje em dia de um excesso de exposição e de frequência; Macário "autarca-ecologista" Correia até construiu um acesso ao pego com um passadiço de madeira e escadas que serpenteam pela vegetação e trazem centenas de turistas ao local.

Agora sim, é mesmo o pêgo do inferno!