SOL
A minha "fome":liberdade e igualdade. O meu sustento: Democracia.

Sou um democrata e tenho “fome”! Aquela espécie de “fome” que só se mata no espaço democrático. No entanto, sinto o meu tão necessário espaço democrático ameaçado! Mas ameaçado por quem – poderiam questionar vós outros. Eu vos responderia: pelo desconhecido, esse animal obscuro, e pelo tempo, essa carcaça velha que quanto mais gasta, mais existe.

Não sabeis vós que a democracia não é doutrina? Não vos hão ensinado, que ela é um procedimento usado para tomar as justas decisões sobre o que devemos fazer e o que deve ser evitado, no seio das comunidades?

A sabedoria do bem e do mal, está-me vedada como saber, saber que eu queria e desejava em absoluto. Por isso, só me resta um esfomeado conhecimento parcial, fragmentado, - aliás à semelhança da fragmentação e parcialidade do indivíduo moderno -, sendo que, a solução, é agarrar-me fortemente à pega da democracia, a única que me permite procurar uma política mais justa para que mate a minha “fome”.

A democracia não predetermina uma boa sociedade, mas torna-a mais provável. E se não o conseguir, pelo menos serão mais desculpáveis os medíocres resultados alcançados nas tentativas de o fazer.

Sim, ela diz que enquanto seres humanos, somos livres e iguais. Ela transmite respeito mútuo às pessoas em si, embora o possa fazer de uma maneira formal.

O pão para a minha “fome”, pode dá-lo a democracia, ao converter os princípios da igualdade e liberdade, no bom funcionamento das pessoas com o mundo que as rodeia. Sim, ela tem as suas debilidades, ela tem uma consciência e por isso mesmo faz - ou tenta fazer -, das nossas necessidades, virtudes.

Mas a minha “fome” aumenta, quando vejo que a democracia é injusta para os que são em menor número e representam interesses ignoráveis ou asfixiáveis; é injusta em relação aos dissidentes. A minha “fome” democrata saciar-se-á, quando a democracia descobrir a plenitude dos interesses comuns e der um correctivo exemplar nos interesses corporativos. Sim, eu percebo que nem tudo é possível, percebo que não é ajuizado enfartar-me de “democracia”. Prometo ter uma “fome” comportada, humilde, e serei sempre senhor da audácia de corrigir os exageros da minha “fome”. Um democrata paciente, permite que outros recolham os frutos que se começaram a semear. Todos devemos matar a nossa “ fome” democrata. Aprendamos a viver com as debilidades da democracia, e notem bem que estas, não são só, as dos indivíduos que como eu a formam. Precisamos mutuamente uns dos outros para que haja progressão material e espiritual. Alarguemos ao máximo as consultas e o diálogo na nossa sociedade, não passemos a desterrada impressão de que a política é coisa de poucos, quando é coisa de todos. Mas não caiamos no erro de que a politica tudo resolve. Não. O espaço democrático para a solução dos nossos problemas está também para além da política, existem outros canais de cooperação e participação e a democracia incentiva-os e ampara-os. Sintamo-nos implicados no equacionamento e soluções, daquilo que mais directamente nos diz respeito, os problemas de todos nós. A democracia assim o exige. Num contexto de igualdade e cooperação, quase tudo se consegue resolver. É preciso que a nossa sociedade civil e o estado, mantendo-se separados, comuniquem e muito cooperem. Reforme-se o poder do estado e reestruture-se a sociedade civil. Pois não será a débil estrutura da sociedade civil que faz com que o voto seja uma fórmula vazia e irreal? Não será esta exclusividade mecânica do voto,  esta evidente falta de uma participação orgânica que nos impede de termos uma compreensão adequada dos conflitos políticos, e que por isso mesmo, não consigamos exercer o suficiente controlo sobre as decisões?

Claro que o estado deve ser suficientemente forte e decidido para redistribuir os bens básicos e conceder ajuda aos mais necessitados. Esse é um dever de um estado democrático. Claro que o estado deve prestar-se mais a atender e apoiar as iniciativas, queixas e pedidos emitidos pelas organizações sociais, frágeis e precárias, no entanto, existentes. Esse é um dever do estado democrático. Mas não será então necessário para que tudo isto aconteça, aquilo a que se pode chamar: a dupla democratização: da sociedade civil, pensando igualizar as desigualdades mais aberrantes e ofensivas, e do estado, repartindo o seu poder de forma mais equitativa.

A minha “fome”, é frágil! Também o é a democracia que me alimenta! Se eu cuidar dela, ela mata-me a “fome” e não se estilhaça antes de me alimentar. A fragilidade da democracia é reflexo dos nossos conflitos interiores e privados. Reflexos das nossas “fomes” e ganâncias. Seria bom que os políticos de carreira deixassem de simplificar a função dos restantes actores inerentes à cena democrática, pois isso não faz bem à democracia. E eles simplificam a democracia quando, em lugar de elaborarem programas sérios e credíveis, em vez de pensarem os conteúdos democráticos, passam o tempo, a desqualificarem-se entre si. Para a fragilidade democrática, também contribui e muito, os meios de comunicação, que vêm simplificando a política ao ponto de a terem tornado um triste espectáculo e um bar aberto de escândalos a tempo inteiro. Também os partidos simplificam a política ao monopolizá-la e por isso enfraquecem o espaço democrático. Por tudo isto, não resta outra solução senão o cidadão sentir-se verdadeiramente cidadão, ao começar a considerar e entender, que não é só sujeito de direitos, mas também de alguns e fundamentais deveres. A minha “fome” tem consciência da lentidão e do vacilar de quem lhe saceia a “fraqueza” (o manjar democrático). Ela sabe que, necessita de tempo para cumprir a função de alimentar, tanto ente necessitado. Deve inclusive resignar-se a “perdê-lo” se assim tiver de ser. Tudo se desloca muito lentamente numa democracia, já que o princípio fundamental é não deixar nenhuma “boca” sem alimento (democrático) e ter em conta as “fomes” de todos.

Sempre tive fé de que as misérias se podem combater. Sempre tive fé de que as tiranias das maiorias se combatem integrando as minorias em órgãos de poder, repartindo o poder mais justamente. A indiferença – na minha vida comum -, tenho-la combatido fomentando a cooperação através do diálogo e da consulta mais evidente e continuada. Sempre o fiz e sempre o farei com o pequeno mundo que me rodeia.

Nem me preocupam sequer os desvios anti-democráticos que dizem que a democracia provoca, pois eles quase nunca são imprevisíveis; são quase sempre consequência de um voto de castigo, resultante de um descontentamento e do desânimo perante o procedimento de um governo que já não dá sinais democráticos.

Portugal não está condenado. Portugal não está condenado às próprias misérias, porque muitos de nós conhecemo-las e damos a conhecê-las, e essa, será sempre a condição necessária para que um povo ultrapasse as suas misérias. Haja vontade de combatê-las no seu próprio terreno, no terreno da plenitude democrata.

Posted: sexta-feira, 24 de Setembro de 2010 22:25 por PauloBelinsky

Comentários

pguedes said:

Caro

Assim, de um só fôlego, é de cortar a respiração!...

Um dos melhores posts que já li, em que até a metáfora está presente, fazendo realçar o valor do racional quando combinado com a paixão que anteriormente lhe referi!

Não lhe dou os parabéns, expresso-lhe sim a gratidão por oferecer esta reflexão (que só muito estudo terá permitido) a todos nós.

bem haja

pg

# Setembro 24, 2010 23:20

coxo said:

Excelente texto encomiástico, de como a democracia se devia discernir, aclimatar e utilizar. Parabéns. Creio que o mais importante na democracia não é a liberdade que nos dá, mas sim o que podemos fazer com ela.

Cumprimentos.

Coxo.

# Setembro 25, 2010 10:38
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