Ética - a ética da indignação e os média
O que é que designa por «primeiro nível da ética»?
"É o nível mais imediato e universalmente acessível. Somos mais propensos para combater o mal que sentimos, ou do qual somos testemunhas, do que a procurar uma felicidade que imaginamos.
A busca do bem-estar é mais difícil do que o alívio do sofrimento, porque é mais individual e perdura. É mais fácil estarmos de acordo sobre uma ética mínima para evitar o mal e a dor do que sobre uma ética mais elaborada, para o cumprimento do bem e a busca da felicidade.
A primeira é uma ética da criança, quase espontânea, desencadeada, sem reflexão, pela piedade ou pela indignação. Actualmente é esta a que melhor funciona, graças aos media, pois constitui o principal motor daquilo que se designa por humanitário.
A outra é uma ética de adulto, exigindo uma longa reflexão e mesmo uma ascese, dado que não é obtida imediatamente.
Poderíamos esperar que o poder poético, aquele que pertence aos jornalistas-educadores, fosse exercido por «bons poetas»: a educação deve não só procurar ensinar a verdade e desencadear a indignação mas desenvolver também o espírito crítico.
Trata-se, em especial, de formar telespectadores críticos e exigentes. É o único meio para que os programas que os vão educar durante toda a vida sejam eles próprios de qualidade."
ATLAN, H. - Bousquet, C. (1996) Questões sobre a Vida. Entre o saber e a Opinião, Lisboa, Instituto Piaget, pp. 14 - 15.