O MEU AMIGO DE PENICHE
(post dedicado ao meu amigo Berlengas)

Tenho poucos mas bons amigos.
Na minha actividade profissional contacto anualmente com centenas de pessoas - professores, no meu caso – e sou amigo de alguns. Além de amigos na classe dos professores tenho alguns (muito poucos) amigos fora do mundo da educação.
Como se sabe, além dos chamados «amigos do peito» - os verdadeiros amigos, os que estão lá quando nós precisamos – existem os outros, os chamados «amigos da onça» ou «amigos de Peniche» para designar os falsos amigos. Os «amigos» que só estão disponíveis para as saídas nocturnas, as passeatas, os copos, as idas à bola ou as festas.
A expressão «amigos de Peniche» (mais conhecida no Brasil por «amigos da onça») é uma frase idiomática com origem numa lenda do início do séc. XIX e cuja acção decorre por altura das invasões napoleónicas. “Durante o cerco da cidade de Lisboa, as gentes de Peniche prometeram tentar chegar ao Porto por mar de forma a fazer desembarcar víveres, mas nunca apareceram, na verdade, parece que nem tentaram e as pessoas do Porto cada dia desesperavam mais pelos amigos de Peniche.” Na realidade, esta lenda não tem qualquer fundamento histórico, mas para este post não interessa a verdadeira história. (1)
Conheci o meu amigo de Peniche em 2005.
Na altura, fui chamado a desempenhar funções de direcção num serviço do Ministério da Educação na área da formação de professores e quando tomei posse não só não tinha qualquer experiência nas funções que ia desempenhar como não tinha ninguém em quem me apoiar. Contudo, passados uns dias após o início do meu novo trabalho, recebi uma chamada telefónica de Peniche do meu homólogo nessas funções naquela cidade a felicitar-me e a desejar-me sucesso nas novas funções. Ele disse-me logo ali, sem me conhecer ainda, que se disponibilizava para prestar os esclarecimentos e apoio técnico de que eu viesse a precisar. Nessa altura ainda a comunidade Sol não existia, senão ter-me-ia recordado logo de uma personagem que por aqui anda (um tal Bluewater68) a disponibilizar os seus préstimos a quem aqui entra pela primeira vez! Mas adiante…
Como é de imaginar, fiquei deveras sensibilizado pela atitude desse meu colega mas, na altura, não valorizei muito o acto, considerei-o como uma simpatia de alguém que já por cá anda há muito… Mais tarde, fui encontrá-lo numa reunião de trabalho e desde aí a nossa amizade adquiriu foros de cidadania. Ele, o meu amigo «Berlengas» (como ele gosta de se designar a si próprio) é uma daquelas raras pessoas com quem nos podemos zangar e «terçar armas» sem que daí venha mal ao mundo e a relação sofra qualquer beliscadura.
Conheço o meu amigo «Berlengas» há quatro anos. Mas é como se já o conhecesse há dezenas de anos, tal é a sintonia que temos. Ele é um professor com muitos anos de experiência e com um desempenho próximo do excelente nas funções que exerce (não sou eu que o digo, são as pessoas que com ele trabalham ou interagem que o afirmam). No plano das relações humanas tem um desempenho irrepreensível e é uma pessoa localmente muito considerada, exercendo diversas funções de apoio à comunidade, como colaborador de diversos órgãos de comunicação social e como membro destacado de diversas instituições locais de Peniche.
Como exemplos dessa sintonia destaco a sua permanente disponibilidade para me ouvir, opinar e esclarecer quando eu tenho dúvidas ou preciso de desabafar. Isso tem incluido deslocações ao meu local de trabalho para me auxiliar em diversos assuntos que tive de resolver e iniciativas que realizei, em parceria ou não com ele.
Outro exemplo mais recente foi a decisão de este ano regressarmos ambos aos bancos da escola para frequentar um mestrado em Lisboa. Apesar de se ter de deslocar de uma cidade que dista de Lisboa cerca de 110 km, ele não hesitou quando o convidei para abraçarmos esse projecto. E o inverso também já tem acontecido, eu participar em iniciativas dele mesmo que em circunstâncias adversas ou menos agradáveis para mim. É que nós sabemos que quando um deles pede ajuda ou colaboração ao outro é porque precisa. E aos verdadeiros amigos não se nega nunca o apoio e ajuda necessários.
São inúmeras as horas que já passamos juntos a conversar sobre os mais diversos temas da sociedade, da política e do nosso trabalho comum, a Educação. São incontáveis as vezes que dele recebi provas de estima. Foram imensos os momentos em que cruzamos argumentos, em que concordamos e que discordamos. Foram muitas as ocasiões que nos consideramos uns «grandes chatos».
Como disse um dia Vinícius de Moraes, «há duas espécies de chatos: os chatos propriamente ditos e... os amigos, que são os nossos chatos predilectos.»
O meu amigo Berlengas é o meu chato de estimação!
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(1) – Para saber mais sobre a verdadeira história dos “amigos de Peniche” deixo dois links:
- http://pt.wikipedia.org/wiki/Amigo_de_Peniche
- http://www.peniche.oestedigital.pt/News/newsdetail.aspx?news=3a19394d-172f-4a00-a7ef-556d0eafd893
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BONS AMIGOS
Abençoados os que possuem amigos, os que os têm sem pedir.
Porque amigo não se pede, não se compra, nem se vende.
Amigo a gente sente!
Benditos os que sofrem por amigos, os que falam com o olhar.
Porque amigo não se cala, não questiona, nem se rende.
Amigo a gente entende!
Benditos os que guardam amigos, os que entregam o ombro pra chorar.
Porque amigo sofre e chora.
Amigo não tem hora pra consolar!
Benditos sejam os amigos que acreditam na tua verdade ou te apontam a realidade.
Porque amigo é a direção.
Amigo é a base quando falta o chão!
Benditos sejam todos os amigos de raízes, verdadeiros.
Porque amigos são herdeiros da real sagacidade.
Ter amigos é a melhor cumplicidade!
Há pessoas que choram por saber que as rosas têm espinho,
Há outras que sorriem por saber que os espinhos têm rosas!
Machado de Assis (escritor brasileiro 1839-1908)