Equinócios e Solstícios - 27 de Agosto de 2010
Fartura
Será positivo haver quatro candidaturas presidenciais na área do PS?
O que significará o aparecimento de quatro candidaturas na área do Partido Socialista e de outros sectores da esquerda portuguesa? Será bom para a dita ‘esquerda’?
Não se pode garantir nada a esse respeito. À partida, todos pensaremos que prejudica, principalmente, esse sector político. Que será mais penalizador para Manuel Alegre.
Mas não sei, não. E a lógica é a mesmo que tenho utilizado quando argumento que outra candidatura no espaço do ‘centro-direita’ pode favorecer Cavaco Silva e uma vitória sua à primeira volta.
Uma candidatura do Partido Comunista ajuda a ‘moderar’ a imagem da de Manuel Alegre e a afastar os receios de eleitores do ‘centro’ em relação a uma ‘frente de esquerda’ que levasse o candidato do PS à vitória. É exactamente o mesmo efeito, em sentido inverso, mas também com o ganho da ‘moderação’, que uma outra candidatura na área não socialista pode acarretar.
A ‘esquerda’ portuguesa está naturalmente preocupada com a demarcação de territórios, tendo em linha de conta, principalmente, a possibilidade de eleições legislativas no próximo ano. Mas haverá, também, questões pessoais, afastamentos intrapartidários, incompatibilidades, na base dos processos que levaram ao surgimento das candidaturas de Fernando Nobre e de Defensor Moura.
Deve, todavia, ser reconhecido que o aparecimento de quatro candidaturas do lado da ‘esquerda’ é, também, sinal evidente de liberdade política, de espírito de iniciativa e de capacidade concretizadora. Pode dizer-se que é falta de sentido de responsabilidade, na perspectiva da defesa dos objectivos que são comuns àquele sector político e que o distinguem do campo adversário… É uma perspectiva – mas já tive ocasião de discordar desse entendimento, à luz da lógica do nosso sistema de governo.
Propositura
Não devem ser os partidos a apresentar candidatos presidenciais
Se me perguntarem se Manuel Alegre tem mais hipóteses, concorrendo sozinho contra Cavaco Silva, eu respondo que não. Esta proliferação de candidatos ‘à esquerda’, como já disse, confunde, dilui diferenças e pode fazer sobressair outras.
Falei, acima, na preocupação, por exemplo, do PCP com a demarcação de territórios. E nas questões pessoais. Poderá ser posta a pergunta: e no outro lado do espectro partidário? O CDS não deveria apresentar uma candidatura? E, noutro plano: não há questões pessoais que levem a outra candidatura?
Comecemos pela segunda questão. É um erro crasso eventuais problemas pessoais comandarem decisões deste tipo. Eles podem, ou não, existir, em todos os tempos e de vária ordem. Mas, para decisões deste tipo, não devem contar. É por isso que tem existido algum cepticismo quanto às motivações da candidatura de Fernando Nobre… Muitos pensam que, na sua génese, estará o afastamento entre Mário Soares e Manuel Alegre.
Será injusto para o próprio candidato e, até, para muitos dos seus apoiantes? Talvez. Mas tem aparecido sempre essa explicação o que, naturalmente, o prejudica muito. Uma decisão como a que está em causa só pode ser tomada por razões nacionais e só assim pode ser apreendida. Caso contrário, é malogro garantido.
Outra questão: a atitude do CDS. Manda a verdade dizer que o CDS é muito diferente do PCP – e também o é no tipo de ligação dos seus eleitores e dos seus militantes com o partido.
Os eleitores do PCP, perante um candidato próprio, mesmo que apreciem outro, tendem a seguir a directriz partidária. Não estou a avaliar graus de liberdade – isso decorre muito da ideologia que professam os comunistas, que dá muito valor ao colectivo e à importância do papel da instituição partidária na condução do combate político, para muitos, a luta de classes.
Por isso, sempre defendi que os partidos não devem apresentar candidaturas presidenciais. Se uma individualidade militante de um partido, ou a ele ligada, tomar a decisão, por si, de se candidatar, esse partido pode decidir apoiá-lo. Mas não ao contrário. Como aconteceu com Paulo Portas, em relação a Bagão Félix.
Compreende-se a excepção do PCP. Mas os próprios comunistas sabem que a lógica de surgimento do seu candidato limita, e muito, as possibilidades de alargamento da sua base eleitoral.
Lisura
Não é correcto perseguir quem ‘cai em desgraça’
O Director do Sol, José António Saraiva, escreveu, na passada semana, no seu espaço de opinião, que eu teria considerado normal que o seleccionador nacional tivesse dito palavrões quando soube que a Autoridade Antidopagem queria fazer testes aos jogadores que estavam em estágio na Covilhã. Estranhei o reparo, até porque tinha quase a certeza de não ter escrito isso. Só pude conferir no dia seguinte. E, de facto, não disse que era normal. Só não considerei motivo para despedimento. E mantenho a opinião. Já as palavras de Queiroz sobre um vice-presidente da Federação, essas, são juridicamente mais complicadas e podem ter essa consequência.
Este assunto tem a importância que tem. O director deste jornal e eu temos, seguramente, perspectivas diferentes sobre temas mais relevantes. Por exemplo, em relação ao mandato do actual Presidente da República. Essas diferenças, penso serem reais e assumidas. Mas quando me atribuem pensamentos que não tenho ou actos que não pratiquei, faço questão de esclarecer. E se alguém tem falado e escrito sobre as anormalidades em que Portugal se tornou fértil, julgo que também eu o tenho feito e de modo insistente.
Sou insuspeito, como já aqui escrevi, para me pronunciar sobre Carlos Queiroz. Mas talvez tenha ganho uma especial sensibilidade a perseguições injustas. Nunca gostei de ter Queiroz como seleccionador. Mas sempre procurei conter essa opinião, dados os antecedentes. Não me chocava se a Federação quisesse rescindir com ele, pelo modo de trabalhar, por problemas com os jogadores, por resultados, por tudo isso junto. Agora, a história que está contada é que foram palavras impróprias ditas – e não directamente aos responsáveis pelos exames antidoping. Correcto, apesar disso? Não! Censurável? Claro! Mas não motivo para despedimento.
Ainda por cima, se formos falar disso como deve ser, então é inaceitável que não sejam tomados em consideração os serviços prestados por Carlos Queiroz à Federação Portuguesa de Futebol. Principalmente, nas camadas jovens.
Há mais de dez anos que deixei de falar com Carlos Queiroz (e ele comigo). Mas detesto ver perseguir quem ‘cai em desgraça’. Para muitas pessoas, Carlos Queiroz foi, durante muitos anos, «o Professor». Era, quase, o «ai Jesus».
Agora, de repente, é o tal que «diz palavrões». Prefiro que as pessoas sejam avaliadas por outras razões: as do carácter e as dos resultados. É por aí que se devem avaliar as pessoas. Sei que, neste ponto, José António Saraiva tem opinião idêntica. E tem um notório e relevante percurso a enfrentar a arrogância do poder, como demonstrou, mais uma vez, nos tempos mais recentes. Por isso, estou certo de que compreenderá que a minha posição não é igual à de outros. É a minha, e tem muitos antecedentes. Talvez também por isso, terminei esse texto, na passada semana, a sugerir que fossem todos demitidos.