Equinócios e Solstícios 4 de Dezembro de 2009
Indefinição
O PSD já não tem causas
Já repararam que não há causa nenhuma que una os sociais-democratas? A esquerda é pelo aborto, o CDS é contra– e o PSD dá liberdade de voto.
A esquerda é pelo casamento dos homossexuais, a direita _é contra – e o PSD não tem_ posição.
A esquerda é pela liberalização do consumo de drogas (e mesmo por alguma descriminalização de certo tráfico), o CDS é proibicionista – e o PSD tem de tudo, como na botica.
O PS (e a esquerda, em geral) é a favor do Rendimento Social de Inserção, o CDS é contra – e o PSD não se sabe bem.
Afinal, o que distingue, o que mobiliza o PSD?
O PSD e o PS são partidos cada vez mais parecidos. Preocupam-se, sobretudo, com o Estado e as suas instituições, no que respeita ao funcionamento interno e às relações entre si. Mas cuidam pouco de mudar o Estado e as instituições, e de assegurar que sejam eficazes.
Mas, apesar das diferenças apontadas, o CDS também não está isento dessa proximidade. Por exemplo, na campanha eleitoral todos falaram das pequenas e médias empresas.
Ora, o CDS não se atreveu a falar nas grandes empresas, nos grandes grupos, na importância que têm para a economia nacional e para os seus níveis de competitividade.
Nos últimos anos, a causa mais assumidamente ideológica do CDS talvez tenha sido os ex-_-combatentes do Ultramar. Fora isso, o discurso foi, quase sempre, muito centrista.
Parece que os partidos portugueses ficaram todos marcados por aquele período em que toda a gente se dizia socialista.
E uns serão mesmo socialistas, ainda que não saibam bem o que isso é. E outros não são nem querem saber o que é: só gostam de parecer.
Em Portugal, o sistema político ainda não se livrou do ‘complexo de esquerda’.
Sobreposição
PSD e PS são demasiado iguais
Privatizada a banca, os seguros, a imprensa e a generalidade dos sectores económicos, qual passou a ser a causa distintiva do PSD? Pode pensar-se que há diferenças na economia. Mas quais? Mesmo o choque fiscal não suscita, nem pouco mais ou menos, consenso entre os sociais-democratas. Aliás, a generalidade dos economistas do PSD e do PS concordam com o figurino das políticas económicas de uns e de outros. E vão-se nomeando uns aos outros, consoante quem está no poder ou na oposição.
E na Defesa e nos Negócios Estrangeiros também há entendimento. Mas aí mal seria que assim não fosse. Logo no início da independência de Portugal ficou claro o perigo de deixar as diferenças internas transmitir-se às opções de política externa.
Nomeadamente, no tão duradouro dilema entre as aproximações a Castela e a atenção ao Norte de África, ao Mediterrâneo e ao Atlântico Sul.
O PSD e o PS são, pois, partidos demasiado parecidos um com o outro.
Mas até poderia ser assim – desde que houvesse duas ou três causas diferenciadoras que entusiasmassem os militantes. Mas não há. Um aeroporto e um TGV chegarão para distinguir um partido?
O PSD tem a causa da integração europeia? Também o PS e o CDS a têm. Tem a causa da consolidação orçamental? Também os outros partidos a pregam. Tem a causa de uma Justiça célere? Também os outros. Quer diminuir o efeito de estufa? Todos o dizem. Noutro exemplo, quer privatizar parte da Caixa Geral de Depósitos? Uns militantes sim, outros não. E sobre as SCUT e o princípio do utilizador-pagador? Até nisso, às vezes sim, às vezes não.
Explicação
É preciso um Congresso para definir metas e objectivos
OBSERVANDO com atenção, facilmente poderemos concluir que o PSD teve grandes causas enquanto duraram as distorções do sistema político constitucional.
Com efeito, a efectiva democratização política e a democratização económica ocorreram só aquando das revisões constitucionais de 1982 de 1989.
Ora, esses foram os grandes combates de Francisco Sá Carneiro. Esse foi o ADN com que o partido nasceu, por força de os fundadores terem criado os laços que os uniam no combate pela liberdade – travado dentro do próprio regime autoritário.
O PPD era, sobretudo, o partido da ‘Ala Liberal’ do marcelismo. A sua ideologia era, de facto, a liberdade. E, por isso, os seus militantes sentiam que tinham causas que os uniam – enquanto duraram, na Constituição e na lei, as sequelas principais do período revolucionário.
Extinto o Conselho da Revolução, retirado o socialismo da Constituição, enterrada a reforma agrária e findas as nacionalizações, parece que desapareceram as bandeiras que distinguiam o PSD.
É bom lembrar que foi exactamente em 1985 que Cavaco Silva venceu, pela primeira vez, as eleições – e iniciou a sua caminhada triunfal que durou cerca de dez anos. E em 1985 os militantes do PPD/PSD ainda tinham combates a travar...
Para dar um exemplo, nessa altura o PS ainda era contra as televisões privadas e tinha muitas reticências à privatização da imprensa escrita.
Depois, o poder uniu-nos durante uma década. E após isso? Que causas sobraram para motivar adesões e combates?
Uma prova da indefinição do PSD é que começou por pedir a adesão à Internacional Socialista, depois pertenceu ao Grupo Liberal no Parlamento Europeu e, desde há anos, pertence ao Partido Popular Europeu, ligado aos democratas-cristãos e congéneres.
Por tudO isto (e por muito mais, porque é preciso ter explicações e chegar a conclusões) entendo que faz todo o sentido realizar um Congresso antes de se entrar no processo das directas.
Só poderá recusar este caminho quem ignore todas estas realidades– ou ausência delas – e estiver mais interessado em ser presidente do PSD do que em garantir um futuro melhor e ganhador para o partido que já tanto marcou a democracia portuguesa.
O PSD não pode continuar a ser nos momentos decisivos o ‘partido da liberdade de voto’. Tem de saber que causas assume para estas primeiras décadas do século XXI.
O PSD pode lançar-se outra vez em directas para escolher um líder em quinze dias ou num mês. Mas, e a ponderação dos estatutos? E a avaliação das consequências das directas, a nível distrital e nacional? Haverá algo a mudar? E no funcionamento das estruturas partidárias, à luz de casos que têm vindo a lume, como na Área Metropolitana de Lisboa? E o regime de financiamento do partido? E o Programa, não terá nada para actualizar? E o regulamento disciplinar? Deverão continuar a permitir-se comportamentos hostis de militantes, mesmo em período pré-eleitoral ou até em plena campanha eleitoral?
Tudo isto interessa muito. Pode ser que alguns queiram continuar ‘a navegar na maionese’. Mas também pode ser que as pessoas se convençam de que, assim, já não dá mais.
No dia em que escrevo este artigo, completam-se 30 anos sobre a primeira vitória da Aliança Democrática em 2 de Dezembro de 1979. Francisco Sá Carneiro, Diogo Freitas do Amaral e Gonçalo Ribeiro Telles ganhavam, a partir da oposição, a maioria absoluta no Parlamento. Quanta vibração, quanta convicção, quanta determinação! Que diferença!
Chegou a hora de todas as decisões. É que os diamantes são para sempre. Os partidos não. Já muitos acabaram.