Compreende-se a irritação de Sócrates com Louçã, quando este elogiou o primeiro ministro por se estar a tornar mais manso - a pontos de, segundo a imprensa, lhe atirar com irritação: «mansa é a tua tia». Nem todos os elogios são bem aceites pelos elogiados.
Evidentemente que nem Louçã se importa de ter uma tia mansa, nem é de crer que Sócrates realmente conheça o parentesco colateral do líder do BE. Sócrates simplesmente não aceita que ponham em causa o seu estatuto de animal feroz, que proclamou tão alto nos tempos áureos. Ele pode ser obrigado, pela falta de maioria absoluta parlamentar do PS, a moderar as atitudes mais ásperas. Mas, no seu interior fá-lo-á sempre como um animal feroz. Embora um animal feroz que, em vez de urrar ou uivar, se limita a resmungar para o lado considerações vagas e pouco sustentadas sobre a parentela alheia.
Há por aí uma Confraria do Pastel de Nata que não me convence. Basta não ter lá um apreciador qualificado como eu. Ainda há tempos, numa primeira votação, acabou por não eleger mal o melhor pastel de nata nacional: o da Cristal, na R. Buenos Aires, em Lisboa.
Mas agora vir com outros da Casinha não sei de que Pão, que eu não conheço, ou da Pastelaria qualquer coisa... Não. De pastéis de nata, só sabemos positivamente isto: o único que é feito em segredo, o de Belém, não é grande coisa, apesar da fama e da popularidade (quente, queima e não sabe a nada; se arrefece, torna-se incomestível, com a massa duríssima); e são extraordinários os pastéis da Cristal de Lisboa, mais os do Hotel Palácio do Estoril, mais os da Garrett do Estoril. Se houver comparáveis, mostrem-mos. Claro que o do Avillez (que participou na sofrível votação em causa), é magnífico, mas é outra história.
 O vulcão islandês Eyjafjallajokull, apesar da sua impronunciabilidade, deve ser amigo íntimo dos ambientalistas organizados. Só a gasolina que poupa e a quantidade de aviões que não deixa voar é uma delícia para o meio ambiente. De certeza que, apesar da quentura das suas cinzas, vai contribuir rapidamente para o arrefecimento global. E agora reparo: a cupa do Inverno gelado e chuvento que tivemos é de certeza culpa dele. Por razões obviamente retroactivas.
Afinal, Maria de Lurdes Rodrigues tinha incomensuráveis defeitos, mas em relação aos professores estava cheia de razão. Talvez iso a fizesse merecer a presidência da FLAD
Como se vê agora pela «primeira grande guerra» (expressão do secretário geral da FENPROF) que eles declararam à nova ministra Isabel Alçada, o que os professores portugueses não querem de maneira nenhuma, não é tanto serem ou não avaliados (podem aceitar um sistema de avaliação com que concordem), mas é que a avaliação, seja ela como for, não conte para a carreira e promoções e colocações. Os nossos filhos estão indiscutivelmente mal entregues - a não ser que possamos tê-los em colégios privados em que essa avaliação se faz mesmo.
Não sou o tipo de jornalista que se fascina com os magistrados do espectáculo, e tinha até - ao contrário da maioria dos meus colegas - uma péssima ideia do juiz Baltazar Garzón. Não m agrada a sua apetência ao espectáculo e a tratar apenas de casos mediáticos, mas também acho que foi muito pouco ético quando aceitou um lugar de secretário de Estado de um Governo para, depois de o deixar, iniciar processos com informações recolhidas enquanto govenante. Para mais, os processos foram os dos GAL, que deram um novo fôlego a uma ETA então moribunda. Isto não significa que eu defenda os GAL, mas apenas que acho a ETA mais desprezível, e preferia combater os GAL depois de arrumada a ETA.
Dito isto, tenho muita pena de ver Garzón estar a ser perseguido por querer investigar crimes da ditadura franquista (então as famíias das vítimas não têm sequer o direito de descobrir os seus mortos?), ou a corrupção do PP. A Justiça espanhola é tão má por permitir o endeusamento dos juízes estrelas tipo Garzón, como por os perseguir depois por motivos políticos pouco democráticos. Enfim, quem diria que eu ainda haveria de defender Garzón?
 Quem diria que os debates políticos televisivos poderiam funcionar como vulcões mais devastadores do que o próprio e inominável Eyjafjallajopkull, que está a fazer negra a atmosfera e a vida de quem quer voar de ou para a Europa central ou do Norte? E como já vão longe os debates de Kennedy com Nixon, ou de Mitterrand com Giscard. Quando todos estávamos pendentes da irupção de James Cameron, dos conservadores britânicos, e da recuperação do trabalhista Brorwn - eis que as sondagens se rendem ao sucesso televisivo de um quase desconhecido Nick Clegg, dos liberais. Mas, enfim, a democracia não vive da qualidade intelectual e ética dos seus líderes, mas da sua capacidade de comunicação e empatia através dos ecans. E nem sequer é líquido que os outros dois tivessem mais qualidades daquelas.
Américo Amorim, um self made man apontado pela Forbes como o homem mais rico de Portugal, deu recentemente uma extensa entrevista, em que se gabou de não escrever, nem para dar ordens, e de não ler livros. Confessou também que a sua melhor maneira de passar o ócio não é a ouvir música, ou ver espectáculos - mas a trabalhar.
Será que é mesmo preciso ser-se analfabeto para enriquecer tanto? E depois para que há-de servir o dinheiro? Só para enriquecer mais? Estranhas formas de felicidade.
 Acho que começo a perceber porque é que o Alma, de Henrique Sá Pessoa, já não esgota diariamente os seus lugares. É que ao imaginar que nos enche os pratos dos caldos knorr que anda por aí a anunciar, até a mim já não apetece lá ir - e gostei muito do restaurante ao princípio.
É oficial: a PSP estabelece metas para avaliar o desempenho operacional dos seus serviços, com números mínimos de multas e detenções. Com os agentes preocupados em cumprirem os números, para a sua avaliação, é natural que se dediquem à caça à multa e à pequena detenção, deixando à solta a verdadeira criminalidade. Portanto o problema da insegurança e da criminalidade deve-se não apenas aos juízes, e ao Ministério Público, e aos legisladores - mas também à PSP.
O Ministério Público acusou 3 administradores por comprarem o apoio de Figo a Sócrates com dinheiro da Taguspark - mas deixou de fora da acusação o ex-jogador, que empochou as centenas de milhares de euros. Curioso Ministério Público, com os seus curiosos mistérios. São assim, sempre insondáveis, os mistérios da Justiça portuguesa.
Ricardo Salgado tem realmente uma influência única neste país. Já se viu como parte do poder socialista de Sócrates o reverencia. Presume-se agora que está também na primeira linha de controlo de Passos Coelho (tendo acabado por jogar melhor no PSD do que a maioria dos comentadores, embora sem descurar alguns peãozitos noutras candidaturas sociais-democratas derrotadas). Agora vê-se o Algarve, conhecido pelas suas magníficas estruturas de golfe, estar indignado porque a Comissão de Candidatura de Portugal à Ryder Cup 2018 ter escolhido uns campos alentejanos, que ainda não estão a funcionar, mas que se situam precisamente na Herdade da Comporta, do Grupo Espírito Santo. Cuja única vantagem será mostrar ao mundo um local privilegiado de preservação de umas espécies animais raras, os mosquitos e melgas vorazes, que deixam num estado lamentável o corpo de qualquer cidadão que lá passe, seja ou não jogador de golfe.
Adivinham quem preside à tal Comissão de Candidatura? Pois Manuel Pinho, que passou há tempos do Grupo Espírito Santo para ministro da Economia. Salgado é realmente imparável, e nem os campos de golfe algarvios podem com ele. Se não fosse na Comporta, seria no Peru, ou no Ribagolfe.
Se Portugal está reconhecidamente em condições de contribuir com 774 milhões de euros para o bolo de 30 mil milhões com que a UE se propõe acorrer às necessidades desesperadas da Grécia, é porque está realmente numa situação «uns degraus acima» deste País - parafraseando Ricardo Salgado, e contrariando completamente o que sugeriu há tempos um comissário europeu espanhol, procurando esquecer os dramas por que passa Madrid.
António Mexia pode ter muitas razões para receber milhões de euros por ano, e ser mais bem pago do que os presidentes de empresas muito mais ricas, de países muito mais ricos, e que não sejam monopólios protegidos pelo Estado, e com forte participação do Estado. Mas esse argumento de ultrapassar os objectivos é fraquito. Que quantidade de trabalhadores ultrapassam largamente os objectivos de trabalho, mesmo na EDP, sem receberem por isso compensações tão gorditas? Eu próprio ultrapasso normalmente os objectivos a que estou obrigado pelo contrato, e nunca me calhou uma compensação assim gordona. Se virmos bem, de resto, Mexia deve muito mais à EDP, do que a EDP a ele. De certeza que haveria gestores mais competentes para o lugar. Mas ele tem beneficiado na vida, desde há anos, das ligações políticas, mesmo não pertencendo sempre ao partido ou à facção que o nomeia. O que não deixa de ser um talento, reconheçamos. Mas um talento que o beneficia mais a ele do que à EDP.
Lisboa foi escolhida como o melhor destino turístico europeu, num inquérito feito em 47 países, e noticiado há dias em toda a Imprensa. Fiquei satisfeito, porque apesar de alguns defeitos da cidade, nomeadamente quanto à limpeza (que saudades dos tempos em que era diariamente mangueirada; mas outras cidades europeias são bem piores) e quanto à segurança (também há bem pior). De resto, o inquérito mostra que os inquiridos tiveram em conta os defeitos e imperfeições da cidade, agradando-lhes o que tem de genuíno. Eu acredito que estou plenamente de acordo, não por ser um lisboeta empedernido - tanto mais que vivi 14 anos em Madrid -, mas por achar que Lisboa é realmente a cidade mais simpática da Europa.
E agradou-me também que o inquérito colocasse em segundo lugar Barcelona, à frente de Londres, Paris e das várias e lindíssimas cidades italianas, para já não falar em Madrid. Estou completamente de acordo: Lisboa e Barcelona são as minhas cidades europeias. E não apenas minhas, pelos vistos, mas de uma maioria de gente de 47 países.
Uma história que se passou há anos com os meus filhos, e de que só agora tomei conhecimento, porque eles preferiram não me dizer nada na altura, mostra como se atalha facilmente o bullying - e se evita que muitas crianças caiam definitivamente em posições anti-sociais. Vivi anos em Madrid, e como tinha muitos filhos, tive de pô-los numa escola pública do bairro onde morava. Uma escola católica, porque a Concordata espanhola prevê que os colégios religiosos sejam totalmente financiados pelo Estado, funcionando em contrapartida como escolas públicas. sujeitas às determinações do Ministério da Educação (quer quanto a programas de ensino, quer quanto a regras de recrutamento de alunos, privilegiando os da zona). Para essas escolas vão normalmente miúdos de famílias com menos meios económicos. Os meus conhecidos e amigos portugueses que lá viviam, com menos filhos que eu, punham-nos em colégios particulares. Ora as classes mais baixas espanholas (cultural e economicamente), tendem a orgulhar-se das suas posições de nacionalismo xenófobo - que descarregam especialmente sobre as pessoas do Magrebe e sobre os portugueses (que, depois do felipismo, se tornaram em geral mais pobres do que os espanhóis, e emigravam nessa altura para aquele país em empregos menos qualificados, no trabalho doméstico e na agricultura). Uma das minhas filhas foi agredida por um desses colegas xenófobos, mais velho e maior do que ela, com insultos xenófobos à mistura. Por sorte, uma vigilante assistiu à cena, e o agressor foi imediatamente expulso da escola. Sem se criar nenhuma comissão, nem se proceder a qualquer inquérito. No próprio dia. Apenas por a vigilante ter assistido à brutalidade da agressão, e aos motivos invocados. Com uma solução assim rápida, não havia bullying naquela escola. O miúdo agressor ficou ciente de que não podia fazer que lhe apetecia impunemente, e os pais também sentiram o incomodo da situação, devendo ter revisto os princípios gerais de valores que vigoravam em suas casas. Repare-se agora o que aconteceu na escola do Tua, de onde era o falecido Leandro. Apesar de o miúdo ter sido inquestionavelmente agredido por colegas mais velhos, a pontos de ir parar ao hospital, a Inspecção do Ministério da Educação não conseguiu provas de bullying que a levem a questionar o funcionamento da escola. E apesar de o miúdo ter morrido a uma hora em que devia estar no colégio (de onde se escapou, como parece escaparem-se habitualmente outros), a mesma Inspecção continua a não ver nenhuma responsabilidade da Escola. Nem sequer no facto de a escola não ter dado qualquer explicação ou palavra aos pais de Leandro.
Em Espanha, nem sequer foi precisa nenhuma inspecção. E os meus filhos só agora, mais velhos e ao fim de anos, foram capazes de contar o que aconteceu. Parece que na altura tinham vergonha de dizer em casa que eram agredidos só por serem portugueses, e isso não agradar a uns colegas mais velhos e corpulentos.
|