Respingos do Douro - Por Santa Bárbara ou S. Lourenço, seja em Portugal ou no Chile!

Foram muitos dias a “olhar de lado” em relação à situação dos mineiros, no Chile!
Via que a divulgação sobre aquela situação era cada vez maior e portanto muito mais insustentável para ser ignorada por quem tem o poder de decisão!
É que o que está debaixo de terra não se vê, não dá lucro imediato, não dá votos!
Mas, era de tal modo o conhecimento do Mundo pela existência ainda real daqueles 33 mineiros, que o Chile tinha que fazer algo para os resgatar!
E fez!
Fez e de que maneira…, graças a Deus!
Assisti a uma autêntica revolução de vontades e de conjugação de esforços. Mediatização a pedir meças a um campeonato do Mundo de Futebol, à 1ª Guerra do Golfo ou aos atentados às Torres Gémeas de Nova Iorque!
E graças a Deus que assim foi, porque quem lucrou foram 33 almas que estavam lá em baixo!
Porque muitas mais têm morrido nas catacumbas das obras subterrâneas e ninguém sabe ou muitos poucos ligam a tal.
É o poder da Comunicação!
Hoje, venho aqui dar graças a Deus e a Santa Bárbara por ter ajudado a que aquela rapaziada volte a respirar o arzinho cá de cima!
Sabem aqueles que me têm acompanhado ao longo dos últimos anos de escrita nestas páginas que sempre me orgulhei das minhas aventuras profissionais na área da Geologia.
Escrevi páginas e mais páginas sobre a influência do Volfrâmio em Portugal, com particular incidência em Trás os Montes ( Sabrosa, Carrazeda de Anciães, Moncorvo, Freixo de Numão, etc. etc.), e das vicissitudes mineiras, com os seus hábitos, crenças e normas bem próprias de sobrevivência debaixo de terra.
Falei de Santa Bárbara e na fé dos mineiros!
Das doenças que advêm a quem trabalha debaixo de terra!
Os desgraçados que vão definhando na zona de Nelas são disso testemunho, sem que alguém lhes ligue, lhes dê importância ou agradecimento bem merecido. Porque são produto em “fim de linha”, em “ fim de prazo”!
Prestei a minha homenagem aos portugueses que morreram em Andorra, em trabalho de escavação subterrânea!
Presto a minha homenagem de contentamento a estes “ sortudos”!
Foi esperto e feliz quem baptizou esta operação de Fénix!
Porque renasceram, na verdade das entranhas da lava adormecida lá nas profundidades, para virem ao de cima viver uma outra vida na vida que já conheciam!
E, acham que me vou preocupar com a mulher que não era a esposa, mas amante?
Se quem pediu em casamento não foi ele mas sim ela?
Que o avião do Presidente ali ao lado tenha ido vazio?
Não!
Interesso-me muito mais pelo espírito de auto disciplina, auto sobrevivência, auto controle de 33 homens, todos diferentes mas todos iguais numa situação propensa ao maior descontrole, à maior indisciplina de grupo, a cenários próprios de absolutos sinais animalescos, quando perdida a “luz da razão”!
Porque o trabalhar debaixo de terra implica auto disciplina!
O barulho subterrâneo das máquinas, o ar saturado e húmido que se respira, os horizontes confinados às paredes ali bem perto que foram desbravadas rebentamento a rebentamento, programam o pensamento para a duração de um turno!
Mais!!!
É doloroso, massacrante e perigoso.
Pode pôr em risco muita coisa!
Mas, é nestas horas que surge alguém! Alguém que faz daquilo que tem dentro de si a força interior para assumir a cabeça da luta, der para onde der!
Não se nasce herói!
Aparecem, quando menos se espera e às vezes de onde se não conta!
Aquela gente tem muito que contar…
Se tem.
Olhem, eles, os mineiros que estiveram aquele tempo todo lá dentro entre “ Deus e diabo”, optando por lutar pela vida.
Aqueles heróis sem holofotes, directos de televisão, abraços públicos mas que avançaram rumo ao desconhecido para irem até lá abaixo, dar ânimo, ensinamentos e avaliarem a situação!
Ou outros estavam lá em baixo, mas eles não tinham a certeza se iam e voltavam! Tecnicamente, TINHAM QUE ACREDITAR QUE SIM.
Ou o primeiro mineiro a subir!
A escolha foi criteriosa!
Ele era “os olhos” que necessitavam aqueles que estavam cá em cima!
Deixem-nos respirar fundo, saborear o que está cá fora e ouçam-nos, mas sem os forçarem, explorarem ou subverterem.
O último!!! Trazia a lição de vida, a experiência, a autoridade.
Era o último a abandonar o barco!!!!
Trazia consigo o simbolismo da gesta daquelas que se atrevem a trabalhar debaixo de terra.
Ouçam-nos…
Porque eles trazem lições de vida e de luta, escritas linha a linha debaixo de terra, durante muito dia e muita noite!
Será que os terráqueos cá de cima vão valorizar muito para além do lucro material, o esforço das toupeiras meias loucas mas corajosas que andam lá por baixo a fazer aquilo que muitos idealizam mas não são capazes de “ir lá ver?”…
Digo-vos!
Vi muito “corajoso” olhar cá de fora para locais subterrâneos onde agora passam a mais de 100, mas que nessa altura não eram capazes de entrar nem sequer um metro, nem tirarem os sapatos envernizados e a custarem um mês de salário do desgraçado que andava lá ao fundo, para levar algum dinheiro para casa e assim sustentarem a mulher e os filhos.
À saída do Túnel, descobriam-se e agradeciam a Santa Bárbara, por os ter protegido durante o Turno de Trabalho e irem sãos e salvos para casa!
Que a Santa Bárbara Chilena proteja todos os mineiros, sejam eles da nacionalidade que forem.
Por último, tenho que dizer que foi uma grande vitória da tecnologia sobre o empirismo!
Jogaram os analista muito cautelosamente propondo a data provável de evacuação para o mês de Dezembro!
Em meados de Outubro, estão cá fora!
Propuseram técnicas de avanço de perfuração e níveis de carotagem.
Tudo pulverizado…
Maravilhoso!
Imagino que os esforços empresariais, científicos e políticos a nível global foram de uma dimensão louca ( a NASA vestiu um fato de macaco diferente!)
Mas, a nível científico, quer médico( aqueles aparelhos todos a debitarem reacções diversas para análise laboratorial durante a subida, devem ter um valor único) quer científico ( comportamento das coroas de diamante de perfuração, em ritmo acelerado, darão muito mais dados de comportamento para as perfurações no Antárctico, por exemplo) ou geológico ( a filmagem das paredes do furo devem valer uma fortuna)
Vou parar na minha divagação..
Estou retirado, vivo na serra, e não em Hollywood.
Mas deixo a minha saudação aos mineiros de Aljustrel!
Personalizaram a Raça Mineira!
Não imagino o que sentiram aqueles que andam na Serra do Marão.
Que Santa Bárbara os ajude