O caminho democrático da liberdade!
As condições minimalistas para se poder civilizar um mundo interdependente politicamente, mas deprimido, serão uma possibilidade impossível?
Reduzir as desigualdades, alimentar os esfomeados, abrandar o crescimento demográfico, diminuir os estragos ecológicos, modificar a maneira de trabalharmos, criar instituições de regulação e de salvaguarda dos interesses da humanidade, é hoje possível materialmente através da técnica. Tudo bem. Mas esta possibilidade será possível? Não serão o rol de transformações nas mais diversas e complicadas estruturas mentais, económicas, sociais, políticas, nacionais, transnacionais, etc… uma possibilidade impossível?
Vivemos então na impossibilidade real de um mundo possível? Será isso? O realismo que corresponde às possibilidades reais da agricultura, tecnologia, economia, ciência, poderá ou não ser realizado, ou não passará de mais uma utopia?
Reconheço a incerteza profunda sobre as possibilidades que se abrem ao progresso mental, moral, social, em contraste com o outro lado da moeda do progresso, o possibilismo da ciência, da economia, das instituições.
Mas saberemos nós quais serão as fronteiras do possível e do impossível? Teremos sempre de escolher o menor dos males? Que obstáculos é que nos impedem de querermos melhorar o nosso modo de sermos humanos?
Nunca vamos encontrar o melhor dos mundos, seja em que área for, o que poderemos encontrar são, possibilidades para um mundo melhor. Mas para isso temos de ter a coragem de nos colocarmos diante do “motivo”. As regras que estão em vigor, os princípios que nos dão como certos, já não explicam a realidade que nos conforma. Mostrar as insuficiências da democracia, não chega para a desqualificar. Para podermos ver o caminho, temos de o fazer em profundidade. Não chega ter uma perspectiva, é preciso experimentar a mudança da própria democracia; não mentalmente mas tactilmente. É preciso termos uma relação directa com o mundo que nos rodeia. Se partirmos do pressuposto que ainda ninguém conseguiu o verdadeiro caminho democrático, procuremos então “desenhar” um, que seja fiel, àquilo que experimentamos como cidadãos do mundo. A democracia não tem de ter uma norma, mas várias normas que nos permitam realizar como diferentes, mas ao mesmo tempo, iguais! A democracia tem o seu recurso próprio, tem o seu direito, direito esse que remonta às raízes do mundo. Temos de lhe apalpar a sua consciência tranquila, a sua simples veracidade, como sistema que pode educar politicamente os homens. Só que, temos de estar disponíveis. Perfeitamente disponíveis para que ela possa fazer, algo por nós. Ela sempre foi e continuará a ser democracia, por muitas cores políticas que lhe possamos dar. Essas cores, são só acessórias porque ela é, e sempre será a mesma. A democracia é o que é, entendamo-la. Ela não é só um sistema político, é o espaço que ocupa entre os homens, o entender das suas modulações. A democracia é o que justifica a nossa comunhão em presença, pois ela é a própria possibilidade de presença. O que ela nos pede, é simplesmente que nós façamos a escolha do nosso próprio caminho enquanto homens, enquanto humanidade. Ela quer respostas, àquilo que nos oferece, ou pode oferecer! Ela quer que nos tornemos ela, em nós! Percebo que num mundo tão competitivo se torne difícil ver o caminho, entender o sentido do caminho democrático, porque se tende a uniformizar tudo, e porque se tende a tudo uniformizar, seguimos caminhos balizados antecipadamente. Mas o que deve prevalecer, é o nunca renunciarmos a trilhar o caminho da paz democrática, por muitas “insinuações” que nos façam. Haveremos de encontrar sempre obstáculos – e que obstáculos, pois, as sereias dos compromissos particulares e egoístas nunca vão cessar a sua sedução – no entanto é forçoso não renunciar à democracia. E não fazê-lo nunca!
Esta é a lição mais democrática que se pode dar ao homem; encontrar um caminho que não nos afaste do que é importante para nós.
Ousemos pois, e se nos enganarmos, paciência, recomecemos! Recomecemos as vezes que forem necessárias até acharmos a fonte onde tudo e todos democráticamente se reconciliarão. È a única hipótese que temos de ser fieis ao que de verdadeiramente real existe no homem, procurar o momento da verdade indiscutível do relacionamento dos povos, das suas culturas, das suas diferenças. Quando encontrarmos o caminho, iremos sentir-nos libertos de tudo, e este, é o significado da verdadeira liberdade.
Meus amigos, se não entramos no vale, se não caminhamos pelos carreiros das nossas vidas, se não experimentamos nós próprios os caminhos, nenhuma porta de liberdade, nem de democracia se abrirá perante nós. Este é o verdadeiro segredo!
Talvez o caminho seja árduo, difícil, porque exige disciplina e muita perseverança. Mas, se não o seguirmos, se renunciámos, condenamo-nos a fingir viver e damos a vida nossa e de nossos filhos, à expiação. Mais importante do que praticar o bem é levarmos a nossa vida a sério. Podeis achar que por dizer o que digo, sou um perfeito idiota, mas eu só procuro o meu pouco de liberdade “azul”, um pouco de presença num mundo que me entenda e no qual eu entenda quem me rodeia. Não nasci para servir ninguém voluntáriamente e desconfio brutalmente dessa tendência. No entretanto, convém não esquecer que todo o caminho a percorrer é antes de mais educação, e esta, é a condição para entrarmos naquilo que nos pode engrandecer como homens. Porque meus amigos, dizer a alguém o que ele deve fazer, é o contrário de toda a educação e é disso, que a verdadeira democracia nos pode libertar. A democracia não basta para atender às exigências das pessoas, mas deve ajudar-nos a tornar mais ardentes os nossos questionamentos. É assim que a pessoa se sentirá liberta e fecunda. Mas para mim a democracia não deve significar - tão pouco esconder-se - nas regras de uma vasta organização! Não, não devemos recusar a nossa própria individualidade, devemos sim confiar nela. Cada um deve seguir o seu próprio caminho procurando a harmonia. Devemos por de lado o reino da culpabilidade. Não precisamos de ser sempre mais eficazes que os outros, objectivando falsas realizações. Não! Recusemos cegar perante os nossos próprios recursos. Trabalhemos juntos, liguemo-nos uns aos outros na base de uma confiança construída, com base nas tradições de cada um e partilhemos os nossos saberes. A democracia plena surgirá quando soubermos o suficiente para conseguirmos estabelecer uma relação viva entre a tradição e o “verdadeiramente moderno”. Se abandonarmos qualquer uma destas duas exigências, nunca encontraremos o verdadeiro caminho democrático.
Mas que fique certo, que nenhuma instituição poderá encerrar a verdadeira democracia a partir do dia em que ela surja. Pois a instituição que pretender apropriar-se dela, perderá a possibilidade democrática de toda a humanidade.
Estaremos no bom caminho? Não sei! O que penso, é que apenas nós nos poderemos tornar, democráticamente livres.