Uma história de bullying
Uma história que se passou há anos com os meus filhos, e de que só agora tomei conhecimento, porque eles preferiram não me dizer nada na altura, mostra como se atalha facilmente o bullying - e se evita que muitas crianças caiam definitivamente em posições anti-sociais.
Vivi anos em Madrid, e como tinha muitos filhos, tive de pô-los numa escola pública do bairro onde morava. Uma escola católica, porque a Concordata espanhola prevê que os colégios religiosos sejam totalmente financiados pelo Estado, funcionando em contrapartida como escolas públicas. sujeitas às determinações do Ministério da Educação (quer quanto a programas de ensino, quer quanto a regras de recrutamento de alunos, privilegiando os da zona). Para essas escolas vão normalmente miúdos de famílias com menos meios económicos. Os meus conhecidos e amigos portugueses que lá viviam, com menos filhos que eu, punham-nos em colégios particulares.
Ora as classes mais baixas espanholas (cultural e economicamente), tendem a orgulhar-se das suas posições de nacionalismo xenófobo - que descarregam especialmente sobre as pessoas do Magrebe e sobre os portugueses (que, depois do felipismo, se tornaram em geral mais pobres do que os espanhóis, e emigravam nessa altura para aquele país em empregos menos qualificados, no trabalho doméstico e na agricultura).
Uma das minhas filhas foi agredida por um desses colegas xenófobos, mais velho e maior do que ela, com insultos xenófobos à mistura. Por sorte, uma vigilante assistiu à cena, e o agressor foi imediatamente expulso da escola. Sem se criar nenhuma comissão, nem se proceder a qualquer inquérito. No próprio dia. Apenas por a vigilante ter assistido à brutalidade da agressão, e aos motivos invocados. Com uma solução assim rápida, não havia bullying naquela escola. O miúdo agressor ficou ciente de que não podia fazer que lhe apetecia impunemente, e os pais também sentiram o incomodo da situação, devendo ter revisto os princípios gerais de valores que vigoravam em suas casas.
Repare-se agora o que aconteceu na escola do Tua, de onde era o falecido Leandro. Apesar de o miúdo ter sido inquestionavelmente agredido por colegas mais velhos, a pontos de ir parar ao hospital, a Inspecção do Ministério da Educação não conseguiu provas de bullying que a levem a questionar o funcionamento da escola. E apesar de o miúdo ter morrido a uma hora em que devia estar no colégio (de onde se escapou, como parece escaparem-se habitualmente outros), a mesma Inspecção continua a não ver nenhuma responsabilidade da Escola. Nem sequer no facto de a escola não ter dado qualquer explicação ou palavra aos pais de Leandro.
Em Espanha, nem sequer foi precisa nenhuma inspecção. E os meus filhos só agora, mais velhos e ao fim de anos, foram capazes de contar o que aconteceu. Parece que na altura tinham vergonha de dizer em casa que eram agredidos só por serem portugueses, e isso não agradar a uns colegas mais velhos e corpulentos.