Os modernos tempos das velhas austeridades.
Com relação a tudo o que deriva dos “modernos tempos das velhas austeridades”, só me ocorre o que a seguir vos apresento como pensamento.
Quando o governo assume a preponderância das políticas públicas (quaisquer que elas sejam), ao povo cabe assumir as circunstâncias das mesmas. Só que, a meu ver, existe um desfasamento entre a preponderância de uns e os circunstancialismos da aceitação dos outros, que no fundo resume o que significa o espaço democrático.
É caso então para podermos questionar: mas afinal, onde ficamos nós, os que habitamos o tão propalado “mundo livre”, aquele mundo burguês que habita em nós? Nós? Nós ficamos num espaço que se designa por dilema, ou seja, ou nos resignamos perante as medidas austeras que nos abalam, ou transformamos essa fragilidade inculcada nas nossas vidas em oportunidade. Oportunidade? Sim, oportunidade. Oportunidade de todos nós reflectirmos as nossas actuais condições cívicas e políticas. Oportunidade de forçarmos as nossas vontades, a entenderem, o como foi que chegamos à situação em que hoje nos encontramos.
Não lhes parece muito? Não lhes parece que por esta via consigamos resolver o que quer que seja? Pois ouso dizer-lhes, é muito mais do que aquilo que vos parece. Porque o verdadeiro sentido para esta crise crónica, para esta utopia da desgraça, passa sempre por um entendimento consciente do que ela realmente significa, para cada um de nós e para todos.
Uma crise que se reconhece como crónica, está já a meio caminho da negação de si mesma. Porque afirmarei tal? Talvez pelo facto de, ao ela se reconhecer através de nós, terá já feito a primeira e crucial distinção entre a realidade e a construção fingida da mesma. Uma vez feita essa distinção, tanto a legitimidade de a combatermos, como a integridade da realidade das nossas vidas, podem ser preservadas.
O mundo moderno das crises eternas, no fundo a crise da pós-modernidade, foi criada por ideias e gananciosas paixões por ela desencadeadas. Ora, para superarmos este estado de crise latente, sem destruirmos o nosso mundo, temos necessidade de novas ideias, ideias essas, que regulem as apaixonadas ganâncias dos nossos tempos e das nossas gentes de elite. É necessário refundarmos o relacionamento frutuoso e harmónico, com a realidade que nos envolve, e que no fundo, dá corpo ao nosso humanismo.
Como choca ver os nossos filhos e netos, serem moldados e envolvidos num mundo super individualista, egocêntrico e ganancioso.
O mundo, o nosso querido mundo, o mundo dos nossos filhos e netos, deveria ser um mundo acolhedor, um mundo de abraço entre os homens, onde as práticas das vulgares virtudes, no decurso das nossas vidas, pudessem preencher a potencialidade impar de sermos humanos, porque o somos.
Num mundo assim construído, os sonhos, as nossas aspirações, seriam a todo o tempo um complemento da realidade, em vez de com ela guerrearem. Mas a construção de mundo tal, terá que ser o empreendimento impar da intelectualidade que assuma essa tarefa. Pensem-no, executem-no e preservem-no a bem das sociedades futuras.
Sei que tal tarefa requer coragem, arrojo, e muito apoio. No fundo, requer o apoio da maioria de todos nós. Mas coragem não faltará, apoio não minguará, se tivermos o arrojo de pensarmos construir esse equilibrado mundo.
Diriam vocês: - que aventura! Não, não é uma aventura colegial, tão pouco Académica. Se ousarmos uma nova percepção da realidade intelectual e espiritual, vamos conseguir erguer um mundo diferente e melhor. Só a nossa ousadia de pensar um “mundo novo”, nos poderá levar de regresso à sanidade, à aceitação de uma realidade que exista como condição de preenchimento da dignidade de toda a pessoa humana.
Esse é o meu desejo impar!
Esse é o amor pelos meus filhos e o carinho pelo demais!
Esse é o tal mundo da dignidade do futuro!