quarta-feira, 25 de Maio de 2011 20:08
por
OlindaGil
HOJE É DIA DA ÁFRICA-Uma Mensagem de Fernando Nobre
"Hoje comemora-se o Dia de África.

Hoje, não vos falar em números, vou falar-vos de sonhos…
Como disse o meu querido amigo José Manuel Barata Feyo num brilhante artigo
que escreveu na revista Grande Reportagem sobre “O fim das ilusões”, “Os números
são sempre enfadonhos. Em África, são cruéis”.

Esses números aterradores (avanço dos desertos, guerras civis, máfias
diversas, tráfico de armas, mortes infantis, malária, tuberculose, fome,
corrupção, prostituição infantil, pobreza, refugiados, etc.) sobejamente
conhecidos de todos, são autênticas explosões que só não acordam as consciências
mais indiferentes ou em coma. Quanto aos homens e mulheres ainda vivos só lhes
resta darem as mãos e fazerem frente pois o grito da revolta pela justiça nunca
morrerá.
Tenho o sonho de que o Homem seja protegido e acarinhado como o mais precioso
dos “monumentos” pois qualquer Homem, como ser vivo, é sem dúvida a obra-prima
mais perfeita e única que jamais surgiu no nosso planeta.
Sonho em fortalecer o movimento humanitário para que, actuando no terreno e
sensibilizando a nossa opinião pública e os nossos governantes, consigamos
construir um mundo onde o sofrimento e a miséria deixem de insultar a nossa
consciência quantas vezes adormecida. Se assim não for, tornar-nos-emos em breve
todos uns desumanos e o próprio conceito de Humanidade será posto em causa.
Sonho em construir um mundo melhor, onde os nossos filhos e netos possam
viver em paz e harmonia, onde todos possam satisfazer as necessidades básicas
vitais e onde a (re)distribuição da riqueza e do conhecimento seja mais
equitativa, mais justa.
É pois com saudável esperança que observo, participo e incentivo o despertar
da sociedade civil que quer a valorização do Homem como centro das estratégias e
preocupações políticas. Esta orientação, fundamental para o futuro da
Humanidade, é espontânea e mundial, e traduz-se na criação massiva de ONG
(Organizações Não governamentais) em todos os países.
A emergência forte e global da sociedade civil organizada à volta de temas
dominantes como a solidariedade, a participação, o combate à pobreza, a
tolerância, a ecologia, os direitos humanos, o humanitário é quanto a mim a
maior esperança, para não dizer única, de um mundo melhor para os nossos
filhos.
Utopia? Penso sinceramente que não, ainda que não seja por Humanidade mas
por simples pragmatismo e sobrevivência da espécie. Estou convicto que os
governos muitas vezes pressionados pelas suas sociedades civis cada vez mais
informadas e exigentes (ainda bem!) vão ter que entender que mais importante que
o mercado-rei é a política, mais importante que a política é o social, e que
mais importante que o social são a moral e a ética humanas. Para a quadratura do
círculo em que a minha geração está entalada não há outra alternativa. Só esta
mudança radical de comportamento, de mentalidades e de visão nos conduzirá a um
mundo melhor. Possam os governantes do mundo ter ousadia, rasgo, vontade
política para que, como verdadeiros estadistas, deixem de viver a curto prazo ao
sabor das ondas bolsistas e olhem para o infinito sem esquecerem o amanhã.
Temos todos um longo caminho a percorrer. Estou consciente que morrerei sem
ter alcançado a meta tão desejada mas considero ainda assim que, todos juntos,
temos obrigação de não desistir para que outros a venham a alcançar. É essa a
nossa única obrigação como seres livres e humanos: tentar lá chegar sem
esmorecer mesmo se perdidas algumas ilusões e alguns sonhos.
Continuarei a gritar a favor do Homem, a favor de África e contra o absurdo
cinismo internacional que permite tanto sofrimento."
Fernando Nobre
Fontes:
http://fernandonobre.blogs.sapo.pt/21458.html