quarta-feira, 27 de Abril de 2011 17:34
por
OlindaGil
Morreu Vitorino Magalhães Godinho, um dos mais notáveis historiadores do século XX
Faleceu ontem o historiador, professor
catedrático jubilado da Universidade Nova de Lisboa, ex-director da Biblioteca Nacional, e ministro da Educação e Cultura
em 1974.
Foi um dos pioneiros da História e das Ciências Sociais em Portugal, devendo-se-lhe em especial a renovação e actualização da investigação sobre os Descobrimentos e a expansão portuguesa integrada numa perspectiva global, trabalho que materializou em dois livros fundamentais, “A Economia dos Descobrimentos Henriquinos” (1962) e “Os Descobrimentos e a Economia Mundial” (editado em dois volumes, em 1963 e 1970).

Vitorino Magalhães Godinho interessou-se igualmente pela História de Portugal moderna e contemporânea, em estudos que vieram também reformular perspectivas de análise, como nos trabalhos “A Estrutura da Antiga Sociedade Portuguesa” (1971) e “Mito e Mercadoria, Utopia e Prática de Navegar, Séculos XIII-XVIII” (1990).
Vitorino Magalhães Godinho nasceu em Lisboa em 9 de Junho de 1918, filho de um oficial do Exército e político republicano, Vitorino Henriques Godinho, figura que se mostraria determinante na sua formação política.
Fez os estudos secundários nos liceus de Gil Vicente e de Pedro Nunes, em Lisboa, tendo sido também na Faculdade de Letras da capital que se licenciou em Ciências Histórico-Filosóficas (1940), com a tese “Razão e História”. Torna-se professor extraordinário nesta faculdade, até 1944 (dois anos antes, tinha casado com Maria Antonieta Ferreira). Ruma depois a Paris, onde se torna investigador no Centre National de la Recherche Scientifique. Na capital francesa, estuda e priva com os grandes nomes da École Pratique des Hautes Études, entre os quais Lucien Febvre, Fernand Braudel e Ernest Labrousse, tendo deles bebido as novas metodologias de análise histórica desenvolvidas em volta da revista “Annales”.
“Quando chegou a França, ficaram muito admirados, porque ele tinha já um tal conhecimento, uma tal quantidade de informação, que aqueles sábios não lhe podiam ensinar grande coisa”, recorda Eduardo Lourenço sobre este período da vida de Godinho. O filósofo e ensaísta continua: “Contaram-me que o [Fernand] Braudel disse isso mesmo a alguém: ‘Não se lhe pode ensinar nada’. Tinha muito prestígio nos meios académicos franceses. É uma das grandes figuras da escola dos ‘Annales’, com o Braudel e o Febvre”.
Em 1954, Godinho dá aulas na Universidade de S. Paulo, no Brasil, e, no final da década, faz o doutoramento de Estado na Sorbonne, de novo em Paris, com a tese que depois será publicada em Portugal com o título, já atrás referido, “Os Descobrimentos e a Economia Mundial” (que teria uma edição definitiva em 1983-4).Ministro da Educação e Cultura
De regresso a Portugal, torna-se professor catedrático no Instituto Superior de Estudos Ultramarinos (1960-62), mas acaba afastado, por duas vezes, da actividade docente pelo poder salazarista, em virtude da sua intervenção cívica – que se manifestou, por exemplo, em 1969, na participação no Congresso Republicano de Aveiro, e na publicação de livros como “O Socialismo e o Futuro da Península” (1970) e “Um Rumo para a Educação” (1974).
Logo a seguir ao 25 de Abril de 1974 (a Revolução apanha-o em França), a convite do General António de Spínola, torna-se ministro da Educação e Cultura no II Governo Provisório, liderado por Vasco Gonçalves. Retoma depois o lugar de professor catedrático, desta vez na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (UNL). Em 1984, é nomeado director da Biblioteca Nacional, a convite do ministro da Cultura, Francisco Lucas Pires. Jubila-se, em 1988, na UNL, sendo nesse ano alvo de uma homenagem nacional.
Presidente da República lamenta morte de "um grande homem de cultura"
Cavaco Silva já veio lamentar a morte de Magalhães Godinho, numa mensagem publicada no site da Presidência da República. O Chefe de Estado lembrou Magalhães Godinho "como um dos mais notáveis historiadores do século XX", que "marcou sucessivas gerações de historiadores e cientistas sociais pelo carácter inovador, pela erudição e pelo rigor da sua investigação". Cavaco Silva lembrou o historiador pela sua "conduta cívica exemplar", que "nunca deixou de assumir a atitude crítica que a sua responsabilidade cívica exigia face aos problemas da sociedade portuguesa".
"Portugal perdeu um grande homem de cultura. O seu exemplo como cientista, professor e cidadão perdurará na memória dos que com ele privaram, dos que tiveram o privilégio de o conhecer e admirar como académico e de todos os que através da sua obra e do seu ofício de historiador renovam dia a dia o legado de um Portugal aberto ao Mundo", conclui a mensagem de Belém.
Obrigada Vitorino Magalhães Godinho!
Que descanses em paz!
Fonte:
http://www.publico.pt/Cultura/morreu-vitorino-magalhaes-godinho_1491520?all=1
http://estrolabio.blogs.sapo.pt/1343777.html