Equinócios e Solstícios - 25 de Junho de 2010
Inimaginável
Candidato da Igreja era uma bizarria
Não faria qualquer sentido uma candidatura presidencial em representação de uma Igreja.
A Igreja Católica, com a sua milenar sabedoria, nunca o consentiria, conforme já deixou claro aos confusos.
Essa hipótese era tão bizarra e inaceitável que alguém só a pode ter colocado com o propósito de tornar incompreensíveis novas candidaturas presidenciais, para além das que vinham sendo referidas.
O Estado é laico e as Igrejas não devem envolver-se na política. Obviamente.
É certo que o cardeal-_-patriarca de Lisboa e outros dignatários da Igreja manifestaram a sua oposição à decisão do Presidente da República sobre a lei do casamento entre pessoas do mesmo sexo.
Mas isso será de estranhar?
Estranha, talvez, tenha sido a intensidade das críticas a Cavaco Silva, comparando com as que (não) foram dirigidas ao Governo e aos partidos que aprovaram o diploma no Parlamento.
Não é nova essa atitude da Igreja Católica portuguesa, que parece proteger o Partido Socialista.
Em 2005, quando o PSD e o CDS decidiram, cada qual por si, parar a campanha eleitoral por causa da morte da irmã Lúcia, três figuras da Igreja criticaram a nossa decisão.
E, como pode ser comprovado, foi a partir desse dia, à beira das eleições, que baixámos dos 30% nas intenções de voto dos portugueses, patamar onde tínhamos chegado depois de uma estóica recuperação.
Vasco Pulido Valente recomendava outro dia à Igreja que não se voltasse a envolver na vida política.
Por mim, nada a opor.
O que não impede os crentes – dessa, de outra ou de nenhuma outra Igreja – de tudo fazerem para defender os princípios, valores e regras de organização social em que acreditam.
Há quem tenha sentido uma enorme desilusão com a posição do Presidente da República sobre essa matéria?
Pode haver quem considere essa decisão motivo suficiente para, por si só, justificar uma candidatura presidencial? _Talvez. Para mim, não é. Nem pouco mais ou _menos.
Contestável
Candidatura de direita pode beneficiar Cavaco
Tenho procurado avançar os argumentos que explicam, em minha opinião, a naturalidade da existência de várias candidaturas na 1.ª volta das eleições presidenciais.
Há quem entenda que só devia existir uma candidatura de centro-direita, para evitar o perigo de uma vitória, na 2.ª volta, de Manuel Alegre. Ainda agora, há poucos dias, Freitas do Amaral usava esse argumento.
Com franqueza, para além da moral política, julgo que nem na aritmética terá razão quem defende essa ideia. Uma candidatura à direita de Cavaco Silva teria como consequência ‘recentrar’ a recandidatura do actual Presidente – que deixava de ser o candidato da ‘direita’ e teria condições para mobilizar apoiantes de ‘centro-esquerda’.
Acresce que a candidatura de Manuel Alegre não demonstra, nem pouco mais ou menos, a mesma força e o mesmo élan que a de 2005. E, dessa vez, Mário Soares apresentava-se com uma capacidade maior do que Alegre para fixar algum eleitorado moderado.
Normalmente, os papistas raciocinam pior do que o Papa. O descontrolado afã com que alguns reagem ao que é politicamente natural e democraticamente saudável só prejudica quem querem defender. Uma candidatura de centro-direita, além da de Cavaco Silva, não terá seguramente como linha orientadora o combate a quem pode suscitar divergências mas merece, antes do mais, muito respeito.
É muito importante que assuntos como este sejam tratados com elevação e com seriedade intelectual. Será que o PCP, ao apresentar um candidato, está a dizer que prefere a vitória de Cavaco Silva? Alguém acusa o PCP de ‘fazer o jogo da direita’? Não. É considerado como o exercício de um direito legítimo. Assim também deve acontecer com os outros sectores políticos.
Sustentável
O que pode defender um novo candidato
Significa isto que considero desejável uma candidatura apresentada por um partido ‘à direita’? Não vejo nenhum impedimento. Mas, pelo que se sabe, não é previsível.
O líder do CDS já deixou claro que apoiaria António Bagão Félix no caso de este avançar. E isso seria estimulante. Só que parece pouco provável, dadas as declarações proferidas pelo próprio.
De qualquer modo, nenhuma candidatura está obrigada a ter, como requisito de validade, o apoio de um partido. Assim já o demonstrou, aliás, Fernando Nobre. E ninguém o censurou, antes pelo contrário. E muito bem.
Uma candidatura do centro-direita, em minha opinião, deve assumir:
1. – Que quer promover, nesta situação de crise, o apoio maioritário ao Governo em funções;
2.– Que defende uma Constituição livre dos condicionamentos dos Pactos MFA-Partidos;
3. – Que deseja um novo sistema eleitoral para a Assembleia da República;
4. – Que preconiza a redução do número de deputados e a criação de uma câmara alta;
5. – Que exige o fim do cargo de governador-civil;
6.– Que apoia a total reorganização administrativa.
E muito mais.
Entendo que será muito útil aos portugueses decidirem sobre todos estes assuntos.
E se estas ideias – e/ou outras não defendidas por nenhum dos candidatos – não tiverem um apoio significativo? Não haverá problema, porque a candidatura não incomodará ninguém.
Mas se tiverem? Se conseguirem uma significativa adesão do eleitorado? Então, isso, provará a sua legitimidade democrática – mostrando que essa candidatura tinha, mesmo, inteira justificação.