A ECONOMIA REAL E A ESPECULAÇÃO FINANCEIRA
(ou como transformar porcos em pérolas e vice-versa)
"A crise de Wall Street equivale à queda do Muro de Berlim" -Joseph Stiglitz (Prémio Nobel de Economia de 2001)

Pouco sei de economia, da macro-economia. Sei gerir as minhas economias pessoais e pouco mais. Por isso, escrever um post sobre economia é uma presunção que não arrisco ter. Mas depois do desastre financeiro que está a acontecer na economia global, quero também arriscar algumas palavras.
O capitalismo tem uma utopia, a do crescimento contínuo. Os arautos do capitalismo têm a forte crença de que do investimento de capital resultarão sempre mais-valias que serão magnanimamente distribuídas pelos seus accionistas. E que estes redistribuirão essa riqueza pelos mercados adjacentes, comprando (ou vendendo) outro bens, com isso trazendo a prosperidade geral. Confiam na vontade empreendedora das pessoas e, em especial, na ganância, uma característica bem humana.
Claro que admitem a possibilidade de má gestão e, nesses casos, os referidos gestores serão substituídos por outros melhores. Mas, em situações normais, o capitalismo popular tende a criar riqueza, acredita-se.
O problema, desde sempre, está na distribuição da riqueza produzida, das referidas mais-valias. Entre o «capital» e o «trabalho» existem muitos intermediários, sedentos de poder e de dinheiro fresco. Os políticos e agentes económicos mais liberais têm vindo a doutrinar no sentido do afastamento do Estado da vida económica. E insistem num ponto, sempre que o Estado interfere ou procura regular os mercados, está a prejudicar o normal funcionamento dos ditos mercados. Agora com o advento da crise financeira, foram os primeiros a advogar a intervenção dos Estados para salvar os bancos. Sarkozy, Paulson, Merkel, Brown, Trichet e tantos outros líderes políticos já tomaram medidas cujo esquema, o humorista dos “Gatos” Ricardo Araújo Pereira, resume na perfeição: “Ou muito me engano ou o que se passa é o seguinte: os contribuintes emprestam o seu dinheiro aos bancos sem cobrar nada, e depois os bancos emprestam o mesmo dinheiro aos contribuintes, mas cobrando simpáticas taxas de juro. A troco de apenas algum dinheiro, os bancos emprestam-nos o nosso próprio dinheiro para que possamos fazer com ele o que quisermos. A nobreza desta atitude dos bancos deve ser sublinhada”.
Como se tem vindo a referir nesta crise, a ganância dos gestores de fundos e das empresas de gestão imobiliária levou a este estado de coisas, com o Estado (todos os contribuintes) a ter de financiar todo o sistema bancário para permitir que o sistema financeiro se mantenha de pé e não caia como um castelo de cartas, construído sem quaisquer alicerces reais.
Diz-se, não sem razão, que a ganância, a cupidez e o egoísmo são (más) características humanas. Mas que o actual capitalismo tem vindo a explorar até ao tutano. É que a «vaca» (a especulação financeira) de que todos se querem alimentar tem os seus limites, como se comprovou agora.
Que se seguirá?
É difícil prever. Tudo irá depender das acções (concertadas ou não) dos governos dos países desenvolvidos para proteger as poupanças dos cidadãos e para definir novas regras para a gestão dos mercados. Se não se quiser aprender a lição, daqui a uns anos estaremos aqui novamente a falar dos mesmos problemas, com consequências provavelmente mais gravosas. Sobretudo, para os mais pobres e para as classes médias.
Temos de assegurar para os nossos filhos um crescimento sustentável, mais apoiado nas energias alternativas e na «economia do conhecimento», como era objectivo da União Europeia, em 2002. Isso já terá sido esquecido?
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Já muito se escreveu sobre o assunto. Muito mais se irá escrever. Aqui, no SOL, destaco três posts, que pelo seu didatismo e análise político-económica merecem atenta leitura:
- Do blogue MECCC: http://sol.sapo.pt/blogs/meccc/archive/2008/10/02/A-crise-econ_F300_mica-induzida-pela-crise-financeira.aspx
- Do blogue JOTA40: http://sol.sapo.pt/blogs/jota40/archive/2008/10/20/BAR_D500_ES-LADR_D500_ES-E-MACACOS-DE-WALL-STREET-_21002E002E00_.aspx
- Do blogue KURIOSO: http://sol.sapo.pt/blogs/kurioso/archive/2008/10/31/BAL_C300_O.aspx#932327