Equinócios e Solstícios - 4 de Junho de 2010
Resistência
Portugal não pode desistir de ser independente
O que se tem passado com a golden share da PT é bem elucidativo do rumo que Portugal tem seguido.
Esse rumo é definido, muitas vezes, graças à manipulação da opinião pública por um conjunto de pessoas que fala muito sabendo pouco, ou mesmo nada, dos temas que trata.
Ninguém duvidará de que estamos perante uma das posições com inequívoco valor estratégico que Portugal ainda detém. E a Vivo, companhia brasileira objecto de disputa com a Telefónica, tem um valor fundamental para os interesses nacionais.
Sem dúvida que 6 ou 7 mil milhões de euros é muito dinheiro. Mas a Telefónica faz essa oferta exactamente porque está ciente de que é maior o retorno que, a vários níveis, pode obter com esse negócio.
Ricardo Salgado disse há dias que tudo tem um preço, menos a honra. Eu permitir-me-ia juntar a INDEPENDÊNCIA NACIONAL.
Um Estado independente não pode desistir de o ser. E entregar as suas ‘reservas de ouro estratégicas’ é mais do que meio caminho andado para o fazer.
O que está em causa na América Latina e na América do Norte é a dimensão da presença de Portugal, da sua cultura, da sua língua.
Há muito que a Espanha aposta na valorização do castelhano em terras de Vera Cruz. E é, também, a partir destas terras que pode existir alguma expansão nos conteúdos produzidos para países como o México, a Venezuela e os próprios EUA.
Faria muito bem a quem fala, escreve e, acima de tudo, decide em matérias como esta, conhecer a História de Portugal. E, nos tempos de hoje, as vitórias diplomáticas, as conquistas estratégicas, não se conseguem em batalhas como Aljubarrota mas em decisões deste alcance.
Ouvi outro dia o ministro das Finanças anunciar em Nova Iorque a venda das participações do Estado na PT e na EDP. DISCORDO EM ABSOLUTO! Mesmo a privatização da TAP tem um custo estratégico. Mas nas comunicações e na energia o Estado não pode desaparecer. Repito: a não ser que queira desistir de ser independente.
O sistema financeiro português está com dificuldades?
Sabe-se que sim.
Portugal está descapitalizado?
Está, em considerável medida.
Mas é exactamente por saber isso que a Telefónica procura aproveitar a situação para ficar com o que temos de mais valioso.
E é nestas alturas que se avalia a bravura das pessoas.
Foi em momentos de privação que ficou comprovada a estirpe lusitana. Resistimos a Castela, a Espanha, às invasões francesas e a muitos outros que nos quiseram saquear.
Recomendo aos que têm de intervir neste processo que leiam um dos vários bons livros sobre a história diplomática portuguesa, nomeadamente o de Jorge Borges de Macedo.
O que faz mais impressão no que se ouve e no que se lê actualmente em Portugal é a certeza de que a maior parte das pessoas sabe muito pouco de História de Portugal.
Porque, se soubessem mais, nem por dez mil milhões venderiam estas posições à Telefónica.
Podem dizer: muitas acções não estão em mãos portuguesas. Pois não. Mas outras estão. E ninguém, nos termos dos Estatutos, tem mais do que 10% sem o Estado autorizar.
Golden share? Sim. Bruxelas não gosta? Paciência. É responder a Bruxelas que a Comissão Europeia já se enganou muito nestes anos e já fez muito mal a vários países, com posições disparatadas de que se veio a arrepender. Têm muito com que se preocupar e muito para resolver, nos tempos que vão correndo.
Indepêndência
O Estado não deve sair das áreas estratégicas
Sabem quantas pessoas defenderam nos últimos tempos que o Estado português deve ficar sem as golden shares? Várias, incluindo os distintos três candidatos nas recentes eleições directas para a liderança do PSD. Um deles, Pedro Passos Coelho, é hoje presidente do partido. Discordo, como já disse.
Disse Passos Coelho, no Congresso de Carcavelos, que o Estado deve sair dos negócios. Pois. Mas há áreas de que o Estado não pode sair. Se há sector muitas vezes referido nas relações com o poder político, esse é o da construção. E a ninguém passará pela ideia que deixe de ser o Estado, a nível central e local, a ter o poder de licenciar e de definir as regras. Eu diria que, mais do que tirar o Estado das diferentes áreas de negócio, se deve ter mais cautela com os negócios com o Estado.
O Estado não pode sair de determinadas actividades. Já ouvi o actual presidente do PSD defender a privatização da Caixa Geral de Depósitos e da RTP. Se juntarmos a isto a saída do Estado das áreas das comunicação, da energia e, provavelmente, das águas, ficamos com posições onde? Sem um banco, sem defesa nas comunicações, sem um mínimo controlo na energia?
Discordo. Totalmente.
Incongruência
Não há gente para trabalhar
Não sei se se têm defrontado com essa realidade. Mas o certo é que não se encontram pessoas para trabalhar.
Desde há meses que procuro gente para trabalhar no Alentejo em agricultura, jardinagem, limpeza, cozinha. Não há. Há meses que muitas pessoas que conheço procuram uma empregada interna. Não conseguem encontrar.
Sabemos que muitos emigrantes regressaram aos seus países de origem. O agravamento da situação em Portugal fez com que muitos brasileiros, ucranianos e gentes de outras nacionalidades, voltassem para as suas terras ou procurassem outras paragens.
Mas é suposto o desemprego ser um problema gravíssimo em Portugal. Pode ser mais ou menos qualificado, pode atingir diferentes ‘levas’ geracionais – mas sabemos quantas pessoas que não tinham qualquer formação específica trabalhavam em fábricas que fecharam. E, mesmo assim, não há respostas a muitas ofertas de emprego.
Seguramente não foram as ‘milagrosas’ Novas Oportunidades que desviaram as pessoas do mercado de trabalho. Algo de errado se passa com o nosso sistema de protecção social. E escrevo estas palavras sem qualquer simpatia por medidas que ponham em causa os direitos de quem pagou as suas contribuições para ser protegido no desemprego ou de quem vive em situação de carência e precisa do rendimento de inserção.
Esta insólita realidade com que muitos portugueses se deparam precisa de ser estudada com profundidade para poder ser normalizada.
P.S. – Bonita e justa homenagem a que a TVI promoveu para assinalar os 50 anos de carreira de Nicolau Breyner. Um homem com grande personalidade, sempre apaixonado por quem ama e pelo que faz, um actor de enorme qualidade e com imbatível quantidade e versatilidade de papéis. Tive muita pena de não poder estar presente, porque ele merece muito a nossa gratidão.