Equinócios e Solstícios 18 de Dezembro de 2009
Certeza
Tem de haver um Congresso antes das directas
Há 33 anos que pertenço ao PPD/PSD. E digo ‘pertenço’, porque tem sido muito mais do que simplesmente militar. O PPD/PSD mexeu com a minha vida toda, principalmente desde que Francisco Sá Carneiro me convidou para participar no projecto de revisão constitucional.
Julgo ser o único que trabalhou com os quatro primeiros-_-ministros do PPD/PSD, para lá de também ter ocupado _o lugar. Sobre essa experiência única publicarei muito brevemente um livro na Dom _Quixote.
Aqueles que têm hoje trinta e tal anos não recordam (ou nem sabem) o que aconteceu nos anos 80, principalmente na primeira metade.
Já nessa altura houve muito combate travado.
Já nessa altura – e até antes, em 1978, com 21 anos – andei a pensar em congressos extraordinários. E, como mais três pessoas sabem, escrevi boa parte da moção que ajudou a trazer Francisco Sá Carneiro de volta à liderança do partido.
Pensei muito se devo ou não desencadear o processo de convocatória do Congresso que tenho defendido neste espaço – e que deve ter lugar antes das directas.
As directas, elas mesmas, estão hoje em dia em questão.
E eu, que as propus no Congresso de Viseu em 2000, tenho alguma autoridade para afirmar que esse sistema de debate estratégico e de escolha da liderança precisa de ser alterado.
Já em 2005 defendi que as directas não devem ter lugar antes do Congresso. Os militantes devem votar em todas as secções no dia do próprio Congresso, após o termo do debate das moções de estratégia. E os trabalhos devem ser retomados logo que o apuramento dos votos seja remetido para o local onde esteja a decorrer a reunião magna.
Esta é a minha proposta, mas não sou dogmático. Por isso defendo que deve ser convocado um Congresso extraordinário: para tudo poder ser ponderado, analisado, debatido e decidido.
Não acredito no PSD se o partido não levar ‘uma grande volta’. O grande inimigo do PSD tem sido o próprio PSD – ou, pelo menos, algumas partes do todo.
Confesso que estou saturado de ver sempre os mesmos a terem sempre os mesmos comportamentos. E tenho dúvidas de que seja possível tratar do que importa sem serem sempre os mesmos a caciquar, a manipular, a condicionar.
Clareza
Se sair do PSD, não voltarei
Eu sei que causas defendo e que gostaria de ver o meu partido defender. Mas, como aqui escrevi há semanas, o PPD/PSD está sem causas. E, pior, está a ir atrás daqueles que há anos tudo fazem para desestabilizar, para corroer, para minar os alicerces da sociedade e do Estado.
Para convocar um Congresso são precisas, pelo menos, 2500 assinaturas. É fácil e vou desencadear esse processo. Penso que tenho essa obrigação, eu que já tanto me envolvi em tantos congressos deste partido de cor laranja.
Ponderei várias possibilidades, desde há muito tempo. Mas na vida de cada um de nós tudo devemos fazer para as coisas terem sentido.
Pensei muito nisso quando me candidatei às directas há ano e meio e quando me candidatei à Câmara de Lisboa.
Uma pessoa pode sair de um partido. Grandes figuras do PSD já saíram e já voltaram. Eu, se sair, estou seguro de que não voltarei. Só que não tomei essa decisão porque sinto que tenho a obrigação de fazer mais um esforço para que as coisas possam mudar. E, principalmente, dizer aos meus companheiros, cara a cara, o que penso do que já aconteceu e sobre o que deve acontecer.
Entendo que é isso que me impõe a responsabilidade que tenho. Trinta e três anos de militância, colaborador de Francisco Sá Carneiro, Francisco Pinto Balsemão, Aníbal Cavaco Silva e José Manuel Durão Barroso, além de ter sido eu próprio presidente do partido, primeiro-ministro e cabeça-de-lista nas primeiras eleições para o Parlamento Europeu, entre muitas outras responsabilidades, obrigam-me a não me deixar tomar pelo desinteresse ou mesmo pela aversão. Neste caso, pode mesmo dizer-se que é por amor e não por interesse.
Excessivo
Só deve candidatar-se a líder quem protagonizar uma nova esperança
Quero, também, dizer que contribuiu para a minha decisão de provocar esse congresso o facto de se sentir algum bloqueio no partido, até no processo das candidaturas à liderança.
Andam quase todos a emperrar, a fazer que andam mas não andam. E quando aparece algum voluntarismo, não se percebe nem porquê nem para quê.
«Saber estar e romper a tempo, correr os riscos da adesão e da renúncia, eis a política que vale a pena». Esta frase de Francisco Sá Carneiro, que tornei o lema da minha acção política, merece mais do que nunca estar presente.
Não é hora de egoísmos ou de calculismos. Portugal precisa de atitudes claras e que não andemos todos a olhar para o lado quando a questão está mesmo na nossa frente.
É difícil o PPD/PSD voltar a suscitar entusiasmo? É! Mas é possível. Portugal está numa situação muito difícil, mas já viveu outras, bem piores, na sua história.
Na cadeira de História da diplomacia – que este semestre, pela primeira vez, lecciono – procuro transmitir aos alunos as constantes opções que se colocam, desde há séculos, a quem decide a política externa portuguesa.
Principalmente na maneira de conjugar o desígnio que o mar representa e os pontos de apoio no continente europeu.
Portugal foi sempre um país cuja independência não parecia natural a outros. Como é que aquele povo teima em ser independente e não faz como outras nações desta península?
Assim tem sido com o PPD/PSD. Os outros sempre o consideraram um partido ‘anómalo’, que quase devia pedir licença para existir...
O PPD/PSD só pediu licença aos eleitores. Sempre foi destemido. Agora essa mesma ousadia é necessária para saber falar consigo próprio. Para saber explicar o motivo pelo qual, desde a saída de Cavaco Silva, só esteve no poder menos de três anos, em catorze.
Será que o PPD/PSD não consegue ser alternativa a este PS e a José Sócrates? Serão eles muito bons? Ou teremos sido nós muito maus?
Há tanto para falar, cara a cara, na frente dos portugueses, antes de se saber quem deve liderar.
Gostava de lá ver e ouvir, por exemplo, Fernando Nogueira, que foi presidente do partido, que se afastou de tudo e que a tudo tem assistido, desde 1996, de bem longe.
Como gostava que tivéssemos convidados independentes, com alguma ligação a nós. Por exemplo, Vasco Pulido Valente que, como aqui já referi, foi secretário de Estado-adjunto de Sá Carneiro.
E no Congresso, depois de toda essa conversa aberta, que apresente a candidatura quem sinta que pode e deve protagonizar uma nova esperança.
Será possível o PPD/PSD conseguir? Mais uma vez quero acreditar que sim.