Bomarzo
Saiu finalmente em Portugal o Bomarzo - uma das grandes obras da literatura mundial, das maiores da língua castelhana (no topo do cânone da novela em espanhol), considerado por muitos críticos o maior romance histórico - que levou Jorge Luís Borges, fascinado, a organizar uma homenagem aos seu conterrâneo e autor da obra, Manuel Mujica Láinez, pouco depois da sua publicação, em 1962. Teve logo os maiores prémios literários, na Argentina, em Espanha, nos EUA e em Itália.
Deparei-me com o livro em 1989, quando cheguei a Espanha, para uma estada de 14 anos, que me deu para reler com prazer mais tarde as suas 675 páginas. Sempre me espantei pela falta de uma edição em português. Saíu agora. Não a conheço (a fotografia que junto é da edição espanhola). Mas a avaliar pelo editor - João Rodrigues, da Sextante Editora -, e pelo tradutor - Pedro Tamen -, é seguramente de qualidade.
Há quem lhe chame um romance maneirista. É fácil qualificá-lo como romance histórico - porque recria a Itália renascentista do Século XVI, com as suas famílias mais conhecidas, e os seus episódios marcantes. E depois há aquele toque fantástico, próprio da literatura latino-americana da época. E ainda o tom erudito que lhe acrescenta o autor.
Eu sei que não devemos ser tão absolutos: mas apetece-me dizer que o lançamento da edição portuguesa deste livro é o nosso acontecimento literário do ano. Não há melhor coisa para fazer nesta Feira do Livro do que procurar o stand da Sextante, e comprar o Bomarzo. E depois é deliciarmo-nos com a do duque Pier Francesco Orsini (mesmo ficcionado), contada na primeira pessoa, com a sua personalidade simultaneamente inocente e pérfida, que nos agarra, e aqueles bosques assustadores de Bomarzo, com a obra fantástica lá deixada pelo duque (as estátuas, os túneis denivelados - um mundo estranho), próximo de Viterbo, que Mujica Láinez visitou pela primeira vez nos anos 50. É ler, e gozar muito o prazer de o fazer - e preparar uma viagem a Viterbo, para correr aos jardins e bosques de Bomarzo.