O impasse europeu.
Por vezes, ensimesmado pelos meus pensamentos, julgo existirem dois modelos de europeus: os que possuem a visão futura da Europa e os pessimistas realistas europeus. Ambos hierarquizam os problemas e os desafios da Europa. Apresentam-se em conjunto, mas relevam de temporalidades e de diferentes planos de vivência do quotidiano. Platão falava num paradoxo, aquele paradoxo onde o pensador olhava para um futuro longínquo e o político tentava agir o mais próximo possível da realidade vivida. Será que temos força como povo europeu para segurarmos as duas pontas desta corrente?
Os desafios geopolíticos da Europa estão à vista de quem os quiser ver e não ignorar. O dilema, o problema da constituição ratificada, não resolve o fosso do nível de riqueza do norte em relação ao sul. Tão pouco soluciona a recomposição do elo social no espaço europeu. Não é preciso recorrer às estatísticas, à crueza dos números, para demonstrarmos o que se evidencia por si próprio e que reside no seguinte facto: o bem estar do Norte (embora existam ilhas de precariedade) afronta a pobreza estrutural do Sul, dando origem como temos visto a grandes antagonismos e conflitos. A Europa, está definitivamente confrontada com a urgente questão por resolver do Sul. A comunicação dá-nos a temporalidade igual, mas não nos transmite igual bem- estar. E esta frustrante situação contamina-nos de alto a baixo, contaminando subsequentemente, os parâmetros de identidade europeia. Alteram-se identidades, alteram-se relações de lealdade, crispam-se os comportamentos a norte. Como conter a pressão migratória na Europa? Como enfrentá-la unidos? E esta não é uma simples questão de fluxos migratórios, é um problema oriundo da excessiva liberalização e pela crise das sociedades do sul da Europa. Urge ou não uma visão de co-desenvolvimento, entre o Norte e o Sul? Como se poderá controlar economicamente, os fluxos migratórios? Não serão necessárias políticas públicas, mais do que policiamento?
Eu, sinceramente, penso que não vamos lá com esta filosofia política impregnada por este tipo de Europa. A filosofia que legitima a oposição interindividual como forma natural do corpo social e político, nunca poderá ser solução para os problemas com que se depara a Europa. Nem é impondo retoricamente a sociedade civil contra o estado, que se conseguirá sair deste problemático impasse. E lá vamos nós cair então, na restauração da cidadania republicana como a possibilidade crucial da resolução do problema europeu. Pois só ela pode contrapor à privatização arrasadora dos indivíduos, formas de socializar, nas quais a tensão entre liberdade e igualdade estejam ao serviço do bem comungado por todos os cidadãos europeus, estejam enfim, ao serviço da coisa pública. Elaborando contratos de cidadania, faremos do bem comum uma assunto de cada um de nós e da liberdade um assunto do povo europeu.
Eu pelo menos, assim espero.