Dimensão
O potencial da Figueira da Foz
Na Figueira da Foz está a terminar uma das obras mais importantes para o progresso daquele concelho: a reorientação do Molhe Norte.
Há muito anos que vários executivos municipais e vários Governos tentavam que o projecto e a obra se tornassem realidade. O porto da Figueira tem sido vítima desse deficiente traçado do molhe – que, no ponto onde o Rio Mondego e o Oceano Atlântico se encontram, provoca movimentos de águas e areias muito pouco favoráveis à entrada, estada e saída dos navios.
A Figueira da Foz é uma terra cuja economia tem um acentuado traço de sazonalidade, pela dependência do turismo de Verão e de fim-de-semana.
Uma das figuras mais importantes no desenvolvimento da Figueira no último século, o eng. José Coelho Jordão (que foi Presidente da Câmara antes do 25 de Abril), salientou sempre a importância do sector secundário e da valorização do porto comercial para um desenvolvimento integrado da cidade, procurando combater essa dependência das receitas do turismo.
A Figueira da Foz é uma das terras com melhores acessibilidades de Portugal. Tem uma localização privilegiada no território nacional. A distância a que está de Lisboa e do Porto, por um lado, e das fronteiras Norte e Sul, por outro, aliada ao facto de ser uma cidade costeira, podia (e pode) fazer sonhar com um estatuto de capitalidade objectiva, capaz de contrariar o movimento de concentração nas duas principais polis de Portugal.
A Figueira da Foz tem praias, tem a Serra da Boa Viagem, tem lagoas naturais, tem campos de arroz, tem um interessante roteiro arqueológico, tem o Centro de Artes e Espectáculos, tem um casino.
Tem uma gastronomia muito apreciada (e, até, uma das melhores casas de gelados do país).
Tem uma extraordinária rede de auto-estradas e o já referido porto comercial.
Tem um sector industrial assinalável, com unidades como a Soporcel, a Celbi, a Vidreira do Mondego, a Plasfil, a Ernesto Morgado, entre outras.
Falta à Figueira um hotel de cinco estrelas? Falta, apesar do esforço de unidades existentes, como o Aparthotel Atlântico e o Hotel de Quiaios.
Falta o golfe, para também combater a sazonalidade? Falta. E não será um percurso de 9 buracos que resolverá o assunto.
Como pode deduzir-se do que disse acima – a que se somam os notáveis recursos naturais, em que se destaca a beleza das paisagens –, a Figueira da Foz tem muito para subir para outro patamar.
Valorização
Gaia e Alcácer
Para além da Figueira da Foz – e até para não desassossegar ninguém – quero hoje referir duas outras terras.
Uma é Vila Nova de Gaia – que concretizou a decisão de construir uma marina com efectiva capacidade.
Essa é uma das carências da Figueira – que só tem uma doca de recreio de pequena dimensão – e mesmo de quase toda a costa portuguesa. É absolutamente inacreditável que, num país em que o turismo é tão importante e que dispõe da costa Atlântica mais ocidental da Europa, quase não existam pontos de ancoragem suficientes para embarcações de recreio (que, assim, passam aqui sem parar).
Esta é uma decisão estratégica, que vem na linha do inegável desenvolvimento sustentável que Gaia tem conhecido.
Outra terra de Portugal que quero destacar hoje é Alcácer do Sal. Sempre foi bonita, embora eu a olhe de uma maneira especial, porque a ela me ligam fortes laços familiares. Mas ninguém pode contestar como é cada vez mais procurada aquela zona ribeirinha – que, desde logo, dispõe de óptimos restaurantes em todos os aspectos. E aí se podem admirar paisagens deslumbrantes, nomeadamente os extensos arrozais. E existe património que merece visita (sem falar de uma estalagem de realce na rede de que Portugal dispõe).
Porque falo hoje nestes casos? Simplesmente, porque é o que devemos fazer todos; não olharmos para os horrores da política nacional, não darmos atenção aos deprimentes espectáculos de quase todos os dias, e olharmos para o país em concreto, o Portugal que teima em ser feliz, apesar das malfeitorias de que vamos tendo conhecimento.
Falei de um concelho do centro, de outro do norte e de outro do sul. E vamos sabendo como nas regiões autónomas também há Portugal a acontecer. A Madeira é o sucesso que se sabe.
E ainda esta semana assisti a uma reportagem sobre os portugueses do continente que cada vez mais demandam as belezas naturais dos Açores.
Gratidão
Os que partiram
A propósito dos Açores, quero dedicar uma palavra muito especial a Mário Bettencourt Resendes. Por seu convite, escrevi, durante anos, no DN. Mas não é por isso que gosto dele. Sou seu amigo e seu admirador porque sempre o vi ser bom, educado, livre e convicto. Vai fazer muita falta o seu equilíbrio, a sua tendência para destacar o lado bom, a sua preocupação em ser humano. A SIC Notícias homenageou-o de um modo muito bonito numa emissão com Ana Lourenço, António José Teixeira e Luís Delgado. Parecia que tínhamos voltado a um mundo ‘normal’, com uma conversa e uma maneira de sentir próprias de seres humanos. Aquelas pessoas perceberam que era mais importante, naquele momento, falar de alguém que partira do que estar a falar da ‘actualidade’.
Evoco, também, António Feio. Quero sublinhar, como outros já fizeram, a classe com que foi transmitindo o que passou nos tempos tão duros que teve de enfrentar. Também transmitiu uma doce serenidade antes de partir.
Mário Bettencourt Resendes e António Feio amaram a vida. E deram lições a Portugal e aos portugueses.
Cada um à sua maneira, souberam ‘construir’ com os dons que Deus lhes deu. Construíram, criaram, lutaram, deram testemunho dos seus princípios e das suas convicções.
O Portugal que interessa não pode ser construído sem que atribuamos importância aos sentimentos e sem que sejamos gratos para quem fez bem. Portugal, nestes dias, soube agradecer a dois portugueses distintos que partiram. Portugal vai continuando por esse país fora. Por mais disparates que todos tenhamos de ouvir e de aturar a toda a hora. Portugal vai portugalando.