Respingos do Douro - O meu Concelho sofreu um ataque terrorista


Acabou o pesadelo.
Depois de 24 horas a sofrer com o incêndio que lavrava na Mata da Serra da Azinheira, a ver como centenas e centenas de metros de mato e pinheiros eram devorados no sentido da serra para Vila Real, eis que, após as 14-15 horas da tarde de ontem o vento ao mudar de sentido empurrou o incêndio em direcção contrária!
A velocidade de avanço das chamas, em direcção ao topo da Serra, caminhando a toda a brida para a Zona Industrial de Sabrosa, iam deixando adivinhar que, mais cedo ou mais tarde desceriam em direcção a S. Martinho de Anta e… estava aqui a minha e outras casas de vizinhos!
O barulho era ensurdecedor, entre o roncar estranho de um heli que parece que a cada passo vai ficar sem o motor, as avionetas a rasarem as copas de pinheiros e um som surdo terrível das chamas, de altura incrível, curvadas como que à procura de mais uma dezena de pinheiros e de calor abrasador.
É incrível a quantidade de Bombeiros e viaturas!
Bombeiros de Sabrosa, Provesende, Pinhão, Sanfins do Douro, Régua, Santa Marta, Vila Real….e, pasmem, Cascais, Oeiras, Estoril, Barcarena, Condeixa…( não consigo lembrar-me de mais e pelo facto peço imensa desculpa a quem não citar)
Era um cenário de quase Guerra, com concentração de soldados e aviões a ajudarem ao cenário.
Caras concentradas, quase rígidas, mas de olhar decidido.
Mulheres e homens ainda bem jovens, que correm de um lado para o outro, vão directas ao fogo e tentam apagá-lo.
Vão de um lado, vão do outro, gritam uns para os outros:
- Vamos aqui malta. Vamos agora ali. Olhem além!
O suor escorre-lhes pela cara, farrusca de negridão, pelo que se pode ver por entre o intenso fumo.
Pela meia noite, parece que a batalha está ganha e as chamas começam a diminuir.
Pura ilusão!
De repente arranca toda uma extensa frente de enorme chamas que vêm mesmo em direcção às nossas casas. A minha será o primeiro alvo a abater, por estar mesmo junto à estrada.
Chamas enormes, superiores em altura aos postes de alta tensão, barulho ensurdecedor, velocidade incrível.
No meu telhado e no jardim, começam a cair faúlhas incandescentes!
Mesmo caindo na relva molhada, continuam a arder, como que a anunciar que está na hora de abandonar tudo, a nossa casa, os nossos haveres, o cantinho que sonháramos para ser o último, mas não assim, nem já.
Retiraram-se os carros para sítio considerado mais aconselhável e, esperámos…
Mesmo em frente, ouvem-se os gritos dos Bombeiros:
- Aguenta, aguenta, aguenta!
Infernal o que se vê à nossa frente l
Na linha feita pelas equipas da EDP e de que já falei à tempos, aquela lenha ali depositada ( manta morta, como lhe ouvi chamar) atiça mais o braseiro.
Mas eles resistem e atacam.
E ganham, pela graça de Deus e sorte para todos nós os que aqui habitamos.
Passada meia hora, um dos comandantes em terrenos ( de Cascais!) vem pedir água.
Bebeu 2 copos e levou uma outra de água fresca natural.
Notava-se-lhe na voz a satisfação da vitória, do dever cumprido, a alegria de nos poder dizer que podíamos estar descansados, que o incêndio estava “nas suas mãos”!
E era verdade!
Eram três e meia da manhã!
Havia uma grande fogueira lá mais a longe.
Estava circunscrita, como eles dizem.
Fomos descansar um pouco, ficando de sentinela um dos meus filhos, vindo do Porto à pressa, pelas notícias que lhe chegavam.
O outro, o mais velho e a esposa tinham ido descansar, porque hoje é dia de trabalho.
Às 7, 30 da manhã levantei-me. Já se via o Sol e quase não havia fumo.
Pretendo voltar a este assunto.
Mas, para já quero deixar o nosso mais profundo e sincero agradecimento a todos aqueles que combateram este horrível incêndio.
Pela bravura deles estamos ainda aqui, na nossa casa.
Mas ISTO NÂO PODE VOLTAR A ACONTECER!
Porque aconteceu, nesta Terra, neste Concelho, nesta REGIÂO PATRIMÓNIO MUNDIAL!
Um ataque terrorista como este não pode voltar a acontecer.
FORAM 14 FOCOS DE INCÊNDIO, ao mesmo tempo!
